O Número um da França
19 Barreiras
Notas iniciais
Milo acordou sobressaltado, havia dormido tão profundamente que por um minuto não soube onde estava. Se sentou na cama, bocejando, mas não teve tempo de pensar muito, o irmão mais novo de Camus entrou no quarto sem nenhuma cerimônia.
— Você já acordou? — Ele o encarou como se só vê-lo sentado não fosse o suficiente e ele precisasse de uma resposta. — Vamos, quero ver minha mãe.
— Posso tomar um banho antes? — Seguia se esforçando para ser cordial com ele.
— Seja rápido, tem toalhas no guarda roupas do Camus e o banheiro fica no final do corredor. — Hyoga se virou, deixando o quarto.
Eles chegaram no hospital rapidamente. Hyoga foi correndo na frente e encontrou o irmão e o médico conversando na porta do quarto, o grego não gostou muito daquele encontro, mas fingiu ignorar.
— Olha só quem chegou! — Isaak passou o braço pelo pescoço do mais novo, esfregando-lhe o topo da cabeça, o fazendo rir.
Milo se aproximou do ruivo, perguntando como ele estava. Recebeu como resposta um abraço carinhoso, de um único braço. Tocou os lábios na testa dele, Camus sorriu, com as bochechas rosadas. Milo pode sentir o olhar de desagrado do médico sobre si, sorriu internamente.
— Como a mamãe está hoje? — O mais novo perguntou para o ruivo, que voltou a se afastar do grego.
— Ela está dormindo, mas passou a noite bem. — Camus ajeitou o cabelo rebelde do mais novo, enquanto ele mantinha seu cabelo sempre muito bem alinhado, Hyoga era o oposto, parecendo nunca ter visto um pente na vida. — Me mostra onde é a cafeteria?
O mais novo concordou, ambos foram em direção ao elevador, uma conversa muito animada por parte do loiro, enquanto o ruivo carregava um olhar tranquilo e um sorriso carinhoso. Sentia falta do irmão, era bom estar com ele novamente, mesmo que em uma situação ruim.
O veterinário e o médico permaneceram observando os dois se afastarem, porém em uma análise mútua pelas visões paralelas. O moreno puxou o assunto.
— E vocês estão juntos há quanto tempo? — Perguntou como quem não queria nada.
— Ah… — Milo fez alguns cálculos em sua mente. Na realidade, não sabia dizer, acreditava que estavam juntos desde a Festa, pelo menos ele não havia ficado com mais ninguém desde então e acreditava que Camus também não. — Dois meses.
— Dois meses!? — Isaak repetiu mais alto do que gostaria chamando a atenção das pessoas ao redor, se policiando em seguida e sussurrando irritado para o loiro. — Como assim em dois meses ele te apresentou para a mãe dele?
— Você tem um trauma né?. — O grego riu, mas voltou a ficar sério. — A mãe está morrendo, como você mesmo disse. Talvez não haja uma outra oportunidade… Além de que, alguns relacionamentos valem mais a pena do que outros.
Os olhos bicolores quase se fecharam de raiva, chegou a fechar as mãos em punho, como se preparasse para partir para cima do veterinário, mas foi impedido por uma enfermeira que solicitou a presença do médico. Milo apenas riu e virou de costas, caminhando tranquilamente para dentro do quarto da mãe do ruivo.
Natássia olhava as árvores pela janela, parecia perdida em seus pensamentos, mas se atentou ao grego quando percebeu sua entrada no quarto.
— Olá, querido… — Ela sorriu ao se virar para o homem, estendeu a mão, esperando que ele viesse até ela. — Sente-se aqui…
— Olá, madame. — Milo segurou as mãos da russa e depositou um beijo educado nelas, fazendo-a sorrir. Ele sabia como fazer mulheres gostarem dele. Se sentou no banco, ao lado da cama, mantendo as mãos dela entre as suas.
— Camus soube escolher muito bem… — Ela riu, passou uma das mãos sobre os fios dourados, eram muito parecidos com os do seu filho mais novo. — Eu preciso te pedir algo, Milo…
O grego se manteve sério, atento ao que ela iria dizer. Parecia ansiosa, buscando as palavras mais adequadas.
