Notas iniciais
Capítulo tenso hehe mas espero que gostem!

Não preciso dizer que a fofoca se espalhou. Em poucas, parecia que o acampamento inteiro já sabia do beijo. E, como diz o ditado, “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Não foi surpresa quando comecei a ouvir versões distorcidas, muito piores do que o que realmente aconteceu. No dia seguinte, bastava eu ou Hugo dar as caras, juntos ou separados, para sentir dezenas de olhares em nossa direção. A situação era insustentável, por isso decidimos nos trancar em nossa barraca e conversar.

— Eu não aguento mais todo mundo olhando pra gente a todo momento. — confessou Hugo.

— Infelizmente, isso é só o começo. Nada disso podia ter acontecido.

— O que não podia ter acontecido? Nosso beijo ou nos flagrarem bem na hora?

— As duas coisas.

Hugo ficou em silêncio por um instante, depois soltou uma risada amarga.

— Sabe que eu não me arrependo nem um pouco de ter te beijado? Na verdade, estava pensando em repetir o feito agora mesmo.

Ele se aproximou. Estávamos sentados no mesmo colchão inflável, dentro da barraca, o cenário do "crime". A repetição era tentadora demais.

— Acho que é melhor não. — tentei falar, mas a voz saiu fraca.

— E por quê? Já aconteceu. Já viram. Agora não será mais novidade. Além do mais, eu tranquei a barraca dessa vez — disse, mostrando a pequena trava metálica com um sorriso travesso.

Não consegui segurar o riso.

— Você fica lindo quando ri. — ele disse.

— Então só quando eu dou risada? — provoquei.

— Claro que não, você é lindo sempre! — ele disse e me fez corar.

— Para com isso! Você que é!

Não consegui resistir mais e dessa vez eu que me aproximei dele e o beijei. Nos entregamos novamente em um beijo longo e quente. Dessa vez não tinha ninguém para interromper. O beijo foi se intensificando, Hugo me deitou no colchão e ficou por cima de mim. Era a primeira vez que nossos corpos estavam tão perto, colados um no outro. Eu sentia seu cheiro, seu corpo, seu suor, a respiração que ficava cada vez mais ofegante. Eu tenho que admitir que eu queria arrancar todas as nossas roupas, mas toda a situação veio na minha cabeça novamente e eu o afastei.

— A gente veio aqui pra resolver as coisas, não pra piorar — falei, ainda sem fôlego.

— Desculpa, me empolguei — admitiu, sem tirar o sorriso do rosto.

— Eu também — confessei.

Ficamos em silêncio por um tempo, até que eu decidi falar novamente:

— O que mais me preocupa é a Fernanda. Ela com certeza já sabe. Eu tenho evitado encontrá-la, mas não dá pra fugir pra sempre. A gente precisa conversar com ela.

— Se ela quiser conversar, né?

— Bom, é um direito que ela tem e eu vou respeitar. Mas acho que a gente precisa pelo menos tentar falar com ela.

— Eu concordo.

Hugo concordou com um aceno. Decidimos procurá-la. Mas não naquele momento. Confesso: quis prolongar aquele instante só nosso, longe dos olhares e dos cochichos. Ficamos ali mais um pouco, nos beijando. Apenas beijos, mas por tempo suficiente para o mundo lá fora parecer distante e irrelevante.

***

Mais tarde, já quase no fim da tarde, fomos atrás de Fernanda. A encontramos perto do refeitório, cercada de amigas. Elas estavam conversando e quando nos aproximamos, ficaram em silêncio imediatamente.

— Desculpa interromper — fui direto, sem saber como suavizar. — A gente precisa conversar.

Fernanda apenas acenou com a cabeça, e as amigas se dispersaram, deixando um ambiente tenso só com nós três.

— Renato, eu já sei de tudo. Todo mundo sabe. Não entendo o que mais vocês querem dizer — a voz dela era fria. A raiva estava ali, totalmente exposta.

Essa fala foi como um soco no estômago. Fiquei sem resposta. Hugo me olhou de lado, buscando nos meus olhos alguma saída que não existia. Nada poderia mudar o que havia acontecido. Eu esperava que de alguma forma a gente pudesse se acertar ou que ela não estivesse tão brava.

— Eu sinto muito. — foi só o que eu consegui dizer.

— Sente mesmo? Vocês já estavam juntos antes?

— Claro que não! — respondi rápido demais.

— E você, Hugo? Terminou comigo porque queria ficar com o meu ex?

— Não foi exatamente por isso…

— Mas foi um dos motivos, não foi?

— Olha, Fernanda, eu bem que tentei controlar o que eu sentia. Mas eu já não conseguia mais. A gente acabou se aproximando de uma maneira que eu não achei que iria acontecer. Mas aconteceu, eu me apaixonei por ele. — Hugo foi direto.

— Eu também não queria que fosse assim — acrescentei, a voz embargada. — Evitei por tanto tempo, mesmo depois que vocês terminaram. Não queria magoar ninguém. Mas a gente nunca ficou antes, juro. E sinto muito que você tenha descoberto por uma fofoca.

Ela riu, um riso sem graça nenhuma.

— É difícil engolir que meus dois exs resolveram formar um casal.

— Não foi uma decisão, Fernanda. Simplesmente aconteceu — Hugo tentou explicar, mas, novamente, soou como uma explicação vazia.

— Ah, aconteceu? Então é isso, né Hugo? “Simplesmente aconteceu”. E quanto a mim? Hein? Já não estava fácil tentar superar o término e agora isso? Além de ver a sua cara todos os dias, ainda vou ter que ficar vendo vocês dois juntos?

Hugo tentou falar novamente, mas ela levantou a mão, interrompendo.

— Não. Não quero ouvir mais nada. Também não tenho mais nada a dizer. Felicidades ao casal.

Virou as costas e foi embora, deixando um silêncio pesado no ar, e nós dois ali, sem saber se estávamos mais perto ou mais longe de qualquer tipo de paz.


Notas finais
Nos vemos no próximo capítulo!