O Mundo do Lado de Fora
4 Katy - Pedaços de Papel
Notas iniciais
Eu estava tão estressada e incomodada em manter as aparências de uma garotinha normal e estudiosa que a possibilidade de surtar me pareceu tentadora por alguns instantes, mas quase que imediatamente me livrei dessa vontade. Mexi os dedos dos pés tentando me livrar do desconforto dentro da minha sapatilha, mas foi em vão.
Havíamos chegado no parlamento e sentamo-nos um ao lado do outro no mesmo banco de madeira de sempre. Meu pai era o primeiro, seguido de minha mãe, meu irmão e eu, a mais nova da família. Do meu lado esquerdo, a velha esquisita que sempre entregava doces deliciosos de chocolate chegou apenas alguns minutos depois da gente. Aos poucos o lugar ia ficando mais cheio.
— Olá, Katy, Kobrain. — disse a mulher com dificuldade, sentando-se no banco duro com um suspiro de alívio por finalmente arrumar um lugar para descansar os ossos após uma caminhada de aproximadamente três minutos de sua casa do outro lado da rua.
— Olá, senhora Harmon. — Meu irmão e eu a cumprimentamos. Ela nos retribuiu exibindo seus dentes amarelos de forma simpática. — Como foi a sua semana? — perguntei, apenas para ouvir algo possivelmente mais interessante que as conversas aleatórias que meus ouvidos involuntariamente conseguiam captar.
— Ah, foi boa. Minha semana foi boa sim. — contou ela, assentindo sem parar, com um ar de sonhadora. A Sra. Harmon se inclinou para nós: — Consegui fazer um novo sabor de trufas. Misturei cinco tipos diferentes de chocolates, deixa eu ver aqui…
Ela fuçou a bolsa repleta de bugigangas aleatórias e retirou quatro saquinhos transparentes com trufas, dando dois para cada.
— Nossa, parece bom, obrigado. — disse Kobrain, desembrulhando o plástico e colocando o chocolate na boca de uma única vez. Eu fiz a mesma coisa e senti enquanto a trufa era esmagada pelo céu da minha boca e o chocolate líquido escorria deliciosamente para minha língua, transmitindo uma sensação imediata de satisfação...
Nesse momento, o parlamentar se adiantou para o palco e chamou a atenção do público. Era um homem jovem e careca, usava um paletó padrão preto e sempre me passava uma impressão de ser um universitário.
— Olá, bom dia a todos...
— Está muito bom! — disse eu baixinho, ainda com o chocolate na boca, guardando a outra trufa no bolso.
— Ah, obrigada. — a velha sussurrou de volta, deixando escapar uma risadinha. — São feitos com ingredientes secretos!
Fiquei perplexa. Ingredientes secretos… As pessoas de hoje em dia estavam cada vez mais ousadas...
— Ultimamente temos ouvido notícias aterrorizantes, tanto na televisão quanto nos jornais, a respeito dos ataques que vêm acontecendo nas capitais. — começou o parlamentar Marcos Pratil. — Esse será, justamente, o tema da nossa discussão de hoje.
Um burburinho se alastrou repentinamente por alguns segundos. Apesar de ser bastante atual, o tema nunca havia sido discutido no Parlamento antes. Meu irmão me cutucou e apontou para um garoto que desviou rapidamente o olhar. Ignorei-o, dei uma cotovelada em Kobrain e voltei a prestar atenção no que Pratil estava dizendo, embora ainda preferisse estar desmaiada no porão de casa.
— Um atentado recente que ganhou bastante repercussão foi o da boate na Capital Celari. — continuou o parlamentar. — Todas as luzes se apagaram, mesmo que todo o resto do quarteirão continuasse acesso e não constassem quaisquer problemas em disjuntores, fios ou outros materiais... — Marcos andava de um lado para o outro, gesticulando com as mãos enquanto falava. — Está sendo realizada uma investigação em torno desse acontecimento, contando com testemunhas e registros de câmeras de seguranças que possuem proteção contra determinados ataques ocasionados pela energia U-Alternada.
