O Namorado da Minha Ex
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Os dias seguintes passaram num ritmo que eu não sabia se era rápido demais ou lento de mais. Cada manhã começava com o mesmo ritual: café da manhã, cadernos abertos, resumos. Continuava estudando sozinho ou junto com Eduardo. A gente estudava, tentávamos rir um pouco e, às vezes, ficávamos apenas em silêncio só ouvindo o barulho dos outros alunos.
As provas foram acontecendo uma atrás da outra. Cada vez que eu entrava numa sala, sentia o estômago apertar, mas, ao mesmo tempo, havia um alívio em saber que aquilo era temporário. Cada prova que eu fazia era uma prova a menos, um degrau a mais em direção ao fim. Eu via Hugo pelos corredores, como sempre, mas agora ele parecia ainda mais distante. Não era só a distância física. Era como se, depois de semanas de acenos mudos e olhares furtivos, alguma coisa tivesse realmente mudado entre nós. Como se existisse uma parede invisível.
Chegamos, finalmente, ao dia da última prova do semestre. Era uma sexta-feira, e o campus estava tomado por uma energia estranha, uma mistura de exaustão e alívio antecipado. As árvores no pátio balançavam com o vento, e o céu estava azul, sem nuvens, como se quisesse tirar uma com a nossa cara, já que passaríamos as próximas horas dentro de uma sala fazendo uma prova. Eu encontrei Eduardo na entrada da faculdade. Ele estava com a mochila nas costas e um copo de café na mão.
— Pronto pra acabar com isso? — ele perguntou, tentando soar confiante.
— Mais pronto do que nunca — respondi, mesmo sem acreditar totalmente.
A prova foi longa, cansativa. Muitas questões que eu tive que conferir umas três vezes antes de entregar, mas por fim, consegui terminar. Entreguei a prova confiante, sabia que tinha dado o meu melhor e agora me sentia muito mais aliviado. A última prova do semestre tinha acabado e eu estava livre.
Saí da sala ao mesmo tempo que Eduardo, terminamos a prova praticamente juntos. O pátio estava cheio de gente conversando, falando sobre a prova e combinando onde iriam para comemorar o fim do semestre. A gente caminhou em direção à cantina, mas, antes que pudéssemos chegar, alguém me chamou pelo nome.
— Renato.
Era ele. Hugo. Parado ao lado da escada que levava ao jardim dos fundos, com a mochila pendurada no ombro e aquele jeito de quem tinha ensaiado o que ia dizer mas agora não sabia mais como começar. Eduardo me olhou de lado, deu um toque no meu braço e disse:
— Vai lá! Eu te espero na cantina.
Ele saiu e deixou Hugo e eu sozinhos. Atravessei o pátio devagar, sentindo o coração bater tão forte que parecia que ia sair pela garganta.
Quando cheguei perto, Hugo não olhou direto pra mim. Olhou para o chão, depois para as árvores lá longe, como se buscasse coragem para falar comigo.
— Preciso falar com você — disse ele, a voz baixa, quase trêmula.
Eu não respondi de imediato. Apenas esperei. O vento balançou as folhas, e por um instante tudo ficou em silêncio, como se o campus inteiro estivesse segurando a respiração.
— Eu não consigo — ele começou, e parou. Engoliu em seco. — Eu não consigo parar de pensar em você. Não importa o que eu faça, não importa com quem eu esteja, não importa se estou estudando, correndo, dormindo. Você está ali. O tempo todo. Eu tentei fingir que não, tentei seguir em frente, mas não dá mais.
Eu senti o chão sumir um pouco debaixo dos pés. Tinha imaginado esse momento tantas vezes, ele vindo até mim, dizendo que sentia falta, que queria voltar, mas agora que estava acontecendo, tudo parecia surreal. Eu queria dizer que também sentia falta dele, que mesmo só pensando nas provas e nos estudos eu não parava de pensar nele também.
— Hugo... — comecei, mas ele me interrompeu, falando mais rápido, como se temesse que, se parasse, a coragem fosse embora.
— Eu não me importo com o que os outros vão dizer. Não me importo com o time, com as fofocas, com todas as merdas que vão falar. Eu só quero você. Quero tentar de novo. Quero voltar.
Eu senti os olhos marejarem. A vontade de cair nos braços dele era quase física, como uma dor no corpo. Mas havia algo maior, mais pesado, dentro de mim.
Ele deu um passo à frente. Estava tão perto que eu podia sentir o cheiro do sabonete que ele usava e seu perfume. Eu queria dizer não. Queria ser forte. Queria dizer que a gente ia repetir o erro, que eu não aguentava mais toda aquela história. Mas, quando ele olhou nos meus olhos, eu não resisti. Ele se aproximou ainda mais, me beijou e eu deixei, eu me entreguei àquele beijo que eu sentia tanta falta.
Quando nos separamos, ficamos ali, respirando juntos, sem coragem de olhar um para o outro direito.
— Eu vou passar as férias no interior — Hugo falou, a voz rouca. — Na casa dos meus pais. Na verdade, ja vou agora mesmo direto pra rodoviária. Vai ser... vai ser difícil nos vermos durante esse período que vou ficar por lá.
— Eu acho que é melhor assim — eu disse, e me forcei a acreditar. — A gente precisa desse tempo. Precisa pensar. Agora sem provas, precisamos mesmo de umas férias de tudo isso.
Ele assentiu, embora eu percebesse que ele não concordava, seus olhos brilhavam e eu também me esforçava ao máximo pra não derramar alguma lágrima.
— Eu sei. Só... não quero te perder.
Eu queria dizer que também não queria, mas as palavras ficaram presas. Em vez disso, o abracei, ele retribuiu o abraço e ficamos juntos naquele abraço por algum tempo, até que ele me soltou.
— Aproveita as férias — falei, tentando soar leve.
Ele sorriu e disse:
— Você também.
Nos despedimos sem nos abraçarmos de novo. Sem promessas. Apenas aquele olhar que dizia tudo e nada ao mesmo tempo. Eu virei as costas e caminhei em direção ao portão do campus, sentindo o peito apertado. O sol estava se pondo, pintando o céu de laranja e roxo. Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Foi quando eu estava quase saindo, já no portão, que, novamente, ouvi uma voz atrás de mim.
— Renato.
Dessa vez não era Hugo. Era Fernanda.
Ela estava parada ali, com a mochila pendurada no ombro, os cabelos presos num rabo de cavalo desajeitado, os olhos fixos nos meus. Por um instante, o mundo parou de novo.
— Podemos conversar? — ela perguntou.
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