Andreia era uma rapariga luso-italiana, de 14 anos, que morava em Taveiro e andava no 8º ano. Era uma rapariga serena e de uma beleza rara: tinha a pele morena, longos cabelos escuros e sedosos, olhos verdes como as primeiras folhas da primavera. Era, também, alta e elegante. A sua mãe era portuguesa e o seu pai era italiano.

Na escola era uma aluna extremamente aplicada e tinha imensos amigos. Vanessa e Miguel eram os seus melhores amigos. No campo amoroso apenas tinha um rapaz em mente: André. Ele era o sonho de qualquer rapariga: alto, moreno, olhos azuis, beto… No fundo, ele também sentia uma atracção por Andreia.

Tudo começou quando, no final de Maio, recebeu uma SMS à hora de almoço, de um colega seu, a dizer o seguinte \"Preciso de falar contigo, é urgente.\". Nessa altura, Andreia começou a tremer e a ficar bastante nervosa! \"Eu já tive esta sensação antes! Eu sei que sim!\" pensou. Pegou no telemóvel e combinou encontrar-se com ele às 14 horas no portão da escola.

Quando chegou Andreia viu-o sentado num banco a mexer no telemóvel. \"Uau! Ele foi almoçar a casa! Aquela camisa fica-lhe mesmo bem!\" pensou quando viu os cabelos cor de areia de James a brilharem ao sol primaveril. E tinha razão, ele estava mesmo \"uma brasa\". A camisa estava por fora das calças dando-lhe um ar de sedutora descontracção e os olhos castanhos-esverdeados tinham o brilho das estrelas. Aproximou-se dele e falou:

- Olá!

- Oi! – respondeu ele.

- Posso sentar-me?

- Claro!

- Então, o que é que é assim tão urgente? Tem a ver com o Dani e a Ana? Eles chatearam-se?

- Não, não é nada disso! Mas não podemos falar aqui! Algumas pessoas estão muito interessadas no que te vou dizer!

Nesse momento, Andreia reparou que uma parte da turma andava a rondá-los (e todos fingiam estar a fazer algo): Sérgio lia o \"Record\" ao pé de Filipa e Susana (o jornal estava de pernas para o ar), Filipa e Susana discutiam o Horóscopo na \"Bravo\" e na \"Ragazza\" (com as revistas abertas na página dos testes), Vanessa e João discutiam o jogo de futebol que ia haver na escola, no sábado de manhã (pelo menos eram os únicos que eram credíveis).

- Pois! Já deu para reparar! – respondeu Andreia. – Espera aí!

Dirigiu-se a Sérgio, Filipa e Susana.

- Olá! – cumprimentou Andreia.

- Oi! – responderam os três em coro.

- Que afinadinhos! Então Sérgio… Como é que está o Sporting?

- Aaaah… Está bem… É! Está bem… – respondeu ele hesitando.

- Hum! Então e o que é que diz o teu horóscopo, Filipa?

- Bem… aaah… diz que… diz que tenho de me aplicar nos estudos… é essencialmente isso… – disse Filipa enquanto folheava nervosamente a \"Bravo\".

- Ok! Então eu vou indo para a aula. Até já!

Voltou a sentar-se ao pé de James e tentou não se rir. Decidiram ir para a aula e falarem depois das aulas no café ao pé da escola.

Quando chegaram à entrada sala, Miguel dirigiu-se a ela e pediu-lhe para falar com ela:

- Andreia, não aguento mais! – disse ele em desespero.

- O que é que se passa? – perguntou ela.

- É a Cata!

- Com quem é que ela anda?

- Com o Pedro!

- \'Tás a gozar?! Deves estar mesmo mal…

- O que é que achas? Eu até lhe dizia o que sinto por ela mas…

- Mas…?

- Mas ia abalar a relação dela com o Pedro…

- Pelo menos ela ficava a saber que a amas!

- Não tenho coragem…

- Tens sim! Basta acreditares! Não é muito difícil!

- De certeza que se chateava comigo…

- Não chateava nada! Só tens de acreditar em ti próprio. Tu consegues se acreditares que sim!

- É difícil…

- Não é nada! Olha, se não lhe disseres até ao final da próxima semana, digo-lhe eu! Agora escolhe.

- Mas…

- \"Mas\" nada! Tens até ao final da próxima semana! E não estou a brincar! E lembra-te, se eu não tivesse feito isto com o Dani, a esta hora ele não andava com a Ana.

- A minha vida está a passar-me à frente.

- Ok!

Entretanto entraram para a aula e Andreia começou a sentir-se bastante nervosa. \"O que será que James me quer? Eu já tive esta sensação antes, eu sei que sim. Mas quando é que foi?\". Andreia apenas esqueceu esse assunto quando viu que Miguel olhava tristemente para Cata e Pedro que se encontravam muito divertidos. \"Pobre Miguel! Não deve ser fácil ver a pessoa que se ama com outro… Se eu pudesse fazer algo para o ajudar…\" pensou.

À medida que os minutos passavam, Andreia sentia-se imensamente nervosa. Quando finalmente tocou para a saída, pensou que ia vomitar. Estava tão nervosa! \"O que será que ele me quer?\" pensava incessantemente.

- Andreia! – chamou-a James.

- Diz!

- Sentes-te bem? Estás um pouco pálida…

- Não, eu estou óptima! Só um pouco cansada, mais nada. Vamos até ao café?

- Vamos!

Subiram as escadas enquanto falavam do jogo de sábado.

- Se ganharmos somos apurados para a semi-final! – disse Andreia.

- Iá1! Basta que tenhamos um golo de vantagem em relação à outra equipa, só isso! – concluiu James, bastante entusiasmado.

- Eu pensava que precisávamos de ter uma vantagem de dois golos!

- Não! Achas que sim? Isso era um grande azar!

- Tens razão! Sentamo-nos naquela mesa?

- Pode ser! Vais beber alguma coisa?

- Talvez um sumo de laranja… e tu?

- Uma Coca-Cola! Vou lá dentro pedir!

- Ok! Eu vou indo para a mesa!

Quando se sentou sentiu que já sabia o que James lhe queria: fazer uma declaração de amor. Como é que tinha levado tanto tempo a perceber? Já sentira isso uma vez! No início do ano, quando Sérgio lhe pediu para curtir e ela aceitou! Enquanto pensava em tudo isto, James chegara com as bebidas.

- Obrigada! Então, o que é que tinhas para me dizer?

- Bem… Não é assim tão importante. Acho que pode esperar.

- Diz lá! Para mim não pode esperar.

- Espera só um pouco. Digo-te mais daqui a um bocado.

- Anda lá! Diz!

