O Ocaso Imperial

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Essa história simplesmente veio na minha cabeça, ela era pra ser bem maior na verdade, talvez no futuro eu realmente transforme numa história de verdade, mas por enquanto só tenho esse "one-shot".

O vermelho cobria o chão.

Tal era o principal detalhe que saltava aos olhos em meio aos ricos detalhes que compunham o quarto tão bela e cuidadosamente ornamentado. Seus móveis, seus lustres de velas, suas tapeçarias, tudo que os olhos pudessem contemplar indicavam riqueza pujante do ser que lá habitava. As ricas artes que pendiam das paredes de pedra antiga, escura, passavam a certeza de que quem quer que fosse que vivia ali, era do século XVIII que pertenceria. Tal fato contrastava com a certeza daquelas paredes remontarem à um castelo antigo do começo do milênio.

Toda a sua pompa e ornamentação não impediam, naquele momento, de estar o chão lentamente sendo tingido de vermelho, como se fosse o chão de uma casa qualquer abandonada à sua própria sorte e intempéries do acaso.

Haviam se passado apenas alguns minutos que essa cena se apresentava aos espectadores mudos que envolviam a cena. Pudessem os ricos livros de mineralogia ou ciência política, que calmamente repousavam sobre a gigantesca estante a meio metro da cena, se manifestar, com certeza teria alguma boa alma corrido até ali para ajudar em meio a essa situação.

Mas a dona de todo aquele líquido vermelho que indiscriminadamente vertia para todos os lados, certamente não dava prioridade, em meio às suas inúmeras atividades, para a arte de tentar cultivar boas almas como aliadas, almas essas que pudessem vir a seu socorro em momentos como este. Pois bem, o resultado estava ali. Ela não só não as cultivava, como fazia o exato oposto, sua lista de desafetos era inegavelmente longa.

Não haveria mais nada a ser feito, a certeza de que partiria já envolvia a sua alma. Seu corpo, aos poucos, perdia toda a sua coloração avermelhada inata da vida que ainda pulsava em seus órgãos, dando lugar à uma palidez um tanto quanto doentia e frágil, que agora se igualava à cor branca de seu longo e rico vestido escolhido especialmente para essa ocasião tão especial, há tanto esperada, mas que agora não mais sabia se poderia dela participar. Sua própria coroação não mais a teria presente.

A pequena e jovem integrante da família reinante possuía em seu íntimo a força de combate de um corpo militar inteiro, mas do alto a sua inexperiência e ingenuidade de seus dezoito anos, ela falhara ao perceber a quantidade de adagas que estavam prontas a serem enterradas em suas costas na sua mais leve distração.

E o erro havia custado caro, ela com certeza tinha lutado para garantir que seu reino não se quebrasse em mil pedaços com a morte prematura de seu pai, e garantir que ela, como a mais velha das duas filhas, fosse aceita como a chefe de Estado. Ela juraria que a paz estava garantida depois de um ano de lutas, mas o atentado que acabara de acontecer dizia o contrário.

Pobre garota! Que por um descuido caíra do alto de seu trono direto ao chão, mas quem poderia um dia imaginar que um membro da sua própria família, sangue de seu sangue, integrante da mesma árvore genealógica que há séculos escrevia histórias sobre seus reinos, viria, num abraço, vir a empapar de sangue suas costas, seu vestido e sua história.

Seu pulso diminuía aos poucos, ao mesmo tempo que no íntimo uma pontada de desespero cobria o que restava de consciência. Seria esse o fim?

Ou o começo?

Não poderia negar que a ideia da morte tão temida e tão próxima suscitava sentimentos que abrangiam desde a sensação mais pura da liberdade, até o mais profundo pavor do completo desconhecido.

Então era isso. Concluiu ela, com todo o seu turbilhão de pensamentos e sentimentos desgovernados. Nada tinha a fazer.

O seu corpo cada vez mais pálido, estendido sobre o chão, conservava, por enquanto, seus olhos bem abertos, captando cada detalhe dos que podiam ser os últimos momentos que os teria abertos.

Enquanto pensava que a última coisa que veria antes de partir seria o teto, seus olhos repentinamente se voltaram para um grande estrondo que, para sua consciência quase parcial do momento, se passava em câmera lenta.

Haviam adentrado com grande brutalidade vários guardas reais gritando indistintamente e de forma quase ininteligível, entravam no universo que aos poucos se esvaia da jovem princesa, puxavam com eles um nobre muito bem vestido, aos prantos, com uma adaga ensanguentada em suas mãos também banhadas de vermelho.

Seu meio irmão.

Atrás dos guardas vinham diversas pessoas importantes do reino, políticos, ministros, generais, que recebiam a cena como um raio num céu sem nuvens.

