O Orgulho Queima em Silencio

1 Capítulo 1 - O Orgulho Queima em Silêncio


Byakuya Kuchiki

O campo de treinamento da Sexta Divisão reverberava sob a pressão do gelo.

À frente, Rukia Kuchiki manejava seu recém-dominado Bankai com precisão cirúrgica — os fragmentos de gelo dançavam como pétalas, enquanto o frio absoluto moldava a paisagem ao seu redor.

Byakuya a observava em silêncio, como tantas outras vezes.

Ou pelo menos era o que fingia fazer.

Cada movimento dela, cada respiração determinada, acendia nele uma tensão invisível, um peso que ameaçava despedaçar sua compostura impecável.

Então, veio a voz.

Clara, determinada, atravessando o ar gelado como uma lâmina:

— Capitão Kuchiki. — Renji Abarai se ajoelhou à frente dos dois, a mão firme sobre o cabo de sua zampakutou. — Venho pedir a mão de Rukia Kuchiki em casamento.

O mundo, que antes parecia ordenado e congelado, tremeu nas entranhas do capitão.

Por fora, Byakuya manteve o rosto de mármore.

Por dentro, o sangue dele rugia em um fogo selvagem, primitivo, que queimava cada fibra de orgulho, cada fragmento de disciplina que o sustentava.

O gelo que o protegia de seus próprios sentimentos se estilhaçou sem aviso.

O pedido ecoou como um golpe.

Como a lâmina de Ichigo, anos atrás, abrindo uma ferida que ele jurara jamais permitir novamente.

Byakuya não respondeu de imediato.

Sequer piscou.

O olhar frio deslizou até Rukia — ela, tão serena, tão forte, e ainda assim, com uma sombra indecifrável nos olhos.

Ele viu.

Sentiu.

A hesitação que ela tentava esconder.

O peso da escolha que ela ainda não sabia que precisava fazer.

E naquele instante, ele compreendeu:

Que renunciar a ela seria mais do que honrar tradições.

Seria destruir a si mesmo.

Por baixo da máscara de nobreza, Byakuya ardia — em raiva, em desespero, em um desejo tão impróprio quanto irreprimível.

E pela primeira vez em muitos anos, Byakuya Kuchiki duvidou de que conseguiria sufocar o próprio coração.

Byakuya ergueu o olhar, frio e imperturbável, enquanto Renji Abarai se adiantava, a postura rígida, solene, como se estivesse diante da mais alta corte.

Renji ainda ajoelhado continuou a falar, com a mão repousando respeitosamente sobre o cabo da sua zampakutou.

Sua voz, quando rompeu o silêncio gélido do campo de treinamento, era firme, grave, carregada de algo mais profundo do que simples coragem.

— Capitão Kuchiki — começou Renji, mantendo os olhos baixos, em sinal de respeito — venho humildemente lhe pedir permissão para cortejar Rukia Kuchiki. — Estou apaixonado por ela há muito tempo. — sua respiração vacilou, mas ele se manteve firme. — Desejo, com toda a honra que possuo, protegê-la e caminhar ao seu lado, não apenas como companheiro de batalhas… mas como marido.

O ar pareceu enrijecer ao redor deles.

Byakuya o fitou sem piscar — como se estivesse esculpido em gelo puro.

Nenhuma emoção rompeu sua máscara de mármore.

Mas por dentro, o fogo acendeu-se de maneira brutal, devastadora.

Aquela confissão, tão pura, tão inabalável, atingiu-o com a precisão de uma flecha enterrando-se no peito.

Por um instante, ele pensou em recusar.

Em esmagar aquela petição sob o peso da tradição, sob o pretexto da honra dos Kuchiki.

Mas o juramento de ser o pilar de sua família falou mais alto.

E o orgulho ferido, dolorido, ardendo silenciosamente, ordenou que ele não se traísse.

A voz de Byakuya soou baixa, controlada:

— Isso não depende de mim. — declarou. — Depende dela.

Ele virou-se para Rukia.

Ela, com o Bankai ainda pulsando em torno do corpo frágil e forte, sustentou seu olhar.

Havia algo nos olhos dela.

Algo que não era só surpresa.

Não era só incerteza.

Era… medo.

Medo da escolha errada.

Rukia respirou fundo, endireitando-se:

— Eu pensarei a respeito — disse ela, com a firmeza que só quem já atravessou a morte pode ter.

Renji inclinou-se em respeito, e Byakuya fez o mesmo — uma reverência tão mecânica que nem ele sentiu o corpo se mover.

Quando se afastou, caminhando pelos corredores sombrios da Sexta Divisão, cada passo soava como uma sentença.

E as lembranças, traiçoeiras, voltaram com força.

[Flashback — Sokyoku Hill]

Ela estava no altar da morte.

O céu quebrava em chamas douradas.

E ele, Byakuya Kuchiki, carregava o peso de gerações em seus ombros — e também o peso do próprio coração, do qual sempre se orgulhara por manter frio, intacto.

Até aquele instante.

Até vê-la, prestes a ser destruída, sem que ele pudesse fazer nada.

Até entender que Rukia Kuchiki não era uma simples irmã adotiva.

Ela era a centelha de vida que ele se proibira de desejar.

E no momento em que ele não desafiou a lei para salvá-la, Byakuya soube: não o fazia apenas pelo dever.

O fazia porque a amava — de uma forma que nenhum código Kuchiki jamais permitiria.

E isso o marcaria para sempre.

[Volta ao presente]

Byakuya parou diante da porta de seus aposentos.

A máscara de frieza perfeita sobre o rosto.

Mas em seu peito, queimava um fogo indesejado — uma chama que nenhuma tradição seria capaz de extinguir.

Porque agora, mais do que nunca, Byakuya Kuchiki sabia que o que sentia por Rukia era sua ruína silenciosa.

E talvez, seu único ato de verdadeira coragem seria admitir que havia quebrado não apenas as leis da Soul Society…


Mas também, as do próprio orgulho.


Notas finais
Gostaram? Espero que sim, bora para o próximo?