Notas iniciais
Boa leitura!

Encostada na amurada, Eve observou Daan se aproximar. Nos últimos dias o homem havia se provado um ótimo amigo.

— Como estão suas visões?

— Fora de controle.

Shae acreditava que fazia tempo que ela não tinha visões, mas a verdade é que elas estavam cada vez mais frequentes, a diferença era que agora Eve não desmaiava mais.

“Se confundindo com a realidade.”

— Vai dar tudo certo. — Ele a abraçou.

— Será mesmo? Shae acabou de matar dezenas de pessoas. Ela não está raciocinando bem.

— É por isso que você precisa se manter firme, para evitar que ela faça uma loucura.

— Vai falar de loucura para mim? — Ela se afastou dando um sorriso cansado. — Quero que nos acompanhe depois que desembarcarmos.

— Eu? Vocês não precisam de mim.

— Shae é impulsiva, e cada vez que ela usa essa maldita espada parece querer usar mais, fica inebriada pelo poder. E eu, bem, eu vou enlouquecer. Precisamos de alguém com a cabeça no lugar.

Ele não respondeu, ficou observando o mar.

— Como está em relação a Miek?

— Eu estou superando, ela não gostava de mim de verdade ou não teria feito aquilo. — Daan pareceu pensar por um minuto. — E você, como está em relação a Shae?

— Como? — Ela não entendeu.

— Você gosta dela, não gosta? Me desculpe se estiver enganado, mas não acho que estou. A forma como você olha para ela, como cuidou dela todo esse tempo, tem algo mais que só amizade, não tem?

Era verdade, ela tinha ficado tão preocupada com Shae como nunca estivera antes.

— Eu não sei. Eu estava apaixonada por um garoto, mas depois que fugi... eu sei que nunca mais verei ele. E então eu conheci Shae, no começo eu odiava o jeito dela, mas acabei me acostumando, gostando disso. Não sei se gosto dela, eu estou perdida em relação a isso. Me parece que eu sinto algo, mas não quero abandonar meus sentimentos por Kaylan.

— É por isso que ainda usa esse colar? — Ele apontou para o colar em volta do pescoço de Eve, ela nem percebera, mas novamente estava mexendo em seu pingente, isso havia se tornado um hábito.

— Foi o último presente que ele me deu.

— Talvez seja hora de se livrar disso. Joga-lo no mar, talvez?

Ela olhou mais uma vez para o delicado pingente em forma de pata. Kaylan que havia feito. Ela não jogaria fora, ela não jogaria a história dos dois desse jeito, apesar de saber que não havia conserto.

— Ainda não é o momento.

— Não sou muito bom com conselhos, mas se há algo que posso dizer é para que você não deixe de sentir as coisas de agora por conta do passado.

— Shae tem um namorado. — Eve soltou o que a estava devorando por dentro desde o começo.

Pensar em Ely acabava com ela. Se realmente estivesse apaixonada por Shae ela não teria a menor chance, Shae já havia dito diversas vezes que o amava. Além disso, sentiria como se o estivesse traindo. Ele a havia ajudado e como retribuição ela se apaixonara por sua namorada.

— Você acha que depois de tudo o que aconteceu aqui, ela ainda pode voltar para ele e ser a mesma pessoa? Matar alguém, isso transforma você. — O olhar de Daan ficou perdido por um tempo. — Ely ainda vai amar essa Shae? Porque com certeza não é a mesma Shae que foi embora.

— Ela não gosta de mim, Daan.

— Será que não?

Ela negou com a cabeça.

— Não há chances disso acontecer.

— Olhe todas as coisas impossíveis que aconteceram dentro desse navio, Eve.

— Isso é diferente. Vamos, temos que ver se Shae está melhor.

— Sim, senhorita. Vou na frente, preciso passar no banheiro. — Ele fez uma careta e se afastou.

Quando ele desapareceu dentro do navio, Shae olhou para o céu. O Sol brilhava de forma linda, apesar de Daan dizer que uma tempestade se aproximava. Observou o convés do navio a sua volta, não havia quase ninguém, mas soldados fantasmas caminhavam por aí.

Outra visão havia se concretizado. E ela tinha certeza que Shae havia acordado.

— Como você está? — perguntou entrando no quarto.

Não esperava encontrar Shae de pé com a Invocadora de Almas nas mãos.

— Meus soldados estão por aí. Eles vão parar esse ataque. — Os olhos de Shae estavam nublados, como se ela estivesse vendo algo que mais ninguém visse.

— Que ataque?

— Morram! — Ela gritou, apontando a espada para Eve.

— Daan! — Eve gritou, tentando segurar Shae. — Daan!

O homem logo apareceu no corredor.

— O que houve? — respondeu.

