Abrir a porta e ver Eve parada dizendo que a ajudaria realmente era a última coisa que Shae esperava. Inicialmente pensou que a oferta de ajuda na verdade fosse apenas uma forma de conseguir abrigo da chuva, mas logo o interesse de Eve sobre seus planos se tornou evidente.

Shae ainda estava ressentida pela briga de mais cedo, mas não deixaria isso impedir que ela usasse as visões de Eve em seu próprio benefício.

Após Eve tomar um banho e vestir roupas secas as duas se reuniram no quarto, Shae havia tirado toda sua pesquisa do esconderijo secreto.

— E essa é a planta do castelo — ela disse enquanto jogava algumas folhas cheias de linhas. — Esse é um mapa da cidade. Tracei em ambos uma rota para entrarmos sem sermos vistas.

— E qual é exatamente o seu plano para tomar o castelo?

— É simples: — Shae colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto explicava. — Entramos, matamos a família real, o trono é meu!

Eve ficou em silêncio por um tempo.

— Você é estúpida?! — ela finalmente gritou. — Quer mesmo que eu te ajude num plano ridículo como esse que vai resultar apenas na nossa morte?

— Não é ridículo. — Ela ficou magoada, era o único jeito de conseguir o que queria.

— Então você acha mesmo que depois que você matar toda a família real, se você conseguir, o exército real, o Segundo, Terceiro e Quarto Reino vão simplesmente aceitar que você governe? Você sabe como é difícil controlar um reino?

— Se eu matar o rei, o trono é meu por direito. É óbvio. — Ela não queria ouvir as críticas de Eve.

— De onde tirou essa ideia? Matar o rei é traição. Não estamos numa guerra.

A expressão de Shae endureceu, talvez Eve realmente só estivesse procurando um abrigo, se ela não pretendia levar seus planos a sério, aquele não era um lugar para ela.

— Para mim é. Toda minha vida é em função de uma batalha contra o rei. Não venha dizer o que é e o que não é se você chegou apenas agora na história. Vou dizer a verdade, Eve. Eu pedi sua ajuda, sim, mas se não está interessada nisso é só falar, você passa a noite aqui e amanhã vai embora. Só não vou admitir que você faça piada dos planos que eu gastei anos fazendo. Não vou permitir que diga que o projeto da minha vida é um lixo. Nem que minha vingança é impossível.

— Não estou dizendo que é lixo, muito menos que é impossível. — A outra se levantou, aproximando-se. — Só estou dizendo que se você pretende arriscar nossas vidas nisso é melhor que tenha um plano com chances reais de funcionar. Você fez uma coisa maravilhosa aqui, uma pesquisa sobre o palácio, sobre os horários dos guardas, da família real, mapas, passagens secretas, coisas que ninguém poderia imaginar.

“Você tem informação suficiente para criar um plano que funcionará com certeza. Mas tem que explorar mais essa ideia, não pode gastar tanto tempo na pesquisa e fazer a ação sem pensar. Entende?”.

Ela não queria admitir que Eve estava certa, mas também não podia dizer que ela estava errada. No fundo sempre tivera medo que seu plano não desse certo, mas nunca aceitava pensar muito nisso.

— Você teria alguma ideia para substituir então?

Eve começou a caminhar de um lado para outro do quarto.

— Sabemos como entrar no palácio. Uma vez que estivermos nos aposentos do rei não deve ser muito difícil mata-lo, mesmo que seja envenenado...

— Envenenado não! — Shae interrompeu. — Quero mata-lo com minhas próprias mãos e quero que ele saiba quem está pondo um fim a sua vida. Vou ser a última coisa que aquele infeliz vai ver.

— Tudo bem. — A outra ergueu as mãos num gesto de rendição. — Ainda assim somos duas e temos um elemento surpresa, se chegarmos ao quarto dele será difícil evitar sua morte. Mas precisamos de algo para manter o poder depois.

— Espere. — Shae ergueu o colchão e pegou um livro que estava entre ele e o estrado.

O pequeno volume de “Artefatos místicos e históricos” estava completamente sujo e cheio de poeira, mas inteiro. Começou a folheá-lo.

— Eu ouvi essa história a um tempo atrás, mas sinceramente não acreditava que pudesse ser verdade, nunca acreditei muito em magia. Mas você está aqui na minha frente e diz que pode ter visões, Ely confirmou o que você disse, se você pode ver o futuro então isso pode existir também. — Shae não se decidia, enquanto estava entusiasmada pensando em sua vingança acreditava cegamente que as visões de Eve ajudariam, mas quando parava para pensar nesse dom da ruiva, não tinha muita certeza se acreditava.

Finalmente encontrou a página, entregou o livro aberto para Eve.

— Aqui. É uma espada antiga, muito antiga. Dizem que com o encantamento certo pode conjurar espíritos antigos para lutarem ao seu lado, como um exército. Eles obedecem ao portador da espada e somente a ele. Tem algo a ver com se apossar da espada selando um compromisso usando o seu sangue. Se eu tivesse isso, então poderia ficar no comando, ninguém ousaria me desobedecer caso eu tivesse demônios como soldados.

— Demônios ou espíritos?

Shae deu de ombros.

— Da na mesma.

— Você sabe que tem uma grande diferença entre... — Eve começou, mas Shae já não estava mais escutando.

— Você realmente acha que isso pode dar certo? — Ela estava ficando ansiosa, fazia tempo que não pensava nessa espada.

Eve pensou por um momento.

— Talvez. Como você mesma disse, se eu posso ver o futuro por que não pode existir uma espada mágica? Mas a questão é, onde encontraríamos ela? E depois, como fazer o encantamento? Por último, você sabe que mexer com esse tipo de coisa, espíritos, demônios, entidades, é muito perigoso, não sabe?

— O encantamento está na próxima página, não parece difícil. Também tem os últimos lugares onde ela foi vista — Shae respondeu conscientemente ignorando a última pergunta. Não estava nem aí se era perigoso ou não, arriscaria sua vida nisso se necessário.

— Estou falando sério, Shae. — Os olhos de Eve corriam de um lado para o outro enquanto ela lia. Vez ou outra ela parava enquanto se concentrava em uma palavra que não tinha entendido, ou quando ia falar. — Não estou falando de ser perigoso só para nossas vidas. Sei que deve estar pensando que de qualquer forma há a possibilidade de morrermos. — Era como se ela estivesse lendo sua mente. — Estou falando de ser tão perigoso que podemos não nos livrar disso mesmo após nossa morte.

— Isso são apenas histórias!

— Até pouco tempo atrás você achava que pessoas que viam o futuro também eram apenas histórias. — Shae não pode negar que isso era verdade, mas agora que tinham pensado nisso, não havia a menor chance de ela desistir de usar essa espada.