O Mundo do Lado de Fora
8 Katy - Pontos Continuativos
Inclinei-me em direção à mesa para pegar uma torrada. O livro estava ali do lado e eu aproveitei para pegá-lo também, antes que o esquecesse.
— Bem, eu já vou indo. –Disse eu, animada, limpando a capa do livro com as costas da mão e segurando-o contra o peito. Dei uma mordida na torrada crocante e caiu tantos farelos que tive de dar um pulinho para que não sujassem minha roupa. – Kobrain ainda está dormindo? São seis e vinte já.
Minha mãe era a única da casa além de mim que também acordava cedo. Ela estava sentada à mesa, tomando o café da manhã que nós duas sempre costumávamos preparar juntas. Por um momento ela pareceu se engasgar, com a atenção voltada para a tela de seu celular.
— Hm. Pode acordar ele para mim, por favor? – Perguntou ela, piscando os olhos. – Ele é um caso sério. E olha que a validação dos pontos começa hoje!
— Verdade. – Disse eu sorrindo. – Vou lá chamar ele.
Subi correndo as escadas e andei em direção ao quarto de Kobrain. Ele estava deitado, sem camisa, com um lençol enrolado em um de seus pés enquanto o resto do tecido pendia da cama ao chão.
— Hey, acorda! – Disse eu enquanto o cutucava, fazendo um biquinho. Ele gemeu um pouco e virou de posição. – Hoje é o primeiro dia daquele negócio dos pontinhos. Seria uma péssima ideia você chegar atrasado!
Ele esfregou os olhos e não parou de piscar. Fui em direção ao seu armário e vasculhei suas roupas.
— O quê? – Disse ele, com a voz sonolenta, virando- se para o outro lado enquanto murmurava algumas coisas aleatórias incompreensíveis.
Separei rapidamente em cima da mesinha do computador o uniforme branco e vermelho do colégio, a bermuda jeans preta e uma toalha. Olhei para trás e percebi que Kobrain estava roncando novamente. Dei de ombros, consultei meu relógio amarelo de pulso e fui embora.
— Querida, agora de manhã tenho horário marcado com uma mulher que vai fazer um ensaio e vou ficar lá no salão depois, ok? – Disse minha mãe enquanto se levantava da mesa da cozinha e colocava rapidamente as louças na pia. – Qualquer coisa, se você precisar de mim, só ligar.
— Tudo bem! – Disse eu, sempre bastante entusiasmada. Antes de sair pela porta da frente, me segurei na parede e inclinei-me para dentro de casa: Sabe que horas o papai vai voltar?
— Acho que de noite apenas. – Gritou minha mãe de volta. – Umas sete horas.
— Tudo bem! Tchau!
Saí saltitante de casa pelas ruas da Cidade de Docas, com meu livro na mão. Era uma cidade calma e tranquila, sem muitos prédios ou grandes aglomerações de pessoas (com exceção dos festivais que costumam ocorrer no meio do ano, é claro.). Havia apenas duas escolas de ensino médio na cidade toda, mas por enquanto isso não é lá uma informação muito relevante.
— Bom dia! – Disse eu quando passei pelas minhas vizinhas, que estavam paradas conversando na calçada.
— Bom dia, Katy! – Cumprimentou a Laurinete, com um sorriso malicioso seguido de uma risada. – Está bonita hoje!
Eu sorri, meio sem graça. Eu estava usando a calça jeans preta da escola e havia amarrado uma blusa xadrez preta e azul de manga comprida na cintura, que até que combinava bastante com a camiseta escola e o meu relógio amarelo.
— Obrigada!
Caminhei por uns dez minutos sob as sombras das árvores da calçadas. O Sol fraco no horizonte estava apenas tentando esgueirar-se para longe das nuvens, mas não parecia estar se saindo muito bem naquele trabalho. Cumprimentei alguns vizinhos e outras pessoas conhecidas com alguns “Bom dia!” pelo caminho antes de chegar na pracinha, me sentar no banquinho do único parque no bairro e cruzar as pernas ocupando quase a maior parte do espaço enquanto abria o livro na página em que eu havia parado.
Após ter se passado uns dez minutos, completamente focada na história, notei que minha amiga Melissa havia aparentemente brotado de algum lugar da rua.
Oi! – Cumprimentou ela, checando o celular. Eu descruzei as pernas e guardei o livro na mochila. Estava em uma parte bastante interessante do capítulo vinte e um na qual a protagonista fugia dos bandidos sequestradores. – Já está na hora de ir. Se eu não chegasse você iria acabar ficando aí lendo e se esqueceria da escola.