— Eu não tenho muito tempo… — Falou melancólica, algumas lágrimas se formaram nos olhos claros, o loiro apertou as mãos finas entre as suas. — Eu fiz muito mal ao Camus durante todos esses anos, não fui nem perto da mãe que ele merecia, mas não consigo mudar o passado…
Respirou fundo, deveria ser extremamente dolorido para ela assumir que errou e saber que não há mais tempo hábil para corrigir seus erros.
— O que eu quero lhe pedir, não é fácil, e eu entendo caso seja possível. — Agora ela lhe tocou o rosto, os dedos pálidos faziam contraste na pele morena. — Gostaria que cuidasse dos meus filhos por mim… O quanto der, por quanto puder…
Milo se sentiu pressionado, não que não quisesse assumir uma responsabilidade, pelo contrário. Mas talvez fosse inconsequente, levando em conta que voltaria para Atenas em breve. Ela pareceu sentir sua angústia.
— Eu sei que não é algo que depende apenas de você e, acredite, sei que meu filho não é a pessoa mais fácil de lidar. — Ela sorriu novamente para o loiro, o fazendo rir. Por um instante teve dúvida sobre qual dos filhos ela falava. — Mas, o amor que eu vejo nos olhos dele quando está com você, é algo que eu nunca vi.
— Eu farei o possível, madame. — O grego voltou a apertar as mãos frias entre as suas sorrindo, ela sorriu de volta, exatamente quando Camus e Hyoga voltaram.
O ruivo se surpreendeu ao ver a mãe acordada e, ainda mais, por ela estar conversando com o grego. Um temor tomou seu corpo, um medo abrupto de que ela fizesse algo para afastá-lo dele, como havia feito com tudo que ele já gostou.
Hyoga correu para a cama da mãe, se sentando ao lado dela, começaram a conversar animadamente em russo. Milo se levantou, indo de encontro ao cavaleiro.
— Está tudo bem? — O loiro sussurrou, próximo ao rosto dele, fazendo-o despertar.
— Ah, sim. Está. — Ele engoliu a seco, oferecendo um copo de café a ele. — Sobre o que falavam?
— Obrigado! — Sorriu aberto, despreocupado, ao tomar um gole do líquido quente. — Sua mãe estava me falando sobre você.
— Não sei se isso é mais ou menos preocupante…
Ficaram todo o dia ali, por ser uma paciente em cuidados paliativos, não haviam restrições para o número de visitas, então Natássia poderia aproveitar todo o tempo que lhe restava com os filhos.
Hyoga contou para o irmão como estava sendo na escola, como vinha se saindo nas últimas provas, para quais universidades iria se candidatar. Contou sobre os amigos e uma garota que gostava, mas que achava que não ia dar em nada.
A mãe também recebeu visitas de colegas do trabalho, para os quais apresentava o filho mais velho com todo o orgulho, o que causava certa estranheza em Camus, mas não iria questionar, era bom receber esse sentimento da mãe uma vez na vida.
Ele e Milo a contaram sobre os cavalos, como Belle Époque estava se saindo bem nos treinos para a olimpíada e sobre os desafios de trabalhar com um cavalo novo e, digamos, temperamental.
O cavaleiro nunca havia se sentado para falar sobre seu trabalho ou seus animais com a mãe. Ela o escutava com atenção, perguntava detalhes e parecia entusiasmada para as próximas provas dele. Um sentimento caloroso tomava o peito dele, um sentimento que há muito tempo não tinha para com a mãe.
Era fim da tarde, o sol já se punha e formava uma iluminação bonita no quarto. Natássia estava em sua cama, com o encosto elevado, observando enquanto os quatro jovens conversavam. Hyoga estava sentado na cama, ao lado da perna esquerda da mãe, ele mudava de posição com frequência, às vezes com as pernas balançando, às vezes com uma delas dobrada sobre o colchão e mais voltado para a mulher.
Camus estava sentado em uma cadeira, variava entre ter as pernas cruzadas ou ambos os pés apoiados no chão. Estava próximo à mãe, mas havia espaço o suficiente para a equipe de enfermagem trabalhar. Milo apoiava os cotovelos no encosto da cadeira do ruivo, participava ativamente das conversas, ria e brincava com o loiro mais novo, que parecia mais confortável com ele agora.
