O Orgulho Queima em Silencio
6 Capítulo 6 — Laços Inquebráveis
Seireitei, Sala do Conselho dos Capitães
O céu da Soul Society estava pesado.
Nuvens carregadas bloqueavam a luz do sol, lançando uma penumbra cinzenta sobre o Salão do Conselho.
Os capitães estavam reunidos em torno da grande mesa de carvalho branco, a atmosfera carregada de autoridade e desconfiança.
À cabeceira, o Comandante Kyoraku presidia a reunião com seu habitual sorriso preguiçoso — que hoje parecia ainda mais forçado.
A pauta era clara: a seleção dos novos tenentes.
Entre eles, um nome pairava no ar como uma corrente elétrica prestes a explodir: Rukia Kuchiki.
O coração da disputa.
A guerreira que todos queriam.
Shunsui pigarreou, ajeitando o chapéu floral.
— Vamos começar, então. Como sabem, a Vice-Comandante Kusajishi finalmente aceitou sua promoção, e outras divisões têm vagas abertas… Precisamos confirmar as indicações para os novos tenentes.
Seus olhos semicerrados percorreram a sala.
— E, ao que parece, temos… um pequeno impasse em relação à Kuchiki Rukia.
Um murmúrio atravessou os capitães reunidos.
No lado esquerdo, Renji Abarai, agora Capitão da 9ª Divisão, manteve a postura rígida, o maxilar cerrado.
Ao seu lado, Jushiro Ukitake, Capitão da 13ª Divisão — ainda frágil, mas determinado —, ergueu a mão suavemente.
— Rukia já serviu como minha subordinada durante anos — disse Ukitake, sua voz branda, porém firme. — Tenho grande orgulho dela. Naturalmente, desejo que ela retorne como minha tenente.
Renji pigarreou.
— Com todo respeito, Capitão Ukitake… — disse, o rosto vermelho — também desejo Rukia como minha tenente. Ela é a alma que representa exatamente os valores que quero para minha divisão.
Alguns capitães trocaram olhares curiosos.
Era raro uma disputa tão aberta.
O silêncio pairou por um instante — até ser cortado pela voz gelada como aço polido:
— Eu também a requisito.
O impacto foi imediato.
Todos os olhos se voltaram para ele.
Byakuya Kuchiki, Capitão da 6ª Divisão, estava sentado com a postura perfeita — a nobreza entalhada em cada linha de seu corpo.
Seu rosto era impassível.
Mas sua voz carregava um peso que fez o próprio ar da sala vibrar.
Shunsui arqueou uma sobrancelha.
— Oh? E qual seria a justificativa, Capitão Kuchiki?
Byakuya se ergueu lentamente, a capa branca esvoaçando suavemente ao redor dos ombros.
Cada palavra dele foi pronunciada com a precisão de uma lâmina:
— Rukia Kuchiki é membro do Clã Kuchiki. — seu olhar percorreu a mesa, frio como o aço. — É natural que permaneça sob a proteção de sua família.
Renji se adiantou meio passo, incapaz de se conter:
— Com todo respeito, Capitão Kuchiki… — disse, a voz apertada — Rukia é uma shinigami exemplar. Ela tem o direito de escolher seu caminho. A família dela deveria apoiá-la, não reivindicá-la como posse!
Um leve murmúrio de aprovação correu entre alguns capitães.
Byakuya virou os olhos lentamente para Renji.
O silêncio que se seguiu foi cortante.
— Está insinuando… — começou Byakuya, cada sílaba gelada — que o Clã Kuchiki subjugaria seus membros como peças de xadrez?
Renji hesitou, mas manteve o queixo erguido.
— Estou dizendo que Rukia deveria ter liberdade.
A tensão explodiu no ar.
Ukitake interveio rapidamente:
— Capitães, por favor… Não podemos esquecer que a própria Rukia deverá ser consultada.
Byakuya não desviou o olhar de Renji.
