Notas iniciais
Esse capítulo ficou maior do que eu esperava haha (e demorou mais também, desculpem!) Queria terminar essa passagem por Toulouse logo para eles voltarem para a vida normal, agora com mais um personagem para eu cuidar, socorro. A pedidos, Kanon está muito atuante nesse capítulo, diretamente envolvido para que as coisas voltem ao lugar <3 Espero que gostem!!

Uma vez todos juntos e devidamente apresentados, Kanon pediu que o cavaleiro retirasse a camisa para que ele pudesse avaliar seu braço. Em pé, ele o fez com dificuldade, recebendo ajuda daquele que o examinava, o estrago causado pela queda ficou claro para todos, sequer Milo havia visto o hematoma bem escuro e os diversos arranhões que ocupavam boa parte do ombro e escápula dele.

— Ninguém pensou em colocar no lugar? — Ele disse com um certo incômodo após notar notar o desnível entre os dois lados, ele havia sido atendido por médicos oficiais do comitê olímpico que, em momento nenhum haviam cogitado reposicionar um ombro deslocado. — Vão ficar algumas cicatrizes.

Não esperou a resposta, puxando o braço dele para trás e fazendo pressão contra a escápula, ouviu-se um “Croc” alto, junto com um grito de dor e susto e um suspiro de alívio logo após. Como mágica o ruivo conseguiu voltar a fazer alguns movimentos que não conseguia, como erguer o braço mais do que 15 graus, mesmo que ainda com bastante incômodo.

— Achei que você era psiquiatra. — Afrodite perguntou, com a cabeça apoiada na mão direita, analisando o homem à sua frente, um belíssimo espécime de quarenta e poucos anos mas muito bem fisicamente. Poderia jurar que ele tinha um abdômen muito parecido com o do grego.

— Eu atendo na emergência uma vez por semana. — Kanon sorriu galante, não trocaria a psiquiatria por nada, mas amava a emoção da emergência, além de que acabava se mantendo atualizado sobre a maioria das áreas. — Atendemos muitos acidentes que chegam com membros deslocados.

— Uau. — O suéco sorriu de volta, cruzando as pernas sedutoramente, se inclinando na direção do médico e tocando os lábios com a ponta dos dedos. — Adoro homens de jaleco.

O médico sorriu de lado, voltando seus olhos para o irmão em um tipo de comunicação que só os dois entendiam. Milo soltou um riso leve do comentário do nórdico, mas foi Aioria quem fez o comentário que passou pela sua mente.

— Está todo saidinho hoje, ein Dite? — O Leonino riu, fazendo todos o acompanharem.

— Eu estou carente! — Se fez de ofendido, colocando a mão espalmada sobre o peito, mas logo voltando ao normal, jogando os fios loiros claros para o ar. — Além de que, não temos um relacionamento fechado quando estamos distantes.

— Que é noventa por cento do tempo. — Marin completou.

— E por isso você resolveu assediar todos os loiros de olhos azuis que passassem perto de você hoje? — O inglês concluiu, tendo em vista a clara preferência do amigo, pelo menos, naquele dia.

— Fique longe do meu irmão! — Camus apontou o indicador para o melhor amigo, o ameaçando. O sueco o olhou indignado por ele cogitar a possibilidade dele tentar algo com o russo, o ruivo riu em seguida e se virou para o grego que estava ao seu lado. — Por falar em Hyoga, onde ele está?

— Foi para a escola. — Ele respondeu com seu sorriso habitual, mas que desapareceu aos poucos ao ver a feição do francês se fechar.

— Ele prefere ir à escola ao ficar comigo no dia seguinte à morte da nossa mãe… — Suspirou pesado. Sabia que as atitudes dele eram apenas reflexos das suas, não havia sido um bom irmão e agora precisava lidar com isso.

O coração de Milo apertou, Camus estava sofrendo, por mais que ele se empenhasse em não demonstrar. O loiro olhou para o médico, em uma súplica silenciosa para que ele dissesse algo para confortá-lo.

— Camus… — Kanon colocou a mão sobre o ombro bom dele. O cavaleiro tinha uma tendência à autodestruição nessas situações. — Você está com seus amigos, Hyoga procurou pelos dele. Cada um de vocês irá lidar com o luto da sua maneira e, você precisa aceitar o modo dele, para que ciclos sejam rompidos.

Camus sentia uma dor desgastante no peito, uma dor que ele já havia sentido e sabia a causa, mas que não queria sentir novamente. Respirou fundo, tomando controle de seu corpo, se voltou para o veterinário mais velho, ignorando completamente seus sentimentos.

— Você precisa dos documentos da minha mãe, não é? — O ruivo assumiu sua postura fria, mantendo-se sem expressão. Kanon suspirou, era exatamente o que ele temia que fizesse, suprimisse sua dor, temporariamente, pois em algum momento ela voltaria, como uma avalanche.

— Sim. — Saga foi prático. — Quanto antes você der entrada nas burocracias, antes você volta para a sua vida normal, você ainda tem uma olimpíada em julho.

— Ok. — Caminhou indicando o escritório para ele. Aquele lugar onde passava tanto tempo com seu pai, lendo, agora era só um cômodo qualquer. Abriu a primeira gaveta da escrivaninha que havia ali, onde sua mãe trabalhava quando não estava na universidade. — Acredito que tudo que você deve precisar está aqui.

Milo e Kanon se entreolharam e suspiraram, talvez, aquele fosse o modo do ruivo lidar com o luto, não era saudável, mas era o seu modo. Se sentaram com os demais para conversar.