— Me ajude. — Ela se esquivou de outro golpe de Shae.

Por um momento Daan ficou parado na porta, sem entender o que estava acontecendo e então se lançou sobre Shae, tirando a espada de suas mãos.

— Me solte! — Ela se debateu.

— Leve isso para longe. — Ele apontou para a espada e Eve obedeceu. Guardou-a em seu quarto e voltou.

Shae havia sido colocada na cama e agora tinha fechado os olhos.

— Será que ela vai ficar bem?

Tudo se tornou nublado ao redor de Eve, ela já não estava mais no navio.

Estava numa rua movimentada que nunca tinha visto antes, várias pessoas caminhavam para lá e para cá e ela não entendia por que estava ali. Viu a si mesma parada no meio da rua.

— Eu encontrei! Eu encontrei um curandeiro, Eve. — Daan surgiu em frente ao seu outro eu.

— Precisamos levar Shae até lá ou ela não vai resistir.

A outra Eve deu meia volta e começou a correr, com Daan em seu encalço. Passaram por multidões de pessoas que iam na direção contrária deles e entraram em alguns becos. Um forte cheiro de fumaça surgiu da direção em que eles seguiam.

Eve assistiu a si mesma correr na direção de uma hospedaria em chamas. As línguas de fogo subindo cada vez mais alto em direção ao céu.

“Outra vez não”, pensou, mas então entendeu a verdadeira situação: Shae estava lá dentro.

Ela se viu chorando em frente ao prédio e desabando no chão, xingava e esmurrava o calçamento.

E então Daan a abraçou.

— Eu já volto. — Ele correu em direção as chamas e sumiu.

A verdadeira Eve, a que assistia a tudo queria chorar. Agradeceu por estar vendo a visão em terceira pessoa e não vivenciando na própria pele, como tinha acontecido algumas vezes antes. Não sabia se aguentaria passar por aquilo, mas sabia que passaria.

Os segundos em que permaneceu jogada se transformaram em minutos e ela se sentiu perdida, o tempo escorria por entre seus dedos, cada segundo a mais diminuía a chance de Daan e Shae voltarem.

Não devia ter demorado muito na verdade, mas para Eve pareceu uma eternidade. Daan surgiu de dentro do prédio com um corpo enrolado em panos.

— Ela vai sobreviver. — Ele disse tossindo.

— Você me assustou. — Ela se jogou em seus braços chorando e depois se voltou para Shae.

Desenrolou-a dos panos e observou seu rosto pálido, ela dormia ou estava desmaiada? A Eve da visão parecia saber, mas a que assistia não fazia ideia.

— Vamos sair daqui, vamos ver o curandeiro. — Eve começou a se levantar.

— Você está ouvindo isso? Eu estou ouvindo desde que chegamos aqui. — Daan franziu o cenho.

Eles ficaram em silêncio e logo Eve conseguiu escutar, era um choro de criança.

— Deve estar preso lá dentro, vou tira-lo.

— Não vá. — Ela segurou o braço de Daan. — Não se arrisque assim de novo, por favor.

— Eve, é uma criança!

Ele correu para dentro da hospedaria.

Mais uma vez o tempo pareceu se alongar enquanto ela esperava por um sinal. A silhueta de Daan apareceu, com algo nos braços. De repente ele jogou o que carregava, Eve observou com olhos atentos enquanto uma coluna do prédio era consumida inteiramente pelas chamas fazendo-o desabar. Daan estava lá dentro. Não era possível.

O garotinho que Daan havia jogado na calçada para que não fosse soterrado junto com ele parecia bem, se arrastou por um momento pelo chão e quando conseguiu se levantar correu o mais rápido possível para longe das chamas.

Ela esperou e esperou. Passou horas na frente do prédio, até que a chuva começou a cair. Algo dava a esperança de que ele voltaria, mas a noite chegou e quando não havia mais nem sinal do fogo que consumira tudo, ela teve certeza que Daan não voltaria.

Passou pelos escombros, procurando qualquer sinal de vida, mas tudo o que encontrou foi a Invocadora de Almas, intacta.

“Tudo por sua culpa”.

Eve estava novamente no quarto de Shae, no navio.

— O que houve, Eve? Você está pálida. — Daan agitou as mãos na frente de seu rosto.

Ela observou a face do amigo. Tão bonito, tão companheiro. Eles se conheciam há tão pouco tempo e ela sentia uma ligação tão forte com ele. Não aguentava isso, por que mais uma vez ela via a morte de alguém tão próximo? Não conseguiria olhar para a cara dele todos os dias e não pensar em sua morte, já não bastava o esforço todo que fazia para ignorar o fato de que Shae morreria em pouco tempo. Ela negou com a cabeça e se jogou em seus braços, sem nem ao menos tentar controlar o choro.