O Ninja De Branco.
16 Capítulo 16 — Um Dia Com Oliver.
Notas iniciais
HELENA NÃO ESTAVA TÃO LONGE ASSIM DE MIM. EU IRIA CONSEGUIR PEGÁ-LA SEM problema algum, se ela não tivesse assaltado um cara no meio da rua com um conversível e corresse com ele, sumindo de minha vista — entenda, eu era veloz, mas eu nunca conseguiria ganhar uma corrida contra um conversível, mesmo eu sendo muito rápido.
Tentei explicar isso para Ernie, mas ele não conseguiu me ouvir. Muito pelo contrário, ele só conseguia dizer que eu tinha sido irresponsável por deitar no chão e fingir que tinha desmaiado para esperar um declínio de Helena. Tentei dizer para ele que aquilo não estava nos meus planos, mas ele não quis me ouvir. Em troca, me mostrou o seu lado completamente furioso, que até eu não gostei nada de ver aquele lado dele.
Uma semana se passou e Ernie ainda estava meio sinistro comigo. Ele só falava o essencial comigo em nosso QG: dava-me os nomes, o que os delinquentes faziam para a cidade, as coordenadas de onde eles se localizavam, e só. Ele ainda voltaria o normal comigo, eu não era louco de mexer com ele naquele estado e eu não era muito de ficar em cima dos outros. Uma hora ele voltaria ao normal, pensei.
Conseguimos deter três essa semana, por azar eu tive a interferência do Vigilante novamente quando estava atrás de um assassino que capturava suas vítimas e as julgava em uma estação de metrô abandonada no Glades. Aquilo foi chato. Eu estava me saindo muito bem até o Vigilante aparecer. Ele não tinha nada com o que se meter em meus negócios. Mas conseguimos salvar a vida do garoto — que aparentava ter a minha idade — de sua sentença de morte.
Na semana seguinte, consegui deter mais três — sem muitos esforços, com apenas um de seus capangas feridos e, claro, infelizmente alguns mortos —, mas sem a interferência do Vigilante, o que eu achei muito bom, porque assim eu conseguiria honrar meu pai melhor. Dos três, apenas um teve que ter a minha visita novamente, o Peter Valdeworld. Ele era um homem gorducho careca e de estrutura baixa. Acho que ele não havia aprendido a lição, mas reforcei para ele o que ele realmente tinha que fazer e mostrei, novamente, as consequências que sua desobediência poderia trazer.
Por azar, Moira, minha queridíssima mãe, descobriu que eu estava faltando às aulas. Principalmente nos três primeiros meses — eu não sabia o quão perdido eu estava no tempo até ela me alertar sobre isso —, eu não compareci a nenhum deles, a não ser o primeiro dia de aula, onde encontrei Ernie. Contei a ela que eu não queria mais ir para a escola e não iria. Ela ficara completamente revoltada, lógico. Disse que até Oliver tinha concluído o ensino médio e isso era inadmissível — ele estava por perto na hora e disse que se sentira ofendido por Moira tê-lo citado daquela maneira. Por punição, minha mãe me deu duas escolhas: primeira: “trabalhar” com Oliver e passar algum tempo com ele; segunda: ou passar um tempo com Thea para não ficar sem fazer nada — mal ela sabia tadinha. Eu escolhi Thea, com certeza. Mas Thea disse que seu estágio, ou coisa do tipo, com a advogada Laurel — que por sinal era amiga da família (Oliver) e que havia tirado Oliver da cadeia — em seu ambiente de trabalho tomaria boa parte do seu tempo. Resumindo: eu tive que ficar com Oliver de qualquer maneira. Não gostei.
Entenda uma coisa: Oliver era aquele tipo de riquinho a besta que só se importava com seu próprio bem-estar. Eu tinha mais o que fazer do que ficar passando meu tempo com ele. Havia muitos nomes no caderninho que meu pai havia deixado para mim que eu poderia, em meu tempo livre já sem escola, riscar de lá. Seria bem melhor e mais lucrativo, ao menos para mim. Mas eu lembrei que Ernie estaria na escola na parte da tarde e eu não tinha como fazer todo o trabalho sozinho — eu sabia mexer no maldito computador, mas eu não era igual a ele. Ernie é um gênio! Eu sou apenas um mortal que “sabe” mexer em um computador.
Por fim, eu estava, infelizmente falando, trabalhando na boate de meu irmão (dá para acreditar nisso?), ele me fez ficar no setor financeiro, onde conheci seu melhor amigo, Tommy — ele era bonito, com cabelos pretos, olhos azuis-esverdeado e completamente igual a Oliver em personalidade: riquinho e metido a besta. Mas ele tinha uma coisa que Oliver não tinha: cérebro. E ele não era um idiota. Ele era completamente gente boa, mas me prometeu que pegaria leve comigo, mas fingiria fazer vista grossa quando Oliver estivesse por perto. Eu ri dessa parte, ele realmente era legal.
