O Ninja De Branco.

9 Capítulo 9 — Acordado.


— ELE FICARÁ BEM, DOUTOR? — EU CONSEGUI OUVIR A VOZ DE MINHA MÃE, VINDO DE minha esquerda.

A voz de minha mãe parecia preocupada. Eu estava perfeito, não tinha com o quê ela se preocupar.

— Sim, sim, claro... — disse uma voz grave e masculina vinda da minha direita. — ele acordará em breve, Sra. Queen. Algo de alguns minutos ou horas, aí ele estará acordado. — terminou aquela voz.

Ouvi um suspiro aliviado.

— Mas, Sra. Queen, não se espante ao vê-lo. Este menino tem vinte por cento de seu corpo com cicatrizes. Eu sei que seu filho mais velho tem o mesmo porcentual de cicatrizes no corpo, mas ele tem de alguma forma o mesmo e bem assustadoras. Não se espante. — disse a voz masculina ao me denunciar.

Eu estava consciente. Eu conseguia ouvir os passos do doutor diminuírem e pude ouvir a porta bater. Eu senti o toque de minha mãe e minha mão esquerda. Se eu tivesse forças, eu as tirava, mas eu não conseguia me mover direito, então deixei suas mãos nas minhas e ela começou a massageá-las. Senti o massagear de suas mãos a minha me fez sentir amado por minha mãe. Era como se aquele passado de não ter mãe tivesse se quebrado como um espelho partido e surgido um amor materno em mim.

Mas eu sabia que aquilo não duraria muito. Eu não conseguia ter afeto direito por minha mãe, ainda era repulsivo. Mas eu havia prometido ao meu pai que tentaria, e eu cumpriria minha promessa que ele havia pedido mesmo aquilo não passando de um sonho — ou não.

Senti alguém pegando em minha mão. Provavelmente era minha mãe. Conseguia ouvi-la suspirando.

Tentei aguçar minha audição para ver se conseguia ouvir mais alguém por perto, mas não. Só havia a nossa respiração, minha e dela. Nada mais.

Eu não sabia se estava suficientemente pronto para abrir os olhos e a ver diante de mim. Eu queria ver meu pai no lugar dela, mas meu pai estava morto. Eu tinha que encarar o fato que eu teria de conviver com ela mais cedo ou mais tarde, então...

Abri os olhos e tudo estava embaçado por um tempo. Depois de alguns segundos, pude vê-la alguns centímetros de meu rosto.

— Ah, meu filho... — disse minha mãe, com um pequeno sorriso aliviado em seu rosto e alisando, de leve, o meu. Tentei tirar meu rosto de sua mão, mas lembrei do que meu pai havia dito em meu sonho, então deixei passar.

Eu estava deitado. Disso eu tinha certeza. Minhas pernas começaram a formigar e tentei me sentar.

— Oliver, me ajude aqui... — disse minha mãe me ajudando a me levantar.

— Não precisa... — falei rouco e tentando tirar suas mãos de mim, mas logo em seguida senti um par de mãos segurando o meu lado esquerdo e me pondo delicadamente sentado na cama hospitalar. — Obrigado. — agradeci não olhando para eles.

Ouvi a porta bater revelando Thea ao entrar no quarto e ela sorriu timidamente para mim, e eu retribuí o gesto. Ela estava com o uniforma da escola, mas, provavelmente ela deveria ainda estar lá, ainda era... cedo, não? Dei uma olhada rápida pela janela e vi que já havia escurecido. Arregalei meus olhos por um momento, ao ver estrelas no céu e luzes de apartamentos acesas.

Os olhei. Minha mãe estava com um vestido azul-marinho completamente escuro e sorria para mim e com lágrimas nos olhos — drama materno. Oliver estava com uma blusa polo cinza com gola azul, uma calça preta e eu não conseguia ver se ele estava de sapatos ou tênis, mas ele deveria estar por conta de toda essa roupa. E Thea de uniforme. Eu sentia pena dela ter que usar aquele uniforme careta e estranho. Eu não iria usar aquilo. Nem morto!

Eles me olhavam com curiosidade. Minha mãe, ainda chorando; Oliver me olhava com cara de preocupação e Thea a mesma coisa. Ela parecia querer vir mais perto de mim do que ficar encostada na parede. Sorri para ela novamente.

Fiz um movimento com a mão para ela, chamando-a.

— Vem cá... — disse ainda rouco.

Ele ficara um pouco chocada, mas veio até a mim hesitando um pouco.

Era bom pensar que eu tinha uma irmã. Eu sempre quis ter uma e eu tinha — na verdade, eu já sabia que tinha ela como irmã porque meu pai havia me contado há um tempo, mas tê-la ali era diferente. Era bom. Eu gostava dela.

Não liguei para os outros dois direito. Só notei que eles se juntaram e ambos ficaram abraçados um com o outro — minha mãe estava choramingando no peito de Oliver enquanto ele a envolvia nos seus braços fortes.

— Quanto tempo eu fiquei dormindo? Eu lembro que era de manhã quando... — olhei para Oliver rapidamente.

— Você dormiu durante dois dias. — disse Thea ao meu lado.

— Você desmaiou em casa... — disse minha mãe com certo choramingo em sua voz.

