O Olimpo em Guerra
7 O coração de uma deusa
O vento inclemente e gélido varre as terras do norte da Europa, no Círculo Polar Ártico, na parte setentrional da Noruega. No mítico reino terrestre de Asgard, Hilda de Polaris observa, pensativa, na sacada de uma varanda do Palácio Vahala, a Aurora Boreal.
—Vc tem estado pensativa nesses últimos dias, Hilda. Algo a preocupa?
—Flair...Hilda se volta para trás. —Não tinha percebido que vc estava aí. Venha para cá, fique ao meu lado. Veja que bela Aurora Boreal no céu.
Flair vem para o lado de sua irmã, que a abraça e massageia seu braço direito, como se quisesse aquecê-la.
—Vc me pergunta se algo me preocupa...bem, na verdade senti enormes emanações de cosmos há poucos dias, vindas do sul, mas especificamente da direção que leva à Grécia....eram cosmos poderosíssimos, e não eram de Athena, conheço o cosmo doce e suave dela...eram cosmos mais agressivos, assustadores, até....
—E vc acha que Athena poderia estar sob ataque, Hilda?
—Não posso negar que foi a primeira coisa que me ocorreu, Flair. Além disso, o Santuário de Athena normalmente emite uma cosmo-energia típica, que sempre pude sentir daqui de Asgard. Não consigo sentir mais. Isso realmente está me incomodando....
—Que tal se fossemos à Grécia fazer uma visita a ela?
—Sem saber o que de fato aconteceu, não acho prudente Flair. Principalmente por vc. Se algo grave aconteceu por lá, sua vida correria risco. Sei que Athena teve algo a ver com aquele terrível eclipse que pairava sobre a Terra. Elas e seus cavaleiros devem ter combatido, com sucesso, quem o causava. Mas terá sofrido novo ataque, agora? E por parte de quem?
—Não há uma maneira de sabermos, Hilda?
—Bem, envie Frej, há dois dias, para Bluegard. Talvez saibam algo por lá, afinal os guerreiros azuis são originariamente cavaleiros de Athena...se ainda tivesse ao meu lado meus guerreiros...Neste momento Hilda baixa a cabeça, fecha os olhos, e uma lágrima escorre por sua face. _Perderam suas jovens vidas por minha culpa...
—Hilda, eu já disse a vc. Não se culpe pelo que aconteceu. Poseidon a forçou a usar aquele anel. Não era vc realmente quem estava agindo. Não a Hilda verdadeira. Flair segura as mãos de sua irmã.
Hilda enxuga a lágrima. — Desculpe-me, Flair, por não me conter. É que sinto tantas saudades...Siegfried...Hagen...Shido...meus jovens e bravos guerreiros...mas não vamos falar de coisas tristes....
Neste momento, um soldado do palácio se aproxima das duas irmãs, toca com um joelho no chão e diz: —Perdoem-me princesas Hilda e Flair, mas o Mestre Durval está aí fora e pede permissão para falar com a senhorita, princesa Hilda.
—Durval? A essa hora? Hilda faz uma expressão de surpresa e inconformismo. —Bem, diga que entre...espero que seja breve...
—Não gosto desse homem, Hilda. Diz Flair.
—Eu também não, Flair. Quer que seu grupo de guerreiros assuma as funções e lugar que eram de Siegfried e os outros...não gosto de sua mentalidade belicista. Por ele Asgard ainda estaria em guerra com os pequenos reinos ao redor. Vamos ver o que ele quer.
Hilda se dirige a seu trono e senta-se. Flair se senta em uma cadeira próxima. Ambas aguardam a entrada de Durval. Então, o guarda do palácio adentra a sala do trono, trazendo com ele dois homens. Um de enorme estatura, trajando uma pesada túnica e o outro, mais jovem, alto também, porém não tanto quanto o mais velho, vestindo uma armadura de cor azulada, com o elmo apoiado no braço esquerdo. Os dois homens tocam com um dos joelhos no chão, em atitude de reverência.
—Mestre Durval...está um pouco tarde para uma audiência...Diz Hilda em um tom um pouco frio. — O que deseja?
—Princesa Hilda...princesa Flair...perdoem-me por incomodá-las, mas é um assunto de estado. Quero crer que a princesa Hilda tenha percebido as enormes emanações de cosmos com origem na Grécia, mais precisamente no Santuário de Athena. Pela direção de onde vinham, só poderiam vir de lá. E eram cosmos poderosíssimos, diria que pertencentes a divindades...
—Sim, Mestre Durval, eu senti esses cosmos...