O parlamentar colocou a mão debaixo da mesinha do palco e tirou um controle. Todos observaram em silêncio e com atenção enquanto o projetor em cima de nossas cabeças passava a exibir um vídeo de qualidade razoável no telão branco ao fundo. As lâmpadas foram apagadas.
Era possível identificar luzes multicoloridas dançando junto com as pessoas ao fundo. No primeiro plano do vídeo havia uma mesa redonda de madeira, cercada por um sofá vermelho semicircular virado bem de frente para a câmera. Um homem estava sentado, bebendo na companhia de uma mulher; os dois pareceram trocar palavras por alguns instantes até que a mulher se retirou. A cena mudou para a visão de outra câmera e foi possível acompanhar a mulher caminhando pela boate até cruzar com o olhar de um outro homem a alguns metros de distância.
Ambos pareceram entrar num estado de estupor.
— Eles estão se encarando? — Kobrain perguntou para mim, baixinho.
— Acho que sim.
O casal ficou ali por longos segundos até que, repentinamente, a mulher correu em disparada para a direção que viera. Muitas pessoas se sobressaltaram e saíram do caminho, esbarrando uma nas outras e deixando coisas caírem e se quebrarem no chão.
A cena mudou. O homem que fora deixado sozinho na mesa principal do vídeo se virou e se deparou com a mulher apontando em sua direção uma arma recém-retirada debaixo do vestido vermelho. O outro homem, entretanto, pulou por cima do sofá, interceptando-a. Houve uma troca de olhares indescritíveis enquanto as pessoas observavam tudo, certamente fascinadas pelo embate. Os seguranças da boate chegaram logo depois.
Ninguém se mexeu até que mulher lançou um pequeno e breve lampejo dourado para o alto e…
...tudo ficou preto.
A gravação terminava ali.
— Devem estar se perguntando o que aconteceu em seguida, presumo. — interrompeu Marcos, olhando para cada um de nós. — Pois bem, após a energia ter sido cortada, a luz voltou dentro de um minuto depois. O homem que estava o tempo todo sentado à mesa teve a garganta cortada e os dois suspeitos haviam desaparecido. — ele fez uma demonstração, passando a mão pela própria garganta. Apertei minha coxa e engoli em seco. Notei que o garoto esquisito me olhava antes de lançar um sorriso e virar o rosto novamente.
— Por alguma razão desconhecida, algumas pessoas possuem uma anomalia que as torna capazes de manipular elementos ao seu redor. Isso pode se revelar uma ameaça para a nossa sociedade. — enquanto ouvia Pratil falar, fiz um biquinho e ergui uma das sobrancelhas. — Imaginem, por exemplo, se algum deles acabasse temporariamente com a energia de um hospital, inclusive dos geradores, onde muitos pacientes necessitam de equipamentos elétricos para a sua recuperação?
Marcos ficou em silêncio, como se esperasse por uma resposta. Como se esperasse que alguém levantasse a mão e se pronunciasse.
Não era necessário. Parecia muito óbvio, não é?
— Uma simples pessoa Alternada seria capaz de destruir tudo aquilo que uma população inteira lutou para estabelecer. — Ele pegou novamente o controle do projetor. A imagem de um cartão-postal antigo e bastante conhecido foi exibido no telão. Eu o reconheci de algumas aulas de história que eu prestara atenção, o que não foram muitas. — Esta é uma foto da ponte que ligava a capital Akalik com a sua segunda mais importante metrópole, Fengari. Cerca de cento e trinta mil veículos passavam por ela todos os dias. Havia demorado seis longos anos para ser erguida.
O parlamentar apertou um botão no controle e a imagem foi trocada. Esta havia sido tirada do mesmo local da anterior, mas era completamente diferente. Era possível ver a lua cheia distante no céu enquanto a ponte, os cabos de sustentação e diversos veículos estavam flutuando a vários metros do chão.
— Esta fotografia foi tirada no dia em que a Ponte de Akalik caiu, matando dezenas de pessoas. — explicou o parlamentar. — Muitos, senão todos aqui, já devem ter visto. Há um vídeo que foi gravado no exato momento em que tudo aconteceu.