- É assim, – começou ele, pousando a Coca-Cola e corando. – para mim tu não és só uma colega. És… és… és a rapariga que eu… que eu… amo. Nunca senti isto em relação a uma rapariga. Algo no teu olhar faz com que me sinta… não sei. Não há palavras para descrever o que sinto…

- Bom… humm… não sei o que dizer. – respondeu ela muito corada e atrapalhada.

- O que é que sentes por mim? – disse olhando-a directamente.

- Eu? Bem eu… considero-te como um amigo acima de tudo… o que é que queres que diga?

Nesse momento, James, aproximou-se e ela pode sentir o seu aroma a \"Tommy Hilfigher\" e mentol. Virou a cara deixando-o muito atrapalhado e olhou para os carros que passavam. Durante muito tempo estiveram em silêncio, por fim, ele falou:

- Queres… queres namorar comigo?

Andreia olhou-o nos olhos e sentiu que a partir daquele momento a sua relação com James não voltaria a ser a mesma.

- Dás-me o fim-de-semana para pensar? Por favor?

- Claro! Dou-te o tempo que quiseres.

- Obrigada! Tenho de ir. Vou para casa de autocarro. Até segunda-feira.

- Xau!

\"Estúpida! Estúpida! Estúpida! Sou tão parva! Porquê que não lhe disse \'não\' no momento? Sou tão estúpida! Agora ele fica a pensar que tem hipóteses comigo!\" pensou. O seu telemóvel tocou e ela atendeu.

- Estou Andreia? Vai ao \"Messenger\"!

- Ó Sérgio! Agora não me apetece!

- Anda lá!

- Pronto, está bem. Até já!

- Fixe. Beijos.

- Beijos.

Antes de se pôr online, Andreia mudou o seu nickname: \"Detesto-me a mim própria!\".

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – Oi!

Sérgio – Oi! Quero perguntar-te uma cena.

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – O que é?

Sérgio – Queres curtir comigo?

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – Não, mas é que não mesmo…

Sérgio – Anda lá!

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – NÃO, NÃO QUERO! ADEUS!

Sérgio – Espera aí! Não queres repensar a tua resposta?

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – Não!

Sérgio – Anda lá!

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – Não!

Sérgio – Achas-me giro?

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – Sim, acho. Mas não quero. E pára de gozar com a minha cara.

Sérgio – Fogo! Achas que eu estou a gozar? Estou a falar a sério!

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – Eu não quero.

Sérgio – O que é que te custa?

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – A minha resposta continua a ser não!

Sérgio – Ok, pronto. Mas depois não venhas cá dizer que queres. Tu não sabes é curtir.

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – Não te preocupes que sei! Verás! Segunda-feira no intervalo da manhã.

Sérgio – Dea, estava a gozar! Isto foi tudo uma brincadeira.

Dea \"Detesto-me a mim própria\" – Desafiaste-me agora verás!

Andreia desligou a NET e mandou uma mensagem a James: \"E que tal curtirmos primeiro? Depois logo se vê. Beijos.\". Agora Sérgio ia ver que ela não tinha meias-medidas.

O fim-de-semana passou num instante e quando Andreia deu por si, estava sentada no carro a pôr lipgloss de baunilha nos lábios e sombra branca nos olhos. Será que tudo ia correr bem? Será que James ia gostar dos seus beijos? Isso já não lhe interessava minimamente, o seu objectivo era vingar-se. Ela sabia que o que estava a fazer não era nada correcto, mas que outra hipótese tinha naquele momento? Exacto, nenhuma. Já não havia nada que ela pudesse fazer para mudar a situação. Ela pensava em tudo isto quando a sua mãe entrou no carro:

- Já marquei a tua operação! – anunciou Leonor.

- O quê? – perguntou Andreia distraidamente.

- Já marquei a tua operação aos ouvidos e nariz! Vais faltar às duas últimas semanas de aulas.

- Iupi! Mal posso esperar! – ironizou Andreia.

- Sei que não queres mas vai ter que ser. Vai ser a tia Elisa a médica de serviço. Eu vou estar no bloco operatório 2 e tu vais ser operada no 1.

- Uau! Que excitante!

- Vais parar com os sarcasmos?

Quando chegou à escola viu James, Pedro, Sérgio e Miguel a jogarem matraquilhos. Era a sua oportunidade. Chegou ao pé deles e abraçou-se a James, que ficou muito surpreendido com a atitude dela.

- Bom-dia! – cumprimentou-os Andreia.

- Bom-dia! – disseram Pedro e Miguel.

- Olá! – disse Sérgio olhando-a de alto a baixo.

Os olhares que Sérgio e Andreia lançavam um ao outro mostravam frieza da parte de ambos, se bem que o dele mostrasse mais medo do que frieza. Felizmente ninguém mais sentiu as \"más energias\" vindas deles. Durante um tempo ele lançava umas \"piadas\" muito óbvias, para Andreia. Farta de tudo aquilo, ela abraça-se a James e dá-lhe um longo e suave beijo. Sérgio ficou com cara de quem tinha perdido uma aposta relativamente boa. Isso deixou-a bastante satisfeita.

Quando tocou, a funcionária avisou-os que só iriam ter aula ao meio-dia porque a Directora de Turma, com quem eles iam ter a maior parte das aulas, ia faltar. \"Óptimo! É da maneira que posso desabafar com a Ness.\" pensou Andreia.

- Ness! Preciso de falar contigo!

- O que é?

- É assim, na sexta-feira…

Andreia contou tudo a Vanessa desde que James lhe disse o que sentia até ao que tinha feito.

- … e agora sinto-me pessimamente pelo que estou a fazer! O que é que eu faço? Digo a verdade? – concluiu em desespero.

- Bem, para começar nunca devias ter feito isso!

- Eu sei, eu sei! Mas estava irritada com o que o Sérgio me disse…

- Tens duas hipóteses: ou lhe dizes a verdade… ou acabas com essa curte e esqueces o assunto. O que vais decidir?

- Vou pela saída fácil: acabo com a curte e esqueço o assunto.

- Se é o que realmente queres… Então tens todo o meu apoio. Mas lembra-te que isso pode ter consequências indesejáveis! É um conselho!

- Prefiro arriscar com a segunda hipótese.

- Então força!

- Mas só vou fazer isso no fim do dia.

- Não sei se deves fazer isso… Pode ser pior…

- Não te preocupes! Eu sei o que faço!

\"Espero bem que sim! Ultimamente não tenho sentido boas vibrações vindas da Andreia! Algo na vida dela vai ficar mesmo mal! Eu sei que sim!\" pensou Vanessa. Ela era uma rapariga que sempre tivera o dom de adivinhar o futuro. Não adivinhar ao ponto de saber pormenores, mas sabia quando a vida de uma pessoa estava prestes a mudar através das suas visões (e também sabia interpretar os sonhos e ler o futuro através dos astros). Esse dom combinava muito com a sua filosofia de vida. \"Nada acontece por acaso, tudo está predestinado!\" era o seu lema.