—Pois bem, eu gostaria de pedir vossa permissão para enviar um de meus guerreiros à Grécia, ao Santuário de Athena, para averiguar o que possa ter acontecido. Um acontecimento dessa magnitude pode ter implicações para o nosso amado reino de Asgard...seria de todo aconselhável que tivéssemos informações precisas a respeito...
—Compreendo sua preocupação, Mestre Durval, que também é a minha, mas enviei um mensageiro ao reino de Bluegard, na Sibéria, com o fim de obter informações com o rei Pyotr e seu filho, o Mestre Alexey. Dependendo do que ele me relatar na volta, talvez então possamos enviar batedores para averiguarem o que se passa por lá. Mas só depois do retorno de meu mensageiro...
—Mas os guerreiros de Bluegard há muito se desligaram do Santuário, e mesmo de Athena, não há garantias que possam nos dar informações...
—Se assim for, então procuraremos obter informações por nós mesmos...peço que tenha paciência e aguarde a volta de meu mensageiro...
—Como queira Princesa Hilda. Peço mais uma vez perdão por incomodá-la. Com sua licença, princesas....
Durval e o guerreiro fazem reverências a Hilda e a Flair, e se retiram da sala do trono.
—Como é intrometido, Se eu quisesse partilhar com ele minhas preocupações a respeito do Santuário, eu o teria chamado. Age como se fosse meu conselheiro real. Diz Hilda com uma certa irritação.
—E vc já tem um ótimo conselheiro, não é Hilda? Diz Flair. —Frej é um cavaleiro muito digno e nobre. E sua irmã, Freja, tem um coração muito bom.
—De fato, Flair. Se algum dia eu puder reunir outros nobres guerreiros para trajarem novamente as sagradas armaduras de Asgard, Frej seria o primeiro deles. Ah, e sobre Freja, ela aceitou meu convite para ser dama da corte, no palácio Vahala. Ela vai tornar o palácio mais alegre com sua presença.
—Que ótima notícia, Hilda! Tenho certeza que vamos nos dar muito bem.
—Tenho certeza que sim Bem, vamos nos recolher, Flair. A temperatura está caindo e a noite avança. E amanhã bem cedo Freja já deve estar aqui no palácio. Precisamos dar uma boa recepção para ela.
No lado de fora do palácio, no caminho que conduz a outras localidades de Asgard, Durval e o guerreiro vão caminhando na noite fria. Um vento cortante e frio sibila por entre as árvores e casas a beira do caminho.
—Essa mulher governa como se vivesse em um conto de fadas. Não é à toa que perdeu os guerreiros na luta contra os cavaleiros de Athena. Perda de tempo ir buscar informações em Bluegard, tinha que mandar guerreiros ao Santuário de Athena para averiguarem o que aconteceu.
—Mal sabe ela que o senhor já enviou Ur para lá, Mestre Durval.
—Foi necessário, Loki. Não podemos ficar a mercê de mensageiros polidos que buscam informações no campo da diplomacia. Somos guerreiros nórdicos, guerreiros de Odin. Temos que tomar as iniciativas que forem necessárias. Alguma coisa de grandes proporções aconteceu lá na Grécia e não podemos ficar aguardando que nos dêem informações. Temos que obtê-las por nos mesmos, in loco.
Os dois asgardianos caminham e desaparecem no meio da nevasca que começa a cair sobre a mítica Asgard.
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Saori chega em uma lambretta, trazendo alguns utensílios comprados para a pequena fazenda, no vilarejo mais próximo. Ao se encaminhar para a casa, vê Seiya trabalhando na horta.
—Seiya! Diz, acenando._Comprei ancinhos novos e outras ferramentas.
—Oh, Muito bom! Diz Seiya enxugando o suor do rosto. _Essas que estou usando já estão um pouco enferrujadas, hehe.
Seiya vai em direção a Saori para ajudá-la a carregar o equipamento, mas Saori tropeça e, na iminência de cair, é segura por Seiya.
—Seiya...como conseguiu chegar aqui tão rápido? Vc estava ali na horta há poucos segundos atrás...
—Er...não sei senhorita Saori, apenas vi que a senhorita estava prestes a cair e corri para segurá-la...
Seiya percebe que segura os braços de Saori. Meio sem graça a solta.
—D-desculpe senhorita Saori...
—Não há nada a desculpar, Seiya. Saori exibe um sorriso tranqüilizador.— Se não fosse vc eu teria levado um belo tombo...
—Deixe-me levar essas ferramentas, senhorita...
Seiya segura o equipamento e segue para um pequeno galpão nos fundos da casa.
