O Ninja De Branco.
2 Capítulo 2 — A Revelação.
EU SABIA QUE JASON FALARIA A SEUS PAIS QUE EU NÃO QUERIA FAZER ALGO QUE ELE “mandou” eu fazer e que não fiz. Mas eu não ligava para isso, logo, eu estaria longe da casa deles e de “suas ordens”. O ruim era saber que eles tirariam algo de mim ou mandariam fazer mais uma de suas outras tarefas domésticas — mas esses dias estavam no fim, então eu não me importava tanto. Eu já tinha a minha meta e a primeira da lista era ir embora daquela casa o mais cedo possível.
Só reparei que estava diante de meu armário quando não tinha mais para onde ir adiante. O abri e retirei os livros das aulas seguintes. Olhei para dentro do armário por alguns minutos e retirei o diário que meu pai havia deixado para mim quando bebê, e o pus dentro de minha mochila.
O intervalo ainda não havia passado, então tinha alguns minutos extras para ir ao campo de football.
Não demorei muito para sair daquele corredor, ele estava ficando vazio durante alguns instantes, provavelmente alguns alunos entrando nas salas para estudar — estávamos em período de provas finais e, com toda total e absoluta certeza, todos estavam preocupados com suas notas finais.
Senti uma pequena vibração em minha coxa direita — eu sabia o que era — e pus a mão no bolso. Tirei meu aparelho celular e vi uma mensagem de texto:
Encontre-me no estacionamento.
–J.
Dei um pequeno sorriso. O que quer que Jeremy esteja aprontando para mim, ele sempre conseguia me fazer... feliz. Eu sempre me sentia bem perto dele. De alguma forma no meio desse furacão que é a minha vida, eu sabia que tinha alguém que me apoiava e que estaria comigo sempre que eu precisasse.
Ele era meu.
Mas eu tinha que acabar. Eu tinha que terminar o que tínhamos o mais cedo possível. Jeremy não conseguiria suportar a ideia de eu tê-lo deixado sem nenhuma explicação, então eu tinha e dá-lo uma razão para o fim de nós.
O sorriso que eu tinha em meu rosto se desfez.
Eu não tinha mais razão para estar alegre aquele dia e, tampouco, aquela manhã. Eu me sentia um lixo, um perfeito idiota por não contar a Jeremy tudo, mas ele saberia de tudo hoje e provavelmente me largaria de uma vez por todas. Seria melhor assim, porque eu não conseguia mentir. Ao menos não para ele. Ele era a única pessoa que eu não havia o motivo para mentir ou esconder algo. Sempre lhe prometi contar tudo sobre a minha verdadeira família e eu o contaria hoje. Contaria que estava quase tudo pronto para a partida e ir atrás deles. Eu não sabia como Jeremy resistiria a essa notícia, mas eu teria certeza que ele não faria escândalo nenhum na frente das pessoas — apesar de nosso namoro ser assumido para toda a escola e, se duvidar, para a cidade inteira —, Jeremy não fazia a linha escandaloso.
Então mudei de curso, dei meia volta e segui pelo corredor à esquerda, passando pela porta de minha próxima aula e, correndo, pela sala do diretor — ele era um cidadão que vivia irritado e ele era quase tão insuportável quanto Jason.
Abri as portas da escola que dava acesso ao estacionamento e o vi. Eu reconhecia aqueles cabelos pretos e corpo de estrutura forte de longe. Percebi que seu rosto formou um sorriso e ri de volta, mas eu sabia que aquele sorriso com dentes perfeitamente brancos e perfeitos não durariam muito, o que fez meu coração se entristecer — o que também não me fez sorrir com avivamento para ele.
Chegando perto dele, ele me deu um sorriso brilhante, me abraçou com certa força e junto os lábios aos meus rapidamente.
— Hey, Theo... — disse ele me soltando do abraço e me olhando, ainda sorrindo.
— Hey, Jer. — falei. Ficamos num silêncio por um momento. Eu não sabia como começar a falar e ele viu minha inquietação.
— Aconteceu alguma coisa ou...? — ele levantou uma sobrancelha ao perguntar.
— Sim. — falei olhando-o.
— O quê?
— Eu vou embora.
— Sim, um dia.
— Não... — balancei a cabeça rapidamente. — Para sempre. Eu vou atrás da minha verdadeira família. — havia saído mais rápido do que eu esperava. Eu não o olhei por um momento, mas eu não contive a curiosidade e tive de olhá-lo. Ele não parecia estar satisfeito. Ele começou a ficar vermelho.