Era um dos mais visualizados no mundo, superando, inclusive, o “Festa da Cidade Alta”. Ele fora gravado de um ângulo diferente da imagem anterior e mostrava quando uma onda de energia veio de cima, em um único ponto no centro da ponte, se estendendo por todos os lados como uma enorme ventania. Houve gritos por toda parte e, em seguida, as áreas mais próximas tocadas pelo vento pareceram sofrer um efeito contrário ao da gravidade.
Tudo começou a flutuar. As colunas de sustentação da ponte se despedaçaram como gigantescos pedaços de biscoito e os cabos de sustentação ficaram livres como enormes tentáculos de um animal marinho. Pessoas pairavam no céu, sem nada para segurá-las.
Então o efeito se cessou: Tudo aquilo que subiu desceu de uma única vez…
Abaixei o olhar quando ouvi o som de tudo caindo e encarei meus dedos por alguns segundos. Olhei para os lados e notei que não fora a única.
— Isso, senhoras e senhores, foi causado apenas por duas dessas pessoas. — disse Marcos, dando ênfase no número. — Uma foi identificada e encontrada morta na própria ponte que desabou e a outra foi encontrada alguns dias depois e presa, sentenciada à prisão perpétua na prisão da capital Fyreos.
Eu havia lido uma notícia uma vez. Finigan Lai havia morrido há dois anos, na prisão. O incidente da ponte havia ocorrido há 40...
Olhei para os dois lados disfarçadamente. Todos estavam em silêncio, assistindo tudo com atenção.
— Mais recentemente ocorreu um ataque na capital de Cosmari. Foi há apenas alguns meses. Não resultou em nenhuma morte, mas algumas pessoas que estavam perto do local foram atingidas por destroços.
Marcos apertou mais uma vez o botão do controle e o vídeo seguinte foi sendo reproduzido. Havia crianças correndo e alguns adultos reunidos no terraço de uma casa quando um clarão branco iluminou o céu noturno. O som de um trovão pôde ser ouvido em menos de um segundo depois. O cinegrafista procurou a origem do barulho enquanto os outros se sobressaltaram, assustados. No horizonte, na direção do que parecia ser um conjunto de torres altas, dois raios cruzaram o céu dentro de um pequeno intervalo de tempo e houve uma explosão.
O vídeo continuava por mais alguns segundos. As pessoas observavam, perplexas, uma das torres do Ministério desabar na forma de destroços.
— A suspeita que realizou esse ato já foi identificada e está sendo procurada pelo governo de Cosmari e das outras capitais. Acredita-se que seria uma pessoa Alternada capaz de controlar, de certa forma, a eletricidade.
“Até que ponto iremos aceitar essas pessoas vivendo entre nós, pessoas que podem colocar qualquer um em perigo? Até quando vai valer a pena agir como se isso não fosse um problema, baseando-se apenas na possibilidade de que está tudo bem? Alguém deseja realizar algum comentário?”
Olhei para ambos os lados. O garoto esquisito ergueu a mão.
— Pois não? — disse Marcos. — Qual seu nome, rapaz?
— Me chamo Saulo Daniel. — Ele era alto e magricela e, como qualquer pessoa descendente da capital Magiri, possuía cabelos lisos e castanhos. — Quando eu era menor, havia me machucado enquanto andava bicicleta. Meu avô, que já faleceu há alguns anos, fez uma coisa comigo que sarou um corte enorme na minha perna do dia para a noite… Por que usar a Alternância dessa forma é errado?
— Olha, essa é uma boa pergunta, Saulo. — disse Marcos, colocando a mão no queixo. — É fato que essa capacidade pode ser utilizada para coisas como curar um ferimento, por exemplo, mas a questão é que isso estabelece uma consequência. Estudos recentes apontam que a manipulação da energia Alternada provoca danos irreversíveis àquilo que separa este universo dos milhares de outros que podem existir por aí. Isso cria dezenas de anomalias praticamente impossíveis de se estudar ou corrigir.
“Poderia haver um caos absurdo. A junção de dois mundos é algo impensável… Cada vez que alguém se utiliza da energia Alternada, cria-se uma pequena fissura no universo por onde essa energia pode transitar. Ao contrário de um arranhão que pode se curar sozinho, essas fendas não podem.”
