O Mundo de Lena 3

2 Capítulo 2- Aquela Estranha do Século Passado – Jhenifer


Notas iniciais
Olá leitores... Eu percebi que no capítulo anterior, eu esqueci de colocar o dicionário da fic nas notas finais, não farei isso de novo... Quando tiver um " * ", vai ter a definição lá embaixo... Anninha, diva divosa do meu heart, obrigada pelo comentário... Enfim, boa leitura...

É muito cômico olhar pra trás agora, lembrar-me de quando conheci Lena Sarajevo e perceber que a acho ainda mais estranha agora do que naquele tempo e ainda assim amá-la mais do que os romances clichês do século passado costumavam descrever.

Eu não imaginava que ela ia se tornar tão importante assim pra mim, mas por mais incrível que possa me parecer, lembro cada detalhe daquela conversa.

Foi numa terça-feira, dia 09 de julho de 2120, e eu estava no refeitório da faculdade, esperando na fila para pegar o lanche quando senti meu Zap vibrar do pulso; era meu professor Túlio avisando que um novo remédio experimental para AIDS C havia chegado de Marte e nós do primeiro ano de Farmacêutica teríamos que analisar. Neste momento surge uma dúvida em minha mente e eu acabo pronunciando sem querer. — Por que será que mandam gente da Terra pra Marte?

— Quer mesmo saber ou só estava pensando alto? — Virei-me num sobressalto e me deparei com uma garota de cabelo extremamente cacheado e um rosto meigo, quase infantil. Ela me encarava com os braços cruzados e um sorriso atencioso.

— Um pouco dos dois. — Sorri educada.

— Eu fiz um TCC sobre isso quando estava na sétima classe, se quiser te explico depois que você pegar seu lanche. — Ela sacodiu os ombros como se aquilo não fosse nada de mais enquanto meu queixo caía em perplexidade.

— Você precisava fazer TCC na sétima classe?

— Na verdade não. Eu que faço TCC pra faculdade de história desde a quarta classe. Algumas pessoas dizem que sou obcecada por história. Eu diria que sou só um pouquinho lec*.

— Só um pouquinho? Quem me dera ter estudado com alguém só um pouquinho lec como você. No colégio, só passava na média. A não ser em química, sempre fui ótima nessa matéria.

— Que bom, espero que se crie uma entre a gente.

— Como assim?

Ela riu sozinha e mexeu no cabelo antes de dizer. — Nada não, piadinha antiga. A fila andou, moça. — indicou com a cabeça.

Depois que peguei meu lanche, voltei até a mesa daquela morena e questionei desta vez intencionalmente. — Então, porque pessoas são mandadas a marte?

— Pois bem... — Ela fez uma expressão pensativa e por um instante me pareceu estranhamente familiar, talvez por parecer tinha acabado de sair de um filme antigo. — De forma resumida, tudo começou no primeiro terço do século XXI, com a curiosidade humana: “Será que é possível viver em Marte?”. Então começaram a treinar pessoas e desenvolver equipamentos, pesquisar formas de cultivar alimentos, etc. Depois de décadas de preparação, finalmente mandaram a primeira leva de humanos para Marte e registraram a vida deles. Deu super certo, além de ser possível, era bem saudável manter uma vida lá porque tudo precisava ser cultivado da maneira certinha. Ao descobrir isso, começaram um projeto de mandar mais pessoas, ainda com todo o cuidado e treinamento, é claro. No ano de 2082, a quantidade de pessoas em Marte se igualou a quantidade de pessoas na Terra.

— Uau.

— Pois é. E foi até um grande avanço pra humanidade, por assim dizer. Conforme foi aumentando a população lá, foi diminuindo a população aqui e como eles são independentes de nós, ficou mais fácil distribuir a renda do planeta Terra, arrumar emprego e moradia, conscientizar as pessoas sobre a poluição e diminui-la consideravelmente, controlar o crime, investir em educação, biotecnologia, medicina e por aí vai.

— É, eu sei. Muitos dos novos tratamentos de doenças que eu estudo vem de Marte pra ser testado aqui.

— Estuda medicina?

— Farmacêutica.

— Interessante.

— Sabia que a cura pra AIDS B foi descoberta em Marte e apenas aperfeiçoada aqui?

— Sabia. Chegou na Terra no dia em que eu nasci: 07 de junho de 2101.

— Ah você é de junho também? Sou do dia 21 de junho de 2102.

— Então já serve pra ser da minha família. Digamos que Sarajevos adoram nascer em junho.

— Sarajevos. Hm.

— Nossa, estamos aqui conversando e nem nos lembramos de nos apresentar. Meu nome é Lena Sarajevo, prazer.

