Quatro semanas demoraram muito à passar, muito. Dividida entre a felicidade de ter minhas filhas e a saudade da minha família, eu fiquei confusa, quieta e resguardada, apenas dentro do meu quarto de hotel evitando sair e evitando que me vissem ou às minhas filhas. As palavras rasgavam para sair de dentro de minha garganta quando eu tinha que pronunciá-las para alguém, pela falta de uso.

Finalmente, cheguei ao prazo que Fords me deu, e julguei que minhas crianças estavam prontas para conhecer seu verdadeiro lar, onde ninguém as acharia diferentes, e ninguém podia apagar suas personalidades. Saltitante, eu amarrei os moisés ao banco de trás com o cinto. Ambas estavam dormindo, e ressonando, cada uma em seu timbre o som que eu ouvia toda noite antes de dormir, dei um beijo na testa de cada uma, fui para o banco da frente e dei a partida.

Tive que me controlar para não ultrapassar o limite da velocidade, porque meu coração batia mais rápido que o motor rotacionava, e eu mal podia esperar. Finalmente vi a loja de conveniências e entrei com tudo em direção ao deserto.

Então eu pude correr, fazendo pistas falsas por todos os lados. Já era noite e estava frio, mas eu não me importava, e nem Roxanne e nem Saralynn reclamaram, eu estava voltando para a minha casa, minha família... Meu Ian, mesmo que ele não o quisesse.

Com facilidade encontrei a garagem mais perto da entrada. Tinha conseguido. Encostei-me ao meu banco suspirando. De repente, minha porta se abriu com violência, e antes que eu me desse conta, estava envolvida por algo grande, forte e quente, que cheirava à lágrimas e mofo.

-Peg...

Sussurrou.

-Ian?

Era como no dia que eu tinha dito que iria devolver meu antigo corpo à Mel. Ele chorava e tremia, balançando meu corpo junto. Eu não entendia, ele havia dito que eu não precisava voltar e parecia seguro da decisão quando a disse, mas agora ele parecia... Feliz, aliviado.

-Você voltou... Senti a sua falta...

-Mas... Você disse...

-Eu sei. Eu sei. Eu...

Não sei quanto tempo ficamos ali, abraçados. O cheiro dele, estava diferente, mas igual, não sei como descrever. Era como ir viajar por muito tempo e quando você volta você não reconhece seu quarto, mesmo sabendo que é seu. Finalmente, Ian me soltou e eu pude ver seu rosto.

Seus olhos neve, safira e meia noite – meus olhos, os quais eu não me canso de descrever a cor inigualável – Estavam inchados e vermelhos de chorar, e rodeados por intensas e fundas olheiras roxas que me doeram na alma. Coloquei a mão em seu rosto, e ele se apoiou nela, fechando os olhos e suspirando.

-Você está bem? O que aconteceu?

-Você não sabe... O quanto eu me arrependo... De tudo o que eu disse. Eu... Fiquei preocupado... Que tivesse acreditado. Mas foi mentira, foi tudo do momento, eu juro Peg... – Ele fungou e seus olhos ficaram ainda mais tristes se é que isso era possível – Achei que não ia voltar.

Eu aproximei meu rosto do dele e lhe dei um leve beijo nos lábios. Meu coração explodiu em fagulhas de alegria. Não acreditei o quanto eu tinha sentido falta daquilo.

-Eu sempre vou voltar. Não importa o que dissermos, eu sempre vou voltar para você. Eu te amo.

-Oh, Peg...

Ele me tirou do carro, me abraçando novamente, enterrando o rosto em meu cabelo. Eu havia me desacostumado com todo aquele carinho, e meu coração estava rejubilado por receber tamanha atenção depois de tanto tempo em tabu. Saralynn chorou dentro do carro, exigindo atenção.

-Saralynn...

Sussurrei.

-O que? É... Uma menina? Quero dizer... A coisa.

Me desvencilhei dele e o lancei um olhar repreendedor.

-Não a chame disso Ian.

Eu disse indo para o carro e abrindo a porta para pegar Saralynn do moisés, acalentando-a para que parasse de chorar. Mostrei-a à Ian e pude ver que até ele ficou emocionado.

-Ela é... Tão linda...

Eu a entreguei com cuidado à ele e pude ver que, por um momento, seu olhar se iluminou. Fiquei surpresa, até um mês atrás ele as odiava e agora parecia gostar disso. Ainda de olho nele dei a volta na mini-van e peguei a ainda dormente Roxanne, e voltei aonde ele estava.

-Ian, esta com você é Saralynn, e esta aqui é Roxanne.

Ele levantou o olhar de Saralynn surpreso.

-Mas Peg... Elas são duas...

-É. São.

Eu sorri de orelha à orelha quando vi que ele também estava feliz além de surpreso. Ele até riu abertamente ao brincar com os cachinhos loiros de Saralynn que o observava curiosa.

-Ela é tão parecida com você...

Ele disse, ainda rindo levemente.

-E Roxanne é com você. Tivemos uma divisão de bens.

Ele sorriu um sorriso que me deixou sem fôlego e me deu um demorado beijo na testa. Eu me senti como se nunca tivesse saído dali e minhas filhas tivessem nascido ali nas cavernas e nunca tivéssemos brigado.

Aquelas duas crianças formavam um novo laço entre mim e Ian. Agora não éramos mais dois apaixonados, éramos pais. Eu podia sentir, que ele olhava para mim de forma diferente, um olhar mais feliz, mais vivo, mais terno.

Como o de um pai que vê suas filhas pela primeira vez.