O Mundo do Lado de Fora

6 Andrew - Medidores de Verdade


Notas iniciais
Boa Leitura! c:

A mulher sentiu como se sua alma tivesse sido dividida. Ameaçou dar um passo em direção à rua, mas desistiu antes de um carro cortar o vento a uma alta velocidade. Era essa a sensação

Ela caiu de joelhos, tremendo e com os pelos arrepiados. Ao olhar para o chão notou algo brilhante a poucos centímetros de distância e estendeu a mão para pegar, atraída pelo misterioso objeto como um imã. Igualmente fascinada, sentiu a forma do trovão cravada em relevo no metal.

Olhou em volta, colocou o colar no bolso da calça e levantou a cabeça para lançar um último olhar à torre em chamas antes de dar meia-volta e ir embora.

Enquanto caminhava em direção à minha mesa, senti meu coração acelerar. Era mais uma daquelas premonições sinistras sobre algo que estava para acontecer, mas que eu só seria capaz de perceber quando realmente acontecesse.

— Olá Milena, bom dia. – Eu havia cumprimentado a atendente ao passar pelo balcão. – Sabe se tem algo para mim?

— Bom dia Andrew. – Disse ela, de forma descontraída. Milena havia cabelos ondulados até o ombro e pintados de vermelho. Parecia estar sempre pensando em alguma coisa bem aleatória. — Parece que você terá a honra de inaugurar a antiga sala de apresentações.

Senti um súbito arrepio.

— Já está liberada? — Perguntei, deixando transparecer um pouco, mas só um pouquinho, de empolgação.

— Acho que sim. Você deveria falar com o Laxos.

— Ok. Obrigado. — Disse eu. — Vou fazer isso.

Minutos depois eu já havia colocado minha mochila tiracolo em cima da minha mesa e guardado na gaveta o jornal que eu havia comprado na banca da praça. Segui em direção ao escritório do meu irmão quando no meio do caminho Fred apareceu e me puxou pelo ombro.

— Você vem comigo. – Disse ele, em um tom monótono. Fred era um pouco mais alto que eu e bem mais forte. Tinha pele cor de café com leite e cabelos enrolados que combinavam bastante com sua barba, embora eu não gostasse muito da ideia de admitir isso para ele pessoalmente.

— Quê? — Foi o que eu consegui dizer. Ele me levou por alguns corredores e para dentro de uma sala vazia, com exceção de uma mesa não muito grande, mas o suficiente para duas cadeiras de cada lado. Havia também uma escrivaninha e um Mark igualmente confuso, que bebia em sua xícara de café personalizada com um monte de palavras “café” escritas com tamanhos e tipografias diferentes.

— Andrew? – Mark levantou o rosto antes de me sentar do seu lado.

— Esperem aqui. — Fred disse calmamente e fechou a porta. Fiquei alguns segundos em silêncio.

— O que foi que houve? — Perguntei ao Mark. Ele tinha um cabelo parecido com o meu e seu rosto era cheio de marcas de espinhas. Eu particularmente gostava muito de seus olhos cor de avelã e das blusas xadrez de manga comprida que ele usava. Ele estava usando uma azul com azul escuro agora.

— E eu que sei? — Comentou, dando de ombros e observando a sala antes de beber mais um pouco de café. Ele tinha a língua presa e por isso acabava estendendo sonoramente os “s” das palavras — Acabei de chegar.

Mark colocou alguns papéis sobre a mesa e começou a analisá-los. Também parecia que havia sido interrompido em algo possivelmente importante.

— Que é isso? — Perguntei, inclinando-me para ver melhor.

— É que eu estou um pouco atolado com esses casos de registros anormais. — Explicou ele, virando algumas páginas. — “Luz da cozinha apaga sozinha…”. Dê só uma olhada!

Era uma quantidade razoável de folhas. Peguei um papel e comecei a ler as informações que me pareciam mais interessantes.

— “Pássaros enlouquecem em determinados períodos do dia” — Eu li em voz alta. Estava escrito exatamente aquilo na descrição. — “Sons estranhos durante a noite”. O que há com esses casos?

— Não sei direito. — Mark respondeu, franzindo a testa. — Estão ficando sem pessoal para resolver esses problemas. Depois daquelas denúncias falsas e do fato de que mais da metade desses relatos não passam de enganos ou trotes, estamos todos ficando um pouco mais cautelosos. Provavelmente irão mandar a gente fazer esse trabalho.

