O Oráculo Perdido
2 Acampamento Meio-Sangue
Notas iniciais
Ainda bem que Percy já estava sentado na cama, pois teria caído duro depois dessa revelação. — O quê? Mas... Faz quanto tempo?
— Tempo o suficiente para alarmar todo mundo. Rachel fica no acampamento no verão, mas quando ela não apareceu, Quíron ligou para o pai dela para perguntar se tinha conseguido alguma coisa e... O homem estava em prantos! — Annabeth estremeceu. — E você sabe como o Sr. Dare é. O cara tem a capacidade emocional de uma pedra!
— Ok. Eu entendo que a Rachel tenha sumido. Mas vocês tem certeza de que ela foi sequestrada?
— Percy, presta atenção! Depois da conversa com o Sr. Dare, o Quíron tentou mandar uma mensagem de Íris para o Olimpo. E as musas atenderam, desesperadas. De uma hora pra outra, todos os deuses tinham sumido!
Ele engoliu em seco. — Certo. E o que isso tem a ver comigo?
Annabeth parou de falar e só encarou seu namorado por um segundo. — Oi? O que isso tem a ver com você?
— É, tipo... É uma bosta, isso que aconteceu, mas Annabeth, eu já desisti desse lance todo de ser um herói...
— Eu não me importo com todo esse seu lance de “não quero ser um herói”! A NOSSA AMIGA DESAPARECEU! Você não se importa com isso?!
— É claro que eu me importo! Mas não tem nada que eu possa fazer sobre isso!
Annabeth se afastou dele, parecendo enojada. Ela virou seu rosto para a porta, seus ombros caídos e sem esperança.
— Epa, Annabeth... Você sabe que não foi isso que eu quis dizer...
— Foi isso mesmo que você quis dizer. — a voz da menina estava entrecortada, difícil de entender. Respirando fundo, como quem segura o choro, ela voltou seus olhos tempestuosos para Percy de novo. — Você não dá a mínima pra ninguém do acampamento, e você acabou de me provar isso. Que seja. Eu vou dar um jeito nisso. — Dito isso, ela se virou e saiu pela porta, batendo forte atrás dela. Ao longe, Percy ouviu um gritinho de susto que imaginou ser de sua mãe, acordando com o barulho, e suspirou fundo.
Ao que parecia, seu namoro estava acabado. Mas depois de 2 anos sem manter contato direito com a (ex?)namorada, ele achava difícil de se importar. Não eram muitas as coisas que faziam ele querer realmente se levantar e fazer alguma coisa a respeito.
Depois da guerra contra Gaia, depois de ter perdido tantos amigos na guerra, ele se rebelou justamente contra o fato de tudo cair sempre em seus ombros. Então, agora que não tinha responsabilidades para com o destino do mundo, sua vida ficara monótona, cinzenta e sem graça. Ele repetia a si mesmo que ele preferia assim, que essa era uma vida normal, e que ele só poderia ser louco se tivesse o desejo de voltar a quase virar jantar de górgonas. O heroísmo podia estar em seu sangue, mas seu destino era dele mesmo. E ele escolhera isso.
Para evitar a depressão que ficava sempre à espreita nessa nova vida, ele decidiu apenas parar de se importar com o que acontecia. Não pensar, não se animar, como se ele estivesse fora de seu próprio corpo vendo tudo do lado de fora. Isso deixava as coisas mais... Suportáveis. Mais fáceis. Ele era o filho perfeito, um adolescente normal (apesar de quase falhar algumas matérias em Oceanologia). E isso era o bastante.
Então seu namoro havia acabado. “Que seja”, pensou Percy, deitando-se na cama e fechando os olhos de novo. Ele não se importava.
Ele sabia que estava sonhando, porque seus sonhos eram o único lugar onde ele não fingia. Onde ele podia olhar com os olhos de um participante, em vez de um mero espectador.
No sonho, ele estava em uma colina verdejante, que lhe era conhecida. Ele estava no topo dela, olhando para o acampamento abaixo. Era noite — ou não, não era para ser noite. A escuridão era mais forte do que isso, algo quase vivo e palpável, que subia pelos chalés em espirais e sufocava os gritos das pessoas dentro deles. A escuridão já notara Percy, e ia subindo devagar pela colina. Percy tentou se mover, tentou gritar ou sair correndo, qualquer coisa, mas seu corpo não lhe obedecia. Ele assistiu, impotente, enquanto seu mundo era engolido pelas trevas.
E então ele estava em outro lugar.
Agora era um palácio tremeluzente, colorido e repleto de algas. As paredes brilhavam feito um arco-íris, e no centro da sala havia uma mesa com tampo de marfim reluzente, onde se encontrava um homem de barbas negras e olhos verdes e gentis.