— Quando? — perguntou ele sério olhando para o chão.
— Hoje à noite. — eu havia decidido na hora, pois eu havia pesquisado os horários dos trens e ônibus há alguns dias atrás. — O trem parte as onze e eu tenho que estar na estação às dez e meia. — falei já sentindo uma pontada no coração ao pensar em estar na estação sem ele e viver sem ele na cidade nova. Eu não conseguiria suportar isso. Não mesmo. Não sem ele. Mas eu tinha. De uma maneira ou de outra.
— Por quê?
— Porque eu soube, hoje pela manhã, que meu suposto irmão está preso.
— Eu vou com você. — disse ele firmemente me olhando com os olhos arregalados e pondo as mãos em meus ombros.
— Não, Jer. — balancei a cabeça em negativa tirando suas mãos de meus ombros e olhando sentindo meus olhos arderem, e posso jurar que vi lágrimas se formando em seus olhos, e aquilo me fez sentir mais dor no coração.
— Eu vou. — disse ele dando um passo a frente e me olhando seriamente.
— Não, não vai, não, Jer. — engoli o choro com cara triste, mas disse com firmeza.
Jeremy soluçou, mas não deixou cair uma lágrima sequer de seu olho, mas eu vi que ele lutou muito contra isso. Ele queria, mas ele não choraria em minha frente — ele nunca foi de chorar, mesmo quando ele me contou sobre sua avó que havia faleci há três meses.
— Mas eu te prometo contar tudo sobre... — respirei um pouco, eu estava quase sem fôlego e força para falar com ele — a minha nova família. — prometi.
— Quando? — ele me olhou com tristeza.
— Hoje.
— Onde?
— Onde preferir.
— Que tal agora? — ele pareceu um pouco irritado.
— Mas temos aula...
— Mataremos. Vamos a uma cafeteria, tem uma aqui perto, não é tão longe.
— Tudo bem... — não era exatamente uma pergunta, mas fiz questão de responder mesmo assim.
Ele começou a andar a minha frente e o segui até seu carro. Ele entrou no seu conversível e abriu a porta para mim de lá de dentro. Entrei, fechei a porta, pus o cinto de segurança e ele deu partida.
Assim que chegamos à cafeteria — de luxo, se pode dizer assim, mas era a mania de Jeremy, sempre queria me tratar bem e me dar tudo do bom e do melhor —, Jeremy e eu fomos para dentro da cafeteria e nos sentamos em uma mesinha de quatro lugares perto da janela que tinha uma vista para um jardim maravilhoso. Ele pediu um cappuccino, um refrigerante de uva e algumas torradas, juntamente com alguns bacons e panquecas para nós. Eu gostava de bacons com torradas e é claro que Jeremy sabia disso e me compraria isso — ele sabia das minhas condições nos Parkers e não me deixava faltar comida, apesar de me deixar completamente sem graça com essa ação e quando comprava algo para mim, assim como o meu celular.
— Então... — disse ele quebrando o silêncio que parecia ter levado uma eternidade.
— Eu...
— Aqui está. — disse a garçonete trazendo os pedidos de Jeremy e pondo-os de má vontade na mesa. Ele não gostou nada disso.
— Coma. — disse ele já começando a devorar uma das panquecas.
Peguei uma torrada e um pedaço gorduroso de bacon.
— Eu ainda estou esperando... — disse ele assim que terminou de tomar um gole de seu cappuccino.
— Bom... aqui está. — mostrei, hesitando, a ele o diário que meu pai havia me deixado.
— O que tem nesse caderninho? — perguntou ele arqueando a sobrancelha esquerda.
— Tudo o que você precisa e quer saber. — disse, ele me olhou com um pouco de desconfiança, tomou o diário de minha mão e começou a lê-lo.
Tentei voltar a comer, mas não consegui. Em vez disso, fiquei mordiscando alguns pedaços de torrada — pois eu sabia que Jeremy me faria comê-las de qualquer maneira —, e fique olhando-o ler o diário.
A cada página que ele passava, ele franzia a testa ou arregalava os olhos — meu pai não escrevera coisas tão reveladoras assim, mas eu sabia que Jeremy faria algum tipo de espanto a qualquer coisa que ele achasse “incomum” no mundo. Afinal, Jeremy era único. Qualquer coisa o faria ficar daquela maneira — apesar de que dentro daquele caderninho havia tudo sobre mim, tudo sobre ele, tudo sobre os Parkers e tudo sobre nós dois, como na primeira vez que ele havia me beijado, nossa primeira noite juntos, nossos passeios à noite, a primeira ida ao cinema, os dias em que meu pai havia me visitado desde os oito anos até os onze anos...
