Notas iniciais
Oiii, de novo!! Mais um capítulo! Tem alguém por aí ? <3

Joy não roncava de verdade, mas eu sabia que era uma das maneiras de provocá-la.

Muito embora, talvez eu devesse ter deixado que ela fingisse dormir enquanto eu fingia que não percebia seu fingimento.

Mesmo prestando atenção dobrada na estrada, meus olhos não conseguiram evitar recair sobre a mão direita dela.

“Não é um anel de noivado. É de namoro.”

A frase ressoava em minha mente e eu não sabia por que num primeiro momento havia ficado tão chocado ao pensar que poderia ser um anel de noivado mesmo. Quer dizer, estávamos com quase 30 anos, era natural que Joy tivesse em um relacionamento sério. Há alguns anos, eu mesmo estava.

No entanto, era compreensível minha linha de pensamento porque olhar para ela, mesmo depois de uma década, e achar que Joy não tinha mudado nada fisicamente dava a falsa sensação de que ainda éramos dois adolescentes no ensino médio, dando risadinhas quando alguém mencionava namoro ou casamento.

Só que ainda não explicava a pitada de alívio com o esclarecimento de que era apenas um anel de compromisso.

A Joy de antes declarava para qualquer um ouvir que casamento era uma prisão ou então que jamais ela submeteria alguém à loucura que era sua família e toda a dinâmica de Evergreen Meadows.

Bem, era óbvio que aquela década foi mais do que o suficiente para mudar nossos pensamentos. Além do mais, morando longe dali, ela não teria que submeter seu parceiro — seja lá quem fosse — aos dramas da família Garland, o que deveria ser um fator importante na sua decisão.

A única dúvida real que ficava era quem seria o tal do namorado.

Ele deveria conhecer minimamente os detalhes sobre Joy. Certamente, ela teria contado sobre o acidente ou sobre toda a geografia da nossa cidade natal. Então como ele poderia ter deixado que ela viajasse sozinha com aquela quantidade de malas e sem ninguém para dirigir para ela?

Talvez ela não tenha contado que ninguém viria buscá-la no desembarque.

Talvez ele não a conhecesse tão bem assim.

No entanto, nada daquilo era da minha conta, como Joy fez o grande favor de lembrar.

Na última vez que nos vimos, as coisas não foram nada suaves ou amigáveis.

Nossa amizade e cumplicidade não existia mais e, na verdade, até a casualidade de dois conhecidos não cabia mais entre nós.

Era apenas passado e permaneceria assim.

A entrada da cidade já estava com um fluxo de carros considerável.

Por mais inacreditável que fosse, pior do que enfrentar um engarrafamento, seria algum vizinho ou parente reconhecer que eu e Joy estávamos dividindo o mesmo carro.

Chegando juntos pela primeira vez em anos.

Com certeza viraria notícia e nossas famílias tomariam conhecimento em menos de 5 minutos.

Por isso, em vez de entrar na fila da entrada, resolvi pegar outro atalho que passava por fora do centro e que nos guiaria até as montanhas onde tanto a família Bell quanto a Garland tinham suas casas principais.

Pelo padrão da respiração de Joy, ela continuava dormindo profundamente e quando os fracos raios de sol ameaçaram passar no meio das nuvens e atingir seu rosto, ela franziu o nariz incomodada, me forçando a esticar o braço para abrir o quebra-sol.

Ainda parecia o início de um pesadelo perceber que nós dois escolhemos o mesmo ano para passar as festividades ali.

Com sorte, assim que eu a deixasse na casa de sua família, nossos encontros se limitariam apenas às reuniões para organização das festas. E com mais sorte ainda, nós seríamos capazes de não agir como dois adolescentes briguentos, implicando um com o outro a cada cinco min…

Um telefone vibrou e vi a tela do celular de Joy se acender no seu colo, anunciando uma nova notificação.

Ela nem se moveu.

O aparelho vibrou novamente quase caindo no espaço entre o assento e o console, e eu o peguei, colocando-o perto do câmbio.

Meus olhos passaram de relance pela tela, vendo as duas mensagens de alguém intitulado “Amorzinho”:

“Já chegou? Foi mal não ter conseguido falar com você antes de embarcar.”

“Pede desculpas para sua família. Vou tentar terminar tudo aqui logo.”

