O Ninja De Branco.

12 Capítulo 12 — Falando A Verdade.


— ONDE VOCÊ PENSA QUE VAI? — PERGUNTEI A JEREMY QUANDO ELE ESTAVA SE vestindo.

Eu não havia me sentido tão bem depois da noite passada. Jeremy e eu estávamos juntos, dormimos juntos, tivemos a nossa noite de Natal juntos. Nada poderia estar melhor.

Jeremy pôs toda a sua roupa que ele havia chegado a minha casa em questão de um minuto. Ele me olhou com seu sorriso torto que eu não resistia e pôs as mãos em sua cintura. Jogou a cabeça um pouco para o lado — ele sabia como me deixar louco.

— Apenas me vestir... não quero me sentir péssimo em meu, digamos, segundo dia na casa de minha sogra. — ele riu. — Afinal, eu tenho que conhecer toda a sua nova família.

Revirei os olhos, bufando, e saí da coberta — meio constrangido, ainda por estar completamente sem roupa.

Assim que me vesti, de má vontade, porque ele havia me insistido em conhecer a minha família, saímos do quarto de mãos dada e descemos as escadas. Eu havia dito que não queria nada disso, mas eu não conseguia resistir a nada quando ele pedia algo.

Passamos pelo pequeno corredor que dava acesso à sala de estar e, quando espiei por lá, ali estavam minha mãe, Thea e Oliver — por sorte aquele Walter não estava ali, agradeci por aquilo.

Senti aquele friozinho amigável e totalmente bem vindo em minha barriga e me virei para olhar Jeremy. Ele sorriu para mim e soltou minha mão — provavelmente conseguiu ler meus pensamentos: eu não queria entrar na sala já com um grande baque para todos eles.

Respirei fundo umas duas vezes e Jeremy sussurrou algo como “Você consegue” para mim antes de eu entrar na sala de estar e ele vindo bem atrás de mim.

Vi meus queridos irmãos me olharem e minha mãe me olhar com a cabeça um tanto curvada para o lado de surpresa.

Thea analisou Jeremy com uma cara um tanto desejável e eu queria quebrar a sua face, mas eu não faria isso com a minha irmã e entendia o que ela queria transmitir com aquele olhar. Ninguém conseguia resistir a Jeremy. Ninguém. Ele era lindo demais para ser resistível; Oliver não pareceu tão surpreso, mas não disse uma palavra, apenas assentiu para mim e fiz o mesmo para ele, e pude jurar que ele havia me lançado um sorriso amigável; minha mãe continuava a nos analisar sem entender nada.

— Mãe, Oliver, Thea... hmmm, família... — franzi a testa olhando para o chão e respirei fundo. Bom, estava na hora de aquilo terminar, não estava? — Bom, este é Jeremy. Jeremy, esta é a minha família. Família, este é o meu namorado.

Senti Jeremy segurar minha mão e apertá-la. Olhei-o e ele sorrira para mim, onde eu sorri de volta, é claro.

Minha mãe e Thea passaram de surpresas para boquiabertas; Oliver foi o único que olhou para Jeremy com a cara um tanto séria — jura que ele faria o papel de irmão mais velho agora?

Um grande silêncio percorreu na sala de estar e eu desejei que algum deles falasse alguma coisa, mas foi Thea quem quebrou o silêncio.

— Como é que é? — ela fechara a boca e nos olhou como quem não havia entendido.

— Bom, deixe eu me apresentar devidamente — disse Jeremy, soltando minha mão e indo até eles, onde cumprimentou os três em tamanha educação, e agradeci por eles fazerem a mesma coisa. Notei que minha mãe não estava mais boquiaberta, ela estava sorrindo e o seu sorriso parecia sincero; Oliver o cumprimentou com tamanho respeito e educação; Thea, ainda com cara de espanto o cumprimentou, mas sua expressão voltara ao normal quando Jeremy apertou a sua mão, também agradeci por ela ter voltado ao normal. Jeremy voltou a ficar ao meu lado e a segurar minha mão. — Sou Jeremy. Jeremy Schmidt. É um prazer finalmente conhecê-los. — disse Jeremy sorridente.

— Finalmente? — os três disseram juntos.

— Sim. Theo não os contou que ele vivia falando de vocês antes de conhecê-los de verdade? — ele me olhou e eu balancei a cabeça em negativa corando.

