O Orgulho Queima em Silencio
10 Capítulo 10 — A Coragem Queima em Silêncio
Seireitei — Divisão 6
Rukia Kuchiki
Ainda era madrugada. O céu estava tingido de um azul profundo, a primeira luz do amanhecer apenas começando a beijar os telhados das divisões.
O silêncio reinava absoluto. A maioria dos shinigamis ainda dormia, entregues à paz efêmera da noite.
Mas não Rukia.
Ela já estava desperta, vestindo seu uniforme impecável de tenente recém-empossada da 6ª Divisão. As insígnias cintilavam discretamente sob a luz fraca. Suas botas quase não faziam som enquanto atravessava os corredores silenciosos. Dirigiu-se diretamente à cozinha da divisão — uma prática que já se tornava sua rotina.
Preparar chá para os membros mais antigos da divisão era uma tradição esquecida por muitos. Mas Rukia acreditava em gestos silenciosos de respeito. Enquanto a água fervia, seus pensamentos vagavam.
Ela ainda sentia o peso dos últimos dias — da escolha que fizera, do afastamento de Renji, da mudança em seu relacionamento com Byakuya. O calor do bule em suas mãos ajudava a ancorá-la no presente.
Hoje, eu faço valer a confiança de todos.
Pensou.
Antes mesmo de distribuir o chá, Rukia dirigiu-se à arena de treino. Ali, sozinha sob o céu ainda cinzento, ela desembainhou Sode no Shirayuki. O ar ao redor dela esfriou imediatamente, cristais de gelo formando-se no chão polido. Movimentou-se com graça mortal, executando as formas básicas, depois avançando para os katas mais complexos.
Sua respiração era ritmada, seus movimentos precisos. Não havia ninguém para aplaudi-la. Ninguém para supervisioná-la. E, ainda assim, ela dava tudo de si.
Por dever.
Por honra.
Por si mesma.
Quando o sol finalmente despontou no horizonte, Rukia já havia concluído seu treino. Suor escorria de sua testa, congelando em pequenos fragmentos sob a influência de seu poder.
Ela sorriu levemente, satisfeita.
Estava pronta para o dia.
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As horas seguintes foram consumidas em tarefas administrativas. Rukia lia relatórios, corrigia formulários, ajudava a treinar novos recrutas. Seu nome ainda causava murmúrios.
Alguns a observavam com desconfiança.
Outros, com admiração crescente.
Ela ignorava tudo.
Trabalhava com uma serenidade que começava a contagiar a divisão.
— Tenente Rukia — disse um jovem shinigami, aproximando-se timidamente. — Há uma reunião extraordinária marcada para agora. Todos os tenentes e capitães devem comparecer ao Salão Central.
Rukia ergueu o olhar, surpresa.
Uma reunião extraordinária?
Sem aviso prévio?
Isso era raro.
Muito raro.
Apressou-se, sem perder a compostura, e dirigiu-se ao local indicado.
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Salão Central — A Reunião
O grande salão estava repleto.
Capitães com seus haoris brancos impecáveis alinhavam-se nas laterais.
Os tenentes se posicionavam atrás deles, em formação respeitosa.
O ar estava pesado, carregado de tensão.
Rukia posicionou-se discretamente atrás de Byakuya, seu olhar firme apesar do leve tremor interno.
No centro do salão, o Capitão-Comandante Kyoraku ajeitou seu chapéu de palha antes de falar.
Sua voz era grave, séria — um contraste raro com seu habitual tom relaxado.
— Recebemos informações alarmantes — começou ele, lançando olhares pesados para todos. — Hollows com habilidades desconhecidas surgiram no Mundo Humano. Eles não apenas consomem almas… mas possuem corpos vivos.
Um murmúrio de horror percorreu a sala.
Rukia sentiu o estômago revirar.
A imagem de Kaien Shiba surgiu em sua mente como uma lâmina cortante.
Ela apertou os punhos, o frio de seu poder reprimido dançando ao redor de seus dedos.
— São semelhantes ao caso de Kaien-dono? — perguntou Ukitake, a voz apertada.
Kyoraku assentiu gravemente.
— Sim. E as informações sugerem que eles estão organizados — caçando alvos específicos. Precisamos agir com rapidez e precisão.
O Comandante fez uma pausa significativa antes de continuar:
— Estamos formando equipes para investigar e erradicar essas criaturas. Voluntários serão priorizados para essas missões, dado o risco extremo.
