O Olho de Jade
38 Shae
Notas iniciais
A viagem para o Primeiro Reino pareceu rápida em relação as outras. As duas garotas passaram a maior parte do tempo tentando montar um plano que as levasse até o rei, mas cada nova estratégia parecia pior que a anterior. Eve teve alguns desmaios e ataques ao ter suas visões e nesses momentos, Shae procurava se manter afastada, nunca sabia o que fazer quando percebia que a outra estava vendo sua morte. Mas sempre tentava tranquiliza-la depois, mesmo que ela sentisse que precisava de alguém para tranquilizar a si mesma.
Depois de desembarcarem do navio, elas pegaram uma carruagem para leva-las até Leygh. Dessa vez demoraram dez dias, por algum motivo, as estradas estavam lotadas de outras carruagens e viajantes a cavalo.
Em certo momento, Shae reclamou disso:
— Desse jeito não vamos chegar nunca, por que há tantas pessoas?
— Estão indo à Leygh para o Festival das Estrelas — uma das damas que dividiam a carruagem respondeu.
Festival das Estrelas? Shae se lembrava vagamente de algo assim.
— Festival das Estrelas? — Eve perguntou.
— Vocês não são do Primeiro Reino, não é? É um dos maiores festivais do reino, vem gente de todo lugar para ver. É uma noite em que as estrelas correm pelo céu e, segundo lendas, realizam os desejos. Nesse dia o reino inteiro festeja e faz pedidos a noite enquanto as comemorações continuam. Leygh possui a maior das festas, tanto nas ruas quanto no castelo.
Essa conversa havia começado a dar ideias para Shae, se todos, inclusive as pessoas do castelo, estivessem ocupados com o Festival, talvez elas tivessem uma chance. Mas ainda não fazia ideia de como se aproximar.
Quando finalmente chegaram à cidade, foram para o chalé que haviam alugado da outra vez, na esperança de que estivesse vazio novamente e pudessem falar com o proprietário.
A porta encontrava-se destrancada, o que fez Shae entrar apesar das advertências de Eve.
— Entre logo, não tem ninguém aqui — ela chamou a outra garota, mas parou quando ouviu passos atrás de si.
— Como assim não tem ninguém aqui?
Shae sabia que reconhecia aquela voz, era tão familiar que a fez prender a respiração e ela não conseguiu pensar em mais nada. Se virou, pronta para encarar aqueles olhos cinza que sempre a confortaram e, por um momento, teve medo de que não passasse de um sonho.
Correu para abraçar Ely.
— O que faz aqui?
Ele acariciou seus cabelos e a beijou.
— Vim encontrá-la.
— Como sabia que eu estaria aqui?
Ele sorriu.
— Isso importa? O que importa é que estamos juntos de novo e eu vou te ajudar a fazer o que você precisa fazer. — Ele finalmente pareceu perceber a outra garota parada ao lado da porta. — Bom te ver de novo, Eve.
— Digo o mesmo, Ely. — Shae ouviu a outra responder, mas dadas as circunstâncias não tinha certeza se ela estava sendo verdadeira.
— Então, qual o plano? — Ele se sentou numa das poltronas, só então se afastando da namorada.
— Nós ainda não temos — ela admitiu.
— Que ótimo. — Ely sorriu. — Porque eu tenho.
Por mais que estivesse com saudades, Shae tentou se manter afastada de Ely para que Eve não fosse obrigada a ver os dois juntos o tempo todo. Mas isso não a impediu de admira-lo enquanto ele explicava tão bem um plano que só ele mesmo poderia ter feito.
— Daqui três dias — ele fez o número com a mão — será o Festival das Estrelas. O rei quer tudo em ordem para a festa, todos os dias chegam dezenas de novos funcionários no palácio, camareiras, cozinheiras, jardineiros... E nós seremos esses novos funcionários.
— Mas como vamos conseguir isso? — Eve interrompeu. — Eu e Shae já fomos presas, vão nos reconhecer e tenho certeza que não podemos só chegar lá e entrar.
— Por mais que tenham visto os seus rostos, garanto que ninguém realmente os guardou, fiquem tranquilas, ninguém vai reconhecer vocês. Além disso, eu conheci alguém que está organizando esses criados para o rei, eu disse que precisava de um emprego e que algumas amigas precisariam também. Nós vamos conseguir.
— E depois que entrarmos? — Shae já conseguia sentir o nervosismo se apoderando dela, estava ansiosa.
— Vamos ser os criados da festa, mas a noite, minha querida, você terá a sua oportunidade.
[...]
Três dias.
Apenas três dias.
Era tudo o que Shae precisava aguentar para finalmente cumprir seu destino, tanto o que impôs a si mesma quanto ao que os deuses escolheram.
As duas garotas aproveitaram o primeiro dia para descansar e entender melhor o plano de Ely. Fizeram questão de decorar cada mínima parte e fazer as alterações que acharam necessárias, ao fim do dia todos estavam com a certeza de que nada poderia dar errado.
No segundo dia, foram conhecer a mulher de quem Ely havia comentado. Era uma senhora magra e de olhar severo, mas que as tratou com muita delicadeza e assumiu que elas fariam um ótimo trabalho a serviço do rei.
Pegaram seus uniformes e voltaram para o chalé, não tinham muito o que fazer e Shae decidiu que precisava passar um tempo com Ely, aqueles poderiam ser seus últimos dias.
Primeiro mostrou a Invocadora de Almas para ele e contou tudo o que sabia sobre ela. Apesar da visível preocupação em seu rosto, ela percebeu certa admiração.
Shae acreditava que esse era o momento para contar a Ely o que aconteceria com ela se seus planos dessem certo, porém não conseguiu. As palavras ficaram presas em sua garganta ao pensar em como ele ficaria devastado ao vê-la morrer. Sabia que ele jamais a deixaria seguir com o plano se soubesse o que aconteceria, então preferiu continuar a esconder, mas, naquele momento, ela tomou uma decisão que achou mais importante ainda.
— Acho que devemos mudar os planos, Ely, você não deve vir comigo.
— Por quê?
Ela não podia dizer que não queria que ele a visse morrer, ela sabia que jamais contaria aquilo e, ao mesmo tempo, desejava que o pudesse fazer, pois arrumar uma desculpa não era fácil.
— É perigoso, Ely. Eu já te contei o que aconteceu da outra vez, dessa pode ser pior. Você tem que voltar para casa e cuidar de Anna.
— Você acha que eu viria até aqui se Anna não estivesse melhor? Eu não queria abandona-la, mas também não podia abandonar você. Você também tem sua família e está arriscando tudo...
Shae segurou suas mãos e o impediu de continuar.
— Eu estou arriscando tudo, Ely, porque é algo importante para mim, mas não há razão para você continuar.
— Você é importante para mim, Shae! E se isso é importante para você também é para mim.
Ela soltou suas mãos.
— Eu... Eu não quero que você vá comigo. — Apesar das palavras, ela queria, sabia que se sentiria muito mais segura com Ely ao seu lado.
Shae voltou para dentro do chalé, passando por Eve no caminho.
— Você contou? — a ruiva perguntou.
Shae apenas balançou a cabeça.
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