Notas iniciais
Eu sei que sumi e fiquei um ano sem postar a história, mas agora eu voltei! Nesse tempo que não apareci eu consegui terminar e editar a história, então agora ela vai sair muito mais rápido: vou postar capítulos 3 vezes na semana (no domingo, na quarta e na sexta). Os capítulos postados anteriormente passaram por uma revisão, mas quem já leu não precisa ler de novo, só alguns detalhes foram alterados que não fazem diferença pro andamento da história, o que mais foi mexido mesmo foram os erros na escrita. Eu também fiz essa capa nova, espero que vocês tenham gostado dela (não chama tanta atenção quanto a outra, mas acho que combina bem mais). Boa leitura!

As duas garotas saíram da pousada logo depois do almoço. Arrumaram todas as suas coisas e pagaram tudo o que deviam. Shae tinha certeza que conseguiriam sair do Quarto Reino antes do anoitecer.

— Eu não acho que foi uma boa ideia perder a reserva desses quartos. — Eve estava sendo pessimista, como sempre.

— Não vamos precisar usa-los nunca mais.

— Espero que você esteja certa.

A outra garota tentava permanecer com um sorriso no rosto, Shae percebeu, mas ela sabia que a ruiva estava travando uma batalha interna em sua mente. Não podia culpa-la, provavelmente estaria em uma situação bem pior se soubesse que em pouco tempo enlouqueceria.

Acreditava que o pedido que Eve havia feito mais cedo era o início de sua loucura, mas tentou não preocupa-la ainda mais com isso. No fim das contas, tudo daria certo.

Elas já haviam conseguido pegar a Invocadora de Almas, o que era um grande avanço. Shae estava mais feliz sobre isso do que conseguia expressar. Quando usara a espada, na noite anterior, sentira um poder ancestral correndo em suas veias, jamais se sentira tão bem, tão forte e tão poderosa como naquele momento. Em segredo, ansiava por poder usá-la de novo para se sentir assim mais uma vez. Mas não podia perder seu tempo com isso, sabia que quando a usasse contra o rei Tobias sentiria uma satisfação maior ainda.

— Cuidado! — Eve gritou enquanto três moleques corriam em direção a Shae.

Ela tentou desviar para a esquerda, mas um deles trombou de frente com ela. Enquanto ela se recuperava da queda o garoto pegou algo no chão e voltou a correr, desaparecendo por uma das travessas da rua.

— O que foi isso? — Ela aceitou a ajuda de Eve para se levantar.

— Acho que acabamos de ser roubadas. — A ruiva continuou olhando na direção por onde o garoto havia sumido.

Eve estava certa, a bolsinha de couro com o dinheiro de Shae havia sumido.

— Pragas! É isso que essas crianças são, mas quando eu as encontrar elas vão implorar por suas vidas. — Sua mão esquerda tocou na espada que havia sido colocada na bainha improvisada que ela tinha feito na noite anterior.

— São apenas crianças, Shae.

— São ladrões! Por causa deles nunca mais sairemos daqui, Eve. Precisamos de dinheiro para conseguir um navio. — Raiva e frustração se misturavam dentro dela. Como tinha deixado que levassem seu dinheiro tão facilmente...

Eve observava a própria espada, a que Stev abandonara na noite anterior. Por fim voltou a encarar Shae.

— Vamos dar outro jeito, o que não vamos fazer é matar crianças famintas. Venha, acho que podemos vender essa coisa.

— Não vamos vender uma espada, pode ser útil. — Eve podia ser muitas coisas, mas definitivamente não era preparada para ir atrás de uma vingança.

— O que você sugere então?

Shae começou a olhar ao redor, o que poderiam fazer?

[...]

Grande ideia ela tinha tido! Uma taberna. O que estava pensando quando sugeriu isso?

Eve ficara com a parte fácil, estava escondida atrás do balcão, lavando copos e pratos, mas ela ficara encarregada de servir mesas cheias de bêbados pegajosos.

E para piorar a situação havia sido colocada num uniforme ridículo que mostrava mais do que ela gostaria de seus seios. Se sentia desconfortável com o tecido que apertava sua barriga e a saia escura fedia.