Normalmente, Andreia estaria ansiosa para que o dia terminasse, mas nesse dia esperava que o dia demorasse o mais possível. Infelizmente, quando receamos muito que o tempo passe, este tem a mania de andar mais rápido: num momento tinha acabado de falar com a Vanessa, passado o que pareceu um minuto estava sentada na aula de Estudo Acompanhado às 12h e depois encontrava-se sentada no banco da frente do carro. \"Meu Deus! Como é que eu lhe vou dizer que a nossa relação não iria resultar? A Ness tinha razão: eu devia ter acabado tudo no momento! Agora vai ser muito mais difícil!\".

Assim que chegou a casa fechou-se no quarto e telefonou a James:

- Estou, James?

- Sim? Olá Dea!

- Há muito tempo que já não me chamas assim…

- Eu sei!

- Olha, é assim: eu acho que… acho que… acho que uma relação entre nós nunca iria resultar. Desculpa!

- Bom… se tu pensas assim… então… é assim, não é?

- É! Mas acho que vamos continuar amigos, certo?

- Claro! Isso nunca vai mudar… pelo menos para mim!

- Para mim também não! Bom, até amanhã!

- Até amanhã!

Andreia desligou o telefone e ficou a pensar no que Vanessa lhe tinha dito. \"Será que ele vai ficar chateado? Será que a nossa relação de amizade vai ser a mesma?\" perguntou-se.

Os dias passaram e o dia da cirurgia de Andreia aproximava-se. Será que a mãe a ia deixar ir ao arraial que ia haver no último dia de aulas, na escola? Essa era uma das suas preocupações. Se fosse podia combinar um programa de Verão com a turma: uma festa do pijama, uma ida ao cinema… Este Verão ia ser só diversão. E se calhar ia ser o último de diversão antes de terem de se \"matar\" a estudar para os exames do 9º ano.

Entretanto chegou o \"dia D\" e Andreia sentiu-se imensamente nervosa! A única coisa que ela queria era que tudo corresse bem. E correu. Não houve complicações e o tempo passou num instante.

Dois dias antes do arraial aconteceu algo muito esquisito: Andreia recebeu uma SMS anónima. Era uma mensagem muito estranha… Dizia o seguinte \"O James nunca gostou de ti e isso foi só para te envergonhar em frente à turma.\". \"Estranho! Quem será que me enviou isto?\" pensou Andreia. Não que isso lhe interessasse, mas seria mesmo verdade que James nunca tinha gostado dela? Havia uma solução simples: telefonar à Vanessa ou ao Miguel para saber se eles tinham ouvido algo sobre isso. Telefonaria mais tarde, de momento ainda eles estavam em aulas.

Vanessa sentou-se na cama e pensou \"Como é que eu vou contar isto à Andreia? Como?\".

- Vanessa! Atende o telefone aí no quarto! – gritou a mãe de Vanessa.

- Estou? – atendeu Vanessa.

- Oi Ness! Ainda bem que te apanho! – disse Andreia.

- Andreia eu… eu tenho uma coisa para te contar…

- Sim mas… o que é?

- Hoje, à hora de almoço ouvi umas cenas...

- Que tipo de cenas?

- Uma aposta...

- E?

- E tu eras a aposta!

- Como?

- Tu eras a aposta! Foi entre o James e o Sérgio. Ambos apostaram em como conseguiriam andar contigo antes do Verão. Na verdade eles já tinham apostado isto há muito tempo, antes de tu curtires com o James.

- O James e o Sérgio?

- Sim. Olha... Faças o que fizeres não lhes digas que já sabias da aposta.

- O quê? Achas que sim?

- Andreia...

- Sim?

- Há quanto tempo nos conhecemos?

- Nove anos.

- Pronto! Quem é que queres enganar?

- Ok, eu vou tentar não insinuar coisas na presença deles…

- Eu não quero ficar tramada. Promete-me que não insinuas nada de nada…

- Prometo.

- Óptimo. Então? O que é que me querias dizer?

- Ah! Foi assim, de manhã recebi uma mensagem anónima que dizia \"O James nunca gostou de ti e isso foi só para te envergonhar em frente à turma.\". É estranho! Primeiro isto e depois a aposta...

- Mas lembra-te que estiveste sem telemóvel durante os dias em que o perdeste…

- Ok, pois foi. Ainda bem que me contaste da aposta. Obrigada.

- De nada. Olha, tenho que ir jantar. Vais hoje ao Messenger?

- Vou tentar.

- Ok! Xau!

- Xau!

Vanessa desligou o telefone e pensou \"Isto tudo vai trazer consequências. E não são das boas! É melhor estar atenta ao movimento da lua para determinar o que vai acontecer à Andreia. A não ser que eu tenha uma visão. É pouco provável. A última foi há duas semanas...\".

Finalmente tinha chegado o último dia de aulas! Andreia sentia-se muito contente pois ia poder ver o André. Decidiu vestir-se de forma especial.

Antes de mais escolheu as calças e decidiu levar umas calças de ganga escura com bolsos laterais. A camisola iria ser uma camisola de meia-manga vermelha com gola à barco e levaria umas sapatilhas vermelhas para combinar. Como acessórios decidiu levar uma carteira de tiracolo azul-escura e um conjunto de colar, brincos e pulseiras prateadas.

Por volta das 19h encontrou-se com Vanessa na portaria da escola.

- Oi Ness! Tudo bem?

- Sim. E contigo?

- Também. Vamos para dentro?

- Vamos.

Nesse momento, Vanessa parou e ficou a olhar para o vazio. Andreia reparou e já sabia do que se tratava. Aproximou-se da amiga e murmurou:

- Tiveste uma visão?

- Tive...

- E então...

- Aaaah... Apenas vi a minha mãe a mexer no meu diário. Nada de mais.

- Ok! Anda.

\"Sei que foi uma mentira mas acho que Andreia ficaria abismada com o que eu vi. Será que lhe devo contar? Não, é melhor que ela não saiba. Mas se ela não souber como é que o pode evitar? Bom, nós já tentámos evitar as minhas visões imensas vezes e nunca resultou... Talvez eu lhe deva contar. Mas não agora.\" pensou Vanessa.

- Hei Ness! Olha quem está a olhar para ti! – chamou Andreia evitando o riso a custo.

- Hum? Onde? Quem?

- Olha para o campo de futebol.

Vanessa olhou para o campo e viu que Tomás a fitava com os seus belos olhos azul-cinza e um sorriso lindo nos lábios. Como ele estava lindo com os cabelos loiros totalmente despenteados. Vanessa também o fitou e lembrou--se do dia em que o conheceu.

