O Negrume

15 Mãos Negras


Notas iniciais
Alguns segredos não gostam de ser revelados... Alguns mistérios não devem ser resolvidos...

Daniela nos contara sobre uma criatura, o Negrume. Tia Lia dissera sobre a falecida Sra. Summers. Também havia a música misteriosa. Quando mais eu descobria sobre a casa, mais eu tinha perguntas sem respostas.

Catarina parecia estar doente. Passava a maior parte dos dias de cama, mas seu pai não parecia disposto a diminuir seu castigo apenas porque ela adoecera. Ela estava com muito medo, e desesperada para ir embora. Estava pálida, quieta. Quase não conversava mais, e se assustava com muita facilidade. Estávamos preocupados com ela, mas não havia muito o que fazer. Ela não estava doente, estava com medo.

Edgar parara de nos visitar. Isso me deixara chateada. Sua companhia alegre me fazia falta. Todos naquela casa pareciam tristes, aflitos e assustados. Eu mesma estava com medo. Eu, que sempre fui cética quanto a tudo que tivesse relação com fantasmas. Sempre apoiei a ideia de que as pessoas de carne e osso são mais perigosas do que aquelas que não podem nos tocar. Bem, eu achava que não poderiam nos tocar.

Comecei a investigar o nosso sótão. Limpei a maior parte da sujeira, e descobri ferramentas, brinquedos de criança, sobretudo bonecas, e muitos livros. A maioria deles com títulos bizarros. Havia um intitulado de “Pele de Cobra e suas propriedades” e outro era o “Manual Internacional do Vodu”.

Me lembrei da história de Ernesto, que morara ali com a mulher e suas três filhas. As bonecas provavelmente pertenciam ás garotas, que hoje já são adultas e têm suas próprias famílias.

O porão era um pouco gelado, mas levei para lá alguns cobertores e velas, e logo se tornou um lugar agradável. Eu trabalhei por muito tempo organizando o lugar, e posicionei todos os livros em uma pequena estante. Os que não couberam ficaram em pilhas bem organizadas. Tirei toda a poeira e usei alguns produtos de limpeza para deixar o cheiro mais agradável.

Eu procurava pistas do que ocorrera ali no passado, e só pude chegar a uma conclusão. Algum dos moradores praticava magia negra. Era o que eu entendia, por todos aqueles livros com títulos estranhos.

Me perguntei sobre o que Catarina fizera com o livro que havia dentro da Arca. Se ela o queimara, não havia sido no nosso quintal. Tenho certeza que teria percebido o cheiro, ou visto as cinzas no nosso quintal. Mesmo assim, não havia razão para guardá-lo.

Logo anoiteceu e eu desci do sótão para jantar. Ainda haviam várias caixas para abrir, mas por aquele dia eu já havia feito o suficiente. Demorariam dias para descobrir tudo que havia por lá. Eu só esperava que não demorasse demais.

Jantamos uma sopa de legumes que Annika havia preparado. Desde que mamãe falecera, Annika vinha se esforçando para substitui-la, dentro do possível. Eu a admirava por isso, mas nossa mãe era insuperável. Sempre tinha respostas para tudo, e seus conselhos sempre eram os melhores. Sua comida então... Nossa, como eu sentia sua falta...

Catarina colocara seu colchão entre a minha cama e a de Annika. Estava com medo demais para dormir sozinha. Nós precisávamos tomar cuidado para não a machucar quando acordávamos no meio da noite para beber água ou ir ao banheiro. Ela sempre acordava com o menor ruído. Seu sono era leve, e sua audição, potente.

Naquela noite eu tive muita dificuldade para dormir. Eu sentia que algo tinha seu olhar sobre mim, me observava. Finalmente o efeito de todos os acontecimentos estranhos e todas as histórias macabras sobre aquela casa estava me apavorando. Eu estava, pela primeira vez, com medo de verdade.

As sombras pareciam maiores, mais escuras. A penumbra dominava todo o quarto. Minha mente parecia estar me pregando peças, me fazendo ver formas estranhas na escuridão. Sem outro motivo, meu coração estava disparado e eu sentia vontade de chamar Annika, mas sem coragem de erguer a voz e romper o silêncio.

Foi então que Harry começou a chorar mais uma vez.

Ao contrário do que geralmente dizem sobre os bebês, Harry nunca teve o hábito de acordar no meio da noite aos prantos.

Annika, como uma boa mãe, acordou, pronta para ajudá-lo no que quer que necessitasse. Mas o medo era nítido em seu rosto. Eu gostaria que ela pudesse ter ao menos essa noite tranquila.

Ele berrava como nunca fizera antes. A mãe imitou o filho em um grito agudo que fez com que minha cabeça latejasse.

–O que houve?! – perguntei assustada, a razão finalmente vencendo o medo por alguns instantes.

Annika parecia apavorada demais para dizer qualquer coisa. Quanto mais para explicar aquilo! Nos braços e pernas gordinhos de bebê, haviam marcas pretas, como se mãos sujas de carvão o houvessem tocado. Harry parecia estar amedrontado, e só ficou calmo quando Annika o abraçou e o colocou em sua própria cama.

Era como se o que quer que fosse de sobrenatural que habitasse aquela casa o quisesse. Alguém queria o bebê.

Notas finais
O que acharam? Esse capítulo já estava escrito há muito tempo, e eu fiquei meio em dúvida sobre ele.