Mark repentinamente arregalou os olhos e inchou as bochechas. Eu ergui as sobrancelhas, mas antes que meu amigo falasse mais alguma coisa, Fred havia voltado para a sala segurando duas pastas. Antes que terminasse de fechar a porta, nossa amiga Sarah, que também era assistente, o interceptou e entregou-lhe mais um documento.

— Obrigado. – Fred agradeceu.

Antes de sair ela piscou um olho para a gente, por baixo de seus óculos de lentes enormes. Fred lançou as pastas sobre a mesa e os papéis caíram com um baque alto que fez meus pés se retraírem involuntariamente para próximos do corpo. Levantei meus olhos em direção às pastas diante de mim, depois para Fred, para Mark e novamente para as pastas.

Fred pegou e colocou na mesa duas chaves que tirou do bolso.

— Divirtam-se. — Disse ele. Realmente parecia estar se divertindo um pouco com aquilo. — Qualquer coisa eu explico para vocês melhor, mas acho que vão pegar o jeito. — E piscou antes de fechar a porta e desaparecer pelo corredor.

— Está bem então, né. — Foi o que Mark disse, terminando o café. Eu peguei e abri uma das pastas e espiei rapidamente o que havia dentro dela.

— Vamos ver o que temos aqui…

Arregalei os olhos e, desta vez, não consegui me conter. Levantei-me imediatamente e como reação, Mark fez a mesma coisa.

— Quê?

— Pronto? — Perguntei a ele, pegando as chaves e balançando-as na altura de seus olhos. Demorou alguns segundos para que ele entendesse completamente, mas quando o fez, arregalou os olhos com um sorriso.

— Sem dúvida!

Mark pegou a outra chave e as duas outras pastas que estavam sobre a mesa e caminhamos pelo corredor em direção à sala de apresentação de projetos. Algumas pessoas lançaram breves olhares de curiosidade antes de seguirem com suas rotinas.

Coloquei a chave no buraco da maçaneta e girei, ouvindo um estalido metálico antes da porta se abrir para dentro do cômodo ligeiramente escuro e abafado. Minha mão tateou a parede do lado e as luzes se acenderam quando meus dedos se encontraram com o interruptor.

Foram cerca de dezessete segundos de contemplação. Havia uma mesa retangular e extensa no centro, cercada de cadeiras arrumadas. Havia um projetor no teto, virado em direção a um quadro branco no fundo da sala, próximo a uma mesa com um computador, uma impressora e alguns materiais de escritório. De tudo, o que mais me chamou a atenção foi a enorme cortiça que preenchia toda a parede oposta à porta

— Pronto? — Perguntei

— Pronto.

Mark e eu abrimos as pastas e despejamos tudo em cima da mesa de forma organizada. Ele percebeu que havia também uma cafeteira e não hesitou em preparar para a gente duas xícaras de chocolate com caramelo.

— Hm. Só provei desses uma vez há um tempão. — Disse ele.

Antes de começar a investigar os papéis, voltei à minha mesa no salão principal da delegacia e peguei de volta minha bolsa e o jornal guardado dentro da gaveta e os coloquei em um canto da sala de apresentações. Sentei-me em uma cadeira ao lado de Mark e juntos começamos a estudar os arquivos.

— Interessante. — Disse eu, com os olhos vidrados enquanto bebericava um pouco de chocolate e virava mais uma página. — Muito interessante.

O tempo passou de forma quase que imperceptível. Cerca de uma hora e meia, após uma observação ou outra, foi quando finalmente considerei ter compreendido tudo que tínhamos ali. A mesa havia se transformado em uma bagunça, o que ficou bem notável quando Sarah bateu na porta e entrou.

— Que é isso tudo? — Perguntou logo de cara, fechando a porta em seguida. Tirou sua bolsa do ombro e colocou em uma cadeira vaga antes de examinar o que tínhamos ali. — São os casos que Fred passou para vocês?

— Isso mesmo. — Afirmou Mark, levantando-se da cadeira para alongar os braços. Ele sempre fazia aquilo. — Está fazendo o que aqui?

— Bom, já é horário de almoço. — Explicou ela, ajeitando os óculos no nariz sobre a pele escura. — Posso ajudar em alguma coisa?