—Depois que colocar essas ferramentas no galpão, venha para a cozinha, vou preparar um lanche. Vc trabalhou duro na horta, hoje, Seiya.
—Irei em seguida, senhorita!
Após colocar as ferramentas no galpão. Seiya se dirige para a cozinha. Um aroma delicioso de café impregna o ar. Na mesa, recém-posta por Saori, queijos, pães e doces formam uma bela visão, capaz de despertar o apetite de qualquer um. Seiya lava as mãos e o rosto em uma pia próxima. Em seguida, se senta e Saori lhe serve café.
—Hummm, senhorita, esse é o melhor café que já provei até hoje, e não estou fazendo média.
Saori ri. —Prove os doces e os bolos, Seiya. São receitas antigas de família.
—Hummm...muito bom. A senhorita deveria comercializar esses doces e bolos. Venderiam muito bem nos vilarejos ao redor. Se quiser eu saio por aí vendendo para a senhorita.
—Por falar nisso, Seiya, me desculpe por não estar podendo lhe pagar, por enquanto. Mas vou começar a vender a produção de queijo e ovos e vou poder lhe dar algum dinheiro, talvez em algumas semanas...
—Por favor, senhorita Saori. Não se preocupe com isso. Eu tenho é que lhe agradecer, e muito, por permitir que eu ficasse neste lugar. Aqui é tão bonito. Me sinto tão bem ajudando-a a cuidar da fazenda.
—Mas não é justo, Seiya. E vc trabalha muito e bem, Em um dia de trabalho consertou a cerca, pintou o galpão e deixou a horta com um ótimo aspecto. Vc faz jus a um pagamento.
—Tudo bem, senhorita Saori. Mas não fique preocupada com isso. Eu não faço mesmo questão. Se quiser me pagar, faça-o, mas só quando realmente puder. Eu estou gostando muito de viver e trabalhar aqui, para a senhorita. Espero que nunca me despeça...
—Não Seiya, não vejo porque o dispensaria. Qualquer fazendeiro local gostaria de ter um ajudante como vc. Vc tem muito boa vontade e disposição para o trabalho. E, embora o tenha conhecido há pouco, sinto de alguma maneira que vc é uma pessoa muito boa...uma pessoa especial...
—Oh..o-obrigado senhorita... Seiya fica um pouco encabulado. —Err...senhrita Saori, me perdoe pela ousadia, se não quiser falar a respeito eu compreenderei...mas por que a senhorita, sendo tão bela, ainda é solteira? Não posso acreditar que não tenha tido muitos pretendentes...
Saori dá um leve sorriso e diz em um tom calmo: —Bem, Seiya, acho que não me casei pelo fato de ter cuidado de meu avô, muito idoso. Ele precisou muito de mim no fim de sua vida. Talvez se me casasse não pudesse cuidar dele adequadamente, e eu nunca me perdoaria por isso... Saori coloca o cotovelo na mesa, apóia o queixo com a mão, olha para Seiya, como se quisesse brincar com ele e diz: —Mas quem sabe, um dia, se encontrar a pessoa certa...
Seiya fica sem graça:_C-claro, tenho certeza que voc...quer dizer, que a senhorita encontrará alguém especial. E ele será uma pessoa de muita sorte
—Obrigada Seiya. Diz Saori fitando-o.
—B-bem, o lanche estava ótimo, senhorita...obrigado...agora vou terminar de fazer as proteções de pedra para a horta...se me dá licença....Seiya se levanta e sai pela porta da cozinha, que dá para a horta.
Saori também se levanta e caminha até a porta, se encosta no batente e fica observando Seiya trabalhar. Esboça um pequeno sorriso no canto da boca, como se estivesse se divertindo com o fato de Seiya ter ficado sem graça.
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Olimpo. No exuberante palácio de Artemis, as satélites, perfiladas em duas fileiras, aguardam diante do trono o momento em que a irmã de Athena passará em revista a tropa de arqueiras. A comandante do esquadrão, La Scoumoune, ajoelha-se diante do trono de Artemis.
—Princesa Artemis, o esquadrão aguarda a sua revista.
—Diga-lhes que voltem a seus postos, La Scoumoune. Eu não vou passar o
esquadrão em revista... não agora...
—M-mas princesa Artemis....
—Vc ouviu a princesa, La Scoumoune. Ordene às satélites que voltem a seus postos. Uma mulher usando um longo vestido sob uma armadura prateada que lhe cobre o tronco, vem caminhando em direção ao trono de Artemis.
—S-sim, Calisto. La Scoumoune dá ordens ao esquadrão de arqueiras, que se dispersa e, uma a uma, se dirigem a seus respectivos postos de guarda, localizados em pontos estratégios do palácio.