— Não, não nos contou... — disse minha mãe e senti seus olhos em mim. — O que ele dizia? — perguntou ela curiosa.

— Bom, Sra. Queen, ele dizia que esse era o maior sonho dele. Encontrar a família verdadeira e voltar para eles, principalmente para junto de seu pai... — ele me olhou e eu fizera uma cara triste. — Meus sentimentos, Sra. Queen. — disse ele assim que sentira que minha mãe olhara para baixo, juntamente com Thea e Oliver. — A todos vocês, na verdade.

— Tudo bem e obrigada, meu rapaz. Mas, diga-me, o que mais Theo falava? — perguntara ela.

Jeremy riu.

— Ele sempre dizia que queria conhecer a senhora...

— O.K., tudo bem, chega de conversa! — o interrompi sorrindo forçadamente. — Bom, agora que você já os conhece, venha, vamos tomar o nosso café da manhã...

— Ah, nada disso, rapazinho, você vai tomar café com seus irmãos, enquanto eu e esse jovem encantador conversamos mais sobre vocês e sobre você onde nós — ela indicou a si mesma e a Jeremy — tomamos café da manhã em nosso jardim. Por favor, querido. Por aqui. — ela indicou o outro lado da sala de estar para Jeremy.

Ele apertou minha mão, sorriu para mim e me dera uma piscadela.

— Depois da senhora, Sra. Queen. — disse ele educadamente.

— Ah, por favor... me chame de Moira. — disse ela sorridente.

— Ah, tudo bem. Como preferir... Moira. — ele também sorriu e ambos saíram da sala.

Desejei que tudo de ruim acontecesse com minha mãe naquela hora. Que ela quebrasse um braço, ou uma perna, tudo! De menos sair com Jeremy da sala de estar. Mas ela saiu e totalmente ilesa. O que me fez dar um gemido baixinho.

Meus irmãos a olharam sair e depois me olharam, ambos sorrindo. Os fitei com uma sobrancelha arqueada.

— O quê? — os encarei.

Eles se olharam.

— Hmmm, Thea, perece que alguém passará por uma longa e demorada conversa sobre cuidados. — disse Oliver.

— Tem razão, Oliver — começou Thea. — Será que vai ser o nosso irmãozinho ou o seu namorado? Acho que mamãe já escolheu quem ela irá entrevistar. — ambos riram.

— Ah, francamente... — falei jogando as mãos para o céu e depois em minha testa, onde balancei em negativa ao sair da sala de estar. E eles, ainda rindo.

Por um instinto que eu não soube qual, eu não fui para a cozinha, eu segui para a direção oposta à cozinha, pegando o lado que eu nunca havia ido antes dentro daquela casa.

Consegui, depois de uns trinta segundos de caminhada, deparar-me com uma porta imensa e também de madeira. Abri-a e vi que havia uma escada descendo e me toquei — meu pai queria que eu encontrasse aquele caderninho e eu tinha que encontra-lo.

Não me importei com a escuridão e o cheiro de mofo que aquele lugar fornecia a mim. Peguei meu celular e liguei a lanterna que o celular fornecia para iluminar o meu caminho ao descer as escadas.

O que eu tinha que fazer, era simples: ir para debaixo da escada, achar a tal maleta que meu pai havia falado, pegar o pequeno caderninho que tinha dentro da maleta e sair dali. Simples.

— Seria mais simples se essa escada terminasse... — reclamei comigo mesmo.

Realmente a escada parecia que nunca iria acabar. Nunca. Mas, por sorte, depois de uns dez segundos descendo por ela, eu havia conseguido terminar de descê-la.

Não demorei em procurar a maleta.

Fui para debaixo da escada rapidamente a procura daquilo. Desde o início ao fim da escada — onde foi que eu havia encontrado.

A maleta estava em cima de, o que presumi serem, dois baús imensamente grandes — estava escuro demais para eu conseguir distinguir o que era apenas com uma pequena lanterna de um celular.

Abri a maleta, que parecia ser de cor preta e de couro, assim que pus o celular em minha boca com a luz virada para ela.

Papel, muito papel. Havia papeis de contabilidade, contas pagas, informações sobre a empresa de meu pai — isso não era do meu interessa. A única coisa que eu queria, era aquele maldito caderninho que meu pai havia contado em meu sonho e eu tinha que me certificar de que aquele caderninho era real, ele não podia ser apenas um sonho. Fiz questão de jogar tudo que era papel no chão — não me importei se aqueles papéis estavam ali por um propósito, o que eu queria era o caderno que meu pai havia me enviado pegar. Só aquilo me mantinha naquele porão escuro e fedorento.