Meus olhos começaram a arder novamente. Lacrimejar pinicava meus olhos por conta das lentes de contato. Eu sabia que não deveria usá-las esta manhã de alguma maneira, mas a teimosia reina em mim. Consequências. Só de voltar a pensar que eu deixaria Jeremy aqui, me matava por dentro, fazia meu coração doer, e doer muito.
Mais silêncio dele.
Eu já estava começando a achar que Jeremy me largaria ali a qualquer hora. Eu entenderia. Afinal, eu não o queria comigo em minha despedida, eu entenderia bem a sua negação de estar em minha presença; eu sofreria menos, porque eu não estaria olhando-o e tampouco sentiria as suas palavras fortes — Jeremy conseguia por alguém no chão somente com suas palavras. Ele não precisava de violência, mas, se a coisa ficasse mais feia, ele, sim, partiria para a violência e eu não queria ver Jeremy brigando com alguém, batendo em alguém, ou sequer, apanhando de alguém — eu nunca deixei ou deixaria isso acontecer. Jamais.
— Isso tudo é verdade? — perguntou ele olhando para mim e com meu diário em sua mão estendida. Ele parecia incrédulo.
— Sim. Ao menos foi o que os Parkers me disseram quando eu tinha sete anos. — disse dando de ombros.
— E por que eles não leram isso? — ele franziu a testa pensativo.
— Não sei... eles disseram que não importava para eles saberem de onde eu vim ou de que buraco eu saí. — dei de ombros novamente.
— Não fale de você dessa maneira...
— Jer... — o interrompi.
— Tá bom. — disse ele por fim e me entregando o diário. — E eu ainda irei com você.
— Para...?
— A estação de trem.
— Não.
— Vou.
— Já disse que não, Jeremy.
— E eu já disse que sim, Theodor. — ele bateu com força o punho na mesa e se inclinou para mim, e sussurrou: — Acha que eu quero que meu namorado se vá... sem se despedir de mim? Quer que eu não o veja... indo atrás do que ele sempre... quis? Acha mesmo isso, Theodor? Acha? — perguntou ele já totalmente vermelho e, quando realmente olhei para seus olhos, vi lágrimas escorrendo deles.
Eu não pude responder. Eu não sabia o que responder, na verdade. Jeremy era o que havia acontecido de melhor em minha vida durante os meus 16 anos com os Parkers — além de algumas visitas de meu pai. Eu queria dizer que eu o queria do meu lado quando partisse, aliás, queria dizê-lo que não queria partir sem ele, mas eu não consegui encontrar as palavras certas para a ocasião. Só consegui chorar com ele e afagar sua mão, mas ele recuou a sua da minha e eu entendi. Eu havia deixado chateado demais.
— Não, Jer... — sussurrei. — Eu queria você lá...
— Então por que não quer que eu vá?
— Porque eu não quero ter ver igual estou te vendo agora. Eu não quero ver você chorar porque dói, Jeremy. Dói muito ver você assim e eu não sei se aguentaria.
— Não seja ridículo...
— Não estou sendo! — bati com força na mesa alterando a voz e posso jurar que todos que estavam ao nosso redor nos olharam. Ele arregalou os olhos por um instante, mas voltou a ficar sério. Senti minha garganta ficar quente e logo em seguida minhas bochechas, seguida de minhas orelhas. — Eu não quero perder você. Você é a única razão por eu ainda não ter ido, a única razão pela qual eu aturo os Parkers, a razão pela qual eu não quero... — Respirei fundo e senti o ar de volta aos meus pulmões, parecia que ele havia ficado ausente de meus pulmões durante horas.
— Theo... relaxe... — disse ele me puxando para ficar sentado, foi aí que reparei que eu estava de pé.
Sentei-me um pouco mais relaxado.
Silêncio.
— Deixe-me te levar, Theozinho? — pediu ele me olhando como um cão pedindo comida a seu dono e aquilo me fez rir.
Eu não conseguiria dizer um não para aquilo.
— Tá, tudo bem... — ri e concordei, por fim. Ele sabia que eu não resistiria à aquela carinha que ele fez. — Onde me pegará e que horas?