“Sendo assim, até as coisas boas têm suas consequências. A diferença é que, independente do que for, uma talvez considerada boa ação é, na verdade, uma consequência que nos deixa um passo mais próximos do colapso.”
Pelo canto do olho notei a Sra Harmon do meu lado soltar uma risadinha quase inaudível. O garoto Saulo se recolheu em seu canto.
— Mais alguém gostaria de falar? — Marcos apontou para alguém do meu lado. — Qual o seu nome?
— Me chamo Lissandra. — Encarei minha mãe enquanto ela falava. O seu cabelo castanho e liso até a cintura era praticamente idêntico ao meu. — Este não é um assunto comum de ser discutido aqui no Parlamento. — Várias pessoas a olharam imediatamente, certamente identificando aquelas palavras como suas. — Por que a mudança?
Aquilo soou quase como uma afronta no silêncio de dois segundos e meio que se seguiu.
— Esta informação não me foi repassada. — respondeu Marcos, como se tivesse a mesma dúvida, fazendo um papel de quem só está fazendo seu trabalho. — Acredito eu que, apesar de convivermos diariamente com a presença da energia Alternada, mesmo que suas práticas sejam proibidas, ainda se encontra necessário discutir para, posteriormente, tomar quaisquer medidas. Mais alguma pergunta?
Olhei para minha mãe e reconheci que ela não estava muito satisfeita com aquela resposta. Nos minutos que se passaram, pessoas se pronunciaram a respeito de determinadas situações relacionadas com as práticas de Alternância, incluindo remédios e medicamentos criados a partir dessa forma de energia. Marcos Patril, entretanto, sempre tinha uma resposta pronta e uma justificativa. Na maior parte do tempo, continuei sentindo que seria melhor estar desmaiada, mas eu já tinha faltado vezes demais e não gostaria que ninguém ficasse pegando no meu pé.
— Esses recentes ataques mostram que há um problema. Apesar de toda a tecnologia sendo disposta a ajudar a encontrar e deter essas pessoas, os crimes são inevitáveis. — concluía Patril. — Entre as soluções possíveis poderíamos destacar um novo modelo de educação que englobe essas pessoas na sociedade em conjunto com um novo modelo de punições mais severas para aqueles que cometerem tais crimes… Entretanto, essa é uma discussão para o nosso próximo encontro.
Dito isso, as pessoas se levantaram e começaram a se retirar. O burburinho preencheu o lugar mais uma vez enquanto a luz da manhã entrava pelas portas duplas de madeira que davam passagem para a estradinha do lado de fora. Ficar aquele tempo todo lá dentro atiçou a minha fome.
— Pai, pode me dar dinheiro para comer alguma coisa? — perguntei enquanto saímos.
— Claro. — Ele tirou algumas moedas de prata do bolso e entregou a Kobrain, que era apenas um ano e meio mais velho que eu. — Aqui, para você e sua irmã.
— Aonde vocês vão? — perguntou meu irmão para nossos pais.
— Conversar com algumas pessoas. — disse minha mãe. — Não demorem muito. Iremos encontrar vocês no carro.
Kobrain e eu descemos a curta escadaria do parlamento, atravessamos o pátio e as grades dos portões principais e seguimos para o café do outro lado da rua. Eles serviam ótimos salgados, mas eu estava com uma vontade enorme de comer doces.
— Será que eles não teriam aquelas trufas mágicas? — perguntou Kobrain, com um olhar suspeito.
— Duvido muito. — respondi com um sorriso.
Era bastante incomum que o lugar ficasse cheio nos Sétimos da semana e, daquela vez, não foi diferente. Havia apenas algumas pessoas conversando enquanto nos dirigimos ao balcão e fomos recebidos pela Emily, a minha atendente favorita. As vezes eu ia ali com minha amiga, a Melissa, que, por sinal, era irmã mais nova da Emily, e nós três ficávamos discutindo a respeito da aleatoriedade da vida e de acontecimentos mundanos.