Foi numa tarde de Outono em Setembro. A turma dele estava a jogar futebol quando os rapazes da turma delas chegaram e os tentaram expulsar. A turma de Tomás era do 9º ano e, como tal, não se rendiam assim tão facilmente. Decidiram disputar o campo com remates à baliza. O resultado dos remates ficou empatado e decidiram jogar juntos. Tomás trocou com um colega e ficou fora do jogo. Vanessa e Andreia sentaram-se ao pé dele. Secretamente, Vanessa torcia pela equipa dele. Quando os do 9º ganharam ela e loiro, distraídos e entusiasmados, abraçaram-se entusiasticamente, para vergonha de ambos.

E agora ali estava ele a olhá-la com o ar mais natural do mundo. Como Vanessa queria ir conversar com ele! Mas tal era impossível. Porquê? Por uma simples razão: os pais de ambos nunca se tinham dado muito bem, problema esse que já vinha dos tempos de escola.

Claro que eles podiam falar um com o outro, mas apenas quando os seus pais não estivessem presentes. O que não era o caso visto que os pais de Tomás o observavam conversando com outros pais.

- Hei! Eu sei o que estás a pensar! – disse Andreia trazendo-a de volta à Terra. – Não fiques assim! Podem sempre namorar às escondidas.

- Primeiro era preciso ele querer... – continuando a admirá-lo discretamente.

- Claro que quer! Olha, és bonita, simpática, divertida, extrovertida, sincera... O que é que ele pode querer mais?

- Bonita, eu?

- Sim. Tens uma combinação muito boa! Cabelo castanho, pele morena e olhos azuis. És alta, elegante... Vais-me dizer que é mentira?

- É verdade! Mas isso não quer dizer nada!

- E não me admira que ele esteja a olhar para ti! Com uma mini-saia desse tamanho...

- Que piada! \'Bora divertir-nos!

- \'Bora!

Vanessa e Andreia divertiram-se imenso nessa noite! Foram cinco horas de diversão total e Andreia acabou por passar a noite em casa de Vanessa (o que ainda serviu de pretexto para estarem na NET até às cinco da manhã a ver sites de terror).

As férias começaram e tudo parecia correr bem. Na primeira semana os pais de Pedro tinham levado Andreia, Vanessa, Sérgio, Miguel, James e o próprio Pedro a acampar no Algarve. Tinha sido uma experiência muito divertida, especialmente quando Miguel e Pedro acabaram os dois enrolados na tenda durante a montagem da mesma. As raparigas ficaram numa tenda à parte, o que não impediu Sérgio de entrar lá a meio da noite para \"se atirar\" a Andreia e sair de lá com um estalo.

Na segunda semana não se encontraram, o que fez com que todos \"morressem\" de tédio. No final dessa semana, Andreia decidiu combinar um encontro em sua casa. Convidou Vanessa, Cata, James, Miguel, Pedro e Sérgio para lá irem na segunda-feira seguinte. Todos aceitaram excepto Pedro que ia para a Argentina nesse dia.

Segunda-feira chegou e Vanessa tinha acordado com um estranho \"feeling\". Algo nesse dia ia correr muito mal, apesar de ela não saber o quê.

Chegou a casa de Andreia e já todos lá estavam. Como sempre, a amiga estava sozinha em casa.

- Oi Ness! Entra! – disse Andreia abrindo a porta.

- Oi Dea! Tudo bem? – cumprimentou Vanessa.

- Iá! Anda para a sala. Estávamos mesmo agora a discutir o que havíamos de fazer.

- Ok!

- Então o que é que estavas a dizer MG2?

- É assim, o que é que tu tinhas em mente? – perguntou Miguel.

- Não sei… Querem jogar ao Jogo do Copo?

- Eu não! – disseram Sérgio e James.

- A mim também não me apetece muito. – concordou Miguel.

- Meninas?

- Por mim pode ser! – afirmou Cata, hesitantemente.

- Ness?

- Não sei… Sabes o que eu penso disso…

- Ness, vá lá! Precisamos de três pessoas… Por favor! – suplicou Andreia.

- Não sei!

- Anda lá Ness! Não te custa nada!

- Pronto eu jogo! Mas não faço perguntas.

- Eu vou buscar o tabuleiro! – disse Cata.

- E eu o copo. – disse Andreia.

- Eu vou buscar os terços. – falou Vanessa.

- E nós vamos jogar Play Station 2. – declarou Miguel.

- \'Bora. – disse Sérgio.

Os rapazes foram jogar e as raparigas ficaram na sala para começar a sessão. Por razões que elas desconheciam, o ambiente encontrava-se pesado e tenso. Como tal Andreia decidiu animar as coisas, pondo-se a cantar. Vanessa ria-se a bandeiras despregadas e Cata olhava-a pensando \"Eu não a conheço! Esta miúda é muita doida!\".

- Uh… Andreia? \'Tás-te a sentir bem? – perguntou Cata. – Tens febre?

- Não! – respondeu Andreia entre risos.

- E que tal jogarmos? – perguntou-lhes Vanessa.

- Ok, é melhor! – respondeu Andreia. – Agora que ninguém se ria. Quem não acredita pode sair agora. Não? Então vamos! Dizemos quinze vezes \"espíritos do bem venham até nós\". Vá! Um, dois, três!

- Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. Espíritos do bem venham até nós. – repetiram todas em uníssono.

- Estás aí? – perguntou Andreia.

- SIM.

- Podemos fazer-te algumas perguntas?

- SIM.

- Ok, quem quer ser a primeira?

- Posso ser eu. – disse Vanessa, com voz ligeiramente trémula. – Aquilo que eu vi hoje vai-se realizar?

- SIM.

- Podes-me dizer quando?

- NÃO.

- Próxima.

- Sou eu Sra. \"Jogo-mas-não-faço-perguntas\"! – respondeu Andreia. – Terei alguma hipótese com o André?

- NÃO.

- Cata és tu!

- Aaaah… Eu… – começou Cata, calando-se e olhando para o tabuleiro.

O copo tinha começado a mover-se… Cata leu e ficou mais pálida que a cal da parede. O seu olhar mostrava medo. O copo dizia, sem cessar, \"Vais morrer.\". Andreia olhou para Vanessa. Ela sabia o que aquele olhar queria dizer.

- P-podemos terminar a sessão? – indagou.

- NÃO!

- O que fazemos Andreia? Não podemos sair…

- Não me atrevo a tirar o dedo… Já li testemunhos de rapazes e raparigas que viram pessoas morrer por causa disso. – retorquiu Andreia.

- Partimos o copo! – disse Cata.

- Pois, está bem está! Eu não faço isso! – volveu Andreia, visivelmente nervosa.

- Eu vou parti-lo! – declarou Cata, pegando numa escultura de metal que se encontrava sobre a mesa.