— Claro! — Foi o que eu disse, bastante relaxado e confiante quando levantei-me e caminhei em direção à cortiça. Peguei algumas tachinhas coloridas e as cravei em diferentes lugares. — Vamos lá às novidades: Fred nos deixou inaugurar a esta sala de apresentações depois daquele incêndio…

— Que ocorreu porque uma mulher invadiu aqui e entrou em combustão instantânea. — Sarah completou, gesticulando com a mão.

— Isso mesmo.

— Foi um dia legal. — Comentou Mark. Franzimos a testa para ele. — Que foi?

— Enfim, — Continuei ignorando aquele comentário. — Eles nos deram esses casos para que nós resolvêssemos ou sei lá o quê.

Sarah colocou a mão no queixo.

— Como assim? — Perguntou ela, balançando a cabeça. — Como querem jogar esses casos para cima da gente sendo que nem eles tiveram a capacidade de resolvê-los?

— Parece que estão tendo mais coisas com que se preocupar, acho. — Foi o que eu disse, indiferente, com os olhos fixos a observar os detalhes de uma tachinha azul entre meus dedos, na altura dos meus olhos. — Não estão com muito pessoal para se preocupar com esses casos antigos, então aqui estamos nós.

Os dois me observaram com atenção enquanto eu pegava o retrato de uma mulher loira no meio da papelada. Usei a tacha para fazer um furinho no canto do papel e o prendi na madeira. Em seguida, caminhei até minha bolsa e peguei um bloquinho de pequenos papéis adesivos; escrevi o nome da mulher e o colei logo abaixo de sua foto.

— Simone Levaios. — Disse eu, sem tirar os olhos daquilo que eu estava fazendo. — Encontrada morta após se jogar de seu apartamento em chamas. Bom, quer dizer... Tanto o apartamento quanto ela estavam em chamas, então… Ah, deixa pra lá.

Mark se levantou da cadeira e me entregou uma das outras fotografias.

— Philip Runior. — Disse eu novamente, enquanto colocava seu rosto um pouco distante de Simone antes de escrever seu nome abaixo da foto. — Sofreu um acidente de carro enquanto dirigia para fora da Capital.

Sarah desviou o olhar em direção a um dos documentos em cima da mesa e após ler rapidamente o que estava escrito, destacou a única fotografia presa em um clip na primeira folha e me entregou.

— Anthony Nui. — Disse ela, seriamente. — Degolado na cama pela esposa.

Colei a última foto e me afastei alguns passos para observar.

— Mark, por favor, pode imprimir para mim algumas fotos para preencher este quadro? — Disse eu, confiante. — Apenas com as informações importantes.

Ele assentiu e foi acessar o computador da sala.

— Bom, acho que consegui entender bastante coisa aqui. — Comecei sem hesitar, analisando brevemente os papéis mais algumas vezes. — Todas as vítimas residiam entre o Centro e os Bairros Exteriores… Bom, todos moravam especificamente em Meihamei Norte e acho que já é algo para começar.

Mark começou a pesquisar no computador por alguma imagem. Sarah me observava ao mesmo tempo que examinava os arquivos na mesa. Havia algumas outras fotografias espalhadas dos locais em que as vítimas haviam sido encontradas. Ela pegou as fotos e foi me entregando.

— Em todos os três lugares em que essas pessoas estavam antes de morrerem foram encontrados traços de Alternância. — Coloquei a imagem de um apartamento incendiado, de um veículo destroçado e de uma cama bagunçada com lençóis ensanguentados. — Simone era jornalista, Philip era um dos sócios de uma construtora que possuía contrato com a capital; Anthony era motorista de ônibus.

— Não parece que eles possuíam tantas coisas em comum assim. — Comentou Sarah, ajeitando os óculos no nariz mais uma vez.

— Talvez não a princípio. — Disse Mark calmamente. Sarah levantou uma sobrancelha quando eu sugeri com a mão que ela pegasse para mim um papel.

— O resumo de Simone. — Disse eu, sentando-me na cadeira e colocando a mão no queixo. Sarah me olhou por mais alguns segundos antes de começar.