Isaak já havia terminado seu turno, mas optou por ficar ali, conversando. A disputa entre ele e o veterinário, na busca de chamar a atenção do cavaleiro chegava a ser engraçada, diversas vezes ele alfinetava o loiro, que respondia na mesma altura. Ele estava apoiado na grade ao fim da maca, próximo a Hyoga.
A russa observou seu filho mais velho, era impressionante o quanto ele havia crescido. Havia se tornado um homem decidido, competente e dedicado, sabia que não tinha méritos no desenvolvimento do filho, mas agora via que se orgulhar dele não era nada ruim.
Observou como ele conversava com Milo, há alguns anos, proibiria o loiro de ficar junto dele. Mas de que valeria? Deixar seu filho ainda mais infeliz com ela? Proibi-lo de estar com alguém que realmente gostasse dele apenas por um preconceito ultrapassado? Milo o deixava feliz e era apenas o que importava.
Depois de tanto tempo, ela finalmente entendeu que a felicidade de seus filhos era só o que importava. Com a imagem de Hyoga e Camus sorrindo, ela apoiou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos lentamente.
Os olhos do médico foram imediatamente para o monitor de batimentos cardíacos, cujo número diminuia continuamente. Milo também notou, ficou ereto, tenso, os olhares se cruzaram quando o monitor passou a apitar constantemente.
— Tira eles daqui. — Foi só o que Isaak disse para o grego, antes de apertar o botão de emergência e abaixar o encosto da cama para iniciar as manobras de reanimação.
Milo puxou o loiro mais novo da cama, assim como segurou a mão esquerda do ruivo e, em um movimento rápido, tirou os dois de dentro do quarto, abrindo espaço para a equipe médica trabalhar.
Após entender o que estava acontecendo, Hyoga gritou pela mãe e abraçou o irmão, chorando compulsivamente em seu peito. Camus abraçou o mais novo, mas não parecia entender, em um momento estavam rindo, alegres, agora sua mãe estava morrendo. Milo abraçou ambos e, só então o cavaleiro permitiu que algumas lágrimas corressem.
O tempo passava extremamente lento para o ruivo, os 10 minutos do procedimento pareceram uma eternidade. Apenas conseguia ouvir o som do choro de seu irmão e o som do coração do grego, que os mantinha firmemente seguros entre seus braços.
Não soube dizer quanto, mas algum tempo após, o médico foi de encontro a eles, estava visivelmente abalado, cansado. Embora soubesse que era inevitável, ele fez tudo o que podia para manter a mulher viva.
— Eu… — Ele ameaçou começar a falar, mas foi interrompido pelo loiro mais novo, que se soltou do irmão e o abraçou, com toda sua força, soluçando. O próprio moreno não conteve as lágrimas, molhando o ombro de Hyoga. — Sinto muito…
Camus suspirou pesado, tudo havia acabado. Os olhos de azul mediterâneo o fizeram olhar para si. Milo secou as trilhas que as lágrimas haviam feito no rosto pálido do francês, encontrou sua testa na dele e disse em um sussurro:
— Eu estou aqui, não vou sair do seu lado. — O ruivo apenas concordou com a cabeça, o abraçando novamente.
O som dos aparelhos parou, o movimento dos funcionários acabou, o último som que veio do quarto foi o barulho das cortinas se fechando. Os quatros acabaram isolados, na frente do quarto fechado.
Camus e Hyoga aguardavam sentados em um sofá, para conversar com a psicóloga do hospital, era protocolar para quando um menor de idade perdia o responsável legal, o mais novo já havia conversado com ela sozinho, agora aguardava para ir com o irmão. Milo, separado dos dois por uma porta de vidro, havia acabado de desligar o telefone após uma longa lista de ligações. Saga e Kanon estavam a caminho de Toulouse, assim Saori, Afrodite, Aioria e Marin.
Isaak parou ao lado do grego, olhando para os irmãos que haviam acabado de ser chamados.
— Terminando ali, leve-os para casa. — Ele não o olhava, mas sentia o olhar paralisante de Milo sobre si.- Eu posso resolver as burocracias aqui, eles não precisam ficar…
— Não precisa da assinatura de Camus para liberar o corpo? — Foi uma pergunta real, ao mesmo tempo que não queria que ele tivesse tanta importância na vida do ruivo.