Eu soltei uma risada e me levantei. Não que aquilo que Melissa havia dito tivesse acontecido alguma vez no ano passado quando havíamos começado a estudar juntas, é claro.
— E aí, como foi a viagem? – Foi a primeira coisa que Melissa perguntou enquanto caminhávamos lado a lado pela calçada. –Eu vi as fotos de você com seu pai e o Kobrain.
Ah, até que foi bem legal! – Disse eu, alegre. – Um amigo da nossa família tem uma casa de fazenda lá em Vila Morim e vamos para lá de vez em quando, sabe? E você, fez o que de interessante?
— Ai! – Melissa tropeçou na calçada e eu a segurei. Ela levantou o joelho e fez pressão com os dedos em sua sapatilha
— Que foi? – Perguntei, preocupada. – Está tudo bem?
— Sim, não é nada. – Disse ela serenamente, ainda fazendo uma careta. – Está tudo bem. Fiquei a maior parte do tempo estudando e revisando o que eu tinha errada nas provas que foram entregues. Sò no domingo que fui no cinema. Até que aquele filme “O último Caçador” foi legal.
Eu sorri para ela e concordei com a cabeça. A escola não ficava muito longe e ao consultar o relógio mais uma vez alguns poucos minutos depois, notei que havíamos chegado no horário certo.
— É aula de quê agora? – Perguntei enquanto passávamos pela portaria junto com dezenas de outros estudantes. – Bom dia, sr. Halik.
O porteiro era um homem gordinho, careca e seus cabelos castanhos aos poucos se tornava cada vez mais grisalho.
— Oh, bom dia Katy! – Cumprimentou ele de volta. Passei meu cartão da escola na catraca, que liberou imediatamente com um estalido metálico para eu passar. – Como foi seu fim de semana?
— Ah, foi muito bom, obrigada! – Disse eu, prendendo atrás da orelha uma mecha dos meus cabelos longos e castanhos. – Até mais!
Melissa ficou esperando por mim, lançando olhares ao longe. Ela era muito magra e costumava usar o cabelo castanho ondulado e escuro enrolado em um rabo de cavalo.
— É aula de nutrição agora, acho. – Afirmou ela enquanto caminhávamos em direção ao edifício principal. – É com aquela professora viciada em informações alimentícias, a Roseni.
Franzi a testa e pensei um pouco
— Ah, lembrei!
Entramos no prédio da escola, atravessamos os corredores e seguimos para nossa sala.
As aulas passavam da mesma forma entediante de sempre, embora eu fazia o possível para ficar animada com as matérias novas. No primeiro turno de aula, a professora Roseni Maya começou a falar sobre a importância do café, sempre mencionando também a sua importância para a economia mundial.
— Gente, o café é simplesmente fantástico! – Começou a professora, com os olhos arregalados e gesticulando com as mãos. – É a segunda bebida mais consumida do mundo, produzido de forma abundante nas capitais e Solari, Luziari e Terraria, principalmente. Duas colheres do pó de café possuem cerca de 5% da quantidade total diária de nutrientes que precisamos consumir diariamente, como o sódio, proteínas e carboidratos…
Depois disso ela mencionou algumas outras informações nutricionais e falou um pouco sobre a história do café, que ele foi difundido de Terraria para outras capitais e cidades de clima mais quente antes do horário do outro professor chegar.
— Até semana que vem! – A professora Maya se despediu, saindo da sala. O som baixo de burburinhos preencheu o lugar.
— Que aula é agora? – Virei-me para trás para perguntar à Melissa. Ela estava anotando alguma coisa em seu caderno.
— Geografia. – Disse ela, levantando o olhar. – Ele deve entregar as avaliações hoje.
Virei-me para frente e, enquanto o professor não chegava, fiquei brincando com meu relógio, movendo os ponteiros para frente e para trás e depois arrumando-os de volta.
— Ah, foi bem legal, Davi! – Disse Larissa, entusiasmada, sentada de lado e virada para trás na outra fileira. – A gente foi tomar Milk Shake e depois fomos ao cinema.
Olhei de relance e notei que Davi, o garoto que sentava atrás dela, fazia um biquinho.
— Hm… Sei. – ele disse, com um tom malicioso. – E foi só isso?
Larissa apenas piscou e virou para frente. Eu arregalei os olhos de perplexidade, sem que ninguém notasse, pouco antes do próximo professor chegar.
— Bom dia! Bom dia! – Disse o professor Mickal enquanto acomodava-se em sua mesa, que ficava diante da minha cadeira. Os alunos o cumprimentaram em uníssono.
— Bom dia, professor! – Disse eu, sorridente. – Como foi de feriado?
