O Olhar de Um Inimigo
21 Capítulo 21
Os planos para recuperá-lo foram inúmeros, mas acabavam – antes mesmo de começar – do mesmo jeito. Fadado ao fracasso. Muito perigoso. Arriscado.
Eu já começara à entrar em pânico e ter meus ataques, em que eu pensava que podia ir atrás dele sozinha, como quandoeu e Jared fomos buscar remédios para Jamie quando ele estava doente. Mas o que me prendia no chão, eram as minhas gêmeas, que precisavam mais de mim.
Agora, todas as incursões tinham duas etapas. Eu e Mel participávamos apenas de uma. Saralynn foi muito bem aceita nas incursões porque parecia minha irmã mais nova e me dava um ar de inocência, além de que seu olhar era completamente alma, e não levantava suspeitas. Como as duas eram um pacote, Roxanne ficava esperando no caminhão. Mas essa era só a primeira etapa.
No fim da primeira, íamos para casa, descarregávamos as coisas – Bom, eles descarregavam, eu levava as meninas, que, para dois seres que só tomam leite, eram bem pesados para os meus braços fraquinhos e fininhos. – descansávamos naquela noite e no dia seguinte, estávamos nos despedindo de novo. Dessa vez só os mais habilidosos iam, e devido às nossas limitações emocionais, eu, Mel e Serry ficávamos.
Eu já perdia as esperanças. Fazia cinco meses desde que eu tivera as gêmeas. Eu e Mel brincávamos distraidamente com Saralynn e Roxanne na arquibancada da sala de jogos. A falta de Jamie tirava o humor do dia, o simples sorriso daquele garotinho que cresceu rápido demais, era o bastante para mim e Mel trocarmos um olhar cúmplice de felicidade que rapidamente contagiava Jared e Ian, que por sua vez contagiava Kyle e Jeb, e assim todos nas cavernas.
As novas almas aceitas, os novos humanos, os antigos humanos... Eu juro, que um dia eu até vi Sharon sorrir. Foi rápido, mas eu vi. Mas isso foi há muito tempo, quando Jamie ainda passeava pelos corredores espalhando sorrisos gratuitos sem nenhum motivo, apenas pelo prazer de ser ele mesmo.
Não menos do que de repente, Serena irrompeu o salão de jogos correndo e sorrindo, então adivinhei o que ela ia dizer antes mesmo que o fizesse.
-Encontraram! – Ela gritou gargalhando – Encontraram-no.
POV. Serry
Foi definido que eu seria a que o traria de volta para nós, por despertar uma grande lembrança nele, e por ser mais seguro pelo fato de seu ser uma alma. A casa em que ele morava agora ficava na estrada que ligava Chicago à Phoenix. O golpe estava marcado para a meia noite e eu tive que ficar de tocaia desde as dez da manhã, observando se ele parecia se lembrar de quem era.
Vê-lo novamente me rasgava ao meio em duas emoções extremas.
A felicidade inigualável e extasiante de vê-lo...
E a dor excruciante de vê-lo beijando outra pessoa.
Não, outra pessoa não. Não uma pessoa qualquer, essa é a pior parte. A minha irmã Tanzânia.
As imagens que vi naquele dia nunca mais saíram da minha cabeça.
Chegara a hora, o grande momento. Eu iria levá-lo de volta para a família. Bati na porta, assumindo a minha pose de alma, a qual eu usei a vida inteira. Jamie abriu a porta, sorrindo, o círculo prateado das almas que aparecia contra a luz dos postes da estrada, ferindo o lindo azul lavado de seus olhos.
-Pois não?
Perguntou, causando uma imensidão de choques ao meu corpo.
-Oi. Me desculpe, mesmo incomodar à essa hora, mas meu pneu furou e não consigo tirá-lo para colocar o estepe. Você poderia me ajudar?
Um humano, antes da guerra, se ouvisse o que eu disse poderia ter reações adversas: Poderia rir da minha cara e fechar a porta, poderia ligar para um táxi ou guincho, poderia me convidar para entrar, entre outras coisas.
Mas uma alma só faria uma coisa. Ajudaria com todo o seu coração.
-Claro. – Ele respondeu como eu havia previsto. Gentil como a alma que era.
-Quem é querido?
Veio a voz de Tanzânia de dentro da casa. Eu sabia ser o ciúme de sua parte humana agindo, e agradeci por ela não vir para a porta ver por si mesma. A odiei por chamar meu Jamie de querido. Ele odiava esses apelidos melosos a menos que viesse de Mel ou Peg, porque aí ele não tinha escolha.
-Uma viajante. – Ele respondeu colocando a cabeça para dentro da casa. – Vou ajudá-la, você se importa de esperar um pouquinho?
-Não. Nem um pouco – “ Tá, sei” pensei – Tomem cuidado, está frio!