— Nada que já não tenha sido assinado. — O moreno suspirou. — Não me importo que você não goste de mim, não sou muito seu fã também. Mas eu me importo com eles, e quero que fiquem bem, acredito que ir para casa é o melhor para eles no momento.
— Só não quero que ele precise voltar aqui para assinar algum papel.
O grego suspirou, não era o momento para se desentender com Isaak, precisava manter o foco em ajudar Camus e o irmão. Arrumou a postura ao ver a porta da sala da psicóloga abrir novamente.
— Como foi? — Milo sorriu, tentando passar algum conforto ao ruivo, que parecia inerte a tudo.
— Ah, na verdade a psicóloga queria saber se havia algum problema para o Hyoga ficar comigo. — Camus olhou para o mais novo, ele expressava mais tristeza do que o ruivo. — Fora precisar se mudar no final do ano letivo…
— Uhum… — Hyoga apenas concordou, nada animado. Abraçou o médico, conhecia Isaak desde que havia ficado doente e internado por meses, ele era apenas um interno na época, mas se apegou ao paciente e ao irmão dele. — Eu teria que me mudar para a faculdade de qualquer modo…
— Você poderia fazer faculdade aqui! — O moreno sorriu, fazendo um movimento com os braços, como se apresentasse o hospital para ele. O loiro mais novo olhou em volta, não muito animado.
— Eu gostaria de ficar… Mas não sei se quero estudar no hospital onde minha mãe morreu… — Voltou a abraçar o mais velho, como se procurasse nele um conforto que não teria em mais ninguém ali. Camus suspirou.
— Tudo bem, é compreensível. — Isaak sorriu e bagunçou os cabelos dourados dele. — Vão para casa, vocês precisam descansar.
— Não preciso assinar mais nenhum documento? — A voz dele saia pesada. Recebeu uma negação de cabeça em resposta.
— Saga e Kanon estão vindo para cá. — Milo chamou a atenção do ruivo para si, tocando-lhe o rosto. — Seus amigos também.
Ele apenas desenhou um “obrigado” com os lábios e tocou a mão do grego, a presença dele o deixava mais tranquilo.
— Bem… Muito obrigado por tudo que fez por nós, Isaak. — Sério, até um tanto blasé, Camus estendeu a mão para o médico, como um comprimento.
O médico não se conformou com um simples aperto de mãos. Segurou a mão livre dele e o puxou para um abraço, o cavaleiro ficou sem reação, não conseguia movimentar o outro braço para evitar o contato, corou ao sentir o corpo quente dele junto ao seu.
Milo bufou, não seria o tipo de pessoa que afastaria o namorado de um abraço, mas teve vontade, se conteve em cruzar os braços e desviar o olhar. Hyoga parecia se divertir com as reações do grego.
— Espero vê-los novamente, em breve. — Enfim, o médico se afastou do cavaleiro, com um sorriso vitorioso.
— Espero que não em um hospital. — Camus disse sem graça, se virando para o grego com o rosto avermelhado — Vamos…?
Quando estacionaram, Hyoga foi o primeiro a sair, avisando que iria tomar banho. Os dois mais velhos ainda ficaram imóveis por um tempo, até o grego utilizar de todo seu autocontrole, reprimir o ciúmes, e pousar sua mão sobre a perna do ruivo, sorrindo para ele.
— Me desculpe por aquilo… — Ele ainda evitava contato visual, não sabia como Milo reagiria a uma crise de ciúmes, experiências anteriores o deixavam apreensivo.
— Por você ter um ex-namorado invasivo? Não precisa se desculpar.- O loiro passou a mão para o rosto do francês, mantendo-o ao aproximar seu rosto e colar os lábios. — Vamos entrar? Está frio aqui fora.
Ele soltou um leve riso, realmente estava se preocupando demais. A memória do pensamento da noite anterior voltou a sua mente, Milo vinha se mostrando merecedor de seu sentimento. Foram direto para a cozinha, onde o grego passou a preparar café e o francês se sentou à mesa, vendo as mensagens no celular.
— Mas por que não o incluiu no seu relato? — Entregou uma xícara ao cavaleiro, que foi prontamente agradecida, envolta com as mãos e levada próximo à boca, para inspirar o aroma característico e soprar um pouco. Ele se sentou ao lado do ruivo.
