O Necromante
2 O Ritual
Já se passavam duas horas após a meia noite e as duas luas cintilavam no céu de Obis-lár. No centro do belo jardim secreto do palácio de Möldor-sàr estava o grande altar de mármore onde os necromantes realizavam seus rituais proibidos. Sobre a pedra fria jaziam dois corpos, um vivo e um morto. O morto era de um franzino menino de no máximo doze anos de idade, falecido após ter sido infectado pela gripe negra; ele estava completamente nu, e em seu peito um afastador cirúrgico posicionado no local da longa incisão mantinha os órgãos torácicos amostra; o corpo vivo, por sua vez, era da mãe dele. A mulher, de aproximadamente 40 anos de idade, estava bem sedada e vestida apenas pelos longos cabelos castanhos e cacheados que lhe caiam sobre os pequenos seios, que esparsamente se inflavam com as suas infrequentes inspirações.
O ritual, de fato, havia começado muitas horas antes, ainda durante a manhã do dia anterior. Com o consentimento da mãe o necromante prendeu a energia vital do menino em uma Joia de Alma imediatamente após a morte dele. Assim o espírito permaneceria em um local seguro para ser rapidamente reintroduzido no corpo ao final do ritual, poupando o necromante do esforço de uma conjuração (um procedimento perigoso que sempre apresenta riscos). Depois de prender a energia vital na Joia o necromante abriu o peito do menino e aplicou um emplastro a base pó de lua em seus pulmões infectados a fim de eliminar o vírus. Agora já se passavam doze horas desde a aplicação, tempo suficiente para curar as vias áreas infectadas.
Localizado dez mil metros ao norte da cidade de Caucus, ao pé da colina de Anor, Möldor-sàr era um palácio isolado. O velho Mons Jonas era Arquimestre da Ordem no reino de Obis-lár, e também senhor do palácio. Ele construiu sua fortuna como mercador e era um cidadão muito respeitado no Império. Somente os iniciados mais graduados sabiam que ele pertencia à Ordem. O palácio era um local bonito durante o dia, com muitas flores e pássaros cantantes, especialmente tordos. Sob o luar, contudo, o local adquiria um ouro tipo de beleza, uma beleza mais sombria. As sombras das árvores e das estátuas nas pálidas paredes do palácio de mármore lhe davam uma aparência fantasmagórica. Não foi por acaso que a Ordem escolheu Möldor-sàr como local para a realização de rituais. Por si só o jardim secreto já deveria atrair espíritos da escuridão durante a noite. E naquela noite, em especial, atraia vários.
O necromante realizava o ritual sem auxiliares, contudo ele sabia que não estava sozinho. Enquanto retirava o outrora branco emplastro dos pulmões, agora completamente negro devido ao vírus, ele podia sentir a presença de espectadores nas sombras; espectadores hostis. Espíritos de Orcs já falecidos o observavam atentamente, mas a Chama Verde da pira os mantinha na escuridão; não fosse a chama, eles fariam o possível para sabotar o ritual. Apesar de não poderem afetar o necromante eles poderiam muito bem libertar a alma do menino trancada na Joia. O necromante, contudo, não podia deixar de rir da situação. Caso os Orcs não tivessem medo de escutar os mortos poderiam facilmente descobrir os locais onde os rituais proibidos são realizados; mas sem se comunicar com seus colegas já falecidos o necromante estava para os Orcs vivos da mesma forma que para os Orcs mortos: intocável.
Após retirar todo o emplastro dos pulmões do morto era hora de começar com a etapa final do ritual. Com a mão direita o necromante sacou a faca cirúrgica presa no cinto de couro que segurava seu manto negro, e com cuidado cortou todas as veias e artérias do coração do menino, começando na veia cava inferior e terminando nas artérias do pulmão esquerdo. Apesar da experiência do necromante era inevitável alguma dose de nervosismo na hora do procedimento. O mínimo erro poderia comprometer todo o ritual.
Depois de a última artéria ser cortada o necromante secou a faca ensanguentada em um pano branco e a guardou de volta no cinto. Com a mão direita em forma de concha ele agarrou o coração do menino e com cuidado o puxou para fora do peito. Mesmo frio e morto havia uma beleza indescritível no coração humano; a forma, a cor e até o cheiro desse músculo contém uma espécie de poder que, mesmo sendo somente carnal, é digno de ser considerado mágico. Durante alguns segundos o necromante fitou aquele coração, que não fazia muitas horas era responsável por manter o fluxo de toda a energia vital daquele corpo que agora jazia imóvel e frio na sua frente.
