O Orgulho Queima em Silencio

5 Capítulo 5 — O Peso de Cada Escolha


Rukia Kuchiki


O final da tarde tingia o céu de cores suaves — lilás, dourado, pêssego — enquanto Rukia caminhava pelos jardins interiores da Seireitei, tentando acalmar a mente perturbada.


Três dias.


Em três dias, ela teria que dar uma resposta.


Em três dias, escolheria entre três homens que confiavam nela — e um deles ainda tinha lhe oferecido muito mais do que uma posição: havia oferecido o coração.


A respiração dela saía irregular.


Tudo parecia pesado.


E foi quando, virando um corredor isolado próximo à arena interna da Sexta Divisão, Rukia viu algo que a fez parar abruptamente.


Ali, no centro da arena, entre as pétalas de cerejeiras que voavam em círculos lentos, estava Byakuya Kuchiki.


Treinava sozinho.


Seu haori de capitão havia sido abandonado sobre um banco de pedra. Vestia apenas o quimono preto, agora encharcado de suor.


Os cabelos negros, geralmente presos com perfeição, estavam soltos, caindo em ondas pesadas sobre os ombros largos e a testa úmida.


O rosto de Byakuya, sempre tão etéreo em sua frieza, agora tinha um leve rubor — a pele pálida corada pelo esforço físico, os olhos mais vivos, focados.


E as pétalas.


As infinitas, silenciosas pétalas de Senbonzakura dançavam ao redor dele, como se o universo inteiro o reverenciasse.


Rukia ficou imóvel, esquecida até da respiração.


Era… lindo.


De uma forma tão intensa, tão inatingível, que seu peito doeu.


Como um príncipe amaldiçoado, perdido em sua própria solidão.


Sem pensar, ela deu um passo à frente.


Um galho seco estalou sob seus pés.


Imediatamente, Byakuya virou-se, seus olhos cinzentos cravando-se nela com precisão cirúrgica.


Por um momento, Rukia sentiu vontade de fugir.


Mas não conseguiu.


Ele não disse nada. Apenas a observou, o peito subindo e descendo em respirações controladas. Então, com um movimento quase imperceptível, Byakuya relaxou a postura.


— Kuchiki Rukia — disse, a voz tão fria e impecável quanto o habitual — Está perdida?


Rukia corou violentamente.


— N-não, eu… — gaguejou, odiando a si mesma. — Eu estava apenas… andando.


Por um momento, pensou que ele a dispensaria.


Mas, para sua surpresa, Byakuya baixou levemente a espada.


— Quer treinar? – Perguntou.

A proposta caiu como um trovão entre eles.


Treinar… com ele?


Rukia hesitou.


Então, respirou fundo e assentiu.


— Sim, Capitão.


Byakuya não sorriu. Não mudou de expressão. Mas seus olhos suavizaram, de um jeito quase imperceptível. Ele recolheu parte das pétalas com um gesto de mão, permitindo que a arena ficasse mais visível.


— Mostre-me o que aprendeu. — ordenou, sem dureza.


Rukia se posicionou, sacando Sode no Shirayuki.


Por minutos, trocaram golpes.


Ele corrigia seus movimentos com toques mínimos — uma pressão de dedos na empunhadura da espada, um ajuste na posição dos pés.


Era estranho.


Byakuya nunca fora tão… atencioso.


E, no entanto, não havia arrogância em sua postura. Apenas uma concentração absoluta. E, talvez, uma preocupação silenciosa.


Enquanto duelavam, Rukia sentia seu coração bater rápido — não pelo esforço, mas pela proximidade, pela maneira como ele a olhava, pela intensidade silenciosa que emanava dele como calor de uma fornalha escondida.


Foi no meio de um bloqueio que Rukia, sem conseguir mais suportar o peso no peito, falou:


— Capitão Kuchiki… sobre… sobre Renji — disse, a voz hesitante.


Byakuya moveu o pulso, desviando o golpe dela com facilidade.