— Ah, muito bem Katy, por ter perguntado. – Disse ele, com seus olhos esbugalhados. – Passei a maior parte terminando de corrigir as provas. Até que foram bons, os resultados. Queria ter tido feito isso na semana passada, mas como souberam pelo meu substituto, não estavam me sentindo muito bem no dia.
O professor foi tirando seus materiais da mochila, inclusive uma pasta que, pelo que eu consegui identificar, continha as avaliações.
Larissa observou por alguns instantes enquanto Mickal organizava seus papéis.
— Quer que eu entregue para o senhor? – Perguntou ela, esboçando um sorriso. – Parece meio ocupado.
— Pode fazer isso? – Perguntou ele, entregando-a o monte de provas da turma. – Aqui está.
— Posso ajudar também? – Perguntei, amistosa, cutucando-a no ombro.
Ela tirou mais ou menos metade dos papéis e me entregou.
— Claro. – Disse ela. – Aqui.
Ela ameaçou se levantar para começar a entregar, mas eu a puxei pelo braço.
— É melhor ver os nomes primeiro. – Sugeri, largando seu braço. – Se não vai ter que ir de um canto da sala para o outro um monte de vezes até conseguir entregar tudo.
Larissa voltou a se sentar.
— Como assim? – Perguntou ela.
— Está vendo o pessoal lá atrás? – Eu me virei e indiquei com a cabeça. O professor começou a falar alguma coisa com a turma relacionada com a matéria que iria passar naquele bimestre e não deu muita importância à nós duas. – Vamos começar por eles.
“O último sentado lá é o Erick, eu acho”. Disse eu, folheando os papéis até encontrar a avaliação referente ao garoto “O que está na frente dele é o Vinícius e depois a Camila.
— Ah, entendi. – Afirmou Larissa antes de de começar a separar os papéis pela ordem em que os alunos estavam sentados. – Toma esse aqui.
Enquanto trocamos as avaliações uma com a outra, não deixei de notar a nota dos outros alunos. Larissa entregou logo a prova de Melissa, que havia tirado oitenta e dois pelo que eu havia conseguido espiar. Quando eu achei a minha, fiquei boquiaberta.
— Setenta? – Foi o que eu disse para Melissa. Eu havia errado uma questão bastante idiota sobre os arquipélagos e formações de ilhas próximas à Centro Tempestade. Melissa apenas riu.
A aula de geografia até que passou rápido ao meu ver e quanto a sineta tocou novamente, virei-me para o lado apenas para confirmar que a próxima aula era mesmo a de português.
— Irei até a coordenação. – Avisei à Melissa atrás de mim. Havia um intervalo de vinte minutos até a próxima aula começar e os alunos costumavam dar uma voltinha pela escola nesse intervalo. – Pode ficar de olho nas minhas coisas para mim? Preciso justificar a minha falta na sexta-feira passada
Ela ajeitou os óculos no nariz.
— Tudo bem. – Disse ela, sorridente. – Ah, tem como ver também como vai ser com relação ao sistema de pontos? Ninguém falou nada com a gente até agora, mas acho que já deve estar valendo.
— Ok. Vejo isso sim.
Saí da sala, passando pelos alunos que ficavam parados na porta, e atravessei o corredor. As salas das outras turmas se estendiam para ambos os lados e os estudantes andavam de um lado para o outro, conversando sem muita bagunça.
Virei-me para o corredor principal, que dava acesso a todos os outros corredores do edifício. No final havia uma grade divisória que separava as salas administrativas do resto do colégio.
Quando entrei o portão estava aberto e dois alunos passaram por mim após terem saído da sala da coordenação, discutindo sobre algumas coisas. Consegui captar involuntariamente alguns trechos da conversa que me chamaram a atenção.
— Mas ainda assim. – Disse o primeiro. – Eles usaram até mesmo aquele vídeo da queda da ponte de Akalik.
— Só sei que foi bem estranho. – comentou o outro. – Ninguém sabe direito o que eles…
E os dois se afastaram, com as vozes misturadas aos murmúrios dos outros alunos que transitavam pelo corredor. Dei de ombros.
A porta da coordenação havia sido deixada semi aberta. Inclinei-me e a espiei.
— Olá, com licença? – Disse eu, cautelosa. Shayane, a coordenadora, estava atrás de sua mesa quando ergueu os olhos acima das lentes de seus óculos de leitura. Havia um computador e um monte de papéis, clips, adesivos e outras bugigangas de escritório diante dela
— Ah, pode esperar um minutinho? – Ela voltou sua atenção seus papéis. – Deixa eu só organizar isso aqui e já te chamo, tudo bem?