Assim que havia jogado tudo o que era papel no chão, procurei por dentro da maleta, lembrei que meu pai havia dito que ela estava em um fundo falso dentro do bolso do zíper de fora e foi onde procurei.

Tateando o bolso de fora, eu consegui encontrar algo como uma divisória dentro do bolso da maleta, e lá estava ele. O caderninho.

Tirei-o de lá de dentro e passei a luz por ele — agradecendo por tirar o celular de minha boca, pois ela já estava começando a ficar dormente e me fazer babar —, onde mostrou o símbolo esquisito que meu pai havia dito que tinha. E realmente era esquisito: um círculo com uma linha que o dividia em dois e com certos quadradinhos feitos de uma das metades do círculo? Eu disse que era um símbolo esquisito. Meu pai tinha razão, mais uma vez. Mais uma prova de que aquilo não era totalmente um sonho.

Fechei a maleta e voltei a subir as escadas, com o caderninho em meu bolso do blazer. Eu tinha de me lembrar de tirar aquele blazer mais tarde.

Assim que cheguei ao andar de cima e fui para a sala de estar, deparei-me com a imagem de Jeremy, meus irmãos e minha mãe, ambos rindo — devem ter tido uma ótima conversa sobre mim antes de conhecê-los. Revirei os olhos para isso. Nada iria me atrapalhar.

Pigarrei.

— Jer, vamos subir? — perguntei a ele, interrompendo-os.

— Por quê? — disse ele ainda rindo sem tirar os olhos de minha mãe e minha mãe o mesmo.

— Porque você tem que trocar de roupa.

— Ah, não tenho problemas com essa...

— Ah, sim, você tem, sim. — fui até ele e o peguei no braço, fazendo-o se levantar e todos pararam de rir. — Até daqui a pouco, família. — falei secamente e Jeremy e eu fomos para meu quarto.

Jeremy havia reclamado por eu tê-lo tirado de meus irmãos e mãe em plena conversa e ele não havia achado aquilo completamente educado de minha parte, mas eu havia falado para ele não chatear e não queria que ele contasse sobre minhas histórias no colegial, e ele havia entendido que eu havia ficado nervoso com essas histórias tão reveladoras sobre mim.

Sugeri que Jeremy tomasse banho e que separaria uma roupa mais confortável para ele depois do banho — e agradeci por minha mãe ter comprado um armário coberto de roupas novas para mim e que eu era quase do tamanho de Jeremy, então algumas roupas caberiam nele.

Ele foi para o banho logo em seguida, jogando suas roupas de Natal em cima da cama e eu deixei uma roupa mais confortável para ele.

Sentado na cama, ajeitei suas roupas de Natal enquanto ele estava no bolso e ouvi o barulho de mensagens de seu celular apitar.

Eu achei estranho, pois Jeremy não me disse que estava de amigos novos — honestamente, eu não ligava para as amigas e os amigos que ele tinha, alguns até eram meus “amigos”, digamos assim, mas eu estranhei por conta do horário. Ainda não estava na hora do almoço para alguém mandar uma mensagem de texto. Tá, tudo bem, eu mandava para ele, mas... era eu, então eu podia, certo?

Peguei seu celular e vi que na tela dizia: “Você tem uma nova mensagem de: ‘Jonny Anderson.’”.

Jeremy sempre via as minhas e eu as dele, ele não ligaria se eu as visse. Ele nunca ligou, por que ele ligaria para isso agora? E eu não sabia quem era esse Jonny Anderson. De repente eles eram novos amigos e Jeremy era bastante carinhoso com seus amigos. Eu não sentia inveja, afinal, eu tinha todo aquele carinho e mais um pouco.

Assim que abri a mensagem.

“Poxa, você disse que ia vir aqui em casa para passarmos o Natal juntos. Eu sei que depois que nós tivemos a nossa primeira noite juntos você ficou meio tenso por conta de seu namorado. Eu sei, sinto muito por isso. Mas, se ele te amasse, ele teria te mandado alguma mensagem ou te ligado. Acontece é que eu estou te amando, Jeremy e depois da noite retrasada, ficou bem claro que você também me amava e que eu te amo. Ligue-me, O.K.? Te amo, seu fofinho. ♥”.

