O Olho de Jade
36 Shae
Quando Liam saiu do quarto de Eve, Shae pensou em entrar em seu lugar, mas a outra garota fechou a porta novamente. Aparentemente, ela não era bem-vinda ali.
Não que a culpasse por isso: depois de todas as brigas das duas, depois do que tinha dito, se ela fosse Eve, também não iria tê-la como principal escolha para pedir conselhos naquele momento.
Ainda assim, ela sentia que poderia estar fazendo mais. Em determinado momento, foi até a cozinha com a desculpa de precisar beber água, na verdade pretendia preparar uma refeição para a família que, contra a vontade ou não, a estava abrigando, porém foi surpreendida por três empregadas que a impediram de continuar no recinto. Depois disso, desistiu.
Como ficar no quarto parecia uma opção melhor do que passar o resto do dia encarando os pais de Eve, ela se decidiu por isso.
Enquanto Lorde Elias contava a verdade por trás do abandono de Eve para Liam, ela havia tentado escutar algumas partes da conversa. Bem, talvez mais do que apenas algumas partes... De qualquer forma, agora entendia os motivos por trás das ações, que ela sempre julgara, daquela família.
Agora, esperava, Eve não precisaria mais sofrer pensando que havia sido rejeitada. O problema é que o oráculo não poderia mais ficar na casa de sua família. Apesar de tudo, ela se preocupava com o que aconteceria com a outra garota.
Pensou em convidá-la novamente para acompanhá-la, mas será que estava mesmo pronta para abandonar suas mágoas? Ou era algo passageiro e assim que pusessem os pés na estrada ela se lembraria de tudo e jogaria as coisas que a incomodavam de volta em Eve?
Ela não podia tomar decisões precipitadas, tomara uma vez e as consequências tinham chegado. Não cometeria outro erro.
Mas seria Eve um erro? Claro, ela a havia afastado de seus objetivos no último segundo, mas a tinha ajudado durante todo o percurso e não se podia dizer que suas ações eram totalmente injustificadas.
Vozes vindas do andar de baixo chegaram aos seus ouvidos e a despertaram de seus pensamentos. Primeiro ela achou que apenas Liam havia voltado de onde quer que tivesse ido, porém percebeu vozes desconhecidas em meio as conversas.
Ficou indecisa se deveria ou não descer, mas, no fim, a curiosidade falou mais alto.
Dois homens altos e iguais estavam parados na soleira da porta da sala, rindo enquanto bebiam taças de vinho. Ambos tinham cabelos castanhos. A única diferença entre os dois parecia estar nas roupas, já que o da esquerda se vestia ligeiramente melhor que o da direita.
Sentadas nas poltronas estavam duas mulheres, que conversavam alegremente com Lady Charlotte. Estas eram bem diferentes uma da outra: a que estava mais próxima da escada, onde Shae se encontrava, possuía cabelos dourados presos em um coque e vestia-se formalmente. Os cabelos da outra eram lisos e escuros, tinha uma postura reta e parecia mais alta que a outra.
Lady Charlotte acenou para que Shae se aproximasse, apesar de corresponder ao gesto, imaginou que se tratava apenas de uma cortesia.
— Essas são minhas noras Danielle e Christine. — Charlotte apontou para as mulheres.
— Muito prazer. — Shae acenou. — Sou Shae, uma amiga de Eve.
— O prazer é nosso — respondeu, sorrindo, a que parecia ser Danielle. — Estamos ansiosas para conhecer Eve.
Parecia estranho que Eve não conhecesse as próprias cunhadas, mas era o mais provável, já que ela tinha saído de casa aos doze anos.
— Tenho certeza que vão gostar muito dela, ela tem sido uma amiga excepcional pra mim. — Por um momento ela pensou se excepcional seria a palavra certa para descrever Eve, depois de tudo. Mas as palavras que usava naquele momento não faziam, ou não deveriam fazer, tanta diferença.
Duas crianças, um garotinho e uma garotinha, passaram correndo e saíram para o jardim. Ele tinha cabelos loiros, enquanto os da garota eram castanhos, mas era inegável, pelas faces, que eram irmãos.
— São meus filhos — Danielle admitiu, ainda encarando as crianças.
Shae olhou para o teto, por que Eve não estava ali ainda? Rever os irmãos, conhecer as noras e os sobrinhos... Tudo isso parecia importante.
Quando Danielle se levantou e foi ajudar o menininho que acabara de cair, Shae pensou em sua própria mãe. A quanto tempo não pensava nela? A relação das duas não estava tão boa quando ela saiu de casa.
Se fechasse os olhos ainda podia ver, com clareza, os traços do rosto da mãe e, se esforçasse mais, ainda a ouvia reclamando sobre a partida da filha.
Durante todo esse tempo, não tinha se permitido pensar nela, mas agora tinha de admitir que estava com saudades. Passou a se perguntar se tentar sufocar esse tipo de sentimento era realmente melhor. Ela não tinha dificuldades em assumir o quanto sentia a falta de Kaylan, mas quando a questão era sua mãe, as coisas complicavam.
Ela não queria assumir por que sempre julgara que a mulher agira de forma errada, mas observando a situação de Eve e sua família ela tinha percebido que as coisas nem sempre ficavam claras para todos.
O pior, ela percebia, era que se a visão de Eve se concretizasse, ela morreria sem poder dar um último abraço na mãe, sem se despedir e dizer o quanto realmente a amava, sem pedir desculpas pela forma como tinha agido todos esses anos.
— Está tudo bem, Shae? — Christine perguntou, a voz amável e o tom preocupado.
— Sim, eu vou chamar Eve.
Decidiu então que, se um milagre a fizesse sobreviver, assim que conquistasse o trono, iria buscar a mãe no Terceiro Reino e se desculpar.
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