Mas, infelizmente, ele teve que me deixar tomar conta do setor financeiro sozinho a maior parte da manhã, pois ele tinha que resolver alguns assuntos inacabados dos quais eu não me importava. Então eu me vi sentando de frente para um computador com monte de números, nomes, linhas, ações e muitas outras coisas envolvidas com números na frente do computador. Eu estava completamente perdido, mas Tommy havia me dado algumas aulas e eu estava fazendo um bom trabalho com aquele bicho de sete cabeças em minha frente.
Uma batina na porta chamou minha atenção e desviei os olhos do computador para a porta.
— Ocupado? — perguntou Oliver.
Ri ironicamente.
— Bastante. — falei arregalando os olhos.
— Hmmm, bom, é a hora do almoço. Pensei em se quiser almoçar, eu estou indo agora. Você podia ir comigo, se quiser. — disse ele e meu estômago mexeu em minha barriga. Eu não havia percebido que já passavam do meio-dia.
Meu estômago se mexeu novamente e fizera um barulho alto.
— Desculpe. — falei de olhos fechados. — É, acho que eu vou almoçar contigo.
— Beleza! — ele levantara o punho com quem se ganha uma aposta e sorriu. — Vamos. — disse ele, fazendo um gesto com a mão para que eu o seguisse.
Terminei de fazer algumas tralhas no computador e no papel em minhas mãos e pronto. Meu serviço pela manhã já estava feito. Agora eu poderia ir almoçar com ele.
Oliver havia me levado para um restaurante/lanchonete que ele ia sempre. Hambúrgueres e outros carboidratos eram servidos ali gordurosamente, mas tinha um cheiro completamente suculento e a comida realmente parecia saborosa e deliciosamente suculenta.
Eu nunca havia estado em um restaurante antes — bem, ao menos não como aquele. Oliver havia me dito que era um restaurante/lanchonete, mas aquilo não parecia um restaurante, parecia como uma lanchonete qualquer. Havia mesas perto das janelas com algumas cadeiras; pessoas riam e conversavam enquanto comiam; havia um casal perfeitamente apaixonado na primeira mesa à minha esquerda. Eu podia sentir a intensidade do amor deles só de olhar e meu coração doeu; havia mesas no centro do estabelecimento com panos xadrez branco com vermelho. Até que era bonito.
Ele se sentou a minha frente e pediu a nossa comida, eu realmente não me importei que ele pedisse a comida por mim, só queria que ela chegasse o mais rápido possível. Meu estômago já estava dando voltas em minha barriga. Aquilo era uma verdadeira tortura. Parecia que eu havia voltado para a casa dos Parkers. Tremi com esse pensamento e chacoalhei a cabeça em negativa.
— O que foi? — perguntou ele.
— Hmmm... nada. — respondi completamente envergonhado por ele ter me flagrado fazendo aquilo.
— Diga. — ele encorajou-me.
Suspirei. Valia tentar... eu acho.
— Bom, lembrei-me de quando eu morava, bem, com a “minha família” adotiva. — abri aspas quando disse minha família. Aquilo não era família de verdade.
— Por quê? — ele parecia interessado.
Por sorte, a nossa comida chegou: comida mexicana. Hmmm... comecei a devorar. Eu nunca havia provado comida mexicana antes, tampouco feita. E aquela estava sensacional. E agradeci que eu tinha um pouco mais de tempo para pensar no que respondê-lo. Ele começou a comer também.
— Porque, hmmm... eu sempre... eu sempre tinha que esperá-los comer. — mastiguei um pouco mais a comida. Eu não liguei se estava falando de boca cheia. Meu estômago reclamava. Pelo amor de Deus! — E se eles me dessem comida o suficiente para comer. — falei já de boca vazia e voltando aos bons modos. Bebi um gole de refrigerante de uva, agradeci por trazerem junto com a comida, e o olhei.
Ele estava com as sobrancelhas levantadas, mas não mostrou reação alguma ao que eu disse. Melhor assim. Eu me arrependeria menos. Provavelmente ele deveria contar nossa conversa para nossa mãe, mas... bem, tanto faz. Eu não me importava tanto assim sobre os Parkers. Só não contaria do resto de minha vida. Eles não mereciam saber sobre ela. Afinal, ninguém sabia a não ser eu mesmo. Tudo bem, Jeremy sabia uma parte, mas não sobre minhas cicatrizes.
