Notas iniciais
— Vai me dizer o que houve agora?
— Em um instante. Qual é o seu nome.
— Amanda Collins, mas me chame de Mandy. O seu?
— Arthur.
Aquele menino era sério. E esquisito. Estava um calor do inferno, mas ele vestia uma blusa preta de manga longa. Mas seus óculos de sol eram estilosos, pelo menos.
— Então, Mandy, eu gostaria de lhe dizer que sinto muito pelo que fiz com você ontem a noite. É sério, não era para ter acontecido...
— Peraí, cara. O que você fez comigo?
— Você não lembra de nada?
— Se eu lembrasse eu perguntaria?
— Clássico. É o seguinte, você vai ter que ficar com a cabeça bem aberta para o que eu vou te contar agora. Tudo bem? — assenti com a cabeça, porque ele parecia falar sério — Tudo o que está nos seus livros existe. Absolutamente tudo. Fadas, lobisomens. E vampiros. E é isso que você é agora. Sinto muito.
— Haha. Hahaha. Cara, vai pros Narcóticos Anônimos, você precisa de tratamento. Tchau.
— Amanda! É verdade, você precisa acreditar em mim!
— Então prova.
— Você está com fome, mas nada parece comestível?
— Huumm. Talvez.
— Então veja isso.
Do nada, ele puxou uma bolsa de sangue do bolso da calça, abriu e apertou. O sangue escorria pelas mãos dele. Senti minha boca salivar e ataquei a bolsinha. O gosto era maravilhoso.
Então, do mesmo lugar de onde ele puxou o sangue, ele também puxou um espelho, e o poisicionou na frente do meu rosto.
Quando percebi meu reflexo, notei minha aparência. Nada de diferente, exceto pelo tom vermelho vibrante nos meus olhos. Abri a boca, só para comprovar: Meus caninos superiores estavam mais alongados e pontudos.
— Mas que merda é essa?
— É a prova, Mandy. Sinto muito. Se você puder me acompanhar, eu te explico tudo.
— Tanto faz.
Saímos do beco e entramos num carro preto. Ele dirigiu até uma casa imensa, escura e velha, cheia de portões, a mais ou menos dez quilômetros da cidade.
— Bem-vinda à Liga, Amanda. — disse ele, quando entramos no saguão da casa. — venha por aqui.
Arthur me conduziu para o que parecia ser uma biblioteca gigantesca e completamente vazia.
— Agora, fique quieta. Eu vou te explicar o que você precisa saber sobre o assunto. Perguntas no final, por favor. — assenti, mais uma vez. Sentei em uma poltrona fofa e fiz sinal para que ele continuasse. — Vejamos; vamos começar pela transformação. A saliva do vampiro é venenosa, porém, o humano só se transforma se ele morrer em menos de vinte e quatro horas depois da mordida. Você caiu de um precipício logo depois de eu ter te mordido, e deu no que deu. Agora os pontos bons: seus sentidos estão milhares de vezes mais aguçados. Todos os vampiros tem o que eu chamo de "pacote básico", que seria velocidade e força maior do que os humanos. Alguns compram o pacote deluxe e vêm com outras habilidades, o que você pode chamar de "poderes" mas por aqui é habilidade, ou vantagem em campo. Depois nós falamos mais disso. Os pontos ruins: você está morta e é perigosa e imprevisível, ou seja, tem que se afastar da sua família e amigos. E você terá para sempre a mesma idade, rosto e corpo, sem nunca ir para frente. Agora, perguntas frequentes: Não, nós não brilhamos no sol. Também não morremos queimados, apenas ficamos mais fracos. Existem coisas que impedem o efeito do sol. Mais sobre isso depois. Não, nós não nos alimentamos em animais. O gosto é terrível e te faz sentir o dobro de sede duas horas depois. Não, nós não dormimos. Sim, podemos dissecar caso fiquemos muito tempo sem comida, e foi por isso que eu te ataquei ontem. Sim, nosso sangue é capaz de curar humanos, mas o efeito colateral pode ser pior que a ferida. Não podemos transformar gente morta, nem reproduzir, nem criar crianças imortais. Podemos comer comida normal, mas não nos satisfaz. Não existe cura para vampirismo. Alguma pergunta?
Estava chocada com tanta informação. Respondi que não. Ele me levou ao "meu" novo quarto. Era grande e a mobília era antiga.
— Mandy, venha, por favor. Vou te levar para conhecer o vampiro mais antigo do mundo, o mestre Joseph. Siga-me.
Por algum motivo, esperava um senhor idoso, sério e carrancudo. Mas quando abrimos a porta, entramos em um grande salão de baile, com paredes de pedra e lustres imensos pendurados. Uma música antiga tocava alta, e vários homens e mulheres, pálidos como Arthur, dançavam, felizes.
— Oh, se não é Arthur!
— Joseph, amigo, como é bom lhe ver! Há quanto tempo!
O tal do Mestre Joseph tinha uns vinte anos. Era tão lindo, talvez até mais, quanto Arthur.