Colocou mais uma caneca de cerveja em uma mesa. Um dos homens sentados agarrou seu braço.

— Não gostaria de se sentar com a gente, gracinha?

Ele abriu um sorriso e Shae não pode deixar de deparar em seus dentes tortos e escuros de fumo.

— Desculpe, estou trabalhando. — Ela tentou se soltar, mas o homem continuava a segurando.

— Garanto que seu chefe não vai se importar se em troca dermos uns trocados pra ele. — Ele lançou um olhar para o homem careca que havia oferecido o serviço para Shae.

— Desculpe, realmente não posso. — Ela puxou mais uma vez o braço, forte dessa vez, sem se importar se seria grosseiro ou não.

Ela começou a se afastar enquanto sentia uma mão sendo passada em sua bunda. Andou mais rápido, usando as outras mesas para aumentar sua distância entre aqueles caras, enquanto eles soltavam altas gargalhadas e zombavam dela.

— O que houve? Você está pálida. — Eve observou quando ela chegou ao balcão.

Shae tinha vontade de vomitar. Acontecesse o que acontecesse não voltaria a servir aquela mesa.

— Ossos do ofício. — Ela estava rangendo os dentes.

— Se quiser, podemos ir embora.

Ela queria muito sair dali, mas queria ainda mais o dinheiro. Precisavam conseguir o suficiente para encontrar um navio para o Primeiro Reino. Respirou fundo.

— Está tudo bem.

— Certeza?

— Absoluta. — Ela se forçou a sorrir.

Continuou a tarde toda servindo mesas e quando anoiteceu também. Ela e Shae haviam pego vários turnos para ganhar o máximo de dinheiro possível. Era uma sorte que o dono da taberna estivesse desesperado atrás de pessoas para trabalhar, apesar de depois de ver como as coisas eram ali, Shae não estava muito surpresa com isso. Tinham deixado claro que não sabiam se voltariam para trabalhar no dia seguinte, tudo dependia se teriam dinheiro o suficiente para sair do reino.

Já estava escuro demais e elas precisavam sair dali logo. Estando sem dinheiro elas jamais conseguiriam um quarto para dormir e agora ela temia que também não conseguissem por ser tarde demais.

Shae finalmente se livrou do uniforme horroroso e voltou para suas roupas antigas.

Eve já estava recebendo o dinheiro quando ela voltou para o balcão.

— Vamos? — Ela disse balançando a bolsinha de couro.

Shae pegou as bolsas com seus pertences — incluindo as espadas, muito bem enroladas em panos e escondidas — e as duas saíram dali.

— Espero nunca mais ter que voltar — confidenciou.

— Também espero que não, mas não acredito que vamos conseguir um navio apenas com esse dinheiro.

A noite estava sem estrelas e o brilho da Lua fraco, quase como se estivesse refletindo o humor de Shae. Ela sentia uma presença estranha ali, como se alguém as estivesse seguindo. Ao olhar para trás viu uma figura se aproximando.

— Por aqui. — Ela puxou Eve para um beco.

Estavam prontas para começar a correr quando deram de cara com uma parede. Sem saída. A essa altura o homem também já tinha entrado no beco. Estava há uns cinco metros delas e outros dois caras também se aproximavam.

— E agora que não está trabalhando, pode passar um tempo com a gente? — Ele sorriu e ela o reconheceu como sendo o estranho da taberna.

— Ainda estou ocupada. — Não pediu desculpas dessa vez, falava de forma firme, mas não sabia se isso adiantaria alguma coisa.

— Ora, ora. A vadia ainda acha que pode dizer não para mim. — Ele começou a mexer no cinto, como se fosse tirá-lo, enquanto os homens ao seu lado sacaram facas. — Vamos ver o que você pode fazer quando não há ninguém olhando e ninguém para te proteger.

Ela lançou um olhar para Eve. Ela podia ver o ódio borbulhando dentro da garota, mas também o medo que ela sentia, o medo de Eve era o mesmo de Shae.

Estava aterrorizada, queria correr e chorar. Se esconder no canto mais próximo, mas não havia para onde correr e muito menos se esconder. Eram três caras e elas apenas duas garotas. Mas elas tinham algo que eles não tinham.