— Não achei que fosse importante. — Suspirou. Ao que parecia, era importante para ele. — Isaak foi um suporte quando Hyoga estava doente. Eu não podia sair do hospital, e ele sempre foi muito solícito com tudo o que precisávamos, me pareceu uma boa ideia no momento.
Camus bufou e tomou um gole do líquido quente.
— E não foi uma boa ideia? — Milo queria entender o que afligia o francês, além de que, queria saber o que aquele idiota tinha feito de ruim para ele.
— Bem, enquanto estávamos no hospital, tudo ia bem. Mas depois, ele começou a me cobrar coisas que eu não podia oferecer. — Olhou ao redor, como se se lembrasse de acontecimentos. — Ele queria que eu ficasse aqui, então tentava de todos os modos que eu procurasse um emprego em algum museu ou algo assim, insistia para eu sair com ele e os amigos da faculdade, mas que sequer se davam ao trabalho de lembrar meu nome. Vinha em casa e agia com uma intimidade que nunca foi dada a ele, agira como se minha mãe soubesse do nosso relacionamento. E principalmente, dizia que meu sonho não chegaria a lugar nenhum.
Terminou o café, deixando a xícara sobre a mesa, a observando.
— Além de que, não aceitava minha amizade com Afrodite, então deve imaginar o tormento que foi quando ele conseguiu um emprego pra mim na Suécia. — Sorriu com ironia, era tolo na época, sabia que seu irmão gostava muito dele e tinha medo de chateá-lo caso terminassem. — Ele ameaçou contar tudo sobre nosso relacionamento e o que já tínhamos feito para minha mãe caso eu fosse. Só aí eu tomei coragem, mandei ele à merda e fui.
— Ele contou?
— Só mais um blefe. — Deu de ombros. — Ele realmente não esperava que eu fosse. Quando eu voltei para a França ele me procurou, mas eu não tinha mais a mesma cabeça.
— Você tem uma tendência a relacionamentos tóxicos… — Milo apoiou a cabeça no ombro esquerdo dele, envolveu a mão pálida com a sua e trançou os dedos.
— Devo me preocupar com o atual? — Camus sorriu, apoiando a cabeça na dele.
— Eu acho que não te diria se eu fosse abusivo. — O grego riu, se esforçava para ser sensato e vinha tendo um bom resultado no controle do ciúmes. Acima de tudo, não queria machucar Camus, então se empenharia por ele. — Mas eu me esforço para que não.
O loiro ergueu a cabeça, encostou seu rosto no do ruivo, mantendo as bochechas juntas. Ficaram alí por um tempo, apenas sentindo a respiração um do outro, Camus se moveu primeiro, colando os lábios aos dele em um beijo inicialmente lento e delicado, mas que ganhou urgência, sentia falta dele.
— Milô… — Quando o ar faltou, ele se afastou, encarando o grego, parecia decidido a algo. — Eu…
Antes que ele pudesse completar, a campainha tocou insistentemente. Eram quase onze da noite. Foi o grego quem se levantou para atender e, assim que ele abriu a porta, o furacão Saori entrou na casa indo direto de encontro com o ruivo, ainda sentado na cozinha.
— Meu amor! — Ela abraçou o francês, amassando o rosto dele entre seus seios fartos. A cena fez Milo rir, a maior parte dos homens adoraria aquilo, mas Camus não estava nada confortável. — Já mandei meu piloto ir buscar o Dite, se não ele chegaria só amanhã à noite. Ória e Marin já estão no avião também.
— Vocês não precisavam se preocupar em vir… — Ele sorriu para ela após se livrar do abraço. — Mas fico muito feliz que os terei aqui.
— Não existia possibilidade de não virmos. — Ela se sentou onde antes estava o veterinário, mas logo se levantou novamente ao ver o loiro mais novo entrar na cozinha, com um pijama de patinhos amarelos. — Hyoga!
Ela o abraçou, assim como fez com Camus, o que deixou o loiro da cor dos cabelos do irmão mais velho. Embora fossem muito próximos do ruivo, Hyoga tinha pouco contato com os amigos de seu irmão, havia visto Saori poucas vezes, em algumas provas que conseguiu ir assistir. Aioria ele sequer conhecia pessoalmente. Tinha mais contato com Afrodite, pois ele e o irmão viviam conversando por skype antes do francês se mudar para Estocolmo e Camus havia feito questão de apresentá-lo ao irmão em uma das idas dele à França.