Calisto se ajoelha diante de Artemis. —A princesa Artemis hoje parece indisposta, quero crer...
Artemis ignora o que Calisto acabara de dizer e reage secamente: — Retire-se vc também, Calisto... quero ficar a sós por um tempo...
Mas Calisto retruca: —Princesa Artemis, preciso informar-lhe... Eolos me pediu que lhe dissesse que...Touma retornou ao Olimpo.
Artemis muda de expressão, demonstrando surpresa e interesse no que Calisto acaba de dizer: —Touma? Está de volta? Ele sobreviveu? Onde ele está?
—Foi conduzido às prisões, princesa.
Artemis faz menção de se levantar. _Por que Eolos não o trouxe à minha presença? Touma é um guerreiro subordinado a mim. Artemis demonstra agora um pouco de irritação. —Eu vou vê-lo nas prisões.
—Princesa Artemis...acho que não deveria...
—Não me importa o que vc acha, Calisto. Artemis começa a descer os degraus que conduzem ao trono.
—Calisto está certa, Artemis... vc não deveria vê-lo.
Artemis surpreende-se:— Apolo....
Apolo vem andando em direção ao trono de Artemis, na grande nave principal do palácio. —Perdoe-me por entrar em seus domínios sem pedir licença, Artemis, mas preciso falar-lhe. Apolo pára ao lado de Calisto, que permanece ajoelhada. Sem voltar seu rosto para a guerreira de Artemis, apenas dirigindo-lhe o olhar, de soslaio, faz um gesto com a mão como a indicar a Calisto que se retire. —Deixe-nos a sós, Calisto...
Calisto, visivelmente constrangida, olha para Artemis como a pedir que ratifique o que Apolo acabara de lhe ordenar. Artemis faz um movimento com a cabeça, como a dizer a Calisto que saia, efetivamente. Calisto levanta-se a sai em silêncio, com o olhar voltado para o chão.
—Artemis. Diz Apolo. —Eu quero lhe pedir desculpas pelas palavras um pouco ríspidas, que dirigi a você diante do palácio de Zeus, antes de falarmos com Hera. No entanto...percebo que a simples menção do nome de Touma a perturba...
—O que está querendo dizer, Apolo?
—Bem, é evidente que vc nutre por ele um sentimento, digamos assim, de afeição, mas além da afeição que um senhor alimenta por um guerreiro fiel... será que a deusa da caça se apaixonou por um simples...mortal?
—I-isso é tolice, Apolo... apenas deveriam tê-lo trazido à minha presença, é um guerreiro de minhas forças...
—Hum...Apolo faz uma expressão de quem não acredita que Artemis esteja sendo sincera . —Ademais... Artemis... Hera deu ordens expressas aos guardiões no sentido de que Touma, caso voltasse vivo, fosse conduzido às prisões...e não é só isso, ele trouxe um cavaleiro de Athena ao Olimpo, com ele...um delito, digamos, bem grave...
Artemis faz uma expressão de perplexidade. _Um cavaleiro de Athena???
—Aparentemente um dos dois que derrotou Theseus. Bem, Artemis, na verdade minha presença aqui se deve ao fato de que pretendo enviar à Terra, Aquiles e Perseu. Para que possam trazer os corpos de Theseus e Odysseus de volta ao Olimpo. Seus despojos devem descansar aqui, entre os heróis. Não posso negar que me perturba o fato de que ambos foram derrotados e mortos por simples... humanos, mas morreram defendendo o seu nome e a sua vontade. Achei que deveria comunicar-lhe isto. Quero saber se não se opõe...
Artemis tem uma expressão perturbada, com um olhar distante. Se senta novamente em seu trono. —Não me oponho, Apolo. De fato não é digno de guerreiros olimpianos que seus corpos fiquem ao relento, na Terra. Que Aquiles e Perseu os tragam para o Olimpo...
—Muito bem, minha irmã...Apolo se volta para o sentido contrário a Artemis, como se fosse embora. Mas pára por uns instantes e diz, sem se voltar: —Espero sinceramente que o coração de Artemis não esteja alimentando sentimentos de profunda afeição e interesse demasiado por um simples mortal...espero que o coração de Artemis não se deixe levar por fraquezas tais, que o fizessem se assemelhar ao coração de nossa irmã...Athena...
Artemis, ao ouvir isso, eleva os olhos em direção a Apolo, tendo no rosto uma expressão ainda de perturbação.Tenta balbuciar algum coisa, mas acaba se calando e apenas observa seu irmão se afastar.
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