O salão mergulhou em silêncio.
O medo era palpável.
A responsabilidade também.
Rukia sentiu seu coração bater mais rápido.
As lembranças da noite em que perdeu Kaien — da culpa que carregava desde então — pesaram sobre seus ombros.
E, antes que pudesse pensar, sua voz ecoou, clara e firme:
— Eu me voluntario.
O impacto foi imediato.
Todos os olhares se voltaram para ela.
Alguns surpresos.
Outros, escandalizados.
Byakuya virou-se lentamente para encará-la, o olhar impassível — mas Rukia viu o brilho gélido, cortante, em seus olhos.
Renji, mais atrás, deu um passo involuntário à frente.
— Rukia…! — Murmurou, a voz rouca de choque.
Ela manteve a postura ereta, os olhos fixos à frente.
Não mostraria medo.
Não agora.
— Tenente Kuchiki — disse Kyoraku, inclinando a cabeça — tem certeza? Compreende o risco?
Rukia assentiu, sem hesitar.
— Sim, Capitão-Comandante. Estou pronta.
Um silêncio pesado caiu novamente.
Renji avançou, seu rosto uma máscara de incredulidade.
— Então eu também me voluntario! — Disse, a voz alta, quase desafiadora.
Mas antes que pudesse dar outro passo, uma voz fria, cortante como aço, cortou o ar:
— Negado.
Todos se voltaram.
Byakuya havia falado.
Não com um grito.
Não com raiva.
Mas com uma autoridade tão absoluta que parecia incontestável.
Renji congelou.
— Capitão Kuchiki…! — tentou argumentar.
Byakuya lançou-lhe um olhar glacial.
— Você comprometeria a missão ao agir movido por emoções — disse, cada palavra gélida e cruel em sua precisão. — Rukia Kuchiki é capaz. Você não.
A humilhação de Renji era visível.
Mas ele não ousou desafiar.
Byakuya virou-se novamente para o centro do salão, como se o assunto estivesse encerrado.
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Rukia sentiu um turbilhão dentro de si.
Parte dela queria gritar.
Parte queria chorar.
Mas acima de tudo, sentia-se estranhamente… livre.
A escolha era sua.
A decisão era sua.
Ela não era mais uma criança escondida sob a sombra de outros.
Ela era Rukia Kuchiki.
E, por mais que seu irmão tentasse protegê-la, por mais que Renji quisesse ser seu escudo — ela sabia que algumas batalhas precisavam ser travadas por ela mesma.
Ergueu o queixo, orgulhosa, e encarou o Capitão-Comandante.
— Agradeço pela oportunidade — disse, com a voz firme.
Kyoraku sorriu, um brilho orgulhoso nos olhos.
— Então que assim seja, Kuchiki Rukia.
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Byakuya Kuchiki
Byakuya observava-a em silêncio.
Por fora, era a imagem da serenidade.
Por dentro, era um mar tempestuoso. Rukia, sua pequena Rukia, não precisava mais ser protegida.
Ela escolhia seu caminho.
E isso o enchía de um orgulho tão avassalador quanto doloroso.
Porque, ao mesmo tempo, o medo primal — o medo de perdê-la novamente — queimava silenciosamente sob a superfície.
Mas ele não impediria.
Não ousaria.
Não poderia quebrar as asas que ela finalmente aprendera a abrir.
Tudo o que podia fazer era garantir que, quando caísse, se caísse, ele estaria ali para segurá-la.
Silenciosamente.
Implacavelmente.
Sempre.
A reunião terminou em tensão.
Equipes foram formadas. Rukia foi designada à vanguarda. Byakuya permaneceu em silêncio ao seu lado enquanto caminhavam de volta à 6ª Divisão.
O sol já havia se erguido completamente, lançando luz dourada sobre Seireitei. Rukia sentia-se mais leve, apesar do peso da responsabilidade.
Sentia-se… viva.
Byakuya parou, observando-a com olhos inexpressivos.
Mas, se ela olhasse fundo o suficiente, teria visto:
O orgulho.
O medo.
O amor silencioso e imutável.
— Prepare-se — disse ele, finalmente. — Estarei esperando seu retorno.
E Rukia, sem saber por que, sorriu.
Ela não estava sozinha.
Nunca estivera.
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