POV. Peg

Fugir era difícil. Fugir era muito difícil, principalmente estando longe da maioria das pessoas que você ama. Ian, Trudy, Lily, Jamie, Serena, Doc, Sunny... Tanta gente, que a essa altura eu nem sabia se estavam vivos...

Agora estávamos em outra caverna que tínhamos achado bem longe de casa, quase no fim do deserto, perto da cidade de Catalina.

Mel, Roxanne e Saralynn estavam dormindo, mas pelo que parecia nem eu, nem Jeb conseguíamos dormir. Afinal como poderíamos? Aquelas cavernas eram nossa casa. Mel já estava acostumada a viajar e se mudar com freqüência, e Roxanne e Saralynn provavelmente não sabiam o que estava acontecendo.

Trocamos alguns olhares algumas vezes, mas alguns segundos de cada vez. A maioria do tempo estávamos olhando para a lua. Agora parecia tão grande, que se eu subisse nos ombros de Ian, eu poderia alcançá-la. Mas ele não estava ali, e sem ele, eu não queria alcançar a lua. Eu não queria continuar sem ele.

-Eu vou dar uma volta.

Senti-o segurar meu pulso.

-Peg, cuidado. Não volte lá para dentro garota.

-Pode deixar Jeb. Não vou voltar.

Ele me soltou e eu saí da caverna, sentindo os pingos leves da garoa molharem meu rosto. Dei alguns passos, até cair de joelhos e suspirar, quando as lágrimas do meu rosto se misturaram à chuva.

Um braço circundou meu ombro e eu olhei para o lado. Os olhos azuis de Jeb também estavam cheios de lágrimas.

-Estou com medo. Por nós e por eles.

-Eu tenho medo também. Se eu pudesse garota, eu teria ajudado a todos lá dentro. Mas eu não pude. E é por isso que agora, a minha prioridade são vocês. Nós vamos encontrá-los. Aposto que vão estar todos lá, nas Cheerios, nos esperando, felizes e saudáveis.

-Você acha mesmo?

-Só nos resta acreditar...

No fim, eu acabei dando a minha caminhada, bem lenta, cuidadosa, com pausas para chorar de tempos em tempos, quando eu achava que não podia continuar.

Da última vez que levantei, ouvi uma voz, que me chamava.

-Peg?! Peg...

Vinha de cima de onde eu estava.

-Ian?

-Peg?! Peg?! Peg...

O jeito como ele entoava meu nome era como uma reza, algo febril e delirante. Olhei para cima, mas não pude vê-lo. Comecei a tentar escalar, arranhando minhas mãos e pernas de pele macia, ouvindo Ian lá em cima continuar a falar meu nome.

Quando finalmente cheguei lá em cima, eu o vi. Estava deitado no chão, estirado, ainda repetindo febrilmente meu nome. Aproximei-me dele, e me apavorei. Metade de seu peito estava marcado por uma queimadura, sangrenta e em carne viva. Coloquei minhas mãos em volta de seu rosto, que estava contorcido em uma careta de dor.

-Ian... Pronto, está tudo bem. Eu estou aqui com você...

-Peg?

-Eu estou aqui. Estou aqui com você, meu amor.

A chuva que nos molhava, contrastava o frio da minha pele,com o calor da sua febre.

-Está doendo...

-Eu sei. Eu sei... Eu vou chamar ajuda. Eu volto. Te juro.

-Peg...

-Shhh. Fica aqui. Não deixe te encontrarem. Eu vou trazer ajuda. Eu te amo.

-Eu te amo.

-Não saia daí.