Eu precisei de um minuto para me focar.

Jeremy... me... traindo? Estava bem claro, ali, na minha mão!

Eu sei que eu havia “terminado” com ele antes, mas ambos deixamos claros que havíamos voltado e estávamos bem. Por que ele tinha de fazer aquilo comigo? Eu nunca faria isso com Jeremy. Nunca. Jamais! Jeremy era a minha alma gêmea. Era. Ele não era mais. Aquilo que eu tinha por Jeremy havia começado a se desmoronar, a se despedaçar, juntamente com o meu coração.

Senti um aperto enorme em meu coração. Uma dor sufocante, onde minhas lágrimas saíram logo em seguida. Eu quase não consegui reprimir o urro de fúria, tristeza e dor que se formara em meu peito e subido por minha garganta. Por sorte eu havia tampado a minha boca e o som fora abafado por minha mão livre.

Senti um pequeno susto quando ouvi a voz dele saindo pelo banheiro. Engoli o choro e sequei as lágrimas. Eu tinha que ser forte, eu era forte, eu conseguia passar por essa sem demonstrar a derrota em meus olhos.

— Amor, onde estão as roupas? — perguntara ele.

Eu não dei o trabalho de me virar para olhá-lo, apenas apontei para as roupas em cima da cama.

Senti ele as pegarem da cama e ouvi o barulho dele se vestindo.

Eu não aguentei...

— Jeremy, quem é Jonny Anderson e o que significa isso? — joguei o celular para ele até o outro lado da cama e me levantei, olhando-o. Ele já estava vestido.

Eu não chorei. E eu não iria.

Ele me olhou com cara preocupada e checou o celular. Ele me olhara de volta com a expressão completamente assustada e preocupada.

— Amor, eu não...

— Não quero saber. — eu queria saber de onde toda essa frieza e firmeza vinha, pois eu nunca fora assim com Jeremy antes. — Some daqui... eu não quero te ver, Jeremy. Não mais. — falei já num tom tranquilo, não frio. — Por favor. Vai embora. Por favor.

— Amor, por favor...

— Jeremy, vai. — o interrompi.

— Me deixa explicar...

— Tem um minuto. — falei sério.

— Eu estava sozinho. Eu não tinha você e nem sei quando o teria. Você se foi e não me disse quando voltaria. E, como eu havia dito, estava sozinho e eu conheci o Jonny em uma festa. Ele veio com papinho, me dizendo que eu estava triste e solitário e que cuidaria de mim. — as palavras dele, por mais que ele estivesse chorando e me cortasse ver aqueles olhos azuis, como um oceano claro e transparente, derramando lágrimas, eu não deixei aquela história me mover. Deixei-o falar sem falar nada. — Eu admito que transei com ele. Sim, transei. — aquilo doeu mais. — Mas eu só fiz amor com você, Theo. Só com você. E sempre foi com você. E eu me senti mais do que culpado quando fiz o ato com ele. Senti-me um tremendo lixo quando havia acabado e percebido o que eu havia feito. Perdoe-me. Eu estou falando a verdade, Theo. Eu não quero que a gente termine...

— Sinto muito, mas terminamos, sim, Jeremy...

Ele veio até a mim e segurou em meus braços.

— Theo... por favor. Não faça isso comigo. Por favor? — o olhei completamente sem vida em minha expressão.

Eu não conseguia mais enxergar Jeremy com meus antigos olhos. Olhar para ele me dava nojo, desprezo... rancor. Eram os olhos em que eu via a minha mãe antigamente. Aqueles olhos que eu a olhava, agora passaram para Jeremy. Jeremy estava me dando repulsa, nojo... eu não conseguia suportar mais olhar ele nos olhos e ver que ele havia me dado a maior tristeza do mundo.

Logo Jeremy que sempre esteve ao meu lado, que sempre me deu tudo do que eu mais precisava antigamente... logo Jeremy, o menino/homem que eu mais confiei em minha vida.

Toda aquela confiança, todo aquele amor, aquela aliança que tínhamos construído antigamente, tudo aquilo... havia se quebrado. Não passava mais do que uma simples lembrança.

— Eu não quero te ver mais, Jeremy. — falei firmemente em seus braços, respirando fundo para conter o choro.

Ele me soltou e seu rosto começara a ficar vermelho. Seu choro veio imediatamente e eu fechara os olhos para não olhá-lo e não correr em seus braços para perdoá-lo. Eu não iria ser um idiota e aceitar aquilo como se fosse ser a coisa mais normal do mundo.