- Não Cata! Não…

Nesse preciso momento, Cata partiu o copo, fazendo um pequeno golpe no dedo indicador. Olhando para as amigas, ela sorriu. Mas esse sorriso não durou muito. Nos óculos de sol dela, Andreia e Vanessa viram reflectido uma estranha figura. Era um homem de pele branca como a neve, cabelos negros e compridos, uns arrepiantes olhos vermelho-sangue e vestido de negro da cabeça aos pés.

Cata ficou mais branca do que já estava e abriu a boca de espanto. Nesse momento, tombou da cadeira ficando imóvel no chão, de olhos fechados.

Andreia e Vanessa correram para ela e sentiram que algo estava muito errado. Poisando a sua mão na testa de Cata, Vanessa sentiu que a amiga estava morta.

Miguel, Sérgio e James ajudaram Vanessa e Andreia sentarem-se no sofá. Ambas tinham desmaiado quando viram que a amiga estava morta. Nenhuma delas estava ainda completamente recuperada. Tinha tudo acontecido tão depressa! E na verdade, se não fossem os pais de Andreia a achegarem uma hora mais cedo, ninguém teria reparado no que se passava.

Os rapazes tinham saído alarmados do quarto onde tinham estado a jogar, quando ouviram o grito da mãe de Andreia. Eles só tiveram tempo de ligar à polícia e ao INEM enquanto Paulo (o pai de Andreia) dava um copo de água à esposa. Parecia o caos total! Primeiro haviam chegado os bombeiros juntamente com a polícia e, cinco minutos depois, o INEM. Também os pais de Catarina tinham sido chamados, como é óbvio.

Enquanto o cadáver era recolhido, a polícia falava com os pais de Cata e um dos agentes interrogava Vanessa e Andreia em separado e particular. Como se tivesse havido transmissão de pensamentos, as histórias coincidiam: Cata tinha partido o copo por estar com medo e quando o fez, ficou branca e morreu. Nenhuma delas se atreveu a contar a parte do estranho ser de olhos vermelhos.

Os dias passavam e as duas amigas esperavam ansiosamente o resultado da autópsia. O que as mais intrigava era o que teria provocado a morte da amiga.

Em relação a apoio emocional, isso, não lhes faltou! Os rapazes foram espectaculares durante as três semanas de espera. E João, que também estava a par da história, tinha-lhes dado todo o seu apoio.

Vanessa e Andreia estavam abaladas de igual forma. Por vezes tinham incontroláveis ataques de choro, ambas. Duma das vezes Andreia estava com João e Sérgio quando começou a passar a música \"In the end\" dos Linkin Park, a preferida de Cata. Nesse momento Andreia lembrou-se das vezes em que a amiga se entusiasmava nas aulas quando se falava deles, ou de quando a chateavam dizendo que o Mike era giríssimo. Assolada por um enorme sentimento de tristeza, as lágrimas jorraram dos seus olhos.

E com Vanessa acontecia o mesmo. Numa tarde em que James e Miguel tinham ido a casa dela ver um filme desatou a chorar. Decidiram ver o \"Piratas das Caraíbas\" e Vanessa lembrou-se subitamente como a amiga era fã da aventura e adorava esse filme, alegando que o Orlando Bloom estava muito giro nesse filme.

No entanto, os seis amigos apenas tinham uma questão em mente: como contar a Pedro que a namorada falecera? Ele voltava da Argentina, exactamente no dia em que chegariam os resultados da autópsia. Alguém teria de lhe dizer. Combinaram que iriam ao hospital saber o resultado e depois iriam até casa de James que era a que ficava mais perto da casa de Pedro.

Terça-feira amanheceu rapidamente. Com tanta ansiedade Vanessa e Andreia dormiram apenas duas horas e viram o nascer do sol. Como era bonito! Nunca nenhuma delas tinha assistido a um. O resultado da autópsia sairia às onze horas e Vanessa já sabia o que iria acusar, mas manteve essa informação só para si.

- Bom-dia D. Rosa, Sr. António. – cumprimentou Vanessa.

Vanessa tinha sido a escolhida para ir saber o resultado enquanto os outros esperavam à entrada do hospital.

- Bom-dia Vanessa. O que fazes aqui? – indagou Rosa, mãe de Cata.

- Bom… é assim: nós queríamos saber o resultado. Será que podemos?

- Podem. Aliás, vocês têm todo o direito de saber isso. Afinal foram vocês que…

- Bom-dia António, Rosa. Será que podem vir ali ao meu gabinete? – cumprimentou o Dr. Guedes.

- Claro Nuno! – disse António.

O Dr. Nuno Guedes era um amigo de longa data do casal e como tal já tinham imensa confiança entre si para se chamarem pelo nome próprio.

- Olha, Nuno. A Vanessa era amiga da Catarina… Será que ela também pode entrar? – perguntou Rosa.

- Claro! Venham comigo.

Vanessa seguiu os pais de Cata e o Dr. Guedes até ao gabinete.

- Bom, acho que não há muito para dizer. – começou o Dr. Guedes esfregando a testa. – A autópsia não deu em nada… não acusou nada.

A partir desse momento, Vanessa \"desligou\" completamente da conversa. Ela já sabia o resultado antes do médico dizer. Pela janela ela viu os seus amigos no passeio esperando que ela voltasse. Os mais impacientes eram Miguel e Jorão que não paravam de andar às voltas e consultar o relógio de segundo a segundo. James e Sérgio estavam bastante calmos e Andreia estava sentada a escrever (como fazia sempre que estava nervosa). Sérgio já era calmo só por si mas James… James parecia quase indiferente…

- Vanessa! – chamou Rosa. – Vamos?

- Sim, claro… – respondeu ela ainda embrenhada nos seus pensamentos.

Vanessa saiu do hospital e apressou-se a contar aos seus amigos o resultado da autópsia.

- Também, estavam à espera de quê? Foi aquele… aquela… coisa, que a matou. – disse Andreia no final da explicação de Vanessa.

- É bem verdade! – respondeu Miguel.

- Vamos embora? Ainda temos de contar ao Pedro… – disse Andreia.

- Vamos! – disse Sérgio.

- Ah! E o funeral, para quem quiser aparecer, é na quinta-feira. – avisou Vanessa.

- Eu vou. – disseram todos.

- Eu não vou lá! – disse Sérgio.

- Vá lá! Tu és o melhor amigo dele! – disse Miguel.

- Sim, mas não queria que ele soubesse por mim… Ele vai-me perguntar porquê que não lhe mandei uma SMS a contar!

- Então trá-lo até aqui pelo menos! – pediu Vanessa.

- Não sei! Ele até pode nem querer vir! E voltou hoje! Pode nem sequer poder!