— Katy, bom dia! Vieram do Parlamento? — perguntou ela, enquanto guardava nos pacotinhos os doces que pegávamos nos potes. — Ficamos sabendo pela televisão sobre o tema de hoje. Uma decisão estranha.
— É, bastante. — comentei, pensando no que minha mãe havia perguntando enquanto ainda estávamos lá. — Eles devem mudar alguma coisa. Sabe, alguma lei. O de sempre.
— Não sei não, Katy. — disse Kobrain, pegando o seu pacote de guloseimas. Mais da metade era doce de leite. — Você não ouviu o parlamentar dizendo no final? Implementar uma pena ainda mais grave?
Agora que ele havia mencionado fora do Parlamento, senti como se minha mente estivesse acabado de escapar de uma jaula.
— Realmente. — disse eu. — Se a sentença atual é a prisão perpétua, uma pena mais grave seria…
Emily estendeu os doces e eu os peguei lentamente. Ela nos encarou e a frase pairou no ar, incompleta.
— Acho que não devemos nos preocupar, não é? — disse Kobrain, quebrando o silêncio imediatamente.
— É, acho que sim. — disse eu, pegando as moedas que nosso pai nos deu. — Aqui. Obrigada.
— Que nada. — respondeu Emily. — Obrigada vocês.
Kobrain e eu saímos e caminhamos até onde o carro dos meus pais estava estacionado e ficamos ali esperando por eles enquanto comíamos os doce. Observamos enquanto as pessoas iam embora e alguns conhecidos nos cumprimentavam enquanto partiam.
— Até mais, Katy, Kobrain. — disse a Sra. Harmon, atravessando lentamente a rua.
— Até mais! — Nós dois nos despedimos. Alguns veículos foram obrigados a aguardar cerca de uns dois minutos enquanto ela chegava ao outro lado. Observei a velha desaparecer por um beco enquanto me perguntava onde que ela conseguia esconder suas plantas. Duvidava bastante que fosse em uma pequena estufa no quintal, mas fiquei curiosa. O governo havia proibido uma série de plantas sob a justificativa de que elas podiam ser utilizadas para causarem distorções no espaço-tempo ou algo assim...
— Essa velha é esquisita. — comentou Kobrain.
— Nem me fale.
Taquei mais uma bala caramelada na boca e guardei o pacotinho biodegradável no bolso para depois jogar no lixo. Involuntariamente, comecei a trocar o peso do corpo de um pé para o outro, começando a ficar nervosa. O garoto esquisito passou por nós, lançando um olhar para mim sem falar nada.
— Ok, então.
Os pelos do meu braço se eriçaram e eu comecei a tremer, mesmo que fracamente. Foi nesse momento que meus pais chegaram.
— O que vocês compraram? — perguntou meu pai, Brendo, abrindo a porta do motorista e desbloqueando as outras.
— Uns doces… — Empurrei meu imrão com o mínimo de gentileza para dentro do carro enquanto oferecia o pacotinho para o meu pai.
— Hm.
Coloquei meu pé para o alto, bem na cara do meu irmão, ignorando os comentários a respeito da minha súbita agressividade, e tirei minhas sapatilhas junto com as meias. De dentro das meias tirei vários pedaços de papel suados. Os vidros do carro eram escuros e já estávamos a caminho de casa, então não me importei muito.
Kobrain se adiantou para pegar alguns dos papéis e eu não o impedi. Para mim, as palavras pareciam brilhar.
— Tranquilidade? — Disse ele, lendo cada pedaço de papel com um leve ar de deboche que se tornou preocupação a partir do terceiro. Meus pais perceberam o que estava acontecendo e olharam para trás. — Paciência. Paz. Compreensão…
E de repente, de uma só vez, todas as palavras se apagaram para mim. Minha mente pareceu entrar em um estado de choque como se eu estivesse o tempo todo no piloto automático, fazendo coisas que eu jamais faria, até finalmente acordar e perceber que alguma coisa estava muito errada.
O que estava acontecendo? — Foi a única coisa em que eu consegui pensar…
Senti como se uma onda de emoções, bloqueadas desde o momento em que saímos de casa, me invadisse de uma só vez.
...E então eu gritei.
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