O Mundo de Lena 3
4 Capítulo 3, 9- Estranhamente
Notas iniciais
A forma como me notei apaixonada por Lena me torna quase tão estranha quanto ela, mas já era tarde. Eu estava perdida pelos encantos peculiares de minha querida estranha do século passado.
Era um domingo tranquilo, 23 de maio de 2123. O frio do inverno estava se mostrando presente mesmo que ainda estivesse muito cedo para tal. Meu plano inicial era ficar em casa o dia inteiro relaxando debaixo dos edredons, porém Lena comprou minha companhia com um café da melhor cafeteria de Pacífica*. O que foi golpe baixo, já que ela sabia que Luna’s Coffe era o meu lugar favorito no mundo desde antes da faculdade.
Meu copo já estava quase vazio quando Lena terminava de explicar (com o excesso de detalhes típicos de sua personalidade) uma quadrilogia de filmes baseado em uma trilogia de livros homônima chamada The Hunger Games (ou, na tradução, Jogos Vorazes) das primeiras décadas de 2000 em que a autora (Suzanne Alguma-Coisa) imaginava um futuro de uma forma totalmente insana e criativa para nossa pequena bola azul conhecida como Planeta Terra.
— Resumindo, a guria tinha um arco, uma flecha, a cara e a coragem, e decidiu que já tava bom daquela palhaçada, inspirou uma puta revolução contra um presidente loucão e uma capital com trocentas vezes mais tecnologia de combate! — Embora eu pouco entendesse sua linguagem, a empolgação daquela estranha do século passado contagiava-me tanto que em um tempo mínimo ela conseguiu me deixar curiosa para ver tais filmes. — É doideira, confia no que to dizendo, c tem que assistir.
— Estou considerando seriamente. O que quer dizer que você já tem carta branca pra me arrastar pra sua casa e me forçar. — Lena riu enquanto eu terminava meu café. — Porém, algo me intriga nesses filmes e livros que tens me indicado nos anos que nos conhecemos.
— O que?
— Porque sempre imaginavam um futuro com