— Consultá-la é nossa obrigação — disse, sem piscar. — Mas assegurar que ela permaneça no lugar que lhe é devido… é minha responsabilidade.
Shunsui tamborilou os dedos na mesa.
— Hmm… Parece que a questão é mais pessoal do que profissional…
Byakuya ergueu o queixo, a expressão serena.
Mas dentro dele, o fogo rugia.
“Ela pertence ao Clã Kuchiki.”
“Ela é minha responsabilidade.”
“Ela é… minha.”
Era irracional, talvez.
Mas Byakuya, que sempre se orgulhara de sua lógica imaculada, não podia mais negar o impulso primitivo que corroía seu peito.
A lembrança de Rukia sorrindo para Renji era uma faca cravada em suas entranhas.
Não.
Não permitiria.
Shunsui suspirou.
— Vamos adiar a decisão final para o dia da seleção — anunciou, lançando um olhar ponderado a Byakuya. — Cada candidato terá direito a expor sua vontade… e Rukia escolherá.
Byakuya nada disse.
Mas em sua mente, a decisão já estava tomada.
Ele não permitiria que ela fosse levada.
Não importava o preço.
⸻
Byakuya Kuchiki — Salão de Treino da 6ª Divisão
Horas depois.
Byakuya caminhava sozinho pelo salão silencioso de sua divisão.
A raiva ainda fervilhava sob sua pele, como brasas impossíveis de apagar.
Ele recordava cada palavra de Renji.
Cada olhar de Ukitake.
Cada sussurro de desafio entre os capitães.
Como ousavam?
Como ousavam pensar que poderiam simplesmente… arrancá-la de seu lado?
Ajeitou o kenseikan nos cabelos com dedos trêmulos — um gesto de nervosismo que teria envergonhado seus ancestrais.
Mas hoje ele não se importava.
Ele atravessou o dojo de treino até a varanda de pedra que dava para o jardim de cerejeiras da divisão.
Ali, onde as pétalas caíam lentamente, onde o perfume doce enchia o ar, ele fechou os olhos.
E lembrou.
Lembrou da dor insuportável ao vê-la ajoelhada no altar da execução.
Lembrou da promessa silenciosa que fizera naquele dia:
“Nunca mais deixarei que te machuquem.”
E agora… essa promessa estava ameaçada.
Uma parte de si dizia que era errado.
Que era egoísmo.
Mas a parte mais profunda, mais primitiva, gritava que era amor.
Amor proibido.
Amor condenado.
Amor inevitável.
Byakuya apoiou a mão contra a pilastra de pedra, curvando-se ligeiramente. De olhos fechados, permitiu que a dor o consumisse por um breve momento.
Rukia.
O nome dela ecoava em sua mente como um sussurro e um rugido ao mesmo tempo.
Não importava o que a tradição exigisse.
Não importava o que a honra ordenasse.
Desta vez…
Ele lutaria por ela.
⸻
Rukia Kuchiki
Enquanto isso, Rukia caminhava de volta à mansão.
O dia havia sido longo.
Pesado.
Sentia o peso das escolhas se acumulando sobre seus ombros.
Renji havia sido gentil em sua última conversa. Prometera que aceitaria qualquer resposta.
Mas o que pesava sobre ela era outra coisa.
O olhar de Byakuya.
Aquela expressão contida, feroz, que ele nunca deixava transparecer… e que ela começava a reconhecer.
Era medo?
Era raiva?
Era… dor?
O vento soprou, espalhando pétalas de cerejeira ao seu redor.
Rukia ergueu os olhos para o céu cinzento.
Ela era livre.
Poderia escolher seu caminho.
Poderia aceitar o amor de Renji, construir uma vida pacífica.
Mas parte dela sabia:
Algumas prisões não eram feitas de correntes.
E algumas liberdades… eram mais dolorosas do que qualquer cárcere.
Fechou os olhos.
Três dias.
Apenas três dias.
E tudo mudaria para sempre.
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