Ele me olhou, ainda com os olhos cheios de água e eu o olhei — meus olhos também estavam cheios de água, mas eu não iria chorar. Continuaria em posição firme.

— Theo... por favor, me perdoa? — pediu ele em meio choro e soluço.

— Claro que eu te perdoo. — falei com sinceridade. E eu realmente o perdoava. Ele me olhou e enxugou as lágrimas, e vi um sorriso ser posto em seu rosto. — Mas isso não significa que eu voltarei para você. Sinto muito, Jeremy. Mas já está na hora de você ir. — seu sorriso murchou e ele voltara a chorar.

Ele ia me tocar quando eu recuei. Ele me olhou com os olhos arregalados e o olhei sem expressão.

Ele engoliu seco e respirara profundamente duas vezes.

— Ao menos... falará comigo? Será meu amigo? Por favor, não me deixe sem saber sobre você. — ele juntou as mãos.

— Isso pode ter certeza que prometo. Mais nada. Fora isso, não terá mais nada sobre mim, Jeremy. — falei firmemente e respirando fundo também.

Ele assentiu com a cabeça e ia trocar de roupa, mas eu disse que ele poderia ficar com aquela roupa, eu só o queria fora da minha casa, fora do meu caminho. Fora da minha vida.

Eu tentei devolver o celular que ele havia me dado, mas ele disse para eu ficar, em forma de um presente e uma lembrança dele para mim. Eu havia dado risada nessa parte — como ele queria que eu tivesse algo que ele me dera e que trocávamos mensagens de texto e conversávamos sobre nosso amor?

Thea, Oliver e minha mãe estavam na entrada da cozinha quando eles nos viram descer as escadas.

— Olha, olha... bem na hora do almoço — dissera minha mãe. Eu não havia percebido que já era tão tarde assim.

Eu não disse nada, Jeremy foi quem dissera algo como “Até mais!” para os três e eu o esperei na porta. Ele passou por ela e vi os três me olharem, mas eu não dei atenção, passei pela porta também. Eu queria evitar o máximo de conversa possível.

Passamos pelo longo caminho da mansão até a entrada da residência, onde o carro dele ainda estava ali desde a noite passada. Ele estava atrás de mim quando eu cheguei ao portão de ferro e abri-o.

Ele passou por mim de cabeça abaixada, ele, provavelmente, estava envergonhado — eu queria ir até ele e o abraçar, dizer que o perdoava, dizer que ainda o amava (e o amava), mas eu não iria aceitar isso. Ele poderia ter feito qualquer outra coisa comigo, menos isso. Eu nunca havia o traído, nunca havia feito nada que prejudicasse a nossa relação. Eu me guardei para ele. Isso era maior do que tudo.

Perdão, eu havia dado a ele, mas eu não iria voltar para ele. Não. Isso nunca, jamais! Eu não era burro, e eu não cometeria esse erro.

Ele deu a volta pelo carro e abriu a porta do motorista. Deixou as lágrimas seguintes caírem por seu rosto. A dor no meu peito veio forte, mas eu aguentei...

— Eu ainda te amo ,Theo... — disse ele respirando fundo. — Tchau...

— Tchau, Jeremy. — falei firmemente.

Ele entrou no carro e deu partida.

Eu torci para que ele chegasse a sua casa em segurança.

Dei meia volta e voltei a ir a minha casa.

Passei pelo jardim imenso tão rapidamente, que só dei conta disso quando eu já estava passando pela porta de entrada da mansão.

— Theo, o que houv...

— Não, mãe. — falei levantando a mão para ela e a olhei. Senti meus olhos arderem. — Agora... não...

— Mas Theo... — começou Oliver.

— Não! — falei alto. Ele era a última pessoa de quem eu queria ouvir conselhos.

Passei por eles na entrada e corri para o meu quarto.

Assim que adentrei em meu quarto, visualizei a cama onde nós havíamos dormido e um ódio percorreu meu corpo.

Arranquei aqueles lençóis e colchas e travesseiros e a toalha que ele havia usado dali e os joguei no chão, gritando o urro de fúria, tristeza e dor que havia se formado em minha garganta antes. Liberei aquele urro mais de uma vez.