— Bo… Boa noite, senhorita Saori… — Encabulado, se soltou do abraço e foi, lentamente, até a geladeira procurar por algo para comer.
Ela voltou a atenção ao ruivo, novamente, para o alívio do mais novo.
— Como está seu ombro? — Ela voltou a se sentar. — O que aconteceu em Versailles?
— Eu estava estressado… — Foi a primeira vez que Camus falou sobre como estava se sentindo durante a prova. — Precisava vir para cá o quanto antes, mas também tinha minhas obrigações com a equipe…
Suspirou. Deveria ter deixado que Misty o substituísse, agora via isso. Sua necessidade de estar sempre à frente da equipe o fez a prejudicar.
— O que não resolveu muito… — Sorriu irônico. — A equipe foi mal por minha culpa e eu não resolvi nada aqui.
— Pelo menos você conseguiu conversar com sua mãe, Camus. — Saori lhe tocou a mão. — Você fez o que acreditou que seria o certo, está tudo bem.
— Mas poderia ter chegado mais cedo… — Os olhos do mais novo se encheram d’água, ele pegou um pedaço de pão e foi para seu quarto. Por mais que amasse o irmão, ele havia o deixado com a mãe doente, havia sido um peso enorme para ele. Peso que começava a pesar.
Camus se levantou para tentar evitar que Hyoga deixasse a cozinha, mas não se moveu, apenas abaixou o rosto em silêncio. Ele tinha direito de ficar triste. Milo lhe segurou a mão, precisava dar tempo para que ele se acostumasse com todas as mudanças.
— Vocês precisam descansar. — A mulher se levantou, abraçando o amigo com carinho. — Vou para o hotel, avisarei a todos que chegarem para ir para lá. Amanhã logo cedo estaremos aqui.
Ela depositou um beijo no topo da cabeça de Camus, que sorriu cansado. Milo se levantou para abrir a porta para a japonesa.
— Acha que ele conseguiu se entender com a mãe? — Ela perguntou, em tom baixo para o grego, sua preocupação era genuína e tinha medo que o ruivo não quisesse dividir isso com outras pessoas ainda.
— Até certo ponto sim… — Ele olhou para um porta retratos, com a foto da família, Hyoga era bem novo e o pai deles estava vivo, era uma foto antiga. — É difícil computar o tanto que ela o machucou, de qualquer modo ele vai precisar de tempo para absorver.
— Sim… — A morena suspirou. — Espero que Hyoga entenda também, para ele será ainda mais difícil.
O grego concordou, se despediram e ela partiu em um carro alugado para o hotel onde ficaria. Ele teve tempo de olhar o celular e ver uma mensagem de Saga, avisando que também iriam direto para o hotel e passariam na casa deles no início da manhã. Pelo menos, Camus poderia dormir.
Ele encontrou o francês no meio do caminho, entre a cozinha e os quartos.
— Vamos? — Camus parecia exausto, todo o cansaço da prova, da tensão, da noite mal dormida, vinham se acumulando sobre ele. Estava mais pálido do que o normal e tinha olheiras bem marcadas.
Caminharam em silêncio, passando pelo quarto do loiro mais novo, que tinha a porta fechada, o ruivo suspirou, esperava que seu irmão o perdoasse. Seguiram até seu quarto, a sensação de entrar ali foi estranha, fazia algum tempo que não se sentava em sua cama, mas tudo estava exatamente onde tinha deixado, com algumas pequenas alterações provavelmente feitas pelo grego na noite anterior.
Sorriu ao notar o loiro confortável ali, separando algumas roupas, sempre quis poder trazer algum de seus relacionamentos, sem ser escondido. Camus quis oferecer para tomarem banho juntos, como já haviam feito diversas vezes, mas achou que era muito cedo ainda.
O cavaleiro se banhou primeiro, ainda se adaptando à pouca mobilidade do braço, depois, esperou que o grego voltasse para dormirem. Não se deitou, pois sabia que se o fizesse, iria dormir imediatamente, ficou vendo bobagens no celular.
Não demorou para que ele voltasse ao quarto, vestindo sua calça de moletom azul e de peito nu, embora fosse normal se vestir assim, ou até com menos, ali ele sentia estar sendo invasivo.