— Vinte e sete anos, jornalista. — Ela começou a ler em voz alta. — Trabalhou recentemente em uma matéria que envolvia a explosão da torre do Ministério. — Levantou o olhar brevemente para mim e depois continuou. Mark digitou algo no computador. — Simone estava próxima ao Ministério no atentado do dia 12. Havia sido a pessoa responsável por ter alertado a polícia a tempo de impedir que algo pior acontecesse.

“Dados relevantes: Livros de conteúdo misterioso foram encontrados queimados em seu apartamento. Foram apreendidos e estão sob análise da perícia, com previsão de conclusão para o dia 22 deste mês; Vizinhos relataram que teriam ouvido o som de um trovão momentos antes do incêndio; Os pertences de Simone haviam sido retirados de seu trabalho na emissora R7 por um homem não identificado".

Sarah abaixou a mão.

— O principal suspeito então? — Mark sugeriu.

— Sim, isso mesmo. — Concordei sem a menor dúvida antes de pegar o resumo da próxima vítima:

— Philip Runior. — Comecei a ler. — Trabalhava na construtora ACT, tinha esposa e três filhos; morreu de acidente de carro. Informação relevante: Tem um sobrinho que viveu com ele durante alguns anos, mas que foi enviado ao complexo presidiário por apresentar habilidades envolvendo magnetismo. Antes de morrer, Philip havia sido alvo de ameaças anônimas. Sua esposa explicou em seu testemunho como “agindo de forma estranha”. Vestígios de Alternância foram encontrados em seu veículo.

Ficamos alguns segundos absorvendo aquelas afirmações. Mark se levantou da cadeira e pegou para ler a última biografia.

— Anthony Nui, trinta e quatro anos, motorista. Era casado e tinha um filho e uma filha. Vestígios de Alternância foram encontrados no quarto em que Anthony foi assassinado e também na cozinha. A faca utilizada no crime tem as digitais da esposa, que prestou depoimento e está presa enquanto aguarda uma decisão do conselho. O filho de Anthony, Tobias, está para prestar depoimento no dia 14...

Sarah e eu erguemos a cabeça. Levantei-me e caminhei até Mark para observar o texto por cima de seu ombro.

— O quê? — Foi o que eu disse, boquiaberto. — Quando foi que esse assassinato aconteceu?

— Hm. Aqui diz que foi ontem. — Afirmou Mark, um pouco confuso. — Quer dizer, acharam o corpo ontem de manhã.

Sarah também se levantou.

— São que horas agora? — Disse ela, abrindo a porta da sala e inclinando-se para espiar o lado de fora. Voltou com a testa ligeiramente franzida. — Tem alguma foto do filho dele aqui? Desse Tobias?

Ajudamos ela a vasculhar entre os papéis.

— Aqui, este aqui. — Disse eu. Ela pegou a fotografia gentilmente da minha mão e a analisou com atenção.

— Venham. — Ela falou e nós três fomos até a porta e nos inclinamos ao ponto de ver que o garoto da foto era acompanhado por dois policiais em direção à sala de interrogatório

Minha barriga estava começando a roncar, mas fiz o possível para desconsiderar esse detalhe enquanto caminhava de um lado para o outro, tentando não deixar transparecer tanto assim minha curiosidade.

— Podem ir almoçar se quiserem. — Eu havia dito para Mark e Sarah, que relutaram um pouco antes de aceitarem aquela sugestão.

— Tudo bem, a gente se vê depois. — Disse Sarah.

— Até.

Parei de andar em círculos e ergui a cabeça para olhar Laxos com uma prancheta na mão caminhando para a sala de interrogatório atrás de mim. Quando meu irmão passou, apertei o passo para acompanhá-lo.

— Recebi os dados do caso do assassinato de Anthony, o que teve a garganta cortada. — Disse eu rapidamente. Laxos passou a andar um pouco mais devagar. — Diz que o interrogatório do filho dele será agora.

Laxos parou e encarou-me por alguns segundos antes de se virar e continuar a andar. Eu o segui, esboçando um sorriso.

— Venha. — Foi apenas o que ele disse, de forma amigável. Eu o segui e juntos entramos em uma sala grande e escura com uma enorme janela que nos permitia ver claramente o garoto, talvez impaciente, sentado com as mãos cruzadas sobre a mesa. Havia uma outra cadeira, desocupada, do lado oposto de onde ele estava sentado.

Tobias não parecia ser muito mais velho que eu, alto e esguio com o cabelo enrolado e bagunçado, tinha uma expressão dura.