— E o trouxemos para cá imediatamente. — completou Oliver, por ela, afagando mais seu braço. Ela não iria conseguir terminar a frase mesmo se ela não estivesse choramingando. Eu tinha certeza disso.

— Hmmm... o que o doutor disse? — perguntei a minha mãe.

Ela pareceu surpresa a minha pergunta direcionada a ela. Eu me arrependeria, mas teria que dar uma chance.

— Disse... — ela engoliu — disse que você ficaria bem. Tem cinco costelas quebradas, dois dedos quebrados e um deslocado, e seus hematomas ficarão melhores daqui a uns dias. — ela não piscava. Perecia falar sério.

Levantei as sobrancelhas em choque.

— Não poderia ser tão ruim... — suspirei rindo para todos eles.

Percebi que eu estava com uma calça de pano fino azul e uma blusa branca. Agradeci por eu não estar com aquele manto branco com bolinhas pretas ridículas que eles davam nos hospitais — ao menos em hospitais públicos, porque esse em que eu estava parecia um hospital luxuoso. De rico, em outras palavras. Eu nunca havia estado em um. Só em públicos e quando eu não ia acompanhado de Jeremy.

Pensar em Jeremy fazia eu me sentir péssimo. Eu havia chegado aqui e não havia lhe mandado notícia alguma sobre como eu estava e como havia sido a minha recepção em minha família — que por pensar e olhá-los, parecíamos uma família feliz. Eu havia me acertado com meu irmão, aceitado minha irmã na maior tranquilidade e... bom, eu estava fazendo um esforço para aceitar minha mãe, não estava? —, mas Jeremy não poderia ficar sem saber disso. Eu daria uma notícia a ele quando eu chegasse a nossa casa — se ele não tivesse me ligado umas centenas de vezes e me mandado umas mil mensagens perguntando sobre mim.

— Quando posso sair daqui? — perguntei.

Vi minha mãe me olhar preocupada.

— Querido, eu não sei se voc...

— Ele está em perfeito estado, mãe! — interrompeu Oliver bufando. Eu o olhei e podia jurar que ele havia me dado uma piscadela. — Ele está ótimo. Ele não sente mais dor, sente? — perguntou-me ele isso indo até nossa mãe e afagou seu braço.

— Não. — respondi balançando a cabeça em negativa.

— Viu... ele está bem. O levaremos para casa. — finalizou ele.

Minha mãe abrira a boca para começar a argumentar, mas Thea disse:

— É verdade, mãe... pensa, se ele estiver em casa, poderá ter todos os cuidados específicos e você poderá vigiá-lo a qualquer hora.

Thea era boa... ela se colocara de pé e olhara nossa mãe nos olhos. Minha mãe não soube o que dizer.

Eles três trocaram olhares. Minha mãe parecia não conseguir pensar direito. Ela colocava a mão na testa, balançava a cabeça em negativa e depois passava a mão em sua testa, seguido de uma passada nos cabelos louros curtos.

Analisando-a melhor, ela era linda para uma mulher de... o quê? Quarenta anos? Quantos anos eles tinham? Era horrível não saber a idade de nenhum membro de sua família, mas eles também não sabiam qual era a minha idade, então... dei de ombros.

— Ahn... eu gostaria de ir embora, se isso conta. — falei com a mão direita levantada até a altura da cabeça, como se fosse aquela regra para responder a uma pergunta ao professor de escola.

Os três me olharam e meus irmãos riram, mas minha mãe não ficou contente com essa decisão. Ela se sentou na cama, com cuidado, em que eu estava sentado sem encostar-se a mim.

— Você tem a teimosia dos dois... assim como tem a do seu pai. Ugh... — disse ela suspirando e massageando a testa com a mão. Aquilo me fez rir e a meus irmãos também. Ser comparado ao meu pai era sempre uma coisa que eu gostava de ouvir. Fazia eu me sentir realmente filho dele. Isso era importante para mim. — Tudo bem, o levaremos para casa. Mas sem gracinhas, ouviram? Principalmente você, Oliver. — ele se mostrou incrédulo e apontou para si mesmo. — Vou precisar de ajuda para cuidar de seu irmão e isso inclui você, Thea. — disse minha mãe e ela fez a mesma coisa que Oliver.

Ri abafadamente.

— Ah, e não pense que você passou dessa livre, rapazinho, ainda temos muito que conversar. — disse ela pondo o dedo indicador em meu peito e pondo a outra mão em sua cintura, como se nada dentre esses oito anos sem nos ver tivesse acontecido, me olhando e minha risada se desfez e fiz a mesma reação que Thea e Oliver fizeram. — Pois bem... vou falar com o doutor. Até daqui a pouco.

Minha mãe saiu do quarto e assim que ela saiu, Thea foi a quem disse, olhando para a porta:

— Mamãe ainda vai desenvolver uma úlcera.

— Eu também acho. — disse Oliver.

— Eu também. — falei, também fitando a porta.

Eles me olharam, nos encaramos — Oliver olhou para Thea, que olhou para mim, que eu olhei para ele, ficamos trocando olhares, os três — e rimos.

Tudo parecia bem ali dentro, mas eu ainda estava preocupado em como conversar com Jeremy e como faria o que meu pai havia me dito sendo que eu estava nessas condições.

Aquilo fez com que eu sentisse um formigamento na barriga e uma pontada no coração de tanta preocupação com Jeremy e o pedido de meu pai.