— Ah… Eu não contava que viria para a casa da sua família quando fiz minha mala… — O loiro penteou os cabelos com os dedos, em sinal de nervosismo. — Não trouxe um pijama de verdade…
O francês apenas deu um sorriso de lado com o desconforto dele, se levantou e caminhou tranquilamente até poder tocar o abdômen bem desenhado, sua mão passeou lentamente por todo o dorso de pele morena, admirando-o, como se nunca tivesse o tocado antes, dos ombros à entrada da virilha. Milo sequer respirava.
— É tentador… — O ruivo mordiscou seu lábio inferior, fazia um bom tempo que não transavam, mas aquele não era o momento. Olhou para os olhos de mediterrâneo, suspirando. — Estou acostumado a dormir com você nu, a falta de uma blusa não me incomoda.
Milo só faltou rezar um mantra para não voar em cima de Camus. O toque dele fazia todos seus pelos arrepiarem, usou todo seu controle para não ficar excitado.
— Achei, talvez, que não fosse adequado… — Deu um suspiro profundo, enquanto o outro voltava para a cama e se ajeitava para dormir.
— Estamos eu, você e o Hyoga nessa casa, Milo. — Se deitou de lado, sobre o ombro esquerdo. Não tinha posições boas para dormir. — O restante são apenas lembranças.
A cama do francês tinha um de seus lados apoiado na parede, o menor se deitou na lateral livre, seria mais fácil para ele se movimentar daquele lado, enquanto o grego precisou engatinhar pela cama para chegar ao seu travesseiro.
O loiro se acomodou debaixo do cobertor, protegendo o peito do frio. Ficou olhando para o rosto do francês, que tinha os olhos fechados, esticou a mão e lhe tocou os lábios.
— Camus… — Disse em um sussurro.
— Hnm…? — Ele abriu um único olho, o cansaço dos dias anteriores somado com os remédios para a dor o deixavam mole.
— Boa noite. — O grego se aproximou o suficiente para depositar um beijo leve nos lábios finos, que sorriam em resposta.
— Boa noite, Milô.
O grego acordou em um pulo, depois de um sonho nada casto com o francês ao seu lado. Olhou em volta enquanto esfregava o rosto, forçando seus olhos a distinguirem as luzes. Camus dormia tranquilamente, deveria estar exausto depois de tudo que passou, não iria acordá-lo antes do necessário.
Com todo o cuidado, deixou a cama, pegando seu celular para olhar o horário, eram pouco mais de seis da manhã, por que tinha acordado tão cedo? Poderia tentar voltar a dormir, mas precisava ir ao banheiro primeiro.
Ao entrar no pequeno cômodo, sentiu um ar mais quente, como se alguém tivesse acabado de tomar banho. Não se preocupou, apenas fechou a porta de foi até o vaso sanitário, precisava se concentrar para urinar e seu pênis voltar ao normal, não faria nada inadequado ali.
Aliviado e, devidamente, "desarmado”, já não tinha vontade nenhuma de voltar a dormir, então resolveu fazer algo para comer, poderia levar um café na cama para o francês, sorriu com sua ideia, ele iria gostar. Assaria os croissants e ovos mexidos, como no dia anterior, precisava ir a um mercado em algum momento.
Cantarolava uma música de sua terra enquanto retirava os pães do forno, o cheiro inundou o ambiente, inspirou, saboreando-o. Quase derrubou a forma e tudo que havia nela ao ouvir um barulho atrás de si, se virou em um pulo, pálido, dando de cara com Hyoga, que completava uma xícara com o café que o grego havia acabado de fazer. O russo também se assustou com o movimento repentino, olhando-o com receio.
— Caralho, Hyoga! — Milo levou a mão ao peito e se apoiou na pia atrás de si. — Não me assusta assim…
— Eu só peguei uma xícara… — O mais novo se sentou, ele usava uma calça social azul escura e uma camisa branca, com uma gravata também azul, muito bem vestido quando comparado ao grego.
— Porque acordou tão cedo? — Milo perguntou, ele também deveria estar cansado, deveria querer dormir mais, ao entregar um dos croissants que havia feito.
— Vou para a escola. — Ele suspirou, era melhor ficar fora de casa e se distrair nesse momento, além de que já havia faltado muitos dias.
— Você sabe que não precisa, não é? — Se sentou junto ao mais novo, colocando café para si.