O coração morto foi colocado sobre o altar ao lado do corpo do menino, marcando a próxima etapa do ritual; o necromante sacou sua faca novamente e dirigiu-se ao corpo da mulher. Ele fez uma longa incisão em sentido vertical entre os seios, largou a faca ensanguentada sobre o pano no altar e, após afastar os cabelos da incisão, abriu as costelas dela com o afastador torácico. Assim que a luz da Chama Verde penetrou naquele tórax aberto ele podia vê-lo. Vermelho, pulsante, vivo. Ninguém é capaz de dizer se há um ponto exato no corpo humano onde a força vital fica armazenada, mas se houver o necromante apostaria que esse ponto é o coração. O cérebro comanda, os órgãos sexuais fecundam, mas o coração é o que mantém tudo em movimento; e para o necromante a existência se resume ao movimento. É ele que produz energia, e sem energia não há nada, nem mesmo a morte.
O necromante permitiu-se alguns minutos de contemplação do músculo pulsante antes do momento mais difícil do ritual. Ele sabia que agora precisaria ser muito cuidadoso e rápido para cortar todas as veias e artérias do coração vivo e costura-lo no corpo morto. O emplastro de pó de lua lhe daria alguns minutos após a retirada do músculo do peito materno, mas mesmo assim ele não podia cometer nenhum erro.
Para se concentrar o necromante fechou os olhos e respirou profundamente três vezes. Após a terceira inspiração ele calmamente disse na língua dos sacerdotes antigos “Senhor da Luz e da Escuridão, Senhor dos Vivos e dos Mortos, permita que eu, seu humilde servo, realize o ritual supremo da vida; que seus olhos, Ebur e Heber, testemunhem que a partir de hoje será possível superar a morte”. Ao soltar o ar pela terceira vez o necromante abriu os olhos. Levando a mão direita ao altar ele segurou a faca com firmeza e em seguida começou a cortar as artérias do pulmão direito, deixando a veia cava inferior e a aorta para o final. Depois de o último vaso sanguíneo ser cortado o necromante largou a faca sobre o pano no altar, e com a mão direita em forma de concha retirou o coração ainda pulsante do corpo da mulher. Com o sangue quente escorrendo entre os dedos aplicou com a mão esquerda o emplastro de pó de lua no músculo e, sem largar o coração ainda vivo de suas mãos, ele se dirigiu ao corpo do morto. Em alguns minutos ele conseguiu costurar a veia cava inferior e a aorta, mas isso ainda não era suficiente para fazer o sangue circular pelo corpo. Depois de quinze minutos todos os vasos estavam costurados; o necromante molhou a cabeça do morto, costurou o seu peito e se preparou para o momento decisivo do ritual.
“Liberte-se da prisão espectral e retorne à carne. Que o Senhor dos Vivos e dos Mortos lhe desvie dos corredores da escuridão e da luz em direção ao coração que agora bate em seu peito.” O necromante sussurrou as palavras na língua antiga dos sacerdotes no ouvido do menino morto e, assim que terminou, posicionou a Joia de Alma sobre o peito dele. Concentrado toda sua energia vital na palma da mão direita posicionada sobre a pedra disse em língua comum “Liberte-se”. Quase que simultaneamente, com a mão esquerda, ele agarrou o bastão de pinus energizado sobre o altar e, no momento em que sentiu a energia ser transferida da Joia para o corpo, tocou a ponta do bastão na cabeça do menino, causando um potente choque de três decimilergons em seu cérebro.
Após o choque todo o corpo se aqueceu e passou a convulsar. O necromante podia sentir que a vida estava retornando àquele corpo há pouco frio e pálido. Após largar o bastão ele pegou um pouco de pó de lua e inclinou-se para frente em direção ao rosto do menino. Ao pronunciar “respire a vida” na língua antiga o necromante assoprou o pó para dentro da boca e do nariz do morto. Após se debater por mais alguns segundos, porém, a carne começou a esfriar novamente. Aflito, o necromante pronunciou em língua comum “desvie dos corredores, retorne à carne; retorne à carne e abra os olhos!” Mas foi em vão. Ele podia sentir a força vital esvair-se, quase como se escapasse entre os seus dedos. “Eu segui todos os passos!”, exclamou. “Eu pude sentir! O corpo estava vivo! Por que o espírito foi embora? Por que eles sempre vão embora?” perguntava-se o necromante, frustrado. "Sem o artefato, é inútil", concluiu. Mais uma vez, o ritual foi um fracasso.
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