— Use. — Ela ouviu Eve sussurrar.

— Não preciso de ninguém para me proteger. — Com um movimento rápido ela abriu a bolsa e puxou a espada de lá de dentro. Os panos caíram no chão sujo e lá ficaram enquanto ela já se posicionava.

Suas mãos tremiam enquanto ela segurava o cabo da Invocadora.

Ela ouviu um estrondo e por um momento quase deixou cair a espada. Uma lata de lixo passou voando pelo beco e acertou a cabeça de um dos homens. O que estava acontecendo? Ela ainda não tinha feito nada.

Então cinco homens vestidos de azul entraram e começaram a bater nos outros dois que ainda estavam em pé, eles não tiveram chance para ver o que estava acontecendo. O homem que tirara o cinto havia levado tantos socos na cara que esta estava toda inchada. O outro havia perdido a faca e agora possuía um talho no peito.

— Vocês estão bem? — o homem que se poderia dizer como líder perguntou para as duas enquanto tirava seu chapéu de capitão da cabeça e voltava a colocar.

— Sim. — A voz de Eve estava quase inaudível.

O olhar do homem recaiu sobre Shae e se demorou um pouco.

— Eles não tocaram em vocês?

Ela voltou a guardar a espada na bolsa e se ajeitou.

— Não. Obrigada, vocês nos salvaram.

— Não foi nada. Eu sou o Capitão Erickson, parece que estávamos passando aqui na hora certa.

— Sim, bem na hora certa. — Eve parecia desconfiada, mas Shae não ligou, aqueles homens tinham acabado de salva-las.

— Seria apropriado leva-las para uma refeição? Vocês parecem cansadas.

Eve olhou para baixo, como se estivesse respondendo ao capitão, seu estômago roncou de forma que todos puderam ouvir.

— Acho que isso é um sim, acompanhem-me. — Ele fez um gesto para que elas o seguissem e saiu do beco.

Assim que Shae começou a andar, Eve segurou em seu braço.

— Não acho que seja uma boa ideia.

— Erickson acabou de nos salvar e ele é um capitão! Deve ter um navio, é claro que é uma boa ideia. — Ela voltou a segui-lo e Eve veio atrás.

[...]

O restaurante escolhido pelo capitão era aconchegante. Tudo ali parecia ter sido feito de madeira, das mesas ao piso.

O pato que escolheram era a coisa mais saborosa que ela provava em anos.

— Isso está muito bom.

— Esse é um dos meus lugares preferidos do Quarto Reino, apesar de não ser muito famoso, a comida é magnifica. — Erickson bebeu um gole de vinho. — E a bebida que servem também não fica para trás.

— É tudo incrível aqui. — Ela esperou um tempo e então foi ao assunto que pretendia desde o começo. — Então o senhor é um capitão?

Pelo canto do olho ela viu Eve revirar os próprios olhos. Teve que se segurar para não demonstrar que tinha ficado incomodada com aquilo.

— Sim. E esses são alguns dos membros da minha tripulação. — Ele apontou para os outros quatro homens que comiam com eles.

Os homens assentiram.

— Vocês chegaram ao Quarto Reino há muito tempo? — Shae perguntou.

O Capitão pareceu pensar por um momento.

— Um pouco mais de uma semana, eu acho. Viemos buscar um carregamento de vinho, mas já estamos indo embora.

— Ah sim, também chegamos a pouco tempo. Agora estamos a procura de uma forma de ir para o Primeiro Reino. — Ela tentou falar como se não tivesse importância.

Novamente reparou em Eve, a garota tinha fechado os olhos como se Shae tivesse feito algo estúpido. Por que Eve não podia confiar nela só por um momento? Erickson soltou uma gargalhada.

— Parece que realmente foi o destino que nos mandou passar por aquela rua. Também estamos indo para o Primeiro Reino, já que tudo aconteceu dessa forma, ficaríamos felizes em levá-las conosco.

— Acho que isso seria se aproveitar demais dos senhores. — A voz de Eve estava tranquila.

Ela teve que se segurar para não virar um tapa nela ali mesmo, estava recusando uma viagem para o Primeiro Reino de graça?

— De forma alguma. Ficaríamos felizes com a presença de vocês em nosso navio.