- Sérgio! Pára de inventar desculpas e vai lá! – respondeu Andreia puxando-o para fora de casa.

\"Ora bolas! Como é que eu digo isto ao Pedro? Tipo \'Olha Pedro! A tua namorada morreu!\'. Que piada! Como é que eu deixei que ela me arrastasse?\" pensou Sérgio enquanto caminhava.

Quando chegou a casa do amigo respirou fundo e tocou à campainha. Foi Pedro quem abriu a porta:

- Olá Sérgio! Entra!

- Não, obrigado! Olha, será que podes vir comigo até casa de James? Temos uma cena para te dizer…

- Que cena?

- Vem e nós contamos-te tudo.

- Ok, deixa-me só trocar de camisola.

- Vai lá!

- Eu? Porquê eu? – perguntou Vanessa.

- Porque tu viste a cena toda de perto! – respondeu Miguel.

- A Andreia também!

- Vanessa, – disse ele pegando-lhe nas mãos. – ambos sabemos que a Andreia não o vai conseguir fazer! Tu és a única que se consegue manter calma mesmo nas piores circunstâncias. Por favor, diz-lhe tu.

- Não sei…

- Ness; por favor. Pela Cata.

- Pronto eu alinho. Vou tentar.

- \"Bigado\"!

\"Cá vai disto! Só espero que ele reaja bem! Que disparate! É óbvio que não vai reagir bem!\" pensou Vanessa enquanto se juntava aos outros.

- Pedro? – chamou ela.

- Sim?

- Temos uma coisa para te contar…

- Pois, o Sérgio disse-me. O que é?

- Bom… Promete-me que ficas calmo!

- Depende do que me vão dizer. Mas dizem-me duma vez o que se passa?

- É assim, no dia em que foste para a Argentina…

- … e agora a autópsia não acusou nada. – concluiu Vanessa.

- Nada? – perguntou Pedro.

- Nada. Ao que parece não houve nenhuma razão para a morte dela.

- A não ser esse espírito de olhos vermelhos. – murmurou Andreia baixando os olhos.

O rapaz começou a caminhar de um lado para o outro no quarto de James e a passar a mão pelos cabelos castanhos e os seus belos olhos castanhos a encherem-se de lágrimas. A sua expressão era de total desespero.

- Ela foi a única rapariga que eu realmente amei… a única! – volveu ele chorando.

- Tem calma! Isto é difícil para todos nós que a conhecíamos! – respondeu Andreia abraçando-o.

- Ficas bem? Não queres ir passar a noite a minha casa? – perguntou Sérgio.

- Fico! Além disso eu preciso ficar sozinho… Quando é que é o funeral?

- Quinta-feira. Vais ter a minha casa? – perguntou Andreia.

- Vou. Até quinta-feira.

- Xau! – disseram Andreia e Sérgio.

Pedro chegou a casa e atirou-se para cima da cama. \"Porquê que isto tinha de acontecer? Porquê? Ela foi a única rapariga que eu amei! Detesto a minha vida! Só me apetece morrer! Eu quero morrer! Eu quero ficar com ela, vá ela para onde vá!\" pensou ele enquanto chorava.

- Pedro, querido! Anda jantar! – chamou Cristina, a sua mãe.

- Não tenho fome! – gritou ele.

- Filho, não podes ficar sem jantar. Anda comer.

- Já disse que não tenho fome.

Cristina decidiu subir as escadas e ver o que se passava com o filho. Ele nunca se tinha recusado a jantar.

- Querido, o que se passa? – perguntou ela sentando-se junto dele.

- Nada!

- Nada? Ninguém chora por nada. O que se passa?

Cristina passava a mão nos cabelos de Pedro tentando que ele falasse, mas a única resposta foi o silêncio.

- Queres falar sobre isso? Olha que falar sobre os problemas costuma ajudar. – tentava ela.

Depois de um longo silêncio, Cristina acabou por desistir deixando o filho sozinho.

Passados dez minutos, alguém tocou à campainha. Quando Pedro ergueu os olhos para ver quem era viu André a fitá-lo. André fora, em tempos, o seu melhor amigo mas uma escolha obrigou-os a separarem-se no 7º ano. A sua amizade podia ter resistido mas tal não aconteceu. A turma de André era só de betos enquanto que a de Xico era dreads (tirando um ou outro caso).

- Olá! – disse André.

- O que é que estás aqui a fazer?

- Soube do que aconteceu e, caso não te lembres, eu também conhecia a Cata.

- Pois, e também andaste com ela não é verdade?

- Ainda estás chateado com isso?

- Talvez.

- Olha Pedro, a Cata não havia de querer que ficássemos assim. Tu foste o único que me apoiou quando eu decidi ir para outra turma. Sei que isso trouxe divergências entre nós, mas eu não quero perder a tua amizade. Nós fomos os melhores amigos desde o infantário. Acho que não se deve desperdiçar uma amizade assim…

- Como é que podes saber que era isso que ela queria?

- Porque ela sempre me pediu que falasse contigo acerca disto. Ela sempre me disse que não gostava de nos ver desta forma…

- Sabes? Tens razão. Não vale a pena continuarmos chateados.

Ambos sorriram e concordaram em recuperar aquela amizade que se havia perdido. Começaram os dois a conversar e \"conversa puxa conversa\" acabaram a falar de namoradas e raparigas que gostavam.

- É eu gosto de uma rapariga mas acho que ela nunca iria querer algo comigo. – declarou André.

- Posso saber quem é a sortuda? – perguntou Pedro, muito interessado.

- Tu conhece-la. É da tua turma.

- É a Andreia não é?

- Como é que sabes?!

- Dá para ver que há química entre vocês.

Os dias passaram e já tinha sido o enterro de Cata. Nesse dia, só Andreia e André tinham visto o que Pedro sofria. Já todos se tinham ido embora e apenas eles os três tinham ficado.

- Bom, eu tenho que ir. Xau. – disse André.

- Eu também vou. – disse Andreia. – Xau Pedro.

- Xau. – respondeu Francisco abraçando-a. – E obrigado pelo vosso apoio. Tem sido muito importante para mim.

- De nada. Xau.

Quando passaram os portões do cemitério, Andreia e André ouviram um grito. Eles não precisavam de se voltar para saber que era Pedro. Foi um grito carregado de tristeza e ódio.

- Custa-me tanto vê-lo sofrer assim! – desabafou Andreia.

- Eu sei. Eu nunca o tinha visto desta maneira. Ele sempre foi forte e nunca se deixou abalar por contrariedades…

- Se eu pudesse fazer algo para o ajudar…

- Hei! Não fiques assim! Ele vai recuperar! Verás que daqui a algum tempo já o vamos ver outra vez todo sorridente. – disse André passando o braço por cima dos ombros de Andreia.