— Pai. — Percy suspirou. Não via seu pai há dois anos, quando renegara absolutamente tudo que o lembrava de seu passado heróico. Mesmo ouvindo o tom entediado de Percy, Poseidon sorriu e indicou uma cadeira à frente de onde estava sentado. Percy não se mexeu, olhando o deus friamente. Poseidon, não se deixando abalar, levantou-se e foi para a frente do filho, abrindo os braços em boas vindas.
— Percy. Você cresceu muito nos últimos tempos, filho.
— Se você me chamou aqui, é porque precisa de alguma coisa. Não me venha com papos de “filho” agora. — Percy resmungou, olhando de cara feia para seu pai.
Poseidon abriu um sorriso. — Eu não o visitei antes porque esse era seu desejo explícito, Percy. Eu quis respeitá-lo, ainda mais depois de tudo que você passou. Mas, de certa forma, você está certo; eu preciso sim de algo, e só você pode me ajudar.
— Eu já sabia. — ele revirou os olhos e cruzou os braços, adotando uma pose quase defensiva. — O que é agora, precisa de mim para salvar o mundo?
— Quase isso. — Poseidon se dirigiu para a mesa, que agora retratava uma cena de guerra. Percy seguiu seu pai a contragosto, olhando para a mesa com desinteresse que logo se transformou em horror.
As imagens destacadas na mesa eram de Annabeth. Ela estava quase nua, acorrentada a uma pedra, sendo iluminada apenas pelo brilho de uma espada de ouro jogada ali perto. Seus braços pendurados acima de seu rosto exibiam feios vergões avermelhados, e o resto de seu corpo era uma papa enegrecida de tecido gangrenado. A menina olhava desafiadoramente para frente, para alguém que Percy não conseguia ver.
— Faça o que quiser comigo, mas você não vai conseguir o que quer! — a menina gritou, seus lábios sangrentos tremendo pelo esforço.
Uma voz riu, uma voz grossa que fez os cabelos da nuca de Percy se arrepiarem. — Ora, talvez eu consiga. Seus amigos já estão chegando. E você sabe o que acontece quando o último deles se reunir ao grupo.
Os olhos de Annabeth se arregalaram de medo. — Não! Isso não pode acontecer!
— Ora, mas já está acontecendo, minha cara menina. — a voz estava carregada de malícia. — O senhor das trevas despertará logo. E você estará lá para recebê-lo.
Annabeth deixou a cabeça pender, derrotada. E disse num fio de voz. — Então, só me diga... Porque está fazendo isso? O que você ganha ajudando-o?
— Ora... — Percy ouviu o sorriso maléfico na voz. — Muito mais do que você imagina...
A imagem desapareceu, e Poseidon virou-se para Percy, seu semblante triste. Percy correu para um canto e botou tudo pra fora, e mesmo em sonho, vomitar lhe pareceu ridiculamente real. Depois que o enjôo passou, ele se virou para seu pai, já metralhando perguntas:
— Aonde eles estão? Quem era aquele homem? E o senhor das trevas? O que... — Percy disparou a falar, esquecendo de sua postura agressiva de momentos atrás, mas Poseidon suspirou e ergueu a mão, fazendo Percy efetivamente calar a boca.
— Isso ainda não aconteceu. Esse artefato prevê um futuro possível, se as coisas continuarem como estão. Annabeth está no acampamento agora, e ela está bem, mas se você não for pra lá, isso vai acontecer.
— Se eu não for pra lá? — Percy gemeu. — Porquê? Porquê sempre tem que ser eu? E não me venha falar de destino.
— Essa é a única resposta, filho. A Grande Profecia... Ela realmente se refere a você, mais uma vez. Você é um semideus, e como tal, o destino sempre o usa para completar suas demandas. Tais são as regras do universo. — Poseidon olhou para Percy e colocou a mão em seu ombro. — Sinto muito. Eu sei que você se preocupa muito com ela.
— Ela terminou comigo hoje. Falou que ia “dar um jeito nisso”. — Percy arregalou os olhos. — Talvez seja por isso que isso vá acontecer! Se eu só falar com ela, convencê-la a não ir em uma missão, talvez eu consiga salvá-la!
— Isso exigiria que você pegasse a missão que ela planejou. Pode ser perigoso, Percy. — Poseidon avisou, seus olhos agora preocupados.
— Eu pego a missão. Eu faço o que for preciso. — Liberado da desesperança que o acometia a cada segundo que estava acordado, Percy parecia quase rejuvenescido. Ele sabia que a angústia voltaria assim que acordasse, e talvez ele não quisesse mais fazer a missão. Mas ele precisava. Essa era a única vez em 2 anos que ele se sentia quase ele mesmo de novo. E a sensação era boa. Ele era um semideus.
