Notas iniciais
Gente... Rolaram algumas dúvidas aí, então é o seguinte... A Serena já nasceu desse jeito. E de acordo com o que eu entendi no livro original da hospedeira as mães escolhem se seus filhos irão receber um alma logo de cara, ou se continuarão humanos até uma certa idade em que os Buscadores virão procurá-lo. E sobre o pai dela o vai ser - meio - que explicado. Beijinhos...

-O que vamos fazer com ela?
Perguntou uma voz estranha masculina.
-Não tenho certeza.
Disse outra.
-Não pôde ser removida, é uma estrutura completamente diferente.
Falou mais uma terceira.
-Acho que se levarmos ela agora, talvez ela não acorde e possamos fingir que ela apenas desmaiou ou algo do gênero.
Disse uma voz feminina, e fina como o tilintar de sinos.
-O efeito do clorofórmio já vai passar, Peg.
-Okay, então. Ficamos com ela.
Disse uma voz cansada, concluindo a discussão. Demorei algum tempo à perceber que era sobre o meu destino. Só tive coragem de abrir os olhos depois que ouvi os passos saindo do recinto.
A primeira coisa que vi foi a escuridão. Depois meus olhos se acostumaram. Comecei à perceber as coisas, eu estava numa espécie de estação de cura. Haviam duas filas de catres clínicos enfileirados uns do lado dos outros. Todos estavam ocupados por pessoas dormindo.
Em um canto, haviam empilhados vários criotanques, separados, os ocupados e os vazios. Deviam ter algums dezenas de ocupados, e poucos estavam vazios. Olhei para o outro lado e havia uma mesa, onde havia uma lamparina, onde um garoto de mais ou menos a minha idade e uma garota pequena que não devia ter mais que 16 estavam jogando Poker.
-O que você acha que aquela garota é?
-Não sei, a encontrei olhando as estrelas, deve ser algum tipo de astróloga.
-Não. Tipo assim, a raça dela. Será que é uma nova raça de almas? Talvez não possam mais ser retiradas.
-Ah, Peg, não deve ser isso.
-Eu nunca tinha visto nada assim antes, Jamie. Estou preocupada. Talvez existam outros como ela.
Quem dera, Pensei.

Algum tempo depois um homem adentrou a estação. Eu ainda estava olhando em volta. Era tudo uma caverna, fiquei me perguntando o que eu estava fazendo ali.
-Peg.
O homem chamou cauteloso a garota, e soube que ele tinha me visto. Era o tom de voz que todos usavam comigo. Juntos, eles vieram até o catre onde eu estava deitada. O garoto, curioso, os seguiu.
Eu encolhi os ombros, desconcertada. Os olhos garota eram cinzas, com o círculo prateado, mas o homem do lado dela e o garoto atrás deles, não tinha o círculo prateado, eram humanos. Eu sabia que eles existiam!
-Olha só os olhos dela!
O homem deu uma cotovelada nas costelas do garoto. Não reagi de modo algum àquela cena, apesar de nunca ter visto nada tão agressivo.
-Olá, querida, como se sente?
Perguntou a garota com a voz doce.
-Normal. Olha eu odeio ser indiscreta, mas os seus amigos são humanos.
-Eu sei, olha, eles são legais, então não precisa...
-Eu sabia que eles existiam! — Um silêncio constrangedor pairou na sala — Desculpe, às vezes eu piro assim mesmo.
-Qual seu nome?
Perguntou o homem recém-chegado.
-Meu nome é Serena.
-Eu sou Peregrina. — Disse a garota pequena — Mas pode me chamar de Peg. Esses são meus amigos, Doc e Jamie. Se não se importar, Doc tem umas perguntas para você.
-Okay.

Peg e Jamie saíram e me deixaram sozinha com Doc.
-Quantos anos você tem, Serena?
-Vou fazer 15 em julho.
-Daqui uns quatro meses...
-É. Minha mãe ia me dar um telescópio novo. Maior.
-Me fale sobre você, um resumo da sua vida.
Engoli em seco, eu odiava a minha vida.
-Bom... — Comecei.
-Pode ficar calma, não vou fazer nenhuma conspiração contra as almas.
-Ahn...
-Acha ruim?
-Bom, não ruim, mas a minha história não é tão feliz quanto a da maioria das almas. Para começar eu nasci aqui, na Terra, e sou uma mistura bizarra de uma alma com um humano. Por isso você não conseguiu me retirar. — Dei um sorriso inocente — Eu estava ouvindo, sabe? Bem... Continuando... Toda a minha espinha já é feita do material das almas, o que resultou que meus olhos são inteiramente prateados, quando eu nasci, minha mãe me levou para ser implantada. Mas não conseguiram, porque eu ocupo o meu próprio corpo.
-Mas isso não é motivo para odiar as almas.
-Não as odeio... Mas é que... Durante toda a minha vida, as pessoas me trataram adoravelmente, como é o estilo das almas. Mas eu podia ver o medo em seus olhos. O medo da diferença. Todos temem o que não conhecem.
Ele sorriu afetuosamente. E acho que pela primeira vez na minha vida, era um sorriso totalmente sincero. Pela primeira vez, alguém não tinha medo de mim.

-Bom... E... Existem outros como você?
-Acho que só a minha irmã mais velha, Tanzânia.
-E onde ela está?
-Da última vez, ela mandou um e-mail da Tanzânia, engraçado não?. Ela gosta de viajar. Gosta de gente.
Ele parou para escrever na sua prancheta.
-Muito bem. Acho que é tudo.
-Ainda não. Onde eu estou?
Sem dizer mais nada, Doc partiu. Mas eu soube que ele tinha ouvido. Ele estava escondendo algo. Minha parte humana podia sentir as mentiras de longe.