Já estavam no mês de Agosto quando se voltaram a encontrar todos. Por essa altura já Tomás fazia parte do grupo. E tudo graças a Vanessa que o tinha separado de Sérgio numa luta. No final os dois rapazes acabaram nas habituais brincadeiras de rapazes.

Tinham recebido todos a mesma SMS de James \"Vem ter a minha casa no dia 7.\". Essa mensagem fê-los ficarem muito intrigados. O que seria que James lhes queria? Mesmo sem saberem o que ele queria encontraram-se todos no jardim de casa dele como lhes havia sido pedido que fizessem.

Vanessa foi a última a chegar juntamente com Andreia e, para surpresa das duas amigas, Tomás e André também se encontravam lá. Foi uma surpresa porque James nunca os aceitara completamente.

James aproximou-se de todos eles e, sem nada dizer, com um estranho movimento de mãos enviou-os para um Mundo Paralelo. Quando \"aterraram\" viram-se envoltos num estranho nevoeiro e no meio de uma floresta.

- Au! O que foi isto? Onde estamos? – perguntou João.

- Não faço a mínima ideia! — disse André, ajudando Andreia a levantar-se.

- Afinal, o que é que o vosso colega nos fez? – perguntou Tomás a Vanessa, enquanto lhe estendia a mão para que ela se levantasse.

- Não sei! Mas foi estranho! – Vanessa tinha acabado de ter novamente a mesma visão do dia do arraial, só que ainda mais nítida. – Dea, vem cá!

- O que foi? – perguntou Andreia, afastando-se dos outros juntamente com Vanessa.

- Acho que está na altura de tu saberes.

- O quê?

- No dia do arraial, lembras-te da minha visão?

- Sim…

- Eu menti.

- Não percebo. O que é que…

- Deixa-me acabar. Na minha visão… tu… tu estavas morta. E agora este cenário está-me a trazer más vibrações. Dea acho que vai ser hoje…Voltei a tê-la.

- Mas… eu não… e depois…

Mas algo cortou o que Andreia tentava dizer. Algo, mais precisamente, alguém. Vanessa e Andreia ouviram estranhos barulhos vindos do meio das árvores, barulhos esses que começaram a tornar-se em resmungos.

- Oh meu Deus! Qual foi a minha de vir para aqui? Desde que eu os salve tudo bem. Mas como raio é que eu vou saber onde é que eles estão? Eles até podem já estar em direcção ao castelo. Oh Deus! Isso não seria nada bom!

De repente todos eles viram emergir dos arbustos uma rapariga vestida de azul celeste, com umas asas e com longos cabelos castanhos-claros totalmente em desalinho.

- Olá! – disse ela. – Ainda bem que vos encontro eu…

- Susana?! – disseram Vanessa e Andreia em uníssono.

- Ora bolas! Sim sou eu!

- O quê que estas a fazer aqui? Porque estás vestida dessa forma? – perguntou Andreia.

- Oh bem… eu… bom, há muitas coisas que vocês não sabem sobre mim. É que eu sou um anjo e a minha função é proteger-vos às duas. Sabem é que…

Mas nesse preciso momento, um espírito vestido de negro apareceu. Todos ficaram petrificados pois nele havia algo que os inquietava. O seu olhar percorreu todo o grupo causando um arrepio geral. Quando ele falou, a sua voz era gelada e sem nenhum sentimento.

- O Mestre deseja ver-vos! – anunciou. – Ele pediu-me que os encaminhasse até ao seu castelo.

- E quem é esse teu Mestre? – perguntou Susana cruzando os braços.

- O meu Mestre, é aquele cujo este grupo conhece por James. É aquele que foi usado e desprezado por aquela rapariga. – respondeu ele apontando para Andreia.

\"Estou bem arranjada! Primeiro descubro que vou morrer e agora sou acusada de ter desprezado e usado o James. Fui eu que nos meteu nesta embrulhada! O que é que eu faço? Eles não podem pagar pelos erros que eu cometi. De maneira alguma.\" pensou Andreia, tremendo ligeiramente.

- Leva-me até ele. Mas só eu! Deixa os outros ir… – disse Andreia dando um passo à frente.

- Com certeza.

- Nem penses, Andreia! Se tu vais eu também vou! – declarou André fazendo com que Andreia ruborizasse.

- Então nesse caso vamos todos! – declarou Vanessa.

- Não! – fora Susana quem falara. – Vocês voltam para o vosso mundo. Eu vou com a Andreia.

- Mas é que nem penses! Eu vou com ela! – teimou André.

- Oh Deus! Vocês não desistem pois não?

- Não! – responderam todos.

- Então vamos todos, apesar de não devermos fazer isso.

Na frente ia o espírito negro logo seguido por Susana que, por sua vez, levava todo o grupo dos sete atrás de si.

A visão de Vanessa estava cada vez mais nítida e ela finalmente tinha percebido como é que a amiga tinha morrido.

O caminho até ao castelo tinha sido feito no mais profundo silêncio com a excepção do \"ruge-ruge\" do manto do espectro. A floresta ia ficando cada vez mais densa, o nevoeiro ia ficando cada vez mais cerrado e estava a anoitecer. Ouviam-se todo o tipo de barulhos assustadores e se não tivessem cuidado podiam acabar por se perder.

Finalmente tinham chegado à entrada do castelo. Era um castelo muito assustador e estranho: as paredes eram negras, havia esculturas de gárgulas, vampiros e lobisomens. Além disso, àquela hora saíam imensos morcegos das torres.

Por razões que ambas desconheciam, Andreia e Vanessa, estavam cada vez mais fracas e sem energia. Havia algo de muito errado com aquele local e elas estavam prestes a descobrir.

Após passarem por muitas salas e divisões entraram finalmente num amplo salão com as paredes revestidas de tapeçarias e candelabros. Ao fundo estava uma poltrona preta sem ninguém a ocupá-la… durante breves momentos.

Repentinamente, uma onda de fumo enche a sala. Nas sombras todos puderam ver uma silhueta masculina e alta… Quando todo o fumo tinha dispersado ninguém ficou surpreso ao ver James fitando-os.

- Bem-vindos. – disse ele sarcasticamente.

Ninguém se deu ao trabalho de responder. Mas que seria que James lhes estava a fazer? Alguma coisa ele pretendia, isso era certo. E também era certo que tinha algo a ver com Andreia e Vanessa. Mas que seria?

- Muito bem, não sei porque vieram todos (nem me interessa). Apenas quero falar com Andreia e Vanessa… a sós.

- Nem penses! – reclamou Andreia.

- Penso sim. Vocês as duas têm algo que eu quero… algo que me pode dar a vida eterna.

- Hã?! Não percebi nada… – disse Vanessa.