Após termos almoçado devidamente, ele me olhou e eu o olhei. Ambos nos encaramos por um breve momento, mas ele quebrou o silêncio logo em seguida:
— Então quer dizer que nosso pai o visitava...
Não era exatamente uma pergunta, mas eu respondi:
— Sim. — balancei a cabeça em positivo.
Ele franziu a testa.
— Posso ser direto no que pergunto? — ele tentou não ser indelicado. Bacana.
— Fique a vontade. — levantei o polegar para ele.
— Por que não nos procurou antes? — perguntou ele.
— Hmmm, o Sr. Queen não deixou. — ri.
— E você simplesmente obedeceu? — ele parecia incrédulo.
— Ao contrário de você, eu sei obedecer a ordens. — falei levantando uma sobrancelha.
— Eu sei seguir ordens também, O.K.? — acho que eu o ofendi. — Mas isso não vem ao caso.
— É... não mesmo. — concordei balançando a cabeça em negativa.
— Você sabe lutar.
— Bem observado... — franzi a testa sem saber onde ele queria chegar com aquilo.
Viu? Eu disse que ele era um idiota. Ele só me fazia perguntas sem sentidos, e quando me fazia perguntas, por até então, ele só havia me feito duas e eu respondi a três de suas... respostas? Viu, isso já está me deixando louco!
— Com aprendeu? — ele bebeu um gole de seu refrigerante e fiz o mesmo gesto.
— Aulas. Nosso pai pagou aulas. Mas eu tive outro treinamento especial.
— Posso saber qual?
Neguei com a cabeça.
— Sinto muito. — falei.
— Por que não pode falar? — insistiu ele.
Suspirei.
— Porque eu não conto coisas que eu acho... digamos que sejam importantes e confidenciais para mim.
— Mas você não deveria ter tantos segredos de nós...
— Ah, falou o cara que revelou tudo sobre o que se passou naquela ilha durante cinco anos. — levantei o polegar para ele novamente.
— Uau! Na cara! — ele estalou o dedo e apontou para mim, rindo nervosamente.
Ri de volta.
Naquele momento, meu celular, em meu bolso, vibrou.
Era plena hora do almoço e Ernie já tinha algo para mim? Aquele garoto já estava me punindo por ter deixado Helena fugir. Ah, qual é! Aquilo já fazia tempos atrás. Eu teria uma pequena conversinha com Ernie mais tarde. Eu não iria estragar o almoço com meu irmão. Eu até estava gostando daquilo.
Quando peguei o celular ele revelou, dizendo: “Você tem uma nova mensagem de: ‘Jeremy Schmidt. ♥’”, eu me surpreendi. Eu pensei que ele já havia me esquecido e estaria com o seu novo pretendente Jonny Anderson. Mas me enganei, não é? E eu tinha que editar o nome de Jeremy em meu celular... que ele havia me dado.
Suspiros.
Abri a caixa de entrada e vi que havia dezesseis mensagens de texto vindas de Jeremy. Li apenas a que tinha acabado de chegar que dizia:
Por favor, Theo... fale comigo?
Respirei fundo umas duas vezes e respondi:
Olá, Jeremy.
Foi só o que respondi. Segurei o celular com força e eu sabia que se eu continuasse, ele poderia quebrar ou coisa assim. Apenas o deixei em cima da mesa, nervosamente.
— Algum problema? — perguntou Oliver me olhando com as sobrancelhas levantadas.
Eu não iria chorar na frente... eu não iria chorar na frente dele...
— Hmmm... realmente quer saber? — franzi a testa e piscando com força para esconder as lágrimas que queriam se formar em meus olhos.
— Claro. — disse ele rapidamente. — Está tudo bem? Você parece tenso.
— Não, eu estou bem, ahn... — bebi um gole do refrigerante. — Bom... só meu ex-namorado querendo conversa. — falei de uma vez.
Ele pareceu surpreso.
— É, pois é... — ainda não consegui olhar para ele. Eu sentia as lágrimas em meus olhos. Elas iriam me trair, me denunciar.
— O que houve para vocês...
— Olha, se isso é constrangedor demais para você conversar comigo, nem toque nesse assunto, O.K.? — eu não consegui conter as duas lágrimas que saíram dos meus olhos quando olhei para ele. As enxuguei logo em seguida.
Ele levantou as sobrancelhas e tocou em uma de minhas mãos e a apertou gentilmente.
Meu celular vibrou novamente, revelando outra mensagem dele:
Oh, Theo! Ainda bem que você me respondeu! Como você está?