Devia ser o tal do namorado.

Virei a tela para baixo e voltei a me concentrar no caminho até a casa dos Garland.


Depois de 10 minutos, estacionei a alguns metros da parte dos fundos da antiga residência de Joy.

As árvores escondiam o carro de Joseph de qualquer um que resolvesse sair pela porta, mas não iria me arriscar ficando ali mais do que o necessário.

Saí do veículo, colocando meu celular e minha carteira de volta no bolso, tirando as malas dela— que ainda estava desmaiada no banco carona — da parte de trás e me surpreendendo ao notar que ainda tinha várias outras maletas menores no porta-malas.

Quem não a conhecesse pensaria que ela estava se mudando de volta para Evergreen Meadows.

Ajeitei a bagagem e abri a porta do lado do passageiro.

— Joy. — chamei num tom rápido e ríspido, cutucando seu ombro, sabendo que aquele sono da morte não seria quebrado de outro jeito.

— Hm! Oi! Presente! — Tentei reprimir o riso ao observá-la levantando num solavanco e batendo a cabeça no teto do carro.

— Chegamos. — anunciei.

Joy tirou a máscara com uma mão, ajustando sua visão à claridade e massageou o topo da cabeça com a outra.

Ao me reconhecer, seus olhos foram se arregalando gradativamente.

— Que pesadelo é esse? O que você está fazendo aqui?

Rolei os olhos, apontando para suas malas:

— Muito jovem para essa perda de memória. Ande logo, preciso devolver o carro do garoto e ir para casa.

Ela esfregou os olhos, recobrando a consciência de quem ela era e de onde estava.

— Nossa, dei um jeito no pescoço. — Joy comentou saindo do carro e pegando sem gentileza uma bolsa que eu balançava na frente do seu rosto. — Hm, obrigada. Eu acho. E nem uma palavra sobre essa carona para ninguém.

— Como se fosse do meu interesse que alguém soubesse que eu fiquei a menos de um quilômetro de você.

— Que bom que estamos de acordo e… — ela parou de falar, observando, e provavelmente se arrependendo, a quantidade de malas que teria que levar sozinha para dentro de casa.

Disfarçadamente, ela tentou olhar para mim e depois para a bagagem novamente.

Balançou a cabeça, como quem tirava uma ideia da mente.

Dei a volta no veículo, me posicionando atrás do volante e dando partida, enquanto ela fazia a logística de como levaria tudo de uma vez.

Depois de virar o carro para a direção contrária, parei com a minha janela bem ao lado dela e abaixei o vidro.

— Boa sorte, Garland!

Ela deu um sorrisinho que poderia ser amável para desconhecidos — mas não para mim — e me mostrou solenemente o dedo do meio, ainda que seu braço estivesse impossibilitado de se levantar demais graças as bolsas.

Acelerei, deixando-a para trás.

❆❆❆

— Aaargh. — grunhi, colocando as alças de umas das bolsas de volta no meu ombro.

Não sei como, mas eu havia dado um jeito de caminhar arrastando toda a minha bagagem, mas desejei que Christian tivesse sido só um pouquinho mais amigável e me deixado mais perto de casa.

Me ajudado como os vários desconhecidos fizeram na viagem até ali.

A questão era que ele não estava errado. Se alguém tivesse um vislumbre de um Bell nos arredores da casa dos Garland, começaria a Terceira Guerra Mundial.

Ou pelo menos a Grande Guerra de Evergreen Meadows.

E eu não estava a fim que minhas malas fossem o estopim de tudo aquilo.

Quando ouvi uma das portas do fundo abrir e vi meu primo saindo para fumar, foi como encontrar um oásis.

— Graças ao menino Jesus! — quase gritei e Gabriel deixou o isqueiro cair no chão.

— Puta merda! Quem é essa assombração? — ele disse, estreitando os olhos e colocando uma mão sobre o coração.

— Vai se ferrar, moleque.

— Tinha que ser a alegria da família mesmo. — Gabriel disse fazendo o trocadilho com o significado do meu nome. — Até o tamanho pequeno é bem preciso.

Dei um sorriso amarelo depois que ele se abaixou para pegar de volta o isqueiro e caminhou em minha direção.

— Em vez de Gabriel deveriam ter colocado seu nome de Lúcifer, sabia disso?

