Notas iniciais
Voltei para mais um capítulo, espero que gostem!

Eu me virei e vi Fernanda parada, esperando por uma resposta minha. O fim da tarde deixava o campus mais quieto, com menos gente circulando. Ela esperou eu me aproximar, sem pressa.

— Podemos conversar? — ela repetiu.

Eu acenei e apontei para um banco de concreto perto do arbusto que havia na entrada da faculdade. Nós nos sentamos, e por um tempo nenhum dos dois falou. O som dos carros na rua e dos alunos se despedindo do outro lado do pátio preenchia o silêncio.

Foi Fernanda quem começou.

— Eu não sei muito bem por onde começar — ela disse, olhando para as próprias mãos. — Eu estava com raiva. Com medo. Com saudade. Tudo junto.

Eu respirei fundo.

— Eu também senti sua falta — falei. — Da nossa amizade. De como as coisas eram antes.

Ela esboçou um pequeno sorriso.

— Lembra do primeiro semestre? Quando a gente se conheceu naquela matéria de Histologia? Você sentou do meu lado porque não tinha outro lugar livre. No fim da aula, a gente já tava conversando sobre diversas coisas.

Eu ri, lembrando daquele dia.

— Lembro que você me emprestou uma caneta roxa que manchava tudo. E que ficamos na lanchonete até fechar, falando sobre o curso e sobre séries, filmes, livros que a gente gostava.

— Depois daquele dia, a gente sempre fazia dupla nos trabalhos — ela continuou. — Ou mesmo que fosse em grupo, sempre dávamos um jeito de que nós dois estivéssemos juntos.

— E teve aquele trabalho final — eu disse. — Ficamos acordados a noite inteira na minha casa, comendo pizza e ouvindo uma playlist horrível que você montou.

Ela riu alto e eu também.

— E foi naquela noite que a gente ficou pela primeira vez — ela falou, sem constrangimento. — A gente nem sabia direito se deveria falar sobre aquilo ou só continuar estudando.

— A gente tentou namorar — eu disse. — Por uns meses. Mas logo percebemos que não era isso que a gente queria. Era mais fácil sermos amigos do que namorados.

Fernanda concordou com a cabeça.

— Eu sempre soube que você era uma das pessoas mais importantes da minha vida — ela falou, mais baixo. — Quando você e o Hugo ficaram juntos, eu não tive raiva de você, nem dele. Eu tive raiva da situação, parecia que meu mundo havia desmoronado, eu me senti perdida. Por isso, acabei reagindo daquele jeito não muito legal, me afastei de vocês e acabei fazendo outras pessoas se afastarem. Peço desculpas por isso.

Eu olhei para ela, tentando encontrar as palavras certas.

— Eu queria muito falar com você, apesar de não saber muito bem como — admiti. — Eu tinha vergonha de você e me sentia um péssimo amigo. Eu me senti culpado por te magoar, não queria que as coisas tivessem acontecido como aconteceram, eu queria ter conversado com você antes de todo mundo saber. Eu tentei muito lutar contra meus sentimentos pelo Hugo, mas quanto mais eu lutava, mais eu acabava me apaixonando por ele.

Ela balançou a cabeça.

— Eu sei, agora eu entendo. Mas naquele momento que eu soube o que aconteceu, eu fiquei muito magoada. Fiquei com orgulho ferido e não quis procurar você. Mas agora eu estou mais calma, acho que tudo de ruim que eu senti já passou. Meu relacionamento com o Hugo foi bom, mas já fazia um tempo que não estava sendo mais como era antes e agora eu consigo enxergar que isso não teve nada a ver com você ou com ele ter se apaixonado por você, já não estava muito bom antes disso. Eu precisei desse tempo pra entender isso e cheguei à conclusão de que nada disso importa mais do que a nossa amizade.

Eu senti os olhos umedecerem e vi que os olhos dela também estavam marejados. Fernanda estendeu a mão e segurou a minha.

— Eu não quero te perder de novo — ela disse.

Eu apertei a mão dela.

— Eu também não.

Nós nos abraçamos e fiicamos ali por um tempo, sem pressa de levantar. O céu estava escurecendo, e as luzes do campus começaram a acender. O movimento no portão diminuiu. Nós continuamos ali, lado a lado novamente, como havia sido desde o primeiro semestre.

Notas finais
Nos vemos no próximo!