Ele realmente fingiria que nada tivesse acontecido? Mas eu não seria antissocial. Eu respeitava Jeremy de qualquer forma. Afinal, eu era grato a ele. Fora ele que havia sido o meu companheiro quando eu mais precisei.
Estou muito bem e você, como está?
Foi só o que enviei para ele e meu coração doeu. Eu sabia que ele estaria com aquele Jonny e estaria muito bem. Ele tinha amigos, família completa, possível novo namorado... o que o faria estar infeliz? Com total e absoluta certeza ele estava bem.
— Hey... eu estou aqui para o que precis...
— Não prometa o que não pode cumprir, Oliver. — falei seriamente, interrompendo-o.
— Eu estou aqui para o que precisar, Theo. — ele também falou seriamente.
Suspirei duas vezes.
— Ele me traiu. — consegui dizer. — Desde então eu não quero mais saber dele e é melhor assim. Ele que fique com aquele com quem ele me traiu. — dei de ombros.
— Entendo... — não, ele não entendia. Ele não tinha um relacionamento sério há... o quê? Anos? Muito menos tinha relacionamentos com um homem. Ele não entendia. — Mudemos de assunto?
— Por favor.
— Bom... suas cicatrizes...
— Nã-hã. — neguei com a cabeça logo em seguida. — Nada sobre isso. — levantei o indicador e comecei a balançá-lo de um lado para o outro.
— Por quê? — perguntou ele incrédulo.
— Vindo do cara que não conta sobre as suas, acha que eu vou contar sobre as minhas? — levantei uma sobrancelha para ele.
— Justo. — disse ele.
— É. — finalizei.
Oliver e eu conversamos por muito tempo. Eu o alertei sobre o trabalho, mas ele disse que não importava. Ele era o dono, ele dava a carga horária. Eu não questionei — eu não queria realmente trabalhar naquela maldita boate. Aquilo não era a minha praia, mas eu não demonstraria isso para ele e tampouco para Moira — principalmente para ela.
Ele me contou sobre sua vida antes do naufrágio. Ele tinha um caso com a irmã da advogada Laurel, Sarah, mesmo namorando Laurel. Ele era um tremendo mulherengo, mas eu não esperava que ele fosse fiel a uma pessoa só. Ele me contou, também, que estava de caso com uma agente do FBI chamada McKenna, mas eles terminaram, pois ela havia sido baleada em uma missão — o que eu achei estranho, pois uma agente do FBI também havia sido baleada em uma de minhas missões. Era McKenna, sem dúvidas. Mas eu não disse nada. Eu não era louco de dizer alguma coisa. Além de ser idiotice minha falar com ele sobre isso, Ernie me mataria. Com certeza.
Eu tive que contar sobre minha vida nos Parkers — ele me obrigou a contar, na verdade. Disse que era um menino infeliz e que eu era o doméstico da casa, se possível. Bem, na verdade era possível, pois quem cozinhava, arrumava, limpava e fazia tudo naquela casa completamente cheia de porcos, era eu. Ele não gostou muito de saber disso, mas, quem sabe ele apenas não estava fazendo uma de quem me entendia? Eu pagava para ver.
Jeremy não me deixou em paz. Ele me mandava mensagens de texto como se nada tivesse acontecido — eu sei que havia prometido que seria amigo dele, mas isso não significava que eu queria saber como estava sua vida e tampouco queria ler mais uma de suas mensagens de arrependimento. Queria que ele demonstrasse um pouco de respeito ao que tínhamos, pois eu acabaria quebrando aquele celular que ele havia me dado — mesmo sendo um iPhone 5.
A última mensagem de Jeremy fora:
“Sinto sua falta, meu amor.”.
Eu não aguentei de raiva e Oliver pareceu notar minha agonia quando eu pus meu celular com força em cima da mesa e nossos pratos e copos se mexeram. Eu era capaz de socar Jeremy. Capaz de socar Oliver. Capaz de socar Ernie. Capaz de socar Thea, Moira, meu padrasto desaparecido, eu me sentia capaz de socar até meu próprio pai. A hipocrisia de Jeremy era tremenda assim, a ponto de me chamar de “amor”, mesmo ele tendo feito tudo aquilo? Não. Não era justo!
Eu queria sair dali, queria poder correr e correr até não querer mais. Eu queria me distrair o máximo possível antes que eu fizesse alguma besteira dentro daquele restaurante/lanchonete. Se eu pudesse, eu quebraria a nossa mesa, se deixasse — e eu conseguiria quebrá-la em apenas um só golpe. Eu era forte o suficiente para isso. Sem dúvidas.
— Preciso sair daqui. — falei completamente irritado.
— Por isso... o quê? — falou ele sem entender.