O grego contou aos demais tudo que aconteceu no hospital, desde o modo como o médico falava com o ruivo, a apresentação dele como namorado, o pedido de Natássia e o modo como ela partiu. O psiquiatra se orgulhou do paciente, abrir seu relacionamento para a mãe foi uma grande vitória levando em conta o trauma dele pela não aceitação da mesma.

Mas, ao mesmo tempo, se preocupou com a visível irritação do loiro com Isaak, não que ele gostasse do moreno, pelo contrário. Mas temia pela saúde mental de Camus ao ter que lidar com o ciúmes dele. Conversaria com o grego mais tarde.

Próximo ao meio dia, decidiram que iriam ajudar o francês de um modo mais ativo. Aioria e Saori iriam ao mercado para comprar mantimentos para preparar o almoço, Milo iria lavar roupas e organizar a casa, que não estava tão suja, mas já era o suficiente para incomodar seu morador, Afrodite e Marin saíram para procurar por coisas que poderiam, de algum modo, ajudar a melhorar o ânimo dos irmãos.

Kanon entrou no escritório, haviam diversas estantes com muitos livros, que cobriam as duas paredes laterais, na parede do fundo, uma grande janela permitia que o ambiente não ficasse tão escuro, e uma escrivaninha com uma luminária, logo a frente dela, onde seu irmão lia pilhas de documentos e separava os importantes. Um tapete branco, felpudo, completava a decoração. O ruivo separava os livros em pilhas, os que levaria consigo para casa, consideravelmente pequena, e os que doaria à biblioteca municipal.

— Sua mãe era especialista em qual área? — Ele perguntou, ao pegar o último livro colocado em uma das pilhas lendo seu título.

— Ironicamente. — Ele riu. — Direito civil, principalmente de família.

— O que nos ajudou muito, diga-se de passagem. — O outro gêmeo completou, enquanto colocava mais uma folha na maior pilha sobre a escrivaninha. — Ela deixou praticamente tudo pronto, só precisamos entregar a papelada ao cartório.

— Bem, ela pensou em vocês…

Camus deu de ombros, ainda tinha suas desconfianças com a remissão de sua mãe, mas iria considerar como algo positivo. Se esticou para pegar um livro em uma prateleira mais alta, era de seu pai que, mesmo sendo engenheiro, tinha muito interesse por sociologia e filosofia, havia o apresentado grandes sociólogos franceses e, construído o pensamento crítico dele. Suspirou ao colocá-lo na pilha dos livros que seriam doados.

— Café? — O grego passou pela porta carregando uma bandeja com uma garrafa e quatro xícaras, foi respondido positivamente em uníssono. Apoiou o objeto sobre a escrivaninha, cuidando para não atrapalhar o mais velho e se dedicou em completar uma das porcelanas e levar ao cavaleiro.

— Vocês dois têm dois braços e conseguem se servir sozinhos. — Ele riu ao entregar a xícara para o ruivo. Saga resmungou, mas logo se levantou para servir-se, assim como seu igual.

— Eu também conseguiria. — Camus agradeceu com um sorriso tímido, tomando um gole do líquido escuro. Pareceu se lembrar de algo e devolveu a peça ao grego. — Olhe…!

Ele se virou para a pilha de livros que levaria consigo, dentre os primeiros, havia um livro de muitas páginas e capa vermelha com letras desenhadas em banco, o entregou ao loiro que o observava com curiosidade.

— Você já deve ter lido a Ilíada, mas essa versão tem o texto em francês e em grego. — O ruivo entregou a obra como uma criança entrega um brinquedo novo, com o mesmo carinho que seu pai o dera. — Tem algumas anotações do meu pai, espero que não se importe.

Milo tocou a capa, passando os dedos pelo escrito em sua língua natal, uma sensação de conforto tomou seu peito. Abriu o livro com cuidado, a história era contada em colunas, a da direita em francês e a da direita em grego, sorriu ao compreender o que era escrito em ambas.

— Posso ficar com ele? — O encarou com esperança, parecia uma peça importante para ele.

— Claro! — O mais novo sorriu doce, feliz pelo companheiro ter gostado do presente. Era a primeira vez que presenteava o grego. — A Odisséia deve estar aqui em algum lugar, também.

Os gêmeos se entreolharam com sorrisos. Milo havia despertado em Camus um sentimento que ele apenas se permitia sentir com os cavalos e o irmão: a necessidade de cuidar e ver feliz.

Enquanto o cavaleiro voltava à sua atividade inicial, o veterinário mais novo se sentou no tapete, analisando o livro com cuidado. Abriu a primeira página, onde havia uma dedicatória, em letras manuscritas muito bem desenhadas “Filho, que esse livro te apresente às maravilhas da poesia épica grega. Lembre-se que, mesmo os grandes heróis precisam tomar decisões difíceis e que suas escolhas influenciam muitos outros. De seu pai.”

O silêncio tomou conta da sala, apenas ouviam-se páginas sendo viradas, até que o grego passou a recitar o proêmio da poesia, chamando a atenção dos outros três que se encantaram no ritmo e leveza do canto.

"Mênin áeide theá, peleiádeo Akhilêos

Uloménen, hè murí, Akhaiôis álge étheke

Pollàs d’ iphitúmus psukhás Áidi proíapsen…”

Ele parou ao se sentir observado, olhando-os envergonhado.

— Ah… Desculpe… — Sorriu sem graça por atrapalhar a leitura dos outros.

— Milo… — Camus se ajoelhou ao lado dele, admirado, observando os versos que ele havia cantado, já havia lido aquele livro infinitas vezes, mas nunca o ouvira em sua língua original. — Isso foi incrível!

— É grego antigo. — Apontou para as palavras, como se o francês fosse entender algo. — Mas é como ler um texto em francês de alguns séculos atrás.

O ruivo usou sua única mão livre para tocar o rosto do loiro, virando-o para si. Em um impulso, ignorou a presença dos demais, colando seus lábios ao dele. Milo, surpreso com a investida dele, arregalou os olhos, mas não cogitou afastá-lo. Foi uma carícia rápida, logo o mais novo se afastou novamente, embora mantivesse os olhos fixos nos do loiro, que lhe sorriu de volta. Os gêmeos se entreolharam, Saga apenas sorriu, confirmando o que já tinha certeza e seguiu seus afazeres.

— Você vai recitar esse livro todo para mim, ok? — Camus sorriu para o grego, seu rosto estava corado, talvez por se lembrar que haviam outras pessoas naquele cômodo. Já não se importava se Saga sabia ou não do relacionamento deles. Recebeu um um maneio de cabeça positivo do amante antes de se levantar e voltar a separar os livros.

Aioria e Saori retornaram pouco depois, haviam comprado uma quantidade absurda de comida, provavelmente os irmãos não precisariam voltar a um mercado tão cedo. Dentre todas as opções, Milo decidiu cozinhar algo simples, mas que sabia fazer muito bem: cordeiro com batatas. O inglês e a japonesa ficaram no cômodo para lhe fazer companhia durante o processo.

A comida estava quase pronta quando Marin e Afrodite chegaram, carregavam uma cesta com flores, principalmente lavanda. O sueco começou a separá-las em pequenas porções, em vasos com água fresca, posicionando-as em diversos pontos da casa.

Hyoga mal entrou em casa e foi atacado pelo nórdico, com um abraço apertado e repleto de carinho. Afrodite via o russo como um irmão mais novo, mesmo que com pouco contato, tinha um afeto enorme por ele. Afeto esse, reconhecido e compartilhado pelo loirinho, uma vez que era o sueco que o ajudava, mesmo distante, quando o irmão não podia.

— Querido, eu fiquei tão preocupado com você… — O loiro mais velho segurou o rosto do mais novo entre suas mãos, Hyoga estava abatido, aquela visão fez o coração de Afrodite apertar. — Sinto muito por tudo…

Quando dizia "tudo”, o sueco se referia também à falta de apoio por parte de Camus, não foram poucas vezes que o russo o havia o ligado pedindo que conversasse com o irmão mais velho para tentar convencê-lo a ir visitá-los, porém as respostas do ruivo era sempre as mesmas “Compromissos com a equipe” ou “treinos pesados".

— Obrigado… — Ele suspirou. Ir à escola não havia resolvido seu problema, havia sim o distraído por alguns minutos, mas sua cabeça seguia fixa na dúvida de como faria para não ter que se mudar com o irmão para Orleans. — Camus está em casa?

— Está no escritório. — Foi Milo que respondeu, enquanto tirava o assado do forno. O cheiro estava ótimo, mas o menor não estava com fome no momento.

Hyoga se virou e foi para o cômodo anunciado pelo grego, deixando os demais apenas o observando, sem nada dizer. A porta estava entreaberta, não bateu ao entrar. O irmão e os gêmeos estavam concentrados em alguns documentos, mas o fitaram assim que ele chegou próximo à mesa.

— Hyoga… — Camus, que se apoiava na escrivaninha, endireitou o corpo. Tentou sorrir, mas a face fechada do mais novo o reprimiu, se sentia estranho, como se não soubesse mais como conversar com o próprio irmão, a pessoa mais importante da sua vida. — Como foi na escola?

— Foi ok. — Sem muito interesse em continuar uma conversa, o russo apenas se virou para o gêmeo mais novo, lhe estendendo a mão. Conhecia Kanon apenas por vídeo, quando Camus havia ficado internado, o psiquiatra conversou com Hyoga na tentativa de que a mãe deles o acompanhasse no hospital, mas não houve sucesso. — É bom conhecê-lo pessoalmente, Kanon.

— Digo o mesmo. — O médico sorriu, apertando-lhe a mão com firmeza.

— Saga. — Hyoga ainda comprimentou o mais velho, que respondeu com um aceno de cabeça. Sem olhar para o irmão, se fez ouvir, decidido.- Eu queria fazer uma pergunta: Eu preciso ir para Orleans? Sou quase maior de idade, não posso escolher ficar aqui?

Camus sentiu seu chão desaparecer, como assim seu irmão não preferia ficar sozinho do que morar com ele? Por que ele estava fazendo isso? Sentiu o peito doer, mas manteve o rosto sem expressão, apenas aguardando a resposta de um dos dois mais velhos.

— Teoricamente… — Saga foi categórico. — Você pode se emancipar, com a autorização do responsável legal, no caso, seu irmão. E assim você passa a ter capacidade civil plena.

— Mas você precisa levar em consideração que é um processo irrevogável. — Kanon completou. — E, teoricamente, você precisa ser capaz de sobreviver sozinho após ela.

Hyoga ponderou, talvez, com o dinheiro que havia guardado todos esses anos e, com o que sua mãe havia o deixado, conseguiria se manter até completar sua maioridade.

— Eu posso ter outro representante legal, então? — Seguia sério, sem olhar para o irmão. Estava decidido de sua escolha, até dizer aquilo em voz alta, algo apertou em seu peito, queria mesmo aquilo? Queria afastar Camus de si?

Os gêmeos se entreolharam e olharam para o ruivo, que já não era mais efetivo em controlar suas feições, seu rosto tinha um misto de indignação e tristeza. Após um silêncio consideravelmente longo, foi o mais velho que respondeu.

— Sim, você pode. — O veterinário suspirou. — Em casos de óbito de ambos os pais, a guarda é passada para o parente mais próximo, mas a opinião do menor é levada em consideração e a guarda pode ser transferida para um tutor, sem vínculo familiar…

— Eu posso pedir que Isaak seja meu tutor? — Ele questionou, imediatamente após o fim da fala do mais velho. — Eu conversei com ele hoje, ele disse que cuidaria de mim.

— Hyoga… — Camus falou, pela primeira vez desde então, sua voz era trêmula, parecia poder despedaçar a qualquer momento. — Por que?

— Eu não quero me mudar. — Ele se virou para o ruivo, carregava uma mágoa tão profunda que fez o irmão recuar. — Você não veio quando a mamãe precisou. Não veio quando EU precisei. Não quero mais precisar de você…

A fala do mais novo foi como uma faca entrando no estômago do cavaleiro, uma dor excruciante percorria seu corpo e ele pouco conseguia respirar. Entendia o motivo do irmão estar triste, não havia sido um bom suporte para ele, mas era necessário chegar a aquele nível?

— Hyoga… — Kanon interviu, não queria que Camus perdesse o controle ou, talvez ainda pior, que ele controlasse demais seus sentimentos. — Essa é uma questão muito séria, que precisa ser pensada muito calmamente, e nem você nem seu irmão estão em condição de pensar nisso agora.

— Eu já tomei minha decisão. — Ele fechou os olhos azuis com força, se esforçando para conter as lágrimas. — Não quero um tutor que não se importe comigo.

— Está sendo injusto, Hyoga… — Saga se levantou, não sabia ao certo o que fazer, mas sabia as razões de Camus para se afastar da família, não era apenas birra, por mais que muitas vezes discordasse, não podia deixar que ele fosse culpado por tudo.

— Você acha que eu não me importo com você? — Camus disse, mais alto do que gostaria, seus punhos estavam fechados em uma onda de frustração que tomava conta do seu corpo. — Eu penso em você todos os dias desde que sai de casa… Todos os dias formulando um modo, esperando o momento para te levar comigo.

— E por que você acha que eu abandonaria a mamãe como você fez? — O mais novo ralhou, ele sabia pelo que o irmão tinha passado, mas estava frustrado e machucado, precisava expor sua irritação e, infelizmente, era Camus que estava no seu caminho. — Você acha que eu iria largar a minha vida para viver o seu “sonho perfeito de atleta"?

Kanon fechou os olhos, pensando na melhor forma de lidar com aquilo. Se continuasse, iriam apenas se machucar, mas se interviesse, poderia desestimular um diálogo que era há muito necessário entre os dois.

— Você quer uma lista de motivos? — O ruivo cerrou os dentes, o irmão estava sendo infantil. — Embora você saiba muito bem de todos eles.

— Você fala tanto dos seus motivos, mas você nunca parou para pensar o quanto eu sofri com tudo isso. — Hyoga já não continha as gotas que corriam pelo seu rosto. — Você acha que era fácil nunca ter meu irmão em casa? E quando você finalmente chegava, eram só brigas e gritos! Você se lembra qual foi a última vez que comemos uma refeição em família, Camus?

O ruivo encarou o irmão com certa angústia. Suas brigas com sua mãe eram constantes pelos mais diversos motivos, mas ele sempre tentava fazer parecer que tudo ia bem quando estava com o irmão, era óbvio que ele não deixava de ouvir, mas se esforçava para não colocar o menor no meio daquilo tudo. Realmente não sabia dizer quando jantaram pela última vez sem alguma briga ou discussão que o fazia levantar da mesa sem terminar sua refeição.

Apenas nesse momento sua memória o trouxe flashes dessas cenas, em que Hyoga tapava as orelhas ou abaixava a cabeça quando os mais velhos começavam a discutir, ou apenas comia muito rápido para poder ir logo para o próprio quarto e, quando Camus ia o encontrar, ele estava com fones de ouvido, com música alta.

Se lembrou de ter voltado um dia para casa e encontrado seu irmão em desespero pois a mãe havia ido para o hospital de ambulância, mas tudo que fez foi dizer que ela iria se recuperar e entrar no seu quarto, enquanto o mais novo chorava e o pedia por ajuda.

— Mas tudo ficou muito melhor quando você foi embora, não é? — Ele riu irônico. As palavras saíam ásperas de sua boca, altas e sem nenhum filtro. — Você estava em Paris, vivendo a vida que queria, e eu estava aqui, lidando com a mamãe doente, reclamando que você havia ido embora. Quantas vezes eu te pedi ajuda e você sequer me atendeu? Seu amigo me deu muito mais apoio do que você.

Na sua cabeça, Camus reviveu todas as vezes que seu irmão o ligou, dizendo querer conversar e, que ele disse que retornaria depois pois estava treinando ou ocupado com algo, e ele nunca retornou.

Seu peito doía, o peso de suas escolhas lhe caíram sobre os ombros. Podia, e deveria ter sido um apoio melhor para o mais novo, ele era apenas uma criança, não conseguia lidar com o peso da morte do pai, das brigas constantes entre o irmão e a mãe, a saída dele de casa e, agora, a morte da mãe. Por que demorou tanto para notar que ele próprio afastava seu irmão de si? Culpava a mãe por o fazer se mudar e deixar o loiro, mas a culpa não era apenas dela.

Junto a isso, seus próprios traumas vieram à tona. A falta de aceitação e reconhecimento da mãe, por mais que fizesse de tudo para ser perfeito: As melhores notas, os melhores resultados no esporte, a manutenção sempre impecável da casa, a comida sempre acima das expectativas, nada era o suficiente. Seu relacionamento, curto, porém traumático com o médico, do qual apenas Kanon e Afrodite realmente sabiam todos os detalhes e todo mal que Isaak havia o causado. A morte de Aquarius e a sensação de ter seu maior sonho escorrendo pelos seus dedos.

Se apoiou na mesa, precisando de um suporte para dividir sua dor. Seus olhos gelados estavam úmidos, não era de chorar, muito menos em discussões, mas não conseguiu evitar que as lágrimas corressem pelo seu rosto. Tudo doía de mais.

Hyoga o encarava, como se ainda aguardasse uma resposta, como se esperasse que o irmão fosse continuar aquela discussão sem propósito. Seria só mais uma briga, das milhares que aquelas paredes já haviam presenciado.

— Hyoga… — O menor se assustou ao ver o irmão chorar, poucas vezes havia o visto assim, sentiu que precisava ir até ele, o dar suporte, mas seu orgulho o impediu. O ruivo por sua vez, se sentou sobre a escrivaninha, não tinha forças para se manter em pé, Saga fez menção de o ajudar, mas ele negou. — Eu fui um irmão muito melhor para você quando nosso pai estava vivo…

— E isso faz muito tempo, Camus… — Ele soluçava, pela primeira vez em muito tempo que o irmão o escutava.

— Sim… Eu sei… — Um sorriso triste foi tudo o que ele conseguiu esboçar, sua voz saía baixa. — Para evitar sofrer com meus traumas, eu afastei você de mim, sinto muito por demorar tanto para perceber… Entendo se preferir ficar com outra pessoa que não eu.

O russo abaixou o rosto, não tinha tanta certeza se realmente era o que ele queria, sua postura se desarmou. Não respondeu, apenas deu as costas para os demais e correu para seu quarto, batendo a porta em seguida.

Milo ia em direção ao escritório, avisar que o almoço estava pronto, chegou a chamar o menor quando ele passou por si, mas foi ignorado. Bateu na porta do cômodo e entrou lentamente, vendo o veterinário com as mãos unidas e dedos entrelaçados, apoiando a testa, o médico apoiava o ombro bom de Camus, enquanto segurava o queixo dele com a outra mão o obrigando a prestar atenção no que dizia. A visão do ruivo foi o que mais o doeu, ele parecia destruído, muito mais do que quando se acidentou, muito mais do que no óbito imediato de sua mãe. Seu rosto estava molhado, os olhos inchados pelo pranto, respirava profundamente mas passava a sensação de que não se importaria se parasse de respirar.

— Ei. Eu estou muito orgulhoso de você, ok? — Kanon sorria, carinhoso para ele, embora não parecesse muito efetivo em melhorar o estado geral dele. — Vou conversar com ele, mas preciso que me diga até onde da sua vida eu posso abrir.

— O que você achar necessário. — Disse sem muito pensar, mas ponderou em seguida. Olhou para o médico, na expectativa de que ele entendesse o que queria lhe dizer.- Talvez só não…

— Tudo bem. — Ele tocou os cabelos vermelhos, alinhando alguns fios rebeldes. — Vou apenas esperar um momento em que ele esteja mais tranquilo.

Kanon se virou, vendo o grego parado na porta do escritório, temeroso se poderia interromper algo. Ele sorriu e, com um movimento de cabeça, pediu que ele se aproximasse.

— Eu fiz o almoço… — Disse sem graça. Ao se aproximar de Camus, lhe ofereceu a mão, que foi prontamente aceita por ele, sorriu levemente.

— Ah! Por favor! Eu preciso comer! — Saga se levantou em um pulo, recebendo um olhar de julgamento do seu gêmeo mais novo.

— Não estou com fome… — O cavaleiro disse em um sussurro, só queria deitar em sua cama e desaparecer.

— Você precisa comer, Camus. — Kanon sabia que esse era um comportamento comum em pacientes depressivos, mas também sabia que forçá-lo não seria positivo, deixou que ele decidisse por si.

— Talvez mais tarde, sim? — Os olhos gelados buscaram os azuis do médico em uma súplica silenciosa para que ele o deixasse descansar. — Eu queria dormir um pouco…

O gêmeo mais novo concordou, e Milo acompanhou o namorado até o quarto, não sem antes ficarem parados por alguns segundos em frente ao quarto do mais novo, talvez Camus esperasse que ele fosse sair de lá correndo, o abraçasse e dissesse que isso era tudo uma grande farsa. Obviamente não aconteceu.

O grego o ajudou a se deitar, embora estivesse com um pouco mais de mobilidade no braço, ainda usava a tipóia e sentia uma dor considerável. Se sentou ao lado do ruivo, acariciando os cabelos longos dele, sentia que ele queria dizer algo, mas talvez ainda não estivesse preparado para isso.

— Eu sei que você deve estar com fome… — Camus suspirou, buscou a mão dele novamente, como se toda sua energia viesse daquele contato. — Mas poderia ficar comigo por mais algum tempo?

— O tempo que você precisar. — Milo depositou um beijo leve na testa dele e se moveu para se deixar junto dele, o francês se aconchegou ao seu lado, não demorando para dormir.

O loiro não dormiu, apenas ficou ali, o observando, o abraçava mais forte quando se mexia demais ou quando resmungava algo.

Era meio da tarde quando o russo ouviu batidas em sua porta, cogitou ignorar e o fez no primeiro momento, mas não demorou para que elas se repetissem.

— Está destrancada… — Bufou, tinha tanta coisa em sua mente que não havia conseguido descansar, rolou na cama de um lado para o outro desde que se deitara. Viu Kanon entrar, lentamente em seu quarto, carregando um prato e um copo de suco.

— Eu trouxe algo para você comer. — O mais velho sorriu, se aproximar de pessoas que não queriam conversar nunca era uma tarefa fácil. — Talvez não esteja tão bom quanto o da sua mãe, mas eu tentei.

Observou o homem colocar o prato sobre sua mesa de cabeceira, era um prato simples, mas com grande valor afetivo para ele: Croque monsieur, um sanduíche com presunto e queijo emmental, entre duas fatias de pão de forma tostadas na frigideira e um farto molho bechamel grelhado por cima.

Os olhos azuis do menor brilharam, estava sim com fome, mas aquilo era mais do que comida, era o que sua mãe costumava cozinhar para ele para animá-lo. Se sentou na cama, até mais rápido do que o médico esperava.

— Como você?… — Ele perguntou com a boca cheia, mesmo não sendo igual ao de sua mãe, ainda era uma memória agradável.

— Seu irmão me contou há algum tempo. — Kanon sorriu, se sentando ao lado dele sobre o colchão. — Ele disse que fazia para você e levava escondido para o hospital, mas nunca ficava como o dela.

— O dela era o melhor de todos… — Ele sorriu entre uma mordida e outra, olhando para o lanche em suas mãos, aquilo lhe trazia tantas lembranças boas. Sorriu agradecido a ele. — Mas o seu não está tão ruim.

— Obrigado! — O médico riu, havia conseguido o primeiro passo, agora precisava que ele se abrisse consigo. — Está sendo difícil ficar sem ela, não é?

Hyoga não respondeu, colocou o lanche sobre o prato e ficou parado ali, observando, apenas voltou a falar depois de um suspiro profundo.

— Eu sei que ela estava sofrendo… — Uma lágrima teimou em percorrer seu rosto. — Ela sentia muita dor, vários dias eu acordava de madrugada e ela estava na sala tomando algum remédio ou chá para ajudar a melhorar…

O maior se manteve ali, com atenção exclusiva para ele.

— Ela ia para o hospital pelo menos uma vez por semana. — Suspirou, era difícil se lembrar da mãe assim. — Quando ela começou o tratamento e seus cabelos começaram a cair, ela chorava no banheiro ou no quarto, baixinho para que eu não escutasse.

— Foi um período muito difícil para vocês, posso imaginar.

— Mas ela sempre tentava ser forte, sempre tentava sorrir. — Ele sorriu levemente. — Ela sempre tentava estar comigo e manter o trabalho, ela gostava muito de dar aulas.

Era interessante para Kanon ter outra visão de Natássia, Camus guardava muitos ressentimentos para com ela, então seus relatos sempre tinham uma versão negativa da mãe, enquanto os de Hyoga eram positivos e carinhosos.

— Quando ela foi internada, dessa última vez, eu sabia que não voltaria para casa, mas tentei ser positivo, como ela sempre foi. — Novamente sua feição se fechou. — Por isso eu pedi tanto que o Camus viesse… Eu não ia saber lidar com isso sozinho…

— E nem deveria. — Kanon lhe tocou o ombro em um movimento lento, precisava saber se ele aceitaria o toque. O menor não pareceu se incomodar. — Ninguém sabe lidar com a morte, Hyoga. Acredite, nem nós que lidamos com ela todos os dias, muito menos quando é de alguém próximo.

O russo pareceu pensar sobre aquilo. Kanon queria que ele entendesse que não era errado se sentir perdido.

— Meu pai morreu há pouco menos de um ano. — Ele olhou para o mesmo ponto aleatório no quarto que o menor olhava. — Eu estava com ele, fiz os procedimentos de emergência que ele precisou, mas quando tudo acabou, eu só desmoronei. Fiquei horas sentado no chão do quarto dele, até que Saga chegasse e me tirasse de lá.

— Deve ser muito ruim não conseguir salvar uma pessoa que você ama. — O olhar do menor se cruzou com o do mais velho.

— Não posso mentir que não seja. — Ele sorriu tenro para o russo. — Mas por outro lado, é bom saber que tudo que era possível foi feito e, que se aconteceu foi pois não havia mais como evitar.

— Quando meu pai morreu… Eu ainda era muito pequeno, mas lembro que a primeira vez que vi meu irmão chorar. — Ele relembrou, terminando de comer seu lanche. — É assustador quando alguém que evita sentir sente de mais, não é?

— Sim. — Kanon sorriu, era a perfeita explicação do estado emocional de Camus agora.

Ele voltou o prato para a mesa de cabeceira.

— Queria ter convivido mais com meu pai… — Suspirou. — Mamãe sempre disse que ele e meu irmão eram muito parecidos, não só fisicamente.

— Seu pai era um homem bom, ele viu algo em seu irmão que sequer existia ainda. — Kanon o entregou o copo de suco.

— E se dependesse da minha mãe… — Sorriu irônico. — Ele teria desistido.

— E ele pensou. Muitas e muitas vezes. — A partir daí, entrava em um território perigoso. Precisava que o menor entendesse a visão do irmão, sem que sentisse que Kanon o defendia. Assim como, precisava filtrar tudo o que Camus já havia o contado sobre seu passado e definir quais informações eram seguras no momento. — Ele estava decidido a largar tudo quando recebeu a proposta na Suécia.

— Ele ficou tão feliz. — O mais velho o observou, Hyoga havia realmente ficado feliz por ele. — Era como se a energia dele voltasse. Ele chamou Isaak para contar a novidade, eles ficaram muito tempo no quarto, depois que ele foi embora, eu não vi meu irmão pelo resto do dia.

O coração de Kanon apertou, o mais novo havia notado o comportamento estranho do irmão naquele dia, mesmo com todo esforço de Camus em evitar. O médico sabia, sabia que Isaak e Camus haviam brigado, que ele o ameaçou de expor o relacionamento deles, o desestimulou a continuar seguindo seu sonho. Hyoga não o viu mais pois, depois de toda a discussão, eles transaram, mesmo que sem o completo consentimento do ruivo, e ele evitou ao máximo ser visto pelo irmão com as marcas que restaram em seu corpo.

— Você fez faculdade em Orleans? — A pergunta repentina tirou o maior de seus pensamentos. O loirinho o encarava com curiosidade.

— Ah, não. Me formei em Paris, mas fiz a residência e especialização em Orleans.

— A faculdade de lá é boa? — Kanon leu nas entrelinhas daquelas conversas, ele estava cogitando morar com o irmão. Sorriu internamente.

— Acredito que você iria gostar. — Ele sorriu, se levantando e pegando a louça, aquela conversa tinha tido bons resultados, poderia encerrá-la por enquanto — Vou levar isso para a cozinha, com licença.

Antes de fechar a porta, Kanon deu um passo para trás, para dizer uma última coisa ao jovem.

— Muito obrigado por compartilhar sua vivência com sua mãe. — Sorriu carinhoso, falava calmo, com cuidado, para que ele entendesse a mensagem que queria passar. — A relação e vivência de uma pessoa com outra moldam o modo como elas interagem, é incrível pensar como a visão de cada um é diferente.

Ele saiu e deixou o Hyoga com seus pensamentos, agora mais calmo, conseguia se concentrar melhor em suas escolhas.

Saga havia saído para ir ao cartório, resolver a burocracia para Camus. Ele tinha uma procuração do ruivo que o permitia isso, desde a época que ficou internado. O ruivo havia se levantado e estava mais disposto, até aceitou comer, depois de muita insistência de Milo.

Saori, Marin e Afrodite organizavam o quarto de Natássia, separando as roupas que seriam doadas e os pertences pessoais dela. Camus não se sentia capaz para realizar aquela atividade, então ele, Milo, Aioria e Kanon continuaram a tarefa de organizar a biblioteca. A depender da decisão de Hyoga, a casa seria alugada, mobiliada mesmo, apenas o estritamente necessário ou importante retornaria com eles para Orleans.

Naquela noite, os amigos de Camus tiveram que se despedir e voltar para seus devidos países, com exceção de Afrodite, que insistiu em permanecer ali até que o francês voltasse. Kanon, Saga e Milo ficariam até o mais velho resolver as documentações, mas precisavam voltar logo.

Hyoga estava tomando café da manhã quando o ruivo chegou na cozinha. Se cumprimentaram com um “bom dia” rápido e o silêncio perdurou. Camus se sentou, à frente do irmão, mas se concentrava em comer e aproveitar a presença dele. Hyoga talvez tivesse outros planos.

— Camus… — Ele chamou, fazendo com que o outro lhe fitasse com os olhos ainda um pouco inchados pelas lágrimas do dia anterior. — Me desculpe pelo que eu disse ontem…

— Está tudo bem, eu precisava ouvir. — Sorriu de leve para o irmão, carregado de culpa.

— Não daquela forma. — O russo suspirou,

Ficaram por mais algum tempo em silêncio, conversas também não eram o forte daquela família.

— Você estava estranho com o Isaak no hospital.

Havia sido uma afirmação, o cavaleiro esperava para saber onde ele chegaria com aquilo, mas o desconforto da conversa fez ele se ajeitar na cadeira.

— Nunca me contou o que aconteceu quando vocês terminaram. — Hyoga mordeu um pedaço de baguete.

— Ele não queria que eu fosse para Estocolmo, discutimos e eu decidi terminar. — O mais velho respondeu sem expressão, sua resposta padrão para aquela pergunta, mas o irmão sabia que havia algo mais.

— Eu não sou idiota, Camus. — Não estava bravo, apenas queria que ele fosse sincero. — O que realmente aconteceu?

Camus suspirou. Odiava falar sobre aquilo, odiava relembrar as sensações que aquele assunto o causavam. Não considerava ter sido abusado pelo companheiro, mas haviam transado sem que ele realmente quisesse, apenas para satisfazê-lo, para tentar deixar a situação dos dois menos desconfortável.

— Não foi um término amigável, por mais que eu tenha tentado esconder. — Engoliu a seco. — Nosso relacionamento no geral, só foi saudável enquanto você estava internado, enquanto eu só saía do hospital para vir buscar roupas limpas e ele podia me controlar.

Tomou um gole do líquido quente de sua xícara.

Terminamos depois de muitas brigas sobre como montar não iria me levar a lugar nenhum, do por que eu deveria procurar um emprego de verdade e ficar em Toulouse. — Hyoga observava o irmão, queria — precisava — saber a versão dele da história. — Ele falava sobre isso tantas e tantas vezes, que chegou a um ponto de eu aceitar.

O menor se lembrou de um dia, em que o irmão se arrumava para sair e ele perguntou para onde iria, o maior disse que iria a uma entrevista em um museu. Se lembrava perfeitamente da face de derrota dele, dá sensação de que ele estava indo para o pior lugar do mundo. Aquilo nunca foi a vida de Camus, a vida dele eram os cavalos e o esporte.

— Quando Afrodite me ligou, falando sobre a vaga na Suécia, eu senti como se as coisas pudessem voltar a dar certo, eu esperava por isso. — O ruivo inclinou a cabeça, encarando o teto. — Eu sabia que Isaak não ia receber bem a notícia, mas estava tão feliz que surgiu a esperança de que ele iria entender e me apoiar.

— E ele não fez isso…

— Definitivamente não. — Camus tinha poucas reações, apenas seguia falando para o teto. — Tentei explicar que era o que eu amava, mas ele nunca realmente se importou. Ele ameaçou contar para a mamãe “sem querer” que estávamos juntos…

— Por que? — A indignação no rosto do menor era palpável, a mãe não iria aceitar o relacionamento deles, pelo menos não naquela época. Iria apenas deixar a vida de Camus ainda mais difícil.

— Ele disse quer saber como ela iria reagir. — Deu um sorriso irônico. — Eu já havia saído de casa uma vez, nossa mãe já não me controlava há um bom tempo, mesmo que ela me prendesse no quarto, eu iria dar um jeito de ir.

Hyogo sorriu, seu irmão era muito determinado, realmente iria conseguir um jeito de seguir suas vontades e enfrentaria os problemas que isso traria de cabeça erguida, como sempre fez.

— Discutimos muito naquela tarde e, quando eu estava exausto de tudo, ele insistiu para uma transa de reconciliação. — Seu desconforto em falar sobre aquilo, ainda mais com o irmão, o fazia se mover constantemente, procurando modos de aliviar o estresse. — Eu aceitei para que ele fosse embora e, bem ele foi muito menos carinhoso do que costumava ser.

Não precisou perguntar para entender o motivo de Camus ter o evitado nos dias seguintes. Um sentimento de raiva e indignação corria pelas veias do loiro.

— Por que nunca me falou isso?! — Se levantou em um pulo, batendo as mãos espalmadas na mesa. — Eu glorificava ele… Glorificava a pessoa que te assediou, Camus…

— Eu nunca fui bom de falar sobre meus problemas… — Sorriu para o irmão, leve. Tirar aquela história dos ombros era bom. O menor pareceu se acalmar ao o ver relaxar.

— Você melhorou bastante. — Se sentou de novo, respondendo ao sorriso do outro.

— Anos de medicações, terapia duas vezes na semana e consultas psiquiátricas uma vez na semana. — Camus riu, todo esse tratamento só começou depois que ele passou a ser acompanhado de perto por Kanon, mas via uma melhora importante no seu modo de lidar com as pessoas ao seu redor. Mesmo assim, algumas vezes sentia andar em uma corda bamba, prestes a cair.

Riram juntos, nada melhor para aproximar duas pessoas do que rir da própria desgraça. Conversaram algumas amenidades, na tentativa de deixar o clima mais leve e, depois, ficaram em silêncio, realmente apenas aproveitando a presença um do outro.

— Então, quando vamos embora? — Foi o mais novo que rompeu o silêncio, não necessariamente estava ansioso em deixar sua cidade natal, escola e amigos, mas queria seguir para essa nova fase de sua vida.

O ruivo o observou com certa dúvida, ele iria para Orleans então? Não soube como responder.

— Eu espero que… — Hyoga se levantou levando os talheres até a pia, tinha um sorriso bonito no rosto. — Depois de tudo isso, tenha um lugar na sua casa para mim.

— Você sabe que sempre vai ter. — Camus sorriu de volta, estava genuinamente feliz, talvez as coisas voltassem a andar agora.

— Milo vai morar com a gente? — O loirinho perguntou, sabia que o veterinário morava no alojamento do centro equestre, mas agora que o irmão havia definido o relacionamento deles, talvez esse passasse a frequentar a casa do ruivo com maior frequência.

Camus engasgou com o último gole do café. Não havia pensado sobre aquilo, sua relação com o grego com o irmão morando com ele, talvez precisassem se conter em alguns momentos.

— Está tudo bem. — O russo riu, aberto, como se lesse os pensamentos do mais velho. — Eu já vi e ouvi você com outros caras, nada que um bom fone de ouvido não resolva.

— Hyoga! — Camus jogou um pano que estava sobre a mesa no irmão, que desviou rindo, seu rosto estava tão vermelho quanto seus cabelos.

A campainha tocou entre os risos de ambos. O menor abriu para o grupo de quatro pessoas que foi direto para a cozinha.

— Onde estava? — Camus perguntou ao grego, que estava suado e muito menos alinhado do que os demais. Lógico que havia sentido a falta dele na cama, quando acordou, mas a conversa com o irmão o distraiu.

— Eu fui correr. — Sorriu em resposta, depositando um beijo leve sobre os lábios do ruivo.

— E nós encontramos ele no meio do caminho. — Saga riu, o hotel não era assim tão perto, Milo havia saído bastante da sua rota.

— Eu conseguiria voltar com o GPS, ok? — Bufou, talvez demorasse mais, mas conseguiria voltar sozinho. Achou por bem mudar o foco daquela conversa. — Agora, o que esses três estavam fazendo juntos, aí eu já não sei.

— Vem cá, eu me meto na sua vida? — Afrodite riu, recebendo um grande "sim” de Camus e Milo. Apenas olhou para o amigo francês com o dedo sobre a boca, fazendo sinal de silêncio.

— Estávamos no mesmo hotel. — Kanon respondeu com um sorriso enigmático, sedutor, talvez.

— Talvez no mesmo quarto… — O sueco sussurrou para o melhor amigo, sendo encarado com surpresa por ele, mas logo voltou a sorrir. Afrodite era imparável.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.