Seus olhos prateados permaneceram firmes nos dela, mas uma sombra difícil de definir cruzou seu olhar.


Ele não disse nada.


Não precisava.


Rukia inspirou profundamente.


— Eu sei… que o senhor já sabe… — a voz dela era quase um sussurro. — Ele… Renji…


No exato momento em que disse isso, Byakuya foi tomado por um breve flash em sua mente.


[FLASHBACK]


Aquela tarde abafada.

As vozes abafadas atravessando o muro de cerejeiras da mansão Kuchiki.

A voz de Renji, firme e sincera:


“Desejo protegê-la, Rukia. Com tudo o que sou.”


“Quero me casar com você. ”


E a voz de Rukia, baixa, confusa, hesitante.


Byakuya, do outro lado, ouvindo tudo.


Sentindo o orgulho e o medo se chocarem em sua garganta.


Incapaz de avançar. Incapaz de impedir.


[FIM DO FLASHBACK]


Agora, aqui, diante dela, Byakuya permaneceu imóvel, como se o tempo tivesse congelado.


— Ainda… não dei uma resposta — continuou Rukia, fitando o chão, incapaz de encará-lo. — Não sei se é o certo…


O maxilar de Byakuya tensionou-se levemente.


Ele fechou a mão sobre a guarda de sua katana, tão forte que as juntas dos dedos esbranquiçaram.


— Entendo — disse, finalmente, em uma voz tão controlada que parecia irreal.


Rukia ergueu o olhar.


Havia uma distância terrível entre eles.

Uma distância que ela não sabia como atravessar.


— Também… — ela hesitou — Preciso decidir para qual divisão irei.


Seus olhos buscaram os dele.


Mas Byakuya era uma muralha.


— Sua decisão moldará seu caminho — afirmou ele, a voz cortante. — Ninguém pode escolhê-lo por você.


Rukia sentiu seu coração doer.


— E se eu não souber… para onde meu coração aponta?


Por um instante — breve e devastador —, ela viu a máscara dele rachar.


Viu o homem por trás do capitão.


O homem que carregava o mundo nas costas… e que, no fundo, era tão quebrado quanto ela.


Mas, no segundo seguinte, Byakuya voltou a ser gelo.


— Então caminhe — disse, suavemente, como se a estivesse condenando — até descobrir.


Rukia baixou a cabeça.


Não havia mais nada a dizer.


Byakuya recolheu Senbonzakura, afastando-se dela sem olhar para trás.


As pétalas de cerejeira rodopiavam no ar, testemunhas silenciosas de tudo o que não fora dito.


E, enquanto a noite caía, Rukia percebeu que, não importava qual caminho escolhesse… uma parte dela já estava irremediavelmente perdida.



Byakuya Kuchiki


Ele caminhava devagar pelos corredores sombrios da mansão, o suor secando no corpo, o peso da espada pendendo pesadamente em sua mão.


Cada palavra de Rukia ecoava em sua mente.


“Casamento.”

“Não sei se é o certo.”


Byakuya apertou o punho da katana com tanta força que o couro rangeu.


Deveria apoiá-la.


Deveria ser a voz da razão.


Mas como poderia?


Quando sua própria razão o abandonava toda vez que ela sorria?


Quando a lembrança da execução — do medo de perdê-la — era uma ferida aberta que jamais cicatrizou?


Desde aquele dia, ele sabia.


Não era apenas a responsabilidade que o prendia a Rukia.


Era ela.


Era sempre ela.


E agora… estava a ponto de perdê-la.


Para outro.


Para alguém que a amaria sem culpa, sem vergonha, sem o peso cruel do sangue e do nome.


Três dias.


Três dias para enterrá-la no fundo do seu dever… ou para lutar contra tudo o que jurou proteger.


E, no fundo, Byakuya sabia.


Ele sempre foi um homem de honra.


Mas pela primeira vez, estava pronto para quebrar todas as regras.


Por ela.


Somente por ela.


Notas finais
Gostaram? Espero que sim! Deixem seus comentários, beijinhos :)