— Sendo assim, nós aceitamos. — Ela lançou um sorriso vitorioso para Eve.

— Partiremos amanhã de manhã, onde vocês estão morando? Se me disserem passo lá para busca-las.

Shae terminou sua comida e se apoiou mais na cadeira.

— Perdemos nosso quarto. Ainda não achamos um lugar para passar essa noite.

— Não podem passar essa noite na rua, eventos como o de mais cedo podem se repetir. Venham conosco. — Ele tirou várias moedas de prata do bolso e deixou sobre a mesa. Se levantou. — Tenho certeza que vamos conseguir um quarto para vocês na hospedaria onde estamos.

Shae se levantou também e Eve não teve escolha a não ser segui-los, ainda estava de cara amarrada.

Shae e Erickson conversaram o caminho todo, ele estava feliz em falar sobre todos os compartimentos de seu navio e ela fingia prestar atenção enquanto na verdade pensava na sorte que haviam tido.

A hospedaria não era muito longe do restaurante e em pouco tempo chegaram. Erickson parecia conhecido ali, porque precisou apenas gritar um pouco e conseguiu um quarto para as duas garotas.

— Obrigada, se me dão licença, já vou subir. — Eve foi para o quarto assim que pegaram a chave.

— Eu peço desculpas, ela não está tendo um dia bom.

— Depois do que vocês passaram, eu também não estaria no melhor dos humores. — Erickson não parecia se incomodar com o comportamento de Eve.

— Acho que eu também vou subir, preciso ver o que está acontecendo.

— Então, boa noite, senhorita Shae.

— Boa noite, capitão!

Ela subiu os dois lances de escadas e seguiu ao final do corredor, quarto 23.

Havia duas camas, dois guarda-roupas e dois criado-mudos. Eve estava jogada em uma das camas.

— Por que está agindo assim? — ela quase gritou assim que fechou a porta.

— Eu estou agindo assim? — Eve cruzou os braços e começou a imitar a voz de Shae. — “Eu ficaria agradecida, capitão”, “me dê comida, capitão”, “me dê um quarto, capitão”, “capitão, capitão, capitão”. Gostou tanto assim dele? Quer se casar com ele?

De fato, o capitão era um homem bonito, Shae tinha que admitir. E não devia ter mais que vinte e sete anos. Com sua pele bronzeada e seu sorriso encantador, Shae poderia muito bem ter uma queda por ele, mas havia um problema.

— O quê? Você está louca? Sabe que amo Ely!

— Então se comporte como uma menina que possuí um namorado e não fique assim com um estranho.

— Por que está agindo assim? — Shae se jogou na outra cama.

Eve finalmente pareceu se acalmar.

— Cersey disse que não devíamos confiar em ninguém.

— Então você prefere acreditar em uma deusa que te condenou a ficar louca do que em um homem que acabou de salvar sua vida.

— Nós duas sabemos que ele não precisava ter salvo nossa vida, Shae.

— Mas ele não sabia disso.

— Eu não gosto dele. Não confio.

Ela queria gritar com Eve e pedir para que ela parasse de ser assim por um momento. Se odiava por ter chamado alguém tão diferente para ajudá-la.

— Não estou pedindo que confie nele ou que goste dele, mas melhore essa cara e finja que gosta. Pelo menos seja educada. Você sabe o quanto isso pode nos ajudar, Eve.

— Tudo bem. Boa noite. — A outra garota apagou se virou para o outro lado, mostrando que a conversa estava encerrada.

Shae ficou olhando para a parede escura. Dessa vez não estava animada pelo dia seguinte. Agora que tinha deitado a cabeça no travesseiro parecia que tudo estava desmoronando e apesar do progresso que haviam feito, sua vingança parecia cada vez mais longe.

Sentiu uma vontade de chorar. Nunca havia tido tanto medo quanto tivera aquele dia. A não ser quando viu o pai e o irmão morrerem.

Se sentiu por um momento suja, ainda sentia os olhos daquele homem sobre si, lembrava-se do bafo de cerveja dele de quando a segurou na taberna.

Shae arrastou sua bolsa para o banheiro, preparada para tomar o banho mais demorado de sua vida.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo.