Notas iniciais
Olá gente! Aqui vai o segundo capítulo, espero que gostem! Os títulos sempre vão ser algo relacionado ao hipismo e que tenha sido citado no capítulo, no final eu explico mais sobre cada um.

O restante do mês foi atribulado e corrido para Milo. Precisou resolver algumas burocracias para sua viagem, reuniões com os diretores da federação, acompanhou o pai em diversas consultas e exames, ia todos os dias ao hospital e passou algumas noites em claro com outras atividades menos castas.

Ele também dedicou parte do seu tempo para estudar sobre a federação francesa de hipismo, seus cavalos e cavaleiros mais importantes e a estrutura do local onde ia ficar. Independente de qual site buscasse, um nome sempre vinha a seu encontro, o número um do ranking francês: Camus Trudeau e seu cavalo Belle Époque.

Na noite anterior à viagem, também não dormiu. Estava ansioso, criando várias possibilidades de tudo dar errado na cabeça, foi de tropeçar e cair na frente de todos ao acidente aéreo. Resolveu se levantar.

Pensou em ligar para Shaina, ver se ela também estava tendo problemas para dormir, mas desistiu logo em seguida. Seu relacionamento com ela era exclusivamente físico, pouco sabiam um sobre o outro fora do trabalho. Se ligasse para ela às três da manhã, só ia ser xingado e não ia se humilhar nesse nível. Talvez devesse repensar seus relacionamentos.

Foi até a sala e ficou um tempo deitado no sofá, passando o feed do instagram. Suas malas estavam na porta, apenas esperando o horário de ir para o aeroporto. Pensou se tinha esquecido algo e cogitou refazê-las, mas desistiu.

Seu voo era às dez horas da manhã, iria para o aeroporto às oito, faltavam cinco horas e ele estava deitado no sofá olhando para o teto. Começou a falar sozinho em francês, em uma tentativa de treinar. Francês e grego são línguas muito diferentes, começando pelo alfabeto, mas também por terem poucas palavras com sons e significados parecidos. Milo aprendeu francês sozinho e com aulas online no youtube, treinou muito quando foi pela primeira vez e agora teria que se policiar para não falar apenas em inglês.

Falou sobre café da manhã, sobre como se localizar a chegar a lugares, sobre sinais clínicos de equinos e atividades físicas. Travava em alguns momentos e procurava o que queria dizer no google, repetindo diversas vezes depois, enquanto andava de um lado para outro na sala.

Depois do que pareceu uma eternidade, olhou no relógio e ainda eram quatro e meia da manhã.

— Céus, minha ansiedade vai me matar antes de eu ir pro aeroporto! — Se jogou no sofá de novo, olhando para o teto e tentando não pensar em nada, claro, falhando miseravelmente. — Vou correr.

Colocou uma camiseta velha e um shorts que não levaria na viagem, pegou o fone de ouvido e saiu para correr por ai, deveria ter tido essa ideia antes. Assistiu o nascer do sol na Acrópoles e voltou para casa próximo às seis, exausto, porém muito menos ansioso e já próximo ao horário de sair.

Tomou um banho refrescante, fez café e um ovo mexido. Não tinha muito mais na geladeira. Lavou a louça e quando estava se preparando para ligar para um táxi, seu pai ligou.

— Bom dia filho, que horas você pretende ir para o aeroporto? — A voz de seu pai era acompanhada de alguns ruídos, como se estivesse dentro do carro.

— Bom dia, pai, eu ia ligar para o táxi agora… — Milo segurou o celular com o ombro, pegando sua mochila do chão junto com a mala de mão.

— Vamos passar aí para buscar você. — Sua mãe falou um pouco distante do telefone.

— Não precisam se preocu… — E a chamada desligou, sorriu, seus pais eram assim, caixinhas de surpresas. Milo se sentiu querido e a saudade apertou, seria a primeira vez em anos que ficaria tanto tempo longe deles.

Ele se encontrou com os pais na frente do prédio onde morava e foram juntos conversando até o aeroporto. Foram 60 minutos de conversa sobre a ansiedade de Milo durante e noite, discurso de Selene sobre como a ansiedade faz mal ao coração, sobre quem iria buscar Milo no aeroporto e outros assuntos aleatórios.

Kardia e Selene ficaram com Milo até o momento de entrar no setor de embarque, se abraçaram e deixaram cair algumas lágrimas, por mais que às vezes tivessem problemas, Milo era muito apegado a seus pais.

— Boa viagem, querido! Estaremos te esperando quando voltar. — Selene disse chorosa ao beijar a testa do filho.

— Sei que estarão, muito obrigado por tudo! — Milo os abraçou e foi em direção às catracas. — Eu ligo assim que chegar.

O casal acenou até o filho desaparecer pelo embarque. Agora ele estava partindo para uma nova fase e faria de tudo para aproveitar o máximo possível.

A viagem foi tranquila, Milo recebeu diversas mensagens desejando boa viagem e boa sorte na nova etapa, se sentiu querido mais uma vez. Sua ansiedade só voltou a incomodar quando o comandante anunciou que o pouso no Aeroporto Charles de Gaulle havia sido autorizado.

Desembarcou e recolheu suas malas com calma, odiava a sensação de sair pela porta do desembarque e não conhecer nada nem ninguém, mas como já havia desembarcado em Paris uma vez, tinha uma leve noção de para onde deveria ir.

Logo que a porta do desembarque se abriu, Milo viu um cartaz feito em cartolina branca com seu nome escrito no centro em grego "Μήλο", com vários "bem vindo" escritos ao redor em inglês e alguns menores em grego, no canto havia o símbolo da federação equestre francesa. Pensou no quão clichê aquilo parecia.

O homem que segurava o cartaz parecia ter uns 45 anos, cabelos longos loiros e bagunçados, presos em um rabo de cavalo baixo e frouxo, era um pouco mais alto que Milo, olhos azuis escuros com um leve ar de psicopatia, mas preferiu não pensar nisso. Vestia um jeans azul escuro, tênis casual preto e uma camisa preta com as mangas dobradas nos braços. Logo que o homem viu Milo, começou a acenar para chamar a atenção dele.

— Ah, prazer! Eu sou Milo… — Milo disse em inglês, ao se aproximar estendendo a mão e foi interrompido por um abraço repentino e três beijos nas bochechas.

— Seja bem vindo, Milo! Estávamos ansiosos para sua chegada! Espero que tenhamos escrito seu nome certo, o alfabeto grego é muito difícil, HAHAHA. — Ele riu alto. — A propósito, eu sou Saga, veterinário da equipe de hipismo completo da França.

— Oh, prazer senhor! — Instintivamente, Milo ajeitou a postura por estar na frente do seu atual chefe. — Me desculpe pelo trabalho de vir me buscar.

— Não tem que se desculpar, eu precisei vir para Paris resolver umas burocracias, só me programei para ser no mesmo dia que você viesse. Vamos! — Saga deu tapinhas nas costas do mais novo e tomou a mala de mão dele. — Deixa que eu carrego essa.

O trajeto de Paris até o Parque Equestre federal na comuna de Lamotte-Beuvron era de aproximadamente 2 horas e meia, durante o período que estavam dentro da capital, por todo momento Milo procurava por pontos turísticos famosos pela janela, mas pareciam estar muito longe da Ilha da cidade para poder vê-los. Toda a vegetação dava sinais de amarelamento e perda das folhas, o que deixava a vista da estrada com uma coloração alaranjada, as árvores aqui eram diferentes das gregas. Durante todo o trajeto, Saga foi dando instruções sobre os próximos meses.

— Eu confio em você. Você é veterinário da federação grega e Sísifo confia em você, então eu também confio. Muitas vezes vou pedir para você realizar tarefas para mim como avaliar algum cavalo ou fazer exames, mesmo que eu não esteja junto. — Saga dirigia rápido pela estrada, parecia estar muito acostumado com aquela rota. Algumas vezes ele gesticulava e olhava para Milo. — Você pode fazer o que achar necessário, quando achar necessário. Só tem um cavalo, que não só você, mas nenhum dos outros veterinários e a maior parte dos tratadores, não podem manejar de jeito nenhum: Belle Époque.

— Do Trudeau, é o único cavalo dele, não é? — Milo respondeu instintivamente, havia estudado muito sobre ele, o principal cavaleiro francês.

— Estudou, muito bem! — Saga riu. — O cavalo é extremamente manso, a questão não é ele. Camus só permite que eu realize qualquer procedimento, até por ser o único cavalo dele, qualquer erro pode retirá-lo de competições importantes. Já falei que ele precisa de outros cavalos, até para dar uma folga para o Belle Epoque de vez em quando, mas ele é muito metódico, precisa se identificar com o cavalo e …

Milo se perdeu em pensamentos enquanto Saga falava. Em seus estudos tinha lido que Camus tinha uma personalidade difícil, era pouco visto fora das pistas, tinha poucos amigos e já tinha tido problemas com tratadores, não que isso importasse para ele, mas queria manter a melhor convivência possível com todos e, principalmente, não criar atritos com os cavaleiros, afinal, a cooperação deles era fundamental para qualquer tratamento.

— Mas não se preocupe, ele é uma boa pessoa, às vezes só demora para se adaptar. — Milo só concordou com a cabeça quanto ao comentário final de Saga.

Continuaram conversando sobre diversas coisas até chegar ao parque equestre. O local era enorme e havia uma divisão, de um lado, a escola de equitação com 4 pistas, picadeiro coberto, 2 pavilhões de baias, redondel, estrutura para espectadores e campo para passeios, ali eram onde ocorriam as provas infantis e amadoras básicas. Por questão de sanidade, os cavalos profissionais ficavam do outro lado, onde haviam 2 pistas oficiais e 3 pistas para distenção, 2 picadeiros cobertos, pista natural de cross country, diversos padoques, 4 pavilhões de baias, 2 redondeis, andador automático, piscina para hidroterapia, prédio de alojamento e, claro, o hospital, totalmente estruturado com 4 troncos de atendimento, 2 centros cirúrgicos, todos equipamentos para fisioterapia, piquetes isolados, farmácia e sala e descanso dos veterinários. Era uma estrutura de dar inveja a muitos hospitais particulares.

— Vamos parar primeiro no alojamento para você deixar suas coisas, aqui está sua chave. — Saga entregou um cartão com o número 4 marcado. — Como não estamos em período de provas, os únicos que usam os alojamentos são os veterinários, mas já aconteceu desse prédio ficar lotado.

Após deixar suas malas no quarto de número 4, Saga mostrou a cozinha e os banheiros compartilhados para Milo. Disse que outros 3 veterinários moravam lá durante a semana e os plantões, mas que iam para Paris nas folgas. Ele morava em Orléans, que ficava a 40 minutos de lá.

Saindo do alojamento, foram a pé com Saga explicando onde era cada coisa. Pararam na primeira pista coberta, onde um cavaleiro estava treinando saltos com seu treinador. Milo pode notar de longe quem era esse cavaleiro, estremeceu: Logo ele.

— Você está errando as distâncias, Camus, e ele está tendo que se esforçar a mais para não derrubar. — O homem de cabelos castanhos, levemente grisalhos, dava as instruções da beira da pista. Ele estava com um culote azul escuro, camisa social cinza e uma bota preta perfeitamente delimitada às suas pernas. Saga e Milo pararam próximos a ele, enquanto o cavaleiro se aproximava para mais um salto.

Camus avançou o corpo, fazendo com que o cavalo ganhasse velocidade na curva mas, 5 lances antes do salto, voltou o corpo novamente para trás, sem manter a propulsão com as pernas. Ao saltar, o cavalo acabou saindo mais cedo do solo e derrubou a barra mais alta com os membros anteriores.

— Você viu o que fez? Você colocou ele pra frente e de cara pro salto você sentou na sela e não manteve o giro com as pernas, ele não entendeu o que você pediu, adiantou a batida e derrubou. — O homem falou irritado, representando os movimentos do outro no cavalo. — Vou abaixar e você passa mais uma vez para encerrarmos com um acerto.

O cavaleiro parecia irritado, bufou ao acariciar o pescoço do cavalo e voltou a galopar para se preparar para o último salto.

O treinador foi até o obstáculo e baixou a barra, o que deveria estar em 1 metro e 40 centímetros, aproximadamente, foi para 1 metro e 10, uma altura bem tranquila para um cavalo daquele nível. Novamente o cavaleiro se aproximou e agora, sem dificuldades, passou limpo pelo salto, deu mais alguns lances de galope e voltou ao encontro do treinador.

— O que aconteceu? Você está tenso, desequilibrado e desatento. Nunca erra assim. — O treinador falava mais em tom de preocupação do que de bronca. Ele se virou para Saga e Milo que assistiam em silêncio. — Muito prazer, você deve ser o veterinário grego, Milo não é? Seja bem vindo, sou Shion, treinador da equipe! Camus veja, esse é Milo, o veterinário intercambista.

— Super.(1) — Camus sequer olhou para o lado, apenas passou reto saindo da pista.

Os três que ficaram permaneceram em silêncio por alguns segundos.

— Ele costuma ser mais simpático, eu juro. — Shion disse um pouco envergonhado pela atitude do aluno. — Ele… só não está muito bem hoje…

— Vou dar uma checada do Belle Époque para garantir que não seja nada com ele. — Saga completou. — Vamos Milo, preciso te apresentar para os outros veterinários.

Shion os acompanhou até as baias onde foi em direção a Camus enquanto os outros dois seguiram para o hospital. Na sala dos veterinários estavam Mime e Sorento, outros veterinários da equipe de concurso completo.

Mime tinha cabelos acobreados, de tamanho médio e olhos castanhos, a pele muito clara, parecia ter uma descendência nórdica, estava sentado logo de frente para a porta, completando algumas fichas no computador, vestia um pijama cirúrgico com o logo da federação azul escuro, uma calça jeans preta e uma galocha preta.

Sorento parecia mais velho, tinha o cabelo acinzentado e curto, com a franja caindo levemente sobre os olhos azuis. Também vestia um pijama azul como o de Mime, mas com a calça no mesmo tecido e cor, usava um tênis comum preto. No momento que Saga e Milo entraram, estava tomando um café olhando os piquetes pela janela da sala.

Sempre naquela sala estava tocando algum tipo de música clássica.

— Mime, Sorento, este é Milo, nosso novo colega. — Saga apresentou o outro loiro que respondeu com um bom dia tímido.

— Ah! Bem vindo! Escrevemos seu nome certo no cartaz? Imagina se na real a gente escreveu algo completamente aleatório? — Mime se levantou e foi até o novato apertar-lhe a mão. Milo apenas respondeu com um bonito sorriso e disse que estava certo.

— Ficamos muito felizes de ter mais um apoio, mesmo que por poucos meses. Seja bem vindo a esse hospício, Milo! — Sorento brincou e ofereceu café ao outro, que aceitou.

— Vai fazer ele achar que aqui é um lugar ruim assim, Sorento. — Saga riu. Sabia que às vezes, muitas vezes, a rotina do hospital com as provas e treinos e cavaleiros dando trabalho eram pesadas. A presença de Milo iria ajudar muito. — Bom, agora você é um de nós, irá ficar com essa mesa improvisada, ao lado da minha. E como um bom primeiro dia tem que começar com emoção, venha comigo pois vou avaliar o Belle Epoque.

Os outros dois fizeram um coro de "vish" e desejaram boa sorte para Milo, continuando com as atividades que estavam fazendo antes. Milo terminou o café e seguiu o mais velho, estava tentando manter a mente aberta com relação ao cavaleiro, mas todas as informações que tinha e a experiência há pouco, não eram positivas.

Camus estava permitindo que o cavalo passasse enquanto segurava a guia longa, em um gramado próximo às baias. Estava distraído olhando o celular, mas o guardou quando Saga se aproximou.

— Camus, vou dar uma olhada nesse cara. — O cavalo foi até Saga e aguardou para receber um carinho. O mais loiro mais velho prontamente passou a palpar os músculos, ligamentos e tendões do animal, focando principalmente nos membros. Fazia tudo calmamente enquanto observava possíveis reações do cavalo.

— Ele está bem, a culpa dos erros foi minha. — O cavaleiro tinha um ar blasé, mas deu um leve sorriso ao acariciar a face do cavalo que não esboçava nenhum incômodo ao exame realizado.

Agora, sem o capacete, Milo conseguiu observar melhor o homem à sua frente. Camus tinha longos cabelos vermelhos, como sangue, que iam até a cintura, a pele era clara e formava um contraste quase angelical com o tom escuro do cabelo. Era magro, porém tinha músculos bem definidos, principalmente nas coxas, que ficavam marcadas pelo culote. Era um pouco mais baixo que Milo, uns três ou quatro centímetros. Os olhos eram de um azul profundo, parecia poder congelar alguém só com um olhar.

— É só por garantia, vou flexionar os membros, você pode trotar ele depois? — Saga passou a realizar o hiperflexionamento (2) de cada articulação dos membros, logo após, o cavaleiro puxava o cavalo ao trote para que o veterinário pudesse ver se havia alguma claudicação.

Milo observava, perto o suficiente para conseguir notar caso o cavalo mancasse em algum momento, mas também longe o suficiente para não incomodar o cavaleiro temperamental dele. Eles falavam em francês, Milo tinha um pouco de dificuldade em entender por conta da velocidade e sotaque, mas ficou admirado por ainda conseguir compreender boa parte da conversa. Após o exame, deixaram que o cavalo se movimentasse livremente na guia longa.

Belle Époque era um garanhão sela francesa de 8 anos e 1,70 de altura, sua pelagem era de um tom de alazão escuro, quase preto, com frente aberta e membros calçados. Havia lido que eram realizadas coletas de sêmen dele e que era um dos padreadores (3) com mais filhos em grandes provas internacionais de cavalos novos do stud book francês.

— Não parece ter nenhuma sensibilidade em tendões ou ligamentos, sem dores musculares também. — O ruivo ouvia com atenção as palavras do veterinário, mas no fundo sabia que não havia nada de errado com o animal.

— Ele têm vindo muito bem. — Camus confirmou com um suspiro leve. Todo o cuidado da equipe veterinária era pouco quando se tratava dele, era o principal cavalo do time francês e com isso, uma grande chance de medalha para o país. — Continuando assim, ele não terá problemas para se classificar para a olimpíada.

Enquanto conversavam o cavalo foi caminhando tranquilamente até Milo e lhe ofereceu a face para receber carinho. Milo ficou sem reação, não sabia se podia toca-lo, embora fosse idiota a ideia de não poder fazer carinho em um animal tão dócil apenas por conta do seu cavaleiro. Resolveu por fim, realizar o pedido e acariciou-lhe o chanfro. Belle Époque parecia muito confortável com a presença e toque do loiro.

Saga ficou igualmente estático, não podia culpar Milo pela aproximação do cavalo, mas não sabia como o ruivo iria reagir a isso. Um clima tenso se espalhou pelo ar e o silêncio só terminou com a voz do cavaleiro.

— Ele gostou de você. — Foi só o que Camus disse, em inglês, encarando o grego com seu olhar gelado e face sem expressão. Agradeceu Saga pelo cuidado e conduziu o cavalo de volta para sua baia, soltando-o em seguida. Se despediu do animal encostando a testa em sua face e lhe entregando um petisco.

Só quando o ruivo saiu de seu campo de visão que Milo se permitiu relaxar, olhou para o outro loiro e deu um sorriso leve. Saga também relaxou, sorriu e caminhou até o outro, deu alguns tapinhas nas costas dele.

— Posso dizer que foi um ótimo começo, vai ganhá-lo pelo cavalo.

Quando voltaram para a sala, Saga prontamente contou aos demais que Milo havia conseguido a atenção de Camus e que este havia falado com ele por opção própria e em inglês. Mime passou a considerá-lo como um deus e Sorento disse para Saga se preparar pois ia perder o papel de veterinário favorito.

Até aquele momento, todos só falavam com Milo em inglês e ele não havia se incomodado, pelo contrário, ficou feliz que as pessoas se preocupassem que ele fosse incluído nas conversas, mas havia prometido a si mesmo que iria melhorar seu francês, então solicitou que dessem preferência em falar com ele na língua local, talvez só um pouco mais lento.

Ficou o restante do dia aprendendo como funcionava o hospital, onde ficavam os materiais, como fazer as fichas dos pacientes, conhecendo os colegas, tratadores e outros cavaleiros. Lhe passaram alguns cavalos aos quais seria responsável, por enquanto, apenas dois, mas Saga prometeu que se ele estivesse sendo muito eficiente ficaria com todos.

Mais tarde, Milo ligou para seus pais e para Sísifo. Ficou horas conversando com o amigo sobre como havia sido o primeiro dia e sobre as primeiras impressões de Milo. Ele contou sobre o ocorrido com Camus, desde a apresentação até o momento em que ele falou consigo, sobre como tinha estranhado a relação de todos com o cavaleiro. Falou também sobre os cavalos e cavaleiros que iriam ficar sob sua responsabilidade, em como estava ansioso para poder começar a trabalhar com eles.

Milo só dormiu aquela noite pois estava realmente exausto, se não, com certeza sua ansiedade iria fazer com que ele passasse mais uma noite em claro, e mesmo assim acordou várias vezes com medo de estar atrasado. Acabou saindo mais cedo do quarto e só foi encontrar com Mime e Sorento quando já tinha terminado seu café da manhã.

— Caiu da cama, novato? — Mime tentou disfarçar a cara de sono com um sorriso forçado.

— Às vezes minha ansiedade só não me deixa dormir mais, por mais que eu quisesse. — Milo sorriu para os dois. — Deixei o café pronto.

— Nossa Milo, por favor, fique para sempre, se eu fosse depender do Mime fazer café para o grupo, não existiria café. — Sorento foi direto para a garrafa de café se servindo de uma boa quantidade.

— Talvez por que eu não goste de café…?! — Os dois pareciam irmãos, sempre perturbando o outro. Um tipo de companheirismo e intimidade que vinha com o longo tempo trabalhando juntos. Mime se justificou. — Se eu fizer, vai ficar ruim e eu vou ter estragado café, então é melhor não fazer.

Milo ficou com eles até terminarem o desjejum e foram todos juntos para o hospital. Ainda era cedo e os cavaleiros não tinham começado a chegar, mas a rotina dos tratadores já estava a todo vapor. Os três veterinários passaram por todas as baias para checar os cavalos. Milo parou nas baias de Fígaro dos Boursons e de Ego Fonroy, dois cavalos recentes na equipe que vinham se empenhando para conseguir vaga na olimpíada.

Fígaro dus Boursons era um sela francesa, castrado, de 12 anos, 1,71 de altura e pelagem castanha. Era montado por Misty Dubois, um cavaleiro jovem, mas esforçado, também um pouco temperamental e que não tinha ficado muito feliz de ter seu cavalo passado para "o novato", mas aceitou pois achou Milo muito bonito e digno da sua presença, palavras dele.

Ego Fonroy, também um sela francesa, castrado, 14 anos, 1,67 de altura e pelagem alazã. Montado por Elga Cassiop, única amazona na equipe principal, era um pouco mais velha e mais experiente, ela possuía ainda dois outros cavalos que eram cuidados por Mime. Foi muito cordial e tranquila quando conheceu Milo.

Ambos os cavalos ficavam no primeiro pavilhão de baias, assim como Belle Époque, que ficava duas baias para o lado direito de Ego. Fígaro estava comendo sua ração matinal então não deu muita atenção para Milo, mas Ego foi de encontro com o veterinário assim que ele parou na porta de sua baia. Milo tinha um jeito especial com os cavalos, era inegável, mas oferecer maçãs e petiscos também era um bom modo de ganhar o carinho deles.

— Bonjour Ego, como passou a noite? — Milo acariciou a face do cavalo e lhe ofereceu meia maçã, que foi rapidamente apreendida pelo animal. — Isso mesmo, nunca se sabe quando o humano vai desistir de te dar o petisco não é?

Enquanto Milo brincava com o alazão, Belle Époque decidiu pedir por carinho também. Começou a bater a pata na porta e esticar o pescoço pela janela da baia, chamando a atenção do loiro.

— O que foi? Está tudo bem? — Milo ainda não conhecia a personalidade de cada cavalo ali então, qualquer possível demonstração de desconforto era passível de preocupação. Ele caminhou até a frente da baia, mas não o suficiente para tocar o cavalo, que continuou pedindo por atenção. — Ou você só quer carinho mesmo?

Milo ficou observando por um tempo e notou que ele estava muito interessado em algo no seu bolso.

— Ah, você quer a maçã? Desculpe grandão, mas não posso te dar, seu dono pode me matar por isso. — Ele se aproximou do cavalo, tocando-lhe o chanfro. — Você parece muito mais amigável que ele… Você é um bom garoto que gosta de carinho, não é?

Ele olhou para os dois lados procurando alguém que pudesse o delatar, se aproximou mais do cavalo e lhe entregou a metade da fruta, como quem entrega algo ilícito, sussurrando:

— Não conte para ninguém, sou muito novo para morrer, ou pior, ser demitido. — O loiro riu e saiu caminhando — À plus tard, grand garçon. (4)

O cavalo acompanhou Milo com a cabeça, e logo a virou para o outro lado, voltando a pedir carinho a mais alguém. Camus estava apoiado em uma porta onde não era notado, assistiu toda a conversa, nada disse, apenas deu um sorriso de canto de boca e foi até seu cavalo.

Notas finais
Distância nada mais é do que o número de passadas que o cavalo precisa dar antes de saltar, se errarmos a distância e o cavalo precisar sair do chão para o salto antes ou depois, pode acabar não realizando a parábola do jeito certo e cometer a falta, que nada mais é do que derrubar uma vara. Cada movimento do cavaleiro na sela ajuda ou atrapalha no equilíbrio do cavalo e pode levar a erros. Cavalos de nível olímpico, saltam em prova uma média de 1,50 m de altura, então um salto de 1,10 é bem tranquilo para eles. (1) Super: Algo como "incrível" em Francês. No caso, continha ironia. (2) Flexionamento e hiperflexionamento são exames veterinários que detectam níveis diferentes de claudicação, vulgo manqueira. Ao tensionar uma articulação sensível, a tendencia é que o cavalo passe a poupar essa articulação, evitando colocar peso. Sempre após um flexionamento, movimentamos o cavalo no passo ou no trote. Determinados graus de lesão são identificados no passo, outros só com o animal ao trote, por ser um tipo de andadura que força o animal a apoiar o peso em dois membros de cada vez. (3) Padreadores: Cavalos de importância no esporte cujos filhos também se sobressaem. (4) À plus tard, grand garçon: Algo como "Até mais tarde, grandão" em Francês. Se tiverem mais duvidas fiquem a vontade para perguntarem ♥ Se quiserem só me contar o que estão achando até agora, fico muito feliz com comentários ♥