O Olho de Jade
8 Shae
Shae se arrependeu de ter convidado uma estranha para dormir em sua casa quando acordou e não encontrou a ruiva no quarto. Ela amaldiçoou Ely e a si mesma centenas de vezes por aquilo. Provavelmente havia sido o pior erro de sua vida, naquele mesmo instante sua mãe poderia estar morta e sua casa inteira ter sido saqueada, não que tivesse algo realmente de valor lá.
Finalmente relaxou quando chegou a cozinha e viu Eve sentada à mesa, saboreando uma fatia do pão do dia anterior. Quando a viu, a garota ruiva a encarou de forma horrorizada novamente, Shae quase perguntou por que ela sempre fazia isso, a curiosidade a estava corroendo por dentro, além disso a incomodar.
— Me desculpe — a outra finalmente respondeu. — Estava com fome e não quis te acordar, peguei algumas coisas na despensa. Espero que não se incomode.
— Tudo bem. — Ela lançou um olhar apressado para a porta do quarto da mãe. — E onde está minha mãe?
— Acho que ainda não acordou — Eve respondeu enquanto engolia um pedaço do pão. — Pelo menos eu não a vi.
— Tudo bem então. — Pegou um pedaço de pão para si mesma, estava um pouco duro, mas não impossível de comer.
Elas permaneceram em silêncio, não havia muito mais o que dizer. Shae ainda se sentia estranha com relação a outra garota, tinha a impressão de que ela escondia algo. Não tinha muita certeza a respeito daquela história sobre visões, Shae pesquisara muito sobre magia e desejava muito que existisse, mas não acreditava.
Se Eve fosse realmente um oráculo, então talvez ela tivesse uma carta na manga. Com alguém que podia prever o futuro ao seu lado ela finalmente teria a chance de conquistar o reino e vingar a morte de seu pai. Eve havia dito que não era ela quem escolhia as visões e nem quando elas vinham, mas ela também poderia estar escondendo de Shae.
A porta do quarto de sua mãe se abriu e a mulher saiu com passos arrastados.
— Quem é essa? — disse apontando para Eve.
— É Eve, uma amiga minha — respondeu, hesitante.
— Eu não quero ninguém aqui.
— Ela não tem para onde ir. — Shae se levantou, pronta para discutir novamente.
— Não me importo com isso, não a conheço, não a quero na minha casa.
— Ela fica! — Ergueu o tom de voz.
— Se eu estiver incomodando, posso ir embora. — A voz de Eve estava baixa.
— Que bom que compreende. — Cassie suavizou a expressão e começou a preparar um pouco de café.
— Não precisa, Eve. Ela vai me ajudar naquilo, mãe.
— Mais um motivo para eu não querer que ela fique! Não te apoio nessa história, Shae. Você sabe que é loucura.
— Eu vou te ajudar no que? — Eve estava perdida.
— Não vou discutir isso de novo. Venha Eve, vou te explicar algumas coisas sobre mim.
Esperou que a outra se levantasse e saiu da casa. Tinha decidido que a partir dali não discutiria mais com a mãe sobre aquele assunto. Elas tinham voltado a se falar depois da casa ser invadida e Shae havia percebido o quão se sentiria mal se algo acontecesse com a mãe enquanto estavam brigadas. Ela não queria passar por isso.
— E então? — Eve a tirou de seus devaneios.
— Então o que?
— Você disse que eu te ajudaria em algo e que me explicaria algumas coisas, e então?
— Certo. — Ela se preparou mentalmente para aquilo, não era uma conversa fácil, remexer no passado nunca era. Mas sempre fora algo necessário, ela sempre fazia aquilo quando falava com a mãe, ela fizera aquilo pouco depois de conhecer Ely e precisava fazer isso novamente, agora. — Como posso começar?
Chutou uma pedrinha que estava na rua antes de começar a falar.
— Eu nem sempre morei no Terceiro Reino. Eu nasci no Primeiro Reino, eu vivia com meus pais e meu irmão mais novo, Petter. — Ela observou a expressão confusa de Eve. — É, você percebeu que eles não estavam em casa. A verdade é, que quando eu tinha apenas doze anos o rei mandou assassinarem meu pai. — Sua garganta secou enquanto ela relembrava a cena. — Meu pai e meu irmão foram mortos na minha frente, eu vi o sangue deles molhar o tapete da minha sala, eu estava lá quando deram seu último suspiro.
Parou um instante para respirar e impedir que as lágrimas saíssem. Não conseguia falar sobre isso sem chorar, era algo que precisava aprender se quisesse ter sucesso em sua vingança.
— Depois disso eu e minha mãe viemos para o Terceiro Reino, foi aí que perdemos todo nosso dinheiro. Ela não quer mais saber dessa história, já eu não consigo esquecer. É por isso que brigamos tanto, eu quero vingança! Eu quero tomar o Primeiro Reino para mim e, mais do que isso, que matar o rei Tobias com minhas próprias mãos e ainda fazê-lo assistir a morte de seus filhos e de sua mulher.
A outra garota ficou sem reação. Parecia estar paralisada.
— Você está bem? Você sempre parece assustada quando me vê.
Eve balançou a cabeça, fazendo os cabelos rodopiarem ao seu redor, como labaredas de fogo.
— Estou. Só é... uma história complicada. Eu sinto muito pelo seu pai e seu irmão. Nem sei o que dizer, mas não ainda não entendi no que posso te ajudar.
— Quero que me ajude na minha vingança. — Ela estava ficando entusiasmada, planejara essa vingança há anos, mas nunca ficara tão animada com uma parte dela como com a ideia de usar as visões de Eve. — Com você ao meu lado posso ir muito mais longe, com suas visões será muito mais fácil, mais seguro.
A pele de Eve estava pálida, quase esverdeada. Shae tinha que admitir, aquela garota era muito estranha e definitivamente estava escondendo algo.
— Não posso fazer isso. — Ela parecia cada vez mais assustada, Shae não via motivos para isso. Uma vingança não era algo visto com bons olhos por muitos, mas não era coisa de outro mundo.
— Por quê?
— Eu só não posso, não me peça para fazer esse tipo de coisa.
Não, ela não podia negar o pedido de Shae. Ela não deixaria isso, nada a impediria de chegar ao seu objetivo e ela faria o que fosse necessário para conseguir as visões de Eve. Começou a se aproximar mais, tentando intimidar.
— Você não tinha lugar para ir e eu te ajudei. Ofereci minha casa, minha comida que, vou ressaltar, não é muita e ainda briguei com a minha mãe por causa disso. Não sei direito o que você fez, mas sei que foi algo errado e está sendo caçada por isso, estou te oferecendo abrigo, mas posso fazer com que te encontrem e acho que você não quer isso.
— Não faça isso comigo, Shae. Não tente me obrigar a fazer algo que não quero.— Era um pouco mais baixa que Shae e, portanto, a olhava de baixo para cima.
— Não estou te obrigando. Estou te dando escolhas.
— E eu estou escolhendo não te ajudar.
— Por favor, Eve. —Tentou mudar a abordagem.
— Não tente me agradar agora, você já mostrou quem é e eu prefiro não me envolver com pessoas assim.
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