Depois de trocar algumas palavras com seu parceiro Fred, que também estava ali, Laxos saiu da sala escura dando um tapinha no meu ombro e reapareceu em menos de um minuto depois, do outro lado do vidro. Inclinei-me para mais perto e comecei a prestar atenção.

— Tobias Haryn Nui. — Disse Laxos calmamente para o garoto, que levantou o olhar enquanto meu irmão puxava a cadeira e se sentava. Ele segurava uma folha na mão. — Sei que pode parecer difícil para você, com tudo isso que aconteceu com seu pai e sua mãe… A psicóloga comentou que estava tudo bem para você falar, correto?

Ele hesitou alguns segundos antes de assentir. Um barulho estranho começou a invadir meus ouvidos aos poucos como se eu tivesse acabado de colocar fones de ouvido. Uma trilha sonora começou a tocar, aumentando gradativamente de volume.

— Sim. — Consegui ouvir o garoto dizer; o som reproduzido estaticamente por um par de alto-falantes.

— Tudo bem. — Consegui ler através do movimento dos lábios de meu irmão. Olhei para a minha direita e notei que um homem observava um monitor que parecia exibir algumas informações importantes como pressão arterial e batimentos cardíacos. Não pareceu mostrar-se nenhuma peculiaridade durante todo o tempo. — Vamos começar.

Meu irmão iniciou a conversa com Tobias e foi fazendo algumas perguntas. O misterioso som que invadia minha cabeça havia ficado mais alto agora, mas não chegava a necessariamente ser um incômodo. Era agradável de uma forma curiosa, incentivando-me a usar os olhos para absorver tudo o que eu podia ver.

Laxos movia os lábios e formava palavras que meus ouvidos não chegavam a ouvir, mas que eram imediatamente compreendidas. Ao terminar de falar, meu irmão franzia um pouco a testa e erguia o queixo, apenas uns poucos centímetros.

Virei minha atenção para o garoto, que corrigiu sua postura e mordeu quase que imperceptivelmente o lábio inferior. Seus lábios e sua língua se moveram para formar o que seria a resposta. Ele balançou a cabeça e assentiu em uma ou outra afirmação. Em alguns momentos olhei de relance para o monitor, que continuava a afirmar que não havia nada demais.

— O que você acha? — Ouvi uma mulher do meu lado perguntar. Foi quase que como um sussurro distante.

— Deve mesmo estar falando o que sabe. — Disse um homem que não reconheci. — Ás vezes as pessoas são só loucas.

Continuei observando. Eventualmente inclinava meu pescoço de um lado para o outro como que se aquela pequena mudança no ângulo de perspectiva pudesse me fazer perceber algo que eu não notaria se permanecesse com a cabeça reta. Os olhos de Tobias desviavam de Laxos para a mesa com uma frequência razoável. Nos momentos em que seus olhos piscavam, percebi que ficavam fechados um pouco mais tempo que uma pessoa em condições normais. Alguns milésimos de segundo. Talvez eu estivesse ficando um pouco paranoico quando notei também um impulso de gesticular sua mão, imediatamente reprimido, quando ele recomeçou a falar.

Interessante.

Tobias olhou para aquilo que veria ser um espelho, mas justamente na direção onde eu estava.

Retirei-me da sala antes que o interrogatório terminasse, peguei minhas coisas e fui encontrar-me com Mark e Sarah no restaurante ao ar livre do outro lado da praça.

— Você está bem? — Sarah perguntou quando me juntei a eles. Sentei ao lado de Mark. — O que foi que houve?

Coloquei meu prato com a comida sobre a mesa e notei que eu estava começando a encarar as pessoas que caminhavam e comiam por ali. Algumas faziam coisas curiosas como mexer em suas bolsas para contar se haviam moedas o suficiente para pagar a passagem ou trocar a música que estava tocando nos fones de ouvido. Percebi que o misterioso som ainda estava lá na minha mente, fazendo com que eu não conseguisse ouvir muito bem nada ao meu redor.

— Desculpem. — Disse eu depois de perceber que havia se estendido um silêncio constrangedor. Revirei minha bolsa e peguei um pote de comprimidos, no qual peguei um e engoli, secamente. — Tinha esquecido de tomar.

Sarah franziu a testa e estendeu a mão para ver melhor o pote.

