O Orgulho Queima em Silencio
2 Capítulo 2 — As Correntes Que Eu Não Posso Romper
Rukia Kuchiki
O frio do meu próprio Bankai ainda dançava na pele quando vi Renji ajoelhar-se.
Por um instante, achei que fosse uma brincadeira — uma daquelas provocações bobas que ele insistia em trazer, mesmo nas ocasiões mais sérias.
Mas a postura dele era rígida, respeitosa.
E a voz…
A voz dele carregava uma gravidade que eu jamais ouvira antes.
Ele me pediu em casamento.
Diante de Byakuya.
Diante de mim.
O mundo pareceu congelar de uma forma diferente do meu gelo.
Eu disse que pensaria.
Não porque duvidei da sinceridade de Renji.
Não porque não soubesse que, de certo modo, ele sempre estivera ao meu lado — desde os dias sombrios em Rukongai, desde os primeiros passos desajeitados em direção ao poder.
Mas porque algo dentro de mim… resistiu.
E era esse algo que agora me sufocava enquanto caminhava, sozinha, pelos jardins silenciosos da Sexta Divisão.
O vento carregava o perfume das flores noturnas.
O céu, pintado de azul profundo, parecia pesar sobre meus ombros.
Eu deveria estar feliz, pensei.
Renji era um homem bom.
Corajoso.
Fiel.
Amava-me de forma tão aberta que às vezes doía olhar para ele.
Então por que meu coração batia dessa forma?
Por que sentia como se estivesse traindo algo — ou alguém — simplesmente por considerar sua proposta?
Meu pensamento, traiçoeiro, deslizou inevitavelmente para Byakuya.
Ele havia sido frio, como sempre.
Formal até a alma.
Autorizara que a decisão fosse minha, como era esperado de alguém de nossa linhagem.
E ainda assim, quando nossos olhares se cruzaram, eu vi.
Vi algo que não deveria estar ali.
Uma rachadura no gelo.
Um pedido silencioso.
Talvez tenha sido imaginação minha.
Talvez tenha sido apenas o reflexo do meu próprio medo.
Mas eu lembrei.
Lembrei de estar diante da morte, no topo do Sokyoku Hill com o capitão Aizen.
Lembrei de ver Byakuya, o homem que eu acreditava que me odiava, salvar a minha vida.
Lembrei da forma como ele me carregou em seus braços — não como um capitão carregaria uma subordinada, não como um irmão carregaria uma irmã.
Havia algo a mais.
Algo que, até hoje, nunca nomeamos.
Meu coração apertou-se no peito.
Renji me oferecia amor.
Amor aberto, transparente, sem riscos.
Byakuya…
Byakuya me oferecia silêncio.
Me oferecia um abismo onde eu mesma não sabia se sobreviveria.
E, covardemente, parte de mim ansiava por mergulhar nesse abismo.
Fechei os olhos, tentando afastar aquele pensamento proibido.
As tradições eram claras.
A linhagem Kuchiki exigia honra, decoro, equilíbrio.
E Byakuya era o mais perfeito dos Kuchiki.
Eu era apenas a alma suja que ele adotara para pagar uma dívida.
Nada mais.
Nada mais.
E ainda assim, quando Renji se ajoelhou, quando declarou seu amor e seu desejo de me proteger, o primeiro rosto que surgiu em minha mente não foi o dele.
Foi o de Byakuya.
Sério.
Frio.
E — se eu tivesse coragem de admitir — quebrado.
Tinha que decidir.
Tinha que pensar.
Mas pensar era impossível quando o próprio sangue parecia sussurrar para mim que, ao aceitar Renji, eu não estaria apenas aceitando uma vida de segurança.
Estaria traindo algo que nem mesmo as palavras poderiam definir.
Algo que me prendia ao capitão que sempre mantive à distância.
E que, agora, talvez nunca mais pudesse alcançar.
O vento soprou mais forte, trazendo consigo o cheiro da noite.
Fechei os olhos.
E pela primeira vez desde o fim da guerra, desejei ser outra pessoa.
Alguém livre das correntes invisíveis que me prendiam a um passado que não sabia se poderia abandonar.
⸻
Fale com o autor