— Eu não me importo. — Disse seco, uma característica que o grego descobriu ser familiar, era exatamente como Camus. — Quero ir.
— Ok… — Se lembrou do quão difícil foi romper a barreira social que Camus colocou sobre si, imaginava que com Hyoga seria a mesma coisa, ainda mais em um momento sensível como esse, mas seguiria tentando. Quando o mais novo se levantou, Milo o ofereceu uma maçã. — Leve uma fruta, para você comer no intervalo.
O loirinho o olhou desconfiado, mas aceitou, deixando a cozinha e saindo pouco depois. O veterinário permaneceu sentado, comendo devagar. Pensava infinitas possibilidades para tentar criar algum vínculo com o mais novo, talvez algum jogo que ele gostasse, ou alguma série ou filme. Suspirou, não se lembrava a última vez que precisou fazer amizade com um adolescente.
A campainha tocou, provavelmente Hyoga havia esquecido algo. Milo caminhou tranquilamente até a porta, abrindo-a despreocupado.
Os visitantes conversavam até a porta se abrir em um movimento único, expondo o grego e seus peito e abdômen muito bem definidos, pele bronzeada e mamilos levemente túrgidos pelo frio. A calça tinha o cós mais baixo, sendo perfeitamente visível as entradas para a virilha formadas pelos ossos da pelve. O silêncio tomou conta e ele apenas congelou.
— Uh la la…! — Afrodite abaixou os óculos escuros que usava para ter uma visão melhor do grego à sua frente, o analisando de cima a baixo. Sabia que o namorado do amigo era gostoso, mas nunca tinha tido uma visão tão… ampla, antes. — Novamente, se o Camus não te quiser, eu quero!
— Bom dia, Milo! — Marim sorriu levemente sem graça, evitando deixar que seus olhos percorrem o corpo do loiro. Saori e Aioria apenas riram da reação dele. — Acordamos você?
— Ah… não! — A pele morena ficou vermelha quase instantaneamente. Não esperava que os outros cavaleiros fossem chegar tão cedo. — Entrem…!
Saori o abraçou, assim como a ruiva, Aioria o comprimentou com um aperto de mãos e alguns tapinhas nas costas. Afrodite fez questão de ser o último a entrar, só para poder tirar uma casquinha do anfitrião.
— Querido… — Ele sorriu safado, passando a língua pelos lábios, descendo a mão por todo o tórax e abdômen do veterinário, que ficou sem reação. Teria descido mais, se não tivesse sido repreendido por uma voz não muito cordial.
— Afrodite. — Camus ralhou, chegou a tempo de impedir que o amigo passasse dos limites, por mais que amasse o sueco, Milo era seu e não iria dividi-lo. O grego por sua vez entrou em desespero, pensando como iria provar para o francês que ele não havia sido conivente.
— Camus… — Milo disse em um sussurro, certo de que não teria mais um relacionamento após aquilo.
— Camus! — A atenção do nordico mudou imediatamente para o ruivo, o abraçou, tomando cuidado com o ombro, tendo o gesto retribuído. — Eu fiquei tão preocupado…!
— Me desculpe por isso… — Ele realmente se sentia mal por preocupar os amigos, mas principalmente Afrodite, que sempre esteve ao seu lado. Antes de desfazerem o abraço, o francês cutucou as costelas do suéco, sussurrando em tom de reprova. — Nem por isso você tem o direito de ficar apalpando o Milo!
— Ain… — Resmungou, fazendo cena. Rindo enquanto ia em direção à cozinha, se encontrar com os demais, sendo acompanhado pelo ruivo. — Não posso fazer nada também!
Antes, Camus sorriu para o grego, que seguia desconcertado, parado ao lado da porta, colou seus lábios aos dele em um beijo rápido.
— Trocar de roupa, talvez? — Era uma sugestão, mas não realmente se importava dele ficar como estava.
— É, irei. — E seguiu para o quarto, no sentido oposto ao cavaleiro.
Ao voltar, já com sua calça jeans e o casaco puffer da federação francesa, a campainha tocou novamente. Agora quem chegava eram os gêmeos, Saga o cumprimentou com um aperto de mão e um abraço rápido, enquanto Kanon o abraçou forte, agradecendo por ele estar com Camus em um momento tão difícil.
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