O Mundo de Lena 3
3 Capítulo 3- How I Understernd I’m In Love – Lena
Notas iniciais
Para qualquer ser humano da Terra ou de Marte deve ser absolutamente óbvio que fui apaixonada por Jhenifer Lopes antes mesmo de saber seu nome, porém, como sou mais lerda que um Olidúgio*, apenas percebi no dia 5 de dezembro de 2122, também conhecido como a primeira vez que ela esteve em minha casa.
Não dá pra negar, foi engraçado ver a expressão de espanto no rosto dela ao ver como era a minha casa com seus móveis flutuantes e cores claras como mandava a moda das últimas décadas.
— Já pode fechar a boca se quiser. — Sussurrei soltando uma gargalhada logo em seguida.
— Oh, sinto muito. Não esperava que sua casa fosse desse século já que você não é. — Ela rebateu e dessa vez nós duas rimos.
— Bom, é que a casa, A CASA, não é minha, é da minha mãe. Espera só até ver o meu quarto. — Fiz um rápido movimento com as sobrancelhas, forjando um “olhar sugestivo”.
— Ah, mas eu preciso ver isso. Vamos lá.
— Relaxa, migs. Ainda vamos comer alguma coisa antes.
— “Migs”? O que é “migs”?
— Costumava ser um jeito carinhoso de dizer “amiga” de 2012 á 2017, mais ou menos.
Jhenifer baixou a cabeça e riu. Revirei os olhos e fiz sinal para que ela me seguisse até a cozinha. Minha mãe já havia deixado a comida pronta, então só precisamos esquentar. Eu via a agitação da Jhen em seus olhos, tinha a perfeita noção de que ela estava ansiosa para ver o meu quarto/museu. E só por isso demorei ainda mais degustando os alimentos até que minha amiga ficasse nervosa.
— Ok. Venha. — Murmurei rindo enquanto colocava as louças sobre o balcão que se encarregaria de limpá-las e guarda-las, até que ter nascido nesse século tem suas vantagens. — Meu quarto é por aqui, siga-me.
É muito difícil achar outro tipo de fechadura, então era a moderninha mesmo que se abria com a leitura da palma da minha mão. Não pude deixar de rir de novo por Jhenifer ter ficado surpresa com isso, mas ri mais gostosamente quando ela entrou no quarto e não soube para onde olhar primeiro.
— Isso. É. Incrível. — Murmurou pausadamente enquanto entrava mais no cômodo. — E enorme. Parece um túnel do tempo.
— Sim. — Respondi orgulhosa dando uma boa olhada em volta também. — Fiz nesse estilo para parecer exatamente isso. Tenho quatro irmãs e um irmão, todos mais velhos que eu. Quando ainda moravam aqui, eram seis quartos lado a lado no corredor, mas quando eles se mudaram, minha mãe não tinha muito o que fazer com os quartos deles, então arrumei um trampo, antes que pergunte é trabalho, e pedi pra usar o espaço. Ela deixou, aí eu quebrei as paredes e torrei todo meu dinheiro desde os quinze anos aqui, mas não me arrependo de uma eza*. Fui montando durante os anos, daqui para o fim vai indo na ordem: Primeiro quarto é de 2100 à 2020, o segundo quarto de 2019 à 2010, o terceiro, de 2009 à 2000, o próximo, de 1999 à 1980, o quinto, de 1979 à 1920.
— Impressionante. — Jhen me lançou um sorriso que me fez ficar distraída por alguns segundos.
— Obrigada. — Sorri também. — Acho que vai gostar do sexto, é onde tenho todo tipo de aparelharem de som e vídeo. E algumas centenas de all stars, mas essa parte não vai te interessar.
— Mentira!
— Verdade.
— Me mostra logo!
Segurei a mão da Jhenifer e a guiei pelo meu túnel do tempo, observando-a admirar meus objetos dos dois últimos séculos com uma expressão curiosa e impressionada.
— Agora me diz que o passado não é incrível. — Desafiei apontando para a esquerda, onde havia aparelhagem de som. — Boombox, Junkebox, cd, vinil. Ah, vinil. O som é tão mais lindo e bom.
— Por favor, me diz que posso colocar um. — Jhen me fitava com os olhos brilhando.
— Claro, pode escolher.
Ela parecia uma criança com tanta empolgação de mexer naquelas coisas que só vira em filmes antigos. Isso me divertia, eu não parava de sorrir.
— Posso perguntar uma coisa? — Jhenifer se pronunciou enquanto começava a mexer o corpo no ritmo de uma batida que reconheci facilmente como da década de 1960.
— Claro. — Respondi enquanto sentava no colchão sobre cama de madeira (que havia sido muito, muito difícil de achar).
— Porque tem tantas bandeiras de arco-íris espalhadas?
— Por causa da luta pelos direitos LGBT. Hoje em dia, não existe mais a necessidade disso, mas eu gosto de deixar as bandeiras pra lembrar o quanto lutaram pra garantir que eu tivesse os direitos que tenho.
— Como assim?
— Antigamente, homossexuais eram vistos como anormais ou uma abominação e não tínhamos o direito básico de fazer coisas como adotar crianças, registrar um filho concebido por meio de inseminação artificial como tendo duas mães, casar.
— Sério?
— Sim. E a representatividade transexual, então? Era decadente. Nem parece por hoje ser tratado com tanta naturalidade, mas a luta foi intensa pra conquistar essa igualdade. Eu me orgulho muito do que eles fizeram por nós.
— Uau.
— É.
Ela continuava a dançar, parecia estar se divertindo tanto. Eu com certeza me divertia observando-a. Depois, enquanto tentava acertar a agulha ao trocar de disco, Jhen tornou a me questionar. — E os vestidos de noiva? Por que tem um monte?
— Eu acho bonito. E interessante. Todos esses estilos em diferentes épocas. Os vídeos que tenho de casamentos desde os bonitos e clássicos até os mais diferentes e inusitados. Eu me imagino casando algum dia, sabe? Mesmo não sendo comum ter toda a cerimônia e sendo bem difícil achar alguém que realmente queira casar, eu posso me imaginar de vestido branco e all star entrando no salão cerimonial. Ou esperando minha noiva no altar.
— All star? O normal não seria um salto? — Embora ainda mantivesse os olhos nos LP, ela assumiu uma expressão confusa.
— Eu pareço normal pra você? — Sorri divertida.
— Não mesmo.
— Eu não gosto de saltos e o casamento é uma coisa muito pessoal pra se fazer como todo mundo espera. Tem quem não se case de branco, eu quero casar de all star. Casar-se-ia de salto?
— Provavelmente descalça. Mas eu não me imagino casando. Você consegue?
Ela virou para mim e sorriu, então a cena se formou nítida em minha mente: Jhenifer entrando no salão com um vestido branco e delicado, o cabelo arrumado para trás com apenas duas mechas emoldurando o rosto radiante, os pés descalços e um pequeno buquê de flores nas mãos. Foi nesse momento em que caí em mim do quanto estava apaixonada por ela.
— Sim, posso imaginar perfeitamente.
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