— Realmente, o anjo mais bonito que o Céu já teve. — Ele jogou um cabelo imaginário por cima do ombro, o sol incrivelmente fazendo uma faixa iluminada em sua pele escura e imaculada mesmo com as porcarias que ele comia. Meu primo puxou uma das malas e três bolsas de uma vez da minha mão. — Seria o máximo. Acha que ainda dá tempo de trocar? Metade da família seria internada no hospital, mas seria marcante.

— Ridículo.

Gabriel se inclinou para dar um beijo na minha testa.

— É bom te ver também, duende do Papai Noel.

O casarão da minha família era uma das duas construções mais imponentes de Evergreen Meadows.

A outra era o casarão dos Bell.

Reza lenda que muito tempo atrás, quando Evergreen Meadows não era a cidade do Natal, apenas uma vila esquecida pelo resto do mundo, os chefes das duas famílias se uniram para revitalizar o local e atrair mais turistas.

De alguma forma, o plano deu certo e assim começou o legado dos Garland-Bell.

Embora fosse difícil de acreditar atualmente, tanto o primeiro Garland ali quanto o primeiro Bell eram tão amigos que quase poderiam ser considerados irmãos.

Dois jovens visionários que conseguiram transformar um dia de feriado em uma festividade que geraria empregos durante todo o ano e levaria o nome da pequena cidade pelo mundo.

Foi com esse espírito de comunhão que boa parte dos marcos tinham sido construídos. Inclusive, os casarões das famílias eram quase que complementares.

No atual cenário, no entanto, elas eram interpretadas como completos opostos uma da outra.

Enquanto passava pela soleira da porta e entrava na área de serviço, senti algo — ou melhor alguém — agarrar uma das minhas pernas. Segundos depois, outro ser agarrou a outra.

— Tia JOOOOOOOOOOOOOOOOOOY. — Angel gritou de um jeito tão estridente que eu tinha certeza de que até o terceiro andar tinha ouvido.

E provavelmente alguns ancestrais também estavam se levantando do túmulo.

Angelo, por sua vez, apenas me olhava do outro lado, me encarando com seus grandes olhos e um sorrisinho sapeca.

— Já falei para você não gritar que nem a doida da sua madrinha! — Mariah entrou na área correndo, descabelada e com um celular no ouvido, apontando o dedo para Angel que agora se escondia atrás de mim.

Eu nem me ofendia mais.

Meus sobrinhos gêmeos eram Angelo e Angel. Sim, o auge da criatividade.

— Essa casa parece um hospício mesmo, não repreenda minha princesinha. — Gabriel comentou, colocando minhas bolsas e malas num canto e carregando imediatamente Angel.

Parecendo perceber pela primeira vez que eu não era nenhuma peguete aleatória que Gabriel estava trazendo para casa, Mariah arregalou os olhos.

— Você!

A maternidade tinha tornado-a tão aterrorizante que até eu estava me encolhendo com seu tom de voz.

— Eu?

Ela marchou em minha direção e me puxou para um abraço.

Bem, apesar de toda maluquice, Mariah tinha os melhores abraços e…

Senti algo molhado no meu ombro.

— Você tá chorando? — perguntei, enquanto ela afundava o rosto no meu pescoço. — Eu esperaria essa recepção de qualquer um aqui, mas a gente se viu há três meses, Mariah.

Tudo bem, era um exagero. Não conseguia imaginar um parente sequer se emocionando com a minha chegada.

— Ela tá grávida. De novo. — Gabriel disse de forma tão simples como quem dizia que ia chover.

Minha prima virou a cabeça tão rápido na direção dele com um olhar fulminante que foi a vez de Gabriel se encolher.

Nosso primo fez um gesto apressado para Angelo ir até ele e o carregou também.

— Venham, meus pequenos anjinhos, vou ensinar vocês como acordar o tio Noel usando os enfeites das árvores. Essas duas mulheres tóxicas não são boa influência para vocês.

Quando ele saiu com as crianças, eu me desvencilhei do abraço de Mariah e a encarei brava:

— Como Gabriel sabe da sua gravidez antes que eu?

— Era para ser surpresa…— Seus olhos começaram a marejar de novo. — Mas aquele infeliz estragou tudo.

Eu estava tentada a rir, mas apenas me limitei a enxugar as lágrimas que começavam a rolar pelo rosto dela.