Ao olhar para Poseidon, Percy se surpreendeu ao ver lágrimas nos cantos dos olhos de seu pai. O deus sorria amorosamente. — Você vai conseguir, Percy. Eu tenho certeza disso. Vá para o acampamento. Fale com Quíron. Vai dar tudo certo.
Percy tentou responder, mas a imagem de seu pai desapareceu e ele acordou de manhã, ainda com um “obrigado, pai” guardado em seu coração.
Quatro horas depois, Percy chegava no Acampamento Meio-Sangue. Ele estremeceu, lembrando de como foi contar para sua mãe que ele precisava ir para o acampamento. Os olhos dela cheios de lágrimas, chocados. “Percy, você estava vivendo uma vida normal. Estava dando tudo certo, finalmente! Porquê...?”. E nenhuma resposta dada.
Ele subiu a colina, segurando a mochila firmemente pelas alças, e olhou o acampamento de cima. acenando com a cabeça para o dragão de olhos sonolentos que guardava o pinheiro e o Velocino de ouro. Era a mesma visão de seu sonho da noite passada, exceto pelo fato de ser dia e a única escuridão presente ser a sombra da grande floresta que margeava o terreno.
Vários campistas treinavam e se divertiam pelo acampamento, alguns filhos de Hermes pregavam peças nos outros, tudo estava correndo como o esperado. Aquela era uma visão muito estranha para Percy. Uma vez, ele também fora um campista. Brincando e se divertindo com os outros, quando não estava salvando o mundo.
Respirando fundo, ele se dirigiu para a Casa Grande, esperando ver algum rosto conhecido. Logo avistou Quíron, em sua forma majestosa de centauro, olhando preocupado da varanda da Casa os arredores do acampamento.
Quíron avistou Percy, e dando a volta pela varanda, desceu as escadas para receber o menino. Percy apertou mais ainda a alça da mochila, preparando-se psicologicamente para a conversa que se seguiria.
— Percy? — Quíron parecia surpreso. — Ora, eu achei que nunca mais o veria por aqui.
— Mudei de ideia. — Percy abriu um sorriso hesitante, que logo falhou ao ser recebido pela fronte fechada de Quíron.
— Não parecia, visto a nossa última interação. — ele falou com uma ponta de frieza na voz, e Percy fez uma careta.
— Eu sei. Desculpa por aquilo. É só que... — Percy virou-se para os lados e se aproximou de Quíron. — Eu não sei o que estava acontecendo comigo. É quase como se... Eu não fosse eu. Entende?
Quíron suspirou. — Pra falar a verdade, eu entendo bem o que você quer dizer com isso, meu jovem. Muitas pessoas estão agindo assim. Principalmente as que ficam fora do acampamento por muito tempo. São tempos estranhos, esses.
Percy notara que, ao cruzar a borda do acampamento, parecia que o mundo ao seu redor ganhara vida outra vez. Ele se sentiu cheio de ímpeto e esperança, como nos sonhos, e se alegrou com isso. Salvar o mundo, ser usado pelos deuses, quase morrer incontáveis vezes? Se fosse para se sentir assim para sempre, ele o faria de bom grado.
— Então, eu precisava falar com você... — O cheiro de morangos o encheu de nostalgia e, renovado, ele começou a contar os dois sonhos que tivera na noite passada. Quíron ouvia atentamente.
Quando terminou, Quíron passou a mão pela barba e olhou para a colina, com seu pinheiro solitário. Quando voltou o olhar para Percy, ele parecia decidido.
—Não.
— Não? — Percy repetiu, incrédulo.
—Sem a Oráculo aqui, nós não sabemos o que você poderia vir a enfrentar nessa missão. Eu não concederia essa missão nem a Annabeth, se ela pedisse. É perigoso demais.
— Mas...
— É só avisar Annabeth de que ela corre perigo, e faze-la ficar aqui no acampamento. — Quíron finalizou, como se todos os problemas tivessem sido resolvidos, mas Percy sabia que não era bem assim. Conhecendo Annabeth do jeito que ele conhecia, ela provavelmente daria um jeito de sair do acampamento no meio da noite e ir em missão sozinha, o que a levaria à visão de Poseidon.
— Quíron... — tentou Percy, mas Quíron ergueu a mão e deu o assunto como encerrado.
— Agora, meu jovem... Se você quiser ficar por aqui um tempo, tenho certeza de que seus amigos adorariam te ver novamente.
— Com certeza, Quíron! — Sorriu Percy, e Quíron virou a cabeça pra ele, estranhando o tom quase infantil de sua voz.
Um plano já se formava na cabeça do menino; ele precisava, de algum jeito, convencer Quíron de que uma missão era sim necessária, e deixar Annabeth no acampamento. “É o único jeito de salvá-la...”, convenceu-se Percy e, respirando fundo, acompanhou o centauro para o resto do acampamento e de encontro aos amigos que deixara para trás.
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