O Namorado da Minha Ex
23 Capítulo 23
Notas iniciais
As semanas foram passando e as provas e trabalhos finais do semestre foram chegando, trazendo uma tensão no ar toda vez que estávamos na faculdade. Minha rotina tinha mudado completamente. Sem Hugo, sem os treinos do atletismo, sem aquelas conversas longas no fim da noite, o tempo ficou ainda mais pesado, mais denso. Passei a preenchê-lo com o único coisa que me restava: estudo. Por um lado até achava bom ter que estudar para as provas finais porque pelo menos eu tinha alguma outra coisa para pensar que não fosse em Hugo.
Eu me agarrei nos estudos como quem se agarra a uma tábua no meio de uma tempestade. Estudava em todo meu tempo livre, às vezes minha mente viajava, mas eu conseguia trazê-la de volta. Menos quando eu o via pela faculdade, o que era inevitável. O campus não era tão grande assim. Eu o via quase toda semana. Às vezes no corredor principal, atravessando o pátio com a mochila nas costas. Outras vezes na cantina, pegando um café. Sempre com aquele mesmo jeito de andar, meio apressado, meio distraído. Nos primeiros encontros, eu sentia o coração disparar. As palavras ficavam presas na garganta, e eu não sabia se devia olhar, se devia desviar o rosto, se devia fingir que não tinha visto.
Logo criamos um ritual silencioso. De longe, alguns metros de distância, a gente se via. Parávamos por um instante, quase imperceptivelmente. Eu erguia a mão num aceno tímido, ele respondia com outro aceno igualmente contido. Nada de sorrisos largos, nada de aproximação. Apenas aquele reconhecimento rápido, como quem diz “estou aqui, ainda existo, ainda lembro de você”, antes de seguir em frente. Uma vez, na sala de estudos, enquanto eu estava com a cara enfiada nos livros, ele apareceu. Quando levantei a cabeça, eu o avistei e não deu para disfarçar. Então, acenei com um sorriso tímido e ele correspondeu. Ele foi se sentar em uma mesa à frente da minha, pois era a única que estava desocupada. Nem preciso falar que não consegui mais me concentrar, às vezes me pegava olhando para ele disfarçadamente, por cima dos livros que eu tentava ler e me perguntando se ele estaria fazendo o mesmo. Decidi que era melhor ir para casa estudar.
Cada encontro desses me deixava esgotado. Eu voltava para casa com uma sensação estranha, como se tivesse corrido uma maratona inteira sem respirar direito. Eduardo percebeu que eu estava piorando, mesmo com toda aquela fachada de produtividade.
— Você tá estudando demais — ele disse um dia, aparecendo na minha casa com um pacote de biscoitos debaixo do braço.
— Preciso passar nas provas — respondi, fechando o caderno com força.
— Você precisa de uma pausa. Vamos dar uma volta.
— Não dá, tenho que terminar esse resumo de Fisiologia. E você também deveria estar estudando.
— Pois eu estou, só não estou paranoico assim como você.
Por fim, ele não insistiu mais, apenas ficou ali mesmo assim, sentado no chão do meu quarto, jogando no celular enquanto eu tentava me concentrar. De vez em quando ele soltava alguma piada, ou me oferecia um biscoito, e eu ria sem vontade. Ele sabia que não era só cansaço de estudo. Sabia que era saudade.
À noite, quando finalmente apagava a luz, era pior. O silêncio do quarto amplificava tudo. Eu pegava o celular e ficava olhando a tela de conversa com Hugo. O nome dele estava ali, a última mensagem de “boa noite” que ele mandou semanas antes de tudo desmoronar. Eu passava o dedo sobre a tela, tentando decidir se mandava um “oi, tudo bem?”. Cheguei a escrever umas três ou quatro vezes. Apagava sempre. O que eu diria? Que sentia falta dele? Que a distância estava me corroendo por dentro? Que às vezes eu acordava no meio da noite achando que ele estava ao meu lado, só para me dar conta de que estava sozinho?
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