Sorri quando ele fechou a porta e me deu um de seus sorrisos típicos. Andamos lado a lado na estrada. O silencio e a calma que eu demonstrava era uma máscara para esconder o caos de sentimentos que estouravam dentro de mim.
Ambas as minhas partes o queriam.
Beijá-lo e abraçá-lo loucamente, de modo que nunca nos separássemos até que o mundo acabasse. Minha parte humana queimava de raiva por ter que dividi-lo com minha própria irmã, queria voltar lá para acabar com a raça dela. Mas o que a controlava, é que aparentemente, traição era mais divertido. Minha parte alma inssistia que a culpa não era de Tanzânia e que o importante é que eu estava de novo com Jamie.
-Gosto dos seus olhos – A alma ao meu lado confessou. – Os da minha noiva são iguais. Não sabia que existiam mais.
A palavra noiva foi um punhal envenenado e ardendo em chamas que foi cravado no meu peito. Tive que me controlar e continuar no meu papel.
-Nem eu.
Respondi baixinho, lutando contra o nó e o ácido na minha garganta.
-Qual o seu nome?
Eu o encarei. Esperava que ele se lembrasse. Que Jamie estivesse reagindo dentro dele. Mas não. Voltei à olhar para frente.
-Serena.
Bom, se posso dizer, eu não estava nada serena naquela hora.
POV. Patty
“-Eu disse à você. É ela, ela veio me buscar.”
“-Jamie. Ela é uma alma, jamais se juntaria aos seus ideia humanos. Além do mais, já conversamos sobre isso, se vamos conviver nesse corpo você tem que se controlar.”
“-Mas eu não quero conviver! EU QUERO VIVER!!!”
Revirei os olhos e parei-os na figura de Serena. Os olhos prateados voltados para frente, e os cabelos ruivos ondulados presos em um rabo de cavalo faziam Jamie sibilar de desejo em minha mente. E os desejos de Jamie eram meus desejos.
-Eu sou Patty. Quer dizer... Patas na Neve. Eu era um urso.
Ela lançou um olhar de relance para mim antes de se voltar para frente de novo.
-Que legal.
-Você... Pode ser retirada?
Perguntei sem pensar. Se minha Tanzy não podia, talvez essa pudesse e dissesse como fazer.
“-Olha, em primeiro lugar, não, ela não pode ser retirada. Em segundo lugar, ela não pode ser SUA Tanzy, porque esse corpo é meu e ele pertence à MINHA Serena.
Tentei ignorá-lo. A lógica dele até que fazia um pouco de sentido, mas não muito. Tanzânia era minha tanto quanto Serena era dele.
-Não. Não posso.
Não pude esconder minha decepção. Ela suspirou e agora não olhava mais para frente, olhava para baixo.
“-Olhe o que você fez! Ela é muito sensível! Chora muito fácil! Diga a ela o que estou dizendo! Diga que estou resistindo! DIGA QUE EU A AMO!”
Cheguei a abrir a boca para falar com tamanha força que Jamie me lançou no golpe. Mas me controlei.
“-Não vou dizer nada. Eu não tenho nada a ver com ela. Irei ajudá-la e ela irá embora.”
Finalmente chegamos. Quando ela me apareceu na porta, eu imaginei que o pneu de que falava era de um carro. Mas não era de um caminhão. E tinha um cacto grudado nele.
-Como foi que atropelou um cacto?
Perguntei, rindo.
-Digamos assim que nem todas as almas deveriam dirigir.
-Bobagem, logo você pega o jeito.
Eu consegui facilmente tirar o pneu do lugar. Ela devia ser muito frágil para não conseguir.
-Onde está o estepe?
Perguntei.
-Na caçamba. Vou pegar.
Ela disse. Ela subiu na caçamba e remexeu seja lá o que ela tinha lá dentro e de repente ela gritou o barulho de algo caindo no chão se seguiu.
“-Ah não! Serena! SERENA! CHAME-A IDIOTA! AJUDE-A! SERENA!”
-Serena?
Chamei atendendo ao pedido de Jamie.
-Me ajuda!
Ela gritou de dentro da caçamba. Peguei meu celular e enviei uma mensagem rápida à Tanzy.
“Preciso de ajuda”
Como buscadores, tínhamos que estar sempre conectados uns com os outros por isso tínhamos essa tecnologia especial de mensagens pré-programadas. Era só selecionar e enviar.
Vi as luzes de nossa casa apagarem e vi a silhueta de Tanzy correndo contra a luz da lua, lutando para amarrar a faixa de seu robe ao redor da cintura, a respiração formando um rastro de nuvem à medida que se aproximava correndo.
Quando pulei dentro da caçamba, tudo o que ouvi foi:
-Perdão Patty. Nada pessoal.
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