— Por que você toma isso? — Perguntou ela, lendo o rótulo. — “Ansiedade e hiperatividade”?

— Bom, não é exatamente por esses problemas, mas funciona de qualquer forma. — Expliquei, dando de ombros enquanto olhava em direção à delegacia. Uma construção grande de dois andares, com as árvores e o lago decorando a paisagem. — Além disso, seja o que for, ele não estava contando a verdade.

— Quem? — Mark perguntou, ainda de boca cheia.

— Tobias. — Afirmei, indicando com a cabeça o garoto que saía da delegacia ao longe, acompanhado de uma mulher. Pai assassinado e mãe presa; deveria ser alguma tia. Talvez eu não tenha dado muita importância para a informação a respeito de onde o garoto estava morando agora, ao ler seu relatório.

— Ele foi liberado então? — Sarah perguntou, gesticulando com uma batata frita na mão.

— É. parece que sim. — Aos poucos o misterioso som que eu ouvia foi desaparecendo. — Não tem nada que eles possam fazer para segurará-lo. Afinal, há provas sólidas que apontam para a mãe como a assassina.

— Ah, droga! — Mark exclamou, arregalando os olhos e mordendo a bochecha. — Esqueci completamente.

— O que foi?

— Lembra daqueles registros de fenômenos anormais que eu lhe mostrei hoje mais cedo? Era para eu já ter resolvido sobre o que fazer com eles. — Explicou ele, com impaciência na voz, levantando-se da cadeira. Ainda havia um pouco de comida no seu prato. — Irei ver o que eu faço.

E saiu em direção à delegacia, apressado, verificando seu relógio de pulso. Sarah continuou me fazendo companhia.

— Como vai indo você e a Abigail? — Perguntou ela, descontraída. A menção de Aby fez meu abdome ficar todo arrepiado.

— Estamos bem. — Disse eu, com um pouquinho de entusiasmo. — Ela vai estrear na semana que vem a primeira peça dela no teatro municipal!

— Sério? Que legal! É sobre o quê?

Eu sorri

— Robôs e coisas assim. Não lembro direito.

Nós dois rimos.

Conversamos um pouco sobre as novidades e outros assuntos aleatórios e quando terminei de comer, voltamos para o trabalho. Quando chegamos, procuramos por Mark, mas não o encontramos.

— Aonde ele deve ter ido? — Perguntei.

— Não sei. — Respondeu Sarah. — Vou ver se precisam de mim para alguma coisa.

— Ok.

Ela saiu da sala de apresentações e eu fui em direção ao computador, imprimir as imagens que Mark havia separado. Pacientemente, peguei uma tesoura e comecei a cortá-las, sentindo-me um pouco sozinho. A foto de um bairro, uma emissora, uma construtora e uma agência de transportes. Coloquei tudo no quadro, fazendo as ligações necessárias com linhas de lã azul.

— É, assim está bom. — Anunciei, para ninguém em especial. Fiquei pensando em Tobias e em como havia alguma coisa estranha com relação àquela história.

Peguei minhas coisas, arrumei a mesa e apaguei a luz antes de fechar e trancar a porta. Fui até minha outra mesa e analisei as gavetas, colocando tudo que eu poderia precisar na mochila. Antes de sair fui procurar por Laxos.

— Ele e Frederick saíram um pouco depois de você. — Disse Milena, comendo seu segundo pudim de chocolate. Ela sempre usava a colher virada para baixo para comer as sobremesas e sempre que fazia uma pausa, deixava o talher encostado nos lábios. — Foi um acidente em um cruzamento. Os semáforos se abrira, ao mesmo tempo. Foi uma enorme confusão!

Pensei um pouco a respeito daquilo antes de decidir o que fazer. — Se alguém perguntar, diga que eu saí para resolver alguns assuntos daqui, pode ser?

— Ok. — Respondeu ela, raspando o potinho do pudim com a colher. — Eu faço isso.

— Obrigado.

Saí da delegacia e caminhei até o ponto de ônibus do outro lado da Praça Honorária do Norte. Atrás de mim o Sol da tarde, sem nuvens, refletia-se nas águas ondulantes do Lago Norte da Capital. Pouco tempo se passou até que o ônibus que eu esperava aparecesse e eu embarquei, não antes de checar mais uma vez o endereço que eu havia copiado…

...da pasta com os dados de um assassinato.