O tumulto aumentava junto com o desespero que se somava ao fato de ninguém saber realmente o que fazer.

A jovem sentiu seus braços serem levantados gentilmente por alguns guardas que a ajudavam a levantar. Suas pernas não mais a obedeciam, em seus arredores todos falavam mas nenhum som chegava a seu ouvido. Seu mundo estava se indo.

Fora arrastada rapidamente pelos corredores, atraindo olhares de horror e choque por onde passavam, aquela que seria coroada como rainha em breve, estava agora lutando pela vida como lutara meses atrás para garantir sua coroa.

Estava sendo levada para fora do castelo, notou ela, quase inconsciente. O mundo ao seu redor parecia ter sido todo envolto em um torpor, a realidade havia se tornado um sonho ruim que ela se encontrava cada vez mais próxima de acordar.

Desceram rapidamente a escadaria da entrada do imponente castelo, três guardas ao seu lado a carregavam, enquanto que atrás vinha uma turba de gente desorientada. Todos temiam pelo pior, todos temiam ter a mesma certeza que já havia se instalado no coração da princesa: que seria apenas questão de alguns minutos.

De frente das escadarias, as várias carruagens que se encontravam estacionadas tinham originalmente um fim menos sombrio, mas no momento assumiam o papel de 'esquife real', como pensavam todos ali, mas ninguém em sã consciência o diria. Correriam para salvá-la, é o que importa.

Colocaram, com cuidado redobrado, a jovem banhada de vermelho com seu rico vestido que um dia fora branco, mas que havia assumido tons de escarlate, dentro da carruagem. Traziam correndo atrás dela, descendo as escadas, passando por toda a multidão que se formava, a ainda mais jovem princesa de dois anos, sua irmã que pouco entendia e muito chorava.

Entraram todos no carro puxado por cavalos de sangue nobre, a mais jovem se sentara de frente da princesa, no colo de sua aia, enquanto que aos lados se sentaram os guardas que haviam a trazido. Segundos após terem entrado, depois de se acomodarem rapidamente, partiam na maior velocidade, em direção aos médicos.

O silêncio reinava dentro da carruagem, apenas o choro da criança se fazia ouvir, todos os olhos se voltavam para a princesa que mal se mexia e aos poucos cerrava seus olhos.

O momento estava próximo, ela sentia no seu ser que estava indo!

Respirou fundo, o pouco ar que conseguia puxar aos seus pulmões, lá chegava trazendo uma carga ainda maior de dor. Trouxe toda sua vontade e consciência que ainda restava para o momento.

Num último ato de força, se endireitou no seu assento, utilizando-se de força descomunal, seu rosto se contorcendo da dor aguda e incomensurável que atingia suas costas vermelhas e irradiava para todo seu corpo.

Ignorando os protestos espantados dos presentes que quase sem voz a pediam para se aquietar, com sua mão trêmula e pálida, agarrou a coroa de princesa que ainda se encontrava sobre sua cabeça, emaranhada no seu cabelo castanho.

Ignorando ainda os protestos de todo seu corpo que gritava de dor, ela arrancou a coroa que segundos atrás parecia esquecida em meio de seus cabelos desajeitados, estava agora em suas mãos trêmulas e banhadas de seu sangue. Todos os olhares espantados apenas a observavam, calados, sob a velocidade vertiginosa da carruagem.

Estendeu seus braços delicados e frágeis, sob uma grande tremedeira que assolava suas mãos, e colocou a tiara cravejada de brilhantes sobre a delicada cabeça de sua irmãzinha, que agora, assustada e sem entender, por alguma razão parara de chorar.

A princesa mais velha, se resumiu a observá-la, com um sorriso em seus lábios, satisfeita.

Mas, esse gesto simples e tão significativo havia esgotado toda a força que ainda lhe restava, sabia disso.

O ar de repente não conseguia mais chegar aos seus pulmões, a escuridão tomava conta aos poucos de sua visão, o cansaço a atraia para o sono eterno, e lentamente fechava seus olhos.

Dormiria a princesa.

De seus lábios saíam seus últimos suspiros e seu corpo caía aos poucos na inércia.

Os presentes espantados e emocionados não podiam negar que quando acordaram pela manhã festiva, não era essa coroação que esperavam ver, mas os caminhos conturbados do destino, fizeram ser a que de fato acontecera.

Todos que ali estavam, curvaram levemente a cabeça numa última reverência à tão distinta princesa, que agora, com um sorriso que ainda restava em seus lábios, se desprendia de seu corpo e caía em sono eterno, expirando, pela última vez, o ar de seus pulmões, e a vida que teimosamente tentara conservar.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Estou aberto a críticas, sugestões etc.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!