— Vejo que nos trouxe mais uma companheira, Artie. Quem é a jovem?
— Esta é Mandy, senhor. Sofri um pequeno deslize ontem. Mas creio que ela sofreu um maior...
— Mas não seja por isso! Bem-vinda, Mandy, ao Submundo. Tudo pode acontecer por aqui. Bem, logo lhe vamos apresentar a Liga inteira. Mas por hora, vamos a quem interessa: os vampiros mais antigos! Vejamos: Hadrian e Verena são casados há mais de mil anos, quando se conheceram. São, depois de mim, os mais velhos, junto com Lilith. Então teremos Petrus, Aaron e Valentin. Amélie e Áurea, irmãs. Tem mais um pessoal, mas os fundadores são esses. Falamos mais tarde, querida. Vá e divirta-se, faça amigos!
Saí de perto de Arthur e Joseph. Praticamente todos os nomes eram de origem alemã, como Hadrian e Verena. Finalmente, reparei nas roupas dos vampiros ao meu redor. Todos vestidos à moda antiga. As moças trajavam longos vestidos, cheios de rendas e babados, no maior estilo gótico, enquanto os rapazes vestiam ternos, paletós com quepes e cartolas.
Estava pensando naquilo quando duas garotas me atacaram;
— Oh, Amélie! Veja, temos novidades! — a garota mais baixa disse à outra. A única coisa que as diferia era a altura. Ambas tinham olhos azuis claro e longos cabelos dourados.
— Áurea, isto são modos de abordar a novata? Perdoe minha irmã, querida. Muito prazer, me chamo Amélie.
— Me chamo Áurea. E você?
— Mandy.
— Que lindo nome, Mandy! — disse Amélie. — De onde você é?
— Sou de Woodville mesmo. E vocês?
— Somos do sul da Alemanha. É frio lá.
— Eu amei suas roupas, Mandy.
— Seu cabelo é lindo, Mandy.
— Belas unhas, Mandy.
Aquelas duas não calavam a boca e não paravam de me elogiar. Pelo menos responderam minhas perguntas. Elas saiam dali. Não, Joseph não era parente delas, nem criador. Quem as transformou foi Hadrian, e foi sem querer, mais ou menos o que aconteceu comigo.
Descobri que eu tinha um amuleto! Era algo que eu usava enquanto morria... ali estaria guardada a minha "vida" se eu tirasse aquilo, morreria em três dias. Também era o que me dava resistência ao sol. O problema: teria que ser feito um teste para saber qual era o amuleto.
Elas me mostraram os delas. Duas tornozeleiras, simples, que o pai delas tinha feito. Segundo elas, era uma sorte se o seu amuleto fosse algo simples e pequeno. Alguns não portavam nenhum anel ou colar, e o amuleto se tornava, por exemplo, uma jaqueta. Então a pessoa passaria a eternidade usando a mesma jaqueta.
Pensei no casaco que ainda estava vestindo.
Horas e horas depois, alguém me conduziu para uma sala, onde aplicaram o tal teste. Dei sorte, pelo que disse Amélie. O meu amuleto era um colar de coração em ouro rosé, presente de dezessete anos dos meus pais.
Finalmente, fiquei sabendo das tais habilidades. Eram infinitas, e nem raras nem comuns. Caso você tivesse alguma, poderia demorar até que fosse descoberta.
Descobri que Áurea e Amélie eram ambas Curandeiras. Ou seja, ela curavam a si mesmas e a qualquer um com apenas um toque.
Joseph era um Leitor. Ele lia e controlava pensamentos e emoções.
Petrus, Valentin e Aaron eram todos primos e, pelo sangue, compartilhavam o mesmo poder: força bruta. Esse era o poder. Ser mais forte que todo mundo. E eles adoravam lutar entre si.
Isso tudo foi Arthur quem me contou. Descobri que ele também era um dos principais da Liga, tipo um braço-direito.
— E Hadrian e Verena?
—Verena consegue convencer pessoas. Sem nenhuma mágica, nada. As pessoas simplesmente se sentem atraídas e a seguem. Hadrian não tem nenhuma habilidade, mas o consideramos o homem mais calmo e compreensivo da face da Terra.
— Humm. E você e Lilith?
— Eu sou o que chamam Compelidor, e Lilith é uma Cantora; os dois servem para a mesma coisa. O meu faz com que a pessoa se sinta obrigada a fazer tal coisa, mas consciente. Mas Lilith faz com que a pessoa queira fazer tal coisa. Se eu mando uma pessoa matar outra, ela vai fazer, mas se sentirá culpada pelo resto da vida. Se Lilith mandasse, a pessoa mataria, com gosto, e ficaria feliz da vida depois. É um péssimo exemplo, mas acho que você entendeu.
— Ah, tá. E eu?
— Não sabemos. Nem tem como saber. Talvez você seja superpoderosa; talvez seja comum. Só o tempo dirá.
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