— Ei, ei. Tá tudo bem…Não precisa chorar. Se ele não tivesse contado certamente essas suas lágrimas teriam te entregado.

— Eu…— Ela tentou dizer entre as lágrimas. —…ia te pedir para ser madrinha de novo.

— E agora não vai mais? Que tristeza. — brinquei e ela deu um tapa no meu braço.

— Besta. — Meu futuro sobrinho ou futura sobrinha resolveu agir novamente controlando as emoções intensas da mãe, porque as lágrimas se secaram quase que automaticamente e seu franzir de testa indicava que ela estava puta… comigo?

— O que foi?

— Por que você não atende a droga do celular? Te liguei há uns 10 minutos antes de te encontrar parada aqui. Estava preocupada. Falaram que teve um deslizamento na estrada mais ou menos na hora que você disse que estava a caminho.

Foi a minha vez de franzir a testa e eu tateei o bolso do meu blazer, tentando achar meu celular, só que sem sucesso.

Também não lembrava de tê-lo ouvido tocar nem vibrar em nenhuma das bolsas quando Mariah apareceu ali com o celular, provavelmente me ligando.

— Devo ter enfiado em algumas das bolsas quando saí do carro e…

— Aliás quem te trouxe? Achei que… — Ela abaixou a voz até um sussurro — …Henri viria com você.

— Ele teve uma emergência de trabalho. — falei, distraída, ainda tentando me lembrar em qual das bolsas poderia estar o aparelho. Eu precisava avisar a Henri que já havia chegado. — Quem me trouxe foi o Chri…

Mariah me olhou atentamente.

Engoli em seco e tossi um pouco, tentando disfarçar minha gafe.

— Quem me trouxe foi aquela criança… que não é mais criança…hm…John, Jonathan, Jason…

Balancei os dedos para que ela me ajudasse.

Sua expressão se suavizou.

— Ah, o Joseph. Ele realmente é um amor, super prestativo. Que bom que ele fez esse favor. Sabia que devia ter pedido pra William te buscar.

A dispensei com um gesto de mão displicente ainda pensando sobre onde poderia estar meu celular.

Eu estava abaixada no carro, me escondendo de Christian, quando o telefone tocou no meu colo. Depois eu me levantei, saindo do veículo com o telefone na mão e então voltei para dentro quando foi decidido que Christian dirigiria. Eu fingi dormir com o aparelho no colo de novo e depois de pegar no sono de verdade…

Merda. Será que tinha caído no chão do carro de Joseph?

— Hm, Ma. Você não conseguiria o número do menino, não?

— Ué, virou papa-anjo agora? Quer dizer, você tá namorando e…

Fiz uma careta, arrastando alguma das minhas malas enquanto íamos em direção às escadas para o segundo andar.

— Não, maldita, eu acho que esqueci o celular no carro dele. — Me virei para ela quando chegamos nos degraus, abaixando minha voz. — E fale baixo, ninguém além de você sabe que é sério ainda. E não quero ter que responder as perguntas sem que ele esteja aqui.

— Claro, claro. Tinha esquecido e…

Como se tivesse sido conjurada ao perceber que segredos estavam sendo guardados pela casa, uma figura apareceu atrás de mim e falou tão perto que eu quase desmaiei.

— Está namorando?

Me virei lentamente, tentando parecer descontraída ao esconder de forma sutil a mão direita atrás do meu corpo — já que das milhões de coisas que eu havia esquecido naquela viagem uma delas foi tirar o anel de compromisso do dedo.

Deveria ter tirado assim que Christian reparou. Se ele comentasse com alguém, que por sua vez comentaria com outra pessoa, e que de alguma forma chegaria na minha família antes de mim, eu estava perdida.

Entretanto, algo me dizia que Bell ficaria de boca fechada. Pelo menos aquilo ele era bom em fazer.

A figura que me encarava com uma sobrancelha arqueada era extremamente parecida comigo.

Dei um sorrisinho amigável para a minha cópia mais velha:

— Oi, mamãe, cheguei.


Notas finais
Hey hey, se você chegou aqui já sabe que estou totalmente agradecida <3 Não se esqueça de comentar o que está achando ou marcar a história como "acompanhando" para dar aquela força e incentivo! Até mais xx
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.