— O prazer é meu. Sou Jhenifer, Jhenifer Lopes.

— Jura? Por causa da cantora?

— Tem uma cantora com o meu nome?

— Tinha. Ela era atriz também, muito boa por sinal. Só que ela morreu bem antes da nossa geração. Começou a carreira em 1999.

— Uau. Como você sabe disso?

— Gosto de história. Na verdade, gosto do passado, então pesquiso sobre tudo quanto é história. História da música, história da arte, história da medicina e por aí vai. Tenho um hatapok* só pra isso.

— Sabe em que ano criaram os hatapok’s?

— Sim, foi em 2063.

— Eu pularia 63, é impossível colar desde que inventaram esse negócio.

— Mas também foi em 63 que foi levada à público a cura para o câncer.

— Pensando melhor, deixa 63 quieto.

Ela riu de uma forma muito espontânea, mas aquela foi a primeira das muitas provas presenciais que tive de que quanto mais espontâneo é o riso da senhorita Sarajevo, é mais escandaloso também. Então eu fiquei em um impasse se ria junto ou se morria de vergonha alheia. Cobri a testa com a palma da mão e sorri esperando esse momento passar.

Conversamos por poucos minutos depois disso, mas Lena realmente era uma gênia quando se tratava de história, como se tivesse vivenciado cada coisa que contava. Isso era impressionante e muito estranho ao mesmo tempo, ela parecia até um Hatapok humano com tanta informação armazenada.

Enfim, o final daquela conversa não foi exatamente o que definiu o nosso futuro, ela basicamente só me disse “tchau”. O que de fato pareceu coisa do destino é que nós duas seguimos pelos caminhos errados e acabamos nos topando de novo, o que me chamou atenção não foi topar com uma moça “conhecida”, mas sim o fato de ela estar andando de skateboard (não se via muitos por aí desde a popularização dos hoverboard’s* há mais de três décadas atrás, então nunca tinha visto um tão de perto antes).

— Oi, Lopes. — Me saldou com o mesmo sorriso atencioso da primeira vez que a vi, o que depois descobri ser sua marca.

— Saravejo. — Cumprimentei de volta tentando manter a educação de olhar para seu rosto ao invés do objeto sob seus pés.

— Aproveitando que nos esbarramos de novo, que tal passar o código do seu Zap pra gente conversar mais e se conhecer melhor? — Sua postura retraída era fofa e engraçada ao mesmo tempo.

— Ah claro. — Estendi o pulso e Lena passou a tela do próprio Zap próxima a do meu, ouvimos o típico barulhinho de laser, então ela sorriu atenciosamente para mim e deu impulso no skate, sumindo pelo corredor.

E foi assim que tudo começou.

Notas finais
E estão? Lena, que garota estranha... Adora ela kkkkkkkkkk xoxo Atenciosamente, Leoa Santana... 1 = Yang Soul: Banda de sucesso entre jovens e adolescentes nas décadas de 2110 e 2120. 2 = Zap: Dispositivo parecido com um relógio de pulso digital. Com ele é possível mandar mensagens curtas (com até 15 palavras) e fazer ligações com hologramas. 3 = Lec: Fragmento da palavra “intelectual”. Similar a “nerd” ou “cdf”, porém sem o objetivo de ofender. 4 = Hatapok: Dispositivo didático. Fechado tem o formato de um circulo prateado; aberto parece uma chave, porém quatro vezes mais grossa. Abre apenas com a córnea do usuário e já preenche o cabeçalho de trabalhos, deveres, etc. com o nome e número de chamada do aluno. É mais difícil colar desde que inventaram isso porque é comprovadamente um bilhão de vezes mais fácil fazer os trabalhos e tarefas do que hackear um Hatapok, isso sem falar na segunda dificuldade para mudar o nome do aluno na programação criptografada. 5 = Hoverboard = Skate voador. Tentativas de criar skates voadores foram feitas desde o lançamento do filme De Volta Para o Futuro, mas parecia ser impossível fazer algum que funcionasse fora de superfícies metálicas e por mais de 1h. Porém, entre os anos de 2064 e 2078, Rarvey Gavintosh trabalhou em um protótipo que flutuava em diversas superfícies e conseguiu, em 2079, o financiamento de Sandriane Masterson e Pat Sander para levar a ideia à diante. Em 2083, Infinity 370, o primeiro modelo de hoverboard funcional em superfícies não-metálicas foi lançado no mercado e desde então a empresa MasterSander vem lançando novos modelos mais modernos, mais velozes e capazes de mais manobras, ganhando assim, bilhões no público infanto-juvenil.