— Hmmm... — ele pensou por uns segundos. — Às nove e meia. Eu te espero na rua de trás da casa dos Parkers. Feito? — ele me olhou e vi uma gota de suor escorrer por sua testa.
— Feito. — falei limpando aquela gota de suor para ele e rindo.
Mas eu me lembrei de uma coisa. Uma coisa pela qual eu havia que fazer, e, já que estávamos falando de despedidas, eu não poderia deixar passar a oportunidade.
Assim que olhei para ele, ele havia se levantado e tinha ido até o balcão para pagar a conta. Ele parecia feliz ali. Balancei a cabeça e ri comigo mesmo. Eu sabia que aquele sorriso não duraria muito tempo. Eu havia feito uma parte do que eu já tinha em mente: a revelação de minha família verdadeira. Eu havia de fazer a outra parte...
Olhei para o meu celular que ele havia me dado e vi as horas, a qual marcava exatamente o final das aulas do dia e se eu não estivesse com Jason, provavelmente eu estaria em uma péssima condição na casa dos Parkers.
Apressei-me em olhar para Jeremy e ele estava me olhando na porta da cafeteria de sobrancelhas erguidas. Dei um pequeno sorriso, peguei meu refrigerante de uva, o segui para fora da cafeteria e segui-o para dentro de seu carro.
Assim que entrei, pus depressa o cinto de segurança e disse:
— Corre. Se eu chegar sem ele na casa dos Parkers sem Jason, eu estou frito. — fiz uma cara de espanto para ele e depois ri.
— Positivo. Mais alguma coisa, senhor, Parker? — ele riu e me olhou, mas mudou sua expressão facial quando eu lhe lancei um olhar de ódio.
— Não repita isso nem de brincadeira. — falei rosnando para ele. Ele sabia de toda a história de eu ter o sobrenome dos Parkers porque meu pai havia pedido. Infelizmente eu era registrado com o nome daquela família...
— Desculpe... senhor Queen. — corrigiu ele e me olhou com um sorriso torto. O que eu amava, por sinal.
— Sim. Isso... — o puxei e o beijei.
Ele retribuiu o beijo, mexendo por detrás de minha nuca e mexendo em meus cabelos. Pus uma de minhas mãos em seu rosto e com a outra alisei seu braço incrivelmente forte. Ele passou uma de suas mãos em minha cintura e começou a alisá-la.
Era como estar em outro universo. Jeremy sabia como ele me fazia bem e estar conectado com ele daquela maneira me fazia completa e totalmente feliz. Fazia eu me sentir amado ou notável por alguém. Não fazia eu me sentir o “Theo, o escravo dos Parkers”, e sim o “Theo, a pessoa como qualquer outra”. Era como se eu dependesse de Jeremy para viver. Aliás, ele era uma das razões para eu viver — mesmo eu tentando a automutilação há dois anos, as cicatrizes ainda são volumosas e visíveis.
A sensação de seu beijo me deixava fora de mim, fora do mundo, fora do universo. Intenso, delicado, doce, selvagem... eu não sabia como distinguir, ele era o único menino que eu havia beijado na vida. Eu nunca saberia qual era realmente a definição de seu beijo, só sei que era perfeito e ideal para mim.
Assim que nosso beijo começou a ficar mais quente dentro do carro, o afastei. Respirei um pouco para manter o foco e ter de volta o ar que ele havia me tirado.
— Jer... — falei ainda de olhos fechados encostado com a cabeça na dele.
— O quê? — perguntou ele, provavelmente ainda de olhos fechados também.
— Temos que ir... Jason... os Parkers... — o lembrei, e abri os olhos me colocando direito no banco do carona.
— Tá bem... — ele abriu os olhos e deu partida numa velocidade um tanto rápida.
No caminho eu só pensei em como sentiria falta daquela sensação, de estar fora de mim, de estar com alguém especial, alguém que eu amava e que se importava comigo, e principalmente do beijo perfeito dele.
Não demorou muito para chegarmos ao estacionamento da escola. Não consegui avistar Jason lá, mas nem todos os alunos ainda haviam saído da escola — só os mais jovens, o que aparentava ser o pessoal do meu ano escolar ou menor escolaridade que a minha.
— Te amo, Theodor. — disse ele e olhou para mim.
Sorri.
— Eu também te amo, Jeremy. — encarei aqueles olhos azuis claros e perfeitos por um instante e o beijei com intensidade e saí do carro, infeliz, pegando minha mochila e atrás de Jason, e do ônibus escolar.
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