- Digam-me, nunca desejaram que algo acontecesse e isso acontecesse logo a seguir?

- Bom… já me aconteceram algumas coisas quando eu não queria ir a algum sítio ou assim… Acontecia algo e eu acabava por não ir. — disse Vanessa.

- A mim também… porquê? Que tem isso a ver com o assunto?

- Isso tem tudo a ver! Vocês têm uma força muito poderosa. Estranha, mas muito poderosa. Andreia, lembras-te quando beijaste o James…

- Quando te beijei.

- Não, quem tu beijaste foi mesmo o James. Eu sou um espírito. Eu tinha de me aproximar de ti portanto tinha de assumir uma forma humana. Depois do almoço, no dia em que o beijaste, apoderei-me do corpo dele. O James está morto… em alma. Era uma forma de te roubar esse poder, mas tu não me deste oportunidade.

- Eu devia ter visto… – disse Andreia.

- Eu bem senti uma energia negativa vinda do James… mas não liguei… Oh se eu tivesse visto isso… Sou uma incompetente! – resmungou Susana.

- Pois bem, – disse \"James\". — podemos fazer isto de duas maneiras: ou a bem, ou… – deslizou até André e Tomás, agarrou-os pelo pescoço. – … a mal. Que decidem?

Ambas as raparigas estavam assustadas. Aquela batalha era com elas e não valia a pena envolvê-los.

- Larga-os, por favor! A tua luta é connosco… – pediu Andreia.

- Andreia! Não ligues ao que ele diz! – disse André.

- Ela tem razão… A tua luta é connosco! Larga-os! – acrescentou Vanessa.

- Vanessa! – disse Tomás. – Não faças isso. Não te importes comigo.

A situação estava cada vez mais complicada. Por um lado, Andreia e Vanessa que não queriam que algo mau acontecesse a André e Tomás. Por outro, André e Tomás que não estavam dispostos a que as raparigas que amavam sofressem.

Susana parecia querer tomar uma decisão mas não estava a conseguir. Era demasiado difícil. Ela sabia que, caso elas entregassem os poderes, a bem, morreriam. Mas também sabia que os rapazes iam sofrer sem terem nada a ver com aquilo. Que fazer? Qual seria a decisão acertada?

Numa atitude inesperada, \"James\" larga os dois rapazes e dirige-se à poltrona. O seu olhar percorria a sala e pousou em Pedro (que tinha acabado de juntar todas as peças do puzzle).

- Foste tu! Tu é que mataste a Cata!

Nesse momento, foi como se todos entrassem em sintonia: a morte de Cata tinha sido um aviso e James não se encontrava no quarto a jogar Play Station 2 no momento em que ela morreu.

\"James\" pressentiu que estava na altura de conseguir os poderes e transformou-se no ser de olhos vermelhos. Das suas costas brotaram duas asas de morcego, a pele tornou-se mais pálida, os olhos vermelhos e trajou um manto negro. Das suas mão saía uma espécie de fogo vermelho-sangue e transparente que ele arremessou contra o grupo. Felizmente todos se tinham desviado.

Foi o momento de Susana intervir. A arma dela era muito parecida com a do vilão, com a excepção que era totalmente opaco e era branco e azul-celeste. Ambos arremessaram contra o adversário mas a luta estava difícil. Susana estava muito fraca devido às más energias do local. Nesse momento, ela foi atirada para trás devido a um impulso mais forte do vilão.

\"Estamos tramados!\" pensaram todos. E estavam mesmo. Sem Susana para os proteger eles eram totalmente inofensivos.

\"James\" queria aqueles poderes e se tivesse de ser pela força então era assim que ia ser. As raparigas estavam em volta de Susana e James viu a sua oportunidade a surgir: André e Tomás estavam sozinhos. Ergueu as mãos e de novo o fogo surgiu. Nessa altura, Andreia olhou para trás e anteviu o que ia acontecer. Num impulso, ela salta e empurra André no momento em que o fogo lhe ia acertar. Ela conseguiu salvá-lo mas… não se salvou a si própria. Sim, Andreia estava morta pois o estranho fogo havia-lhe acertado. André mal podia crer no que tinha acontecido e o vilão também não… tinha perdido os poderes de Andreia.

Uma estranha luz azulada encheu a sala e o grupo fechou os olhos. Quando os abriram viram que \"James\" jazia morto no chão. Tinha sido Susana que recuperara as forças. De repente, todo o castelo começou a tremer e a desmoronar-se. André pegou no corpo inerte de Andreia e começaram todos a sair dali. Quando chegaram a uma clareira, Susana enviou-os de novo para o lugar onde pertenciam. De novo os seis amigos se viram no jardim de James. Não tardou a que Susana se juntasse a eles…

- Ele não vos volta a chatear. – anunciou ela. – Só é pena que uma vida tenha sido sacrificada… Lamento. Se eu tivesse agido como deve ser… — tentou explicar enquanto as lágrimas começavam a jorrar-lhe.

- Não Susana, a culpa não foi tua… Ela morreu para me salvar, eu estou a dever-lhe a minha vida. – disse André com lágrimas nos olhos.

- Mais uma vez lamento. Eu… eu tenho de ir…

Enquanto Susana desaparecia, Vanessa desfazia-se em lágrimas abraçada a Tomás e João, Pedro, Sérgio e André lutavam contra a tristeza que se abatia sobre eles. A partir daí as suas vidas nunca mais seriam iguais…

Notas finais
Epílogo

"Um fantasma de ti, foi tudo o que nos restou. Nada nem ninguém te poderá substituir. Esperamos ansiosamente até ao dia em que nos voltemos a encontrar.". Estas foram as palavras gravadas na lápide do jazigo de Andreia. Vanessa lia estas palavras todos os domingos depois da missa. Ela cumpria este ritual há quinze anos sem falhar um dia. Era o que a sua melhor amiga merecia. Ela lembrava-se constantemente de Andreia… E lembrava-se de André. Durante dois anos, André acordava todas as noites a ouvir o riso de Andreia, a vê-la nos seus sonhos. Ao fim desse tempo, decidiu que estava na altura de ir ter com a rapariga que nunca deixara de amar e suicidou-se cortando os pulsos.

Por muito difícil que a vida fosse, todos tinham conseguido seguir as suas carreiras. Todos achavam que as amigas que tinham morrido (Cata e Andreia) lhes davam forças nos momentos mais importantes e críticos. Vanessa tornou-se uma conceituada psicóloga (juntamente com Tomás que era agora o seu marido), Sérgio um importante empresário, João um excelente engenheiro e Pedro foi pela área da Medicina.

Nunca nenhum se esqueceu daquelas férias de Verão e sempre viveram esperando o dia em que se reunissem de novo…

1 Sim

2 Diminutivo de Miguel
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