O Olho de Jade
23 Daan
Notas iniciais
E dizendo aquelas duras palavras, Eve abandonou Daan no convés do navio.
Quando tinha aceitado o convite de Erickson para fazer uma viagem até o Quarto Reino, ele não achava que sua vida viraria de cabeça para baixo daquela forma.
Sua namorada, Miek, havia provado que não o amava e estava envolvida numa trama com Erickson e os outros atrás de uma espada que podia invocar guerreiros mortos. O grupo só se importava com o próprio poder, tanto que não pareciam se importar em matar duas garotas por conta disso.
E quando ele achou que as coisas não fossem mudar ainda mais, descobria que uma das meninas era um oráculo poderoso e que elas estavam em busca de vingança.
Daan tivera trabalho para se acostumar com as visões de Eve e com os soldados de Shae, mas após um tempo, ele já se sentia confortável com tudo isso, inserido num mundo que não era seu. E aí tudo mudava novamente: Eve anunciava que tinha visões com a sua morte e com a morte de Shae. Era demais para qualquer um, até mesmo para ele.
Ele havia se controlado enquanto a menina estava na sua frente, mas agora sentia o chão girar sob seus pés. Uma incontrolável vontade de vomitar tomou conta dele e antes que percebesse estava debruçado contra a amurada, jogando no mar tudo o que havia comido naquele dia.
Deixou o corpo escorregar para o chão de madeira e ficou ali, sem ânimo para levantar ou fazer qualquer coisa.
Nunca se enganara achando que Miek o amava, ele sabia que o envolvimento dos dois nunca seria algo profundo. Mas machucava descobrir que alguém que ocupava um lugar em seu coração não se importava em matar pessoas para alcançar seus objetivos e, mais, não se importava de mata-lo se ele tentasse interferir. Como seu julgamento podia ter sido tão falho?
Tinha se deixado iludir por Miek e por Erickson. E agora se envolvia com outras duas pessoas que não tinham receio de matar e que buscavam vingança. Como Daan acabara no meio de tudo isso?
Sua ideia era se separar das duas garotas assim que desembarcassem, mas as visões de Eve diziam que ele tomaria um rumo muito, muito diferente. Ele podia tentar se enganar dizendo que se afastaria, mas sabia que não teria coragem de abandona-las com Shae naquele estado.
Aparentemente, querer ajudar os outros era sua maior falha e ele morreria por isso. Não podia dizer que não estava assustado: estava muito! Pensava em deixar aquela criança morrer, não queria ser queimado vivo, mas sabia que jamais conseguiria fazer isso, seu medo de morrer não era grande o suficiente para fazê-lo insensível.
Balançou a cabeça, não podia ficar pensando nisso, ou enlouqueceria. A situação era simples: Ele seguiria ajudando as garotas até que entraria no meio do fogo e queimaria cada pedaço de seu corpo, simples assim.
— Shae acordou. — Eve apareceu novamente no convés, apenas por um segundo. Ela sorria e parecia com as energias renovadas.
[...]
Enfrentaram uma tempestade por cerca de dois dias e então o céu voltou a ficar limpo. Com a aproximação do Primeiro Reino, Daan começava a ficar inquieto. Sabia que logo que chegassem precisariam arrumar um lugar para dormir e encontrar alguém que pudesse ajudar Shae a se recuperar. Essas eram as condições perfeitas para a visão de Eve se concretizar.
Ele nunca acreditara muito em deuses, mas após conhecer Eve tinha que reconhecer a existência de alguns deles. Esperava que com isso algum ouvisse suas preces e lhe desse mais algum tempo de vida, parecia tão injusto ter que deitar para seu sono eterno no auge de seus vinte e poucos anos.
— Estamos chegando. — Eve apareceu ao seu lado, surpreendendo-o.
— Sim, já consigo ver o porto ao longe.
— Como está se sentindo a respeito disso?
— Não sinto nada, prefiro não pensar nisso. — Era uma grande mentira, passava cada segundo livre pensando nisso, apesar de não querer. Mesmo assim, preferia não preocupar Eve.
— Melhor assim. — Ela segurou suas mãos. — Não quero me despedir de você Daan, mas talvez seja hora de começar a pensar nisso.
— Não vamos nos despedir assim, por favor.
— Não quero que você vá embora sem que eu possa dizer o quanto é importante para mim. — Os olhos da garota estavam marejados.
Ele não queria chorar na frente dela.
— Eu já sei.
Ela se calou por um instante e abaixou a cabeça, quando voltou a encara-lo havia determinação em seus olhos.
— Podemos mudar essa visão, eu sei que podemos.
— Não foi você quem me disse que eu não deveria fazer isso? — Ele riu.
— Mas talvez devêssemos, você mesmo disse que eu não deveria desistir sem tentar.
Um fiapo de esperança surgiu em seu coração, mas ele preferiu não se agarrar a isso. Preferia não se decepcionar dessa forma.
— Guarde essa energia para mudar a morte de Shae. — Beijou a testa de Eve. — Falando nisso, como ela está?
— Não muito bem. Se recuperando, mas ainda assim... Pelo menos não está mais tendo alucinações, mas a febre continua.
— Logo ela vai melhorar, você vai ver.
— Se minha visão estiver certa, não.
— Você não sabe, essa visão não precisa acontecer necessariamente agora.
— É, acho que você está certo. — Ela não pareceu convencida e ele não a culpava, suas palavras serviam apenas para engana-la, ele também não acreditava naquilo.
— Vou ver como ela está. — E se afastou pensando se existiria vida após a morte.
Só parou de andar quando já estava do lado da menina de cabelos escuros. Por um momento, fraquejou e deixou algumas lágrimas escaparem.
A garota ao seu lado abriu os olhos lentamente, demorou um tempo até que focasse nele, mas Daan estava cansado demais para enxugar as lágrimas.
— Está tudo bem? — Shae perguntou, num pingo de voz.
Daan não teve como fingir que estava.
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