— É... eu vou sair daqui. — falei e me levantei de meu lugar. Passei por ele e senti sua mão segurar meu braço direito.
— Mas para onde vai? — ele parecia perdido.
— Oliver — suspirei —, ou você tira sua mão de mim, ou eu a tirarei por conta própria. — falei serrando os dentes.
Respirei fundo uma, duas, três vezes!
Tirei sua mão em apenas um golpe e ele se pôs de pé logo em seguida, mas eu já havia saído dali.
Eu já me via no fim do quarteirão e tudo em volta ainda não estava um borrão — eu não poderia correr da forma que eu queria sem estar completamente disfarçado de ninja. Esse era o ruim. Por um instante, senti saudades da pista olímpica que havia na escola em que eu estudava em Jackson City. Ao menos lá eu poderia correr sem ser notado à noite. Mas eu não podia pensar em Jackson City, isso me faria lembrar Jeremy.
— THEO! — ouvi Oliver gritar meu nome.
Parei de correr automaticamente e o olhei atrás de mim. Ele também vinha rapidamente, mas eu não me importei. Vire-me novamente e voltei a correr.
Eu sabia que ele não conseguiria me pegar. Eu não queria falar com ninguém, só queria ter meu momento sozinho. Esperar a raiva passar. Corri em direção à esquerda e me vi que estava chegando perto da ponte principal da cidade — onde eu havia feito o meu primeiro ato de justiça. Mas eu não queria ir para lá. Eu queria ir para outro lugar.
Fechei meus olhos.
Corri as cegas. Era melhor. Eu apenas ouvia o local. Sons de carros, motos, algumas vozes e podia ouvir o som de alguma ferramenta em alguma obra ali por perto. Virei à direita e comecei a correr. Senti cheiro de grama, sons que pareciam com risadas de crianças e abri os olhos. Eu estava em um parque. Ali não era exatamente o lugar em que eu queria descontar a minha raiva ou o lugar em que eu queria estar em qualquer circunstância.
Parei de correr.
Vi que tinha um banco vago perto de uma árvore e fui até lá. Ao menos, se eu não pudesse descontar a minha raiva em alguém, eu teria que esperar passá-la. De uma maneira ou de outra, minha raiva já estava um pouco esgotada, pois eu havia corrido — não como queria — e correr sempre me acalmava. Agradeci mentalmente ao meu mestre por isso. Sem ele, eu não conseguiria ser tão veloz assim.
Sentei-me no pago e tentei apreciar a paisagem. Uma criança negra brincava com uma criança branca, com carrinhos e outros brinquedos — o que eu achei muito bom ver duas pessoas etnias diferentes completamente unidas e brincando inocentemente. O mundo precisava de pessoas como seus pais, os que não tinham preconceitos em deixar duas crianças como elas brincarem.
Havia uma criança brincando ao balanço em uma árvore enorme e absurdamente grossa, com seu pai. Seu pai o empurrava e a criança ria. Mas seu pai começara a empurrá-lo com mais força para ele ir mais alto. Ri daquilo. Era exatamente o que meu pai fazia comigo quando eu era criança. Eu sentia falta daquilo, sentia falta dele, não me empurrando em um balanço, mas de sua presença. Senti uma pontada no coração e meus olhos lacrimejarem.
Eu não estava acreditando que minha raiva estava se transformando em saudade. Saudade aguda, no caso. Qualquer coisa relacionada a meu pai fazia eu me sentir daquela maneira. Triste, solitário e de coração mole.
Mas eu não poderia admitir isso. Eu conseguiria voltar essa raiva e usaria contra os nomes do caderninho de meu pai. Isso. Eu faria isso!
Pus minha mão no bolso de minha calça e... droga!, pensei. Eu esquecera completamente meu celular em cima da mesa onde eu estava com Oliver. Droga!, pensei novamente.
— Procura isso? — disse ele a minha frente.
Não respondi, mas ele me entrou meu celular.
— Obrigado. — falei não olhando-o.
— Você corre. E muito. — disse ele ofegante.
Ri.
Ele realmente não era um bom corredor, mas, tenho que admitir, ele sabia correr. Mas não como eu.
— É... suponho que sim. — falei com um sorriso de lado.
Oliver se sentou ao meu lado e ambos continuamos a conversar. Não conversamos sobre Jeremy — o que eu gostei bastante e tinha certeza que ele havia monitorado minhas mensagens (por sorte as de Ernie eu sempre apagava) —, nada de minhas cicatrizes, nem das dele, nada de “importante”. Oliver e eu apenas conversamos como dois irmãos faziam, e foi disso que eu mais gostei.
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