— Claro! – Respondi, fechando a porta com um sorriso.
O som de uma porta batendo me assustou e, apesar de não ter sido alto, foi tão repentino que me sobressaltei de leve. Percebi então que o barulho vinha da direção da sala da direção, do outro lado. Comecei a ouvir uma conversa, sem distinguir muito bem o que estava sendo dito.
Olhando de um lado para o outro, apoiei-me no canto da parede oposta e me esforcei para conseguir ouvir. Franzi a testa ao reconhecer que uma das duas vozes femininas era a de Júlia, a professora de português.
— Sempre me escapa! – Dizia ela, arrependida. – Estou me esforçando para fazer o meu melhor, Sra. Ramoni. Não sei dizer exatamente o que me acontece!
— Olha, senhorita Olliver. – Disse a diretora secamente. Os pelos dos meus braços até se arrepiaram. – Acreditamos em seu profissionalismo e nos seus esforços. É uma questão de experiência apenas…
Afastei-me imediatamente do canto ao ouvir o rangido de uma porta sendo aberta. Meus batimentos cardíacos se aceleraram subitamente antes de ver Shayane inclinando-se para fora de sua sala e me encarando por cima das lentes de seus óculos.
— Vamos? – Perguntou ela calmamente. Eu assenti e entrei na sala logo atrás dela. – Venha, venha!
Entreguei a ela o papel da confirmação da minha presença na sessão parlamentar
— Tudo certo! – anunciou ela, depois de ter acabado de liberar do sistema qualquer situação irregular. – A falta já foi justificado aqui. Você só vai ter de precisar ver com seus colegas se há algum trabalho pendente desse dia, ok?
— Tudo bem. Eu faço isso. – Disse eu, rapidamente. – Eh, posso tirar uma dúvida também? O sistema de pontuação já está valendo?
— Oh, está sim. – Explicou ela, sorrindo e entrelaçando os dedos. – No final de cada mês os professores irão fazer as avaliações subjetivas a partir de hoje. Geralmente não é considerado a conduta deste primeiro mês que passou do ano letivo, mas pode interferir um pouco. No mês que vem já deve estar tudo disponível.
— Obrigada!
Retribuí um sorriso e me retirei da sala, passando por uns três outros alunos que agora estavam ali, esperando sua vez. Nesse momento a professora Júlia também saía da sala da direção, segurando sua bolsa e um amontoado de pastas.
— Meu deus… – Deixei escapar, colocando imediatamente a mão na boca, com os olhos arregalados, e tossindo propositalmente em seguida. Júlia tropeçou e algumas pastas deslizaram direto para o chão, mas me adiantei para pegá-las.
— Opa! – Julia riu, nervosa, enquanto eu ajeitava as pastas para levar para ela. – Sou uma desastrada, obrigado Katy. É Katy, não é?
— Sim, sou eu. – eu ri, caminhando ao lado dela. – Vai para a 1007 agora, não é?
— Sim, acho que é isso mesmo. – Confirmou ela, apressando o passo. Você foi excelente nesse bimestre passado na minha matéria. A melhor da turma!
Minhas bochechas coraram.
— Obrigada! – Agradeci, antes de franzir a testa. – Quanto foi que eu consegui?
— Já irei entregar as avaliações. – A professora entrou na sala enquanto os alunos voltavam aos poucos aos seus lugares, aguardando a sineta tocar novamente para se dar o início da aula. – Bom dia, turma!
Os alunos a cumprimentaram. Voltei à minha cadeira e lancei um olhar significativo a Melissa, que apenas me olhou de volta, seriamente. Alguns minutos depois, a professora distribuiu as provas e quando finalmente entregou a minha, com um de “Meus parabéns”, eu simplesmente congelei.
— Quanto que vocês tiraram? – Perguntei à Melissa e aos outros, escondendo qualquer tom de preocupação por baixo de sorrisos gentis.
— Setenta e nove. – Respondeu ela, alegre. – E vocês?
— Consegui oitenta e três. – Afirmou Davi, colocando a mão no peito – Até que foi bom.
— Idiota! – disse Larissa, soltando uma risada. – Eu tirei setenta e dois. E você, Katy? Quanto que tirou?
Eu não consegui ficar empolgada com aquilo. Observei o resto da turma e não havia quaisquer sinais de felicidade ou contestação fora do anormal. Aparentemente eu deveria ter sido a única pessoa dali a ter conseguido 100 pontos naquela avaliação.
Talvez, até mesmo a única pessoa da cidade ou, quem sabe, da capital inteira.
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