Passei a mão sobre as colchas e as rasguei no momento seguinte, juntamente com os travesseiros — onde revelaram várias plumas brancas —, e seguidos dos lençóis. Aproveitei para rasgar o colchão com uma tesoura que eu achei em um dos criados-mudos que minha mãe havia posto em meu quarto.

Eu não me importava se havia dado prejuízo ao bolso de minha mãe, qualquer coisa, eu poderia dormir em outro quarto enquanto ela arrumasse esse. Eu não ligava, eu só não queria nada que Jeremy havia tocado dentro daquele quarto.

Depois de meu momento de fúria no quarto, me vi sentado no chão perto da poltrona que tinha perto de minha tevê, chorando.

Eu sabia que precisava fazer uma coisa...

Segui até meu armário e verifiquei a mochila que eu havia chegado aquela casa. Achei-a e vasculhei o pequeno metal que estava em um daqueles bolsos, tinha que estar ali, de qualquer maneira, tinha que estar ali. Achei! Peguei aquela pequena lâmina e segurei-a com firmeza em minha mão. Meu refúgio estava comigo, eu me sentiria bem após aquilo. Tudo o que Jeremy havia feito a mim, terminaria. Eu precisava fazer aquilo, eu tinha de fazer aquilo.

Voltei a me sentar em frente à cama, de frente para a porta. A lâmina, meu refúgio estava comigo e eu tinha de usá-lo. E eu a usei.

Passei a lâmina rápida e profundamente em meu pulso esquerdo e seguido de algumas linhas a mais por volta do pulso. Fiz o mesmo no pulso direito, mas, por azar, eu não conseguir perfurar a artéria — eu nunca conseguia.

Fechei os olhos. A dor que eu sentia por conta daqueles cortes era uma sensação de liberdade, como se meus problemas estivessem sidos resolvidos. Tudo estava completamente resolvido. Nada de problemas amorosos, familiares... nada. Tudo estava bem. E eu agradecia a gilete por isso.

Ouvi o barulho da porta se abrir e ouvi três suspiros. Eu sabia que eram eles. Nem meu momento de refúgio, eles me deixavam em paz? Nunca?, pensei completamente revoltado e ainda de olhos fechados, mas tentei ignorar os braços que me puxaram em um abraço. Percebi que era minha mãe, nenhum dos outros dois faria isso comigo.

— Meu filho... — disse minha mãe. — meu bebê... por que fez isso? Por quê?

Eu a ignorei.

— Oliver, pegue algumas toalhas. — ouvi Thea dizer.

— Tá... — ouvi a voz de Oliver em seguida.

Mãos firmes prenderam meus pulsos com certa força, eu sabia que estavam estancando meu sangue, mas eu também os ignorei. Continuei de olhos fechados.

Passaram-se alguns minutos de terrível silêncio e eu abrira os olhos, onde vi os três me olhando com os olhos arregalados. Soltei-me dos braços de minha mãe e fui até o meu banheiro, onde liguei a torneira da pia e comecei a limpar meus pulsos, já estancados.

— Theo, nós merecemos uma explicação. — disse minha mãe tentando ser firme.

— Outro dia, mãe. — falei sem olhá-la.

— Theo... — Oliver tocara em meu ombro, mas eu tirei sua mão direita de meu ombro com a mão esquerda, torci o seu braço facilmente e o chutei de meu banheiro.

Ele se levantou assim que havia chegado ao chão e me encarou feio.

— Não quero te machucar. — disse ele com certa raiva.

— Nem eu. Agora saiam. Por favor. — pedi ainda olhando para meus pulsos na água.

Não vi a reação deles, mas ouvi a porta de meu quarto bater novamente.

Respirei uma, duas, três, quatro... vinte vezes profundamente e voltei a me sentar em frente a porta de meu quarto.

Senti uma pequena dor em meu peito — não era sentimental. Apalpei e senti o caderninho de meu pai. O peguei e o olhei.

O choro havia parado, nada de sangramento em meus pulsos me importava mais, o que eu via a minha frente era o legado que meu pai havia deixado para mim.

— Eu não vou decepcioná-lo, meu pai. Não irei! — prometi mais a mim mesmo, do que a meu pai.

Alisei aquele caderninho em minha mão e comecei a traçar uma maneira de como começara fazer justiça em Starling City por meu pai. Aquilo me importava mais. Nada de Jeremy, nada de Thea, nada de minha mãe, nada de Oliver.

Tudo o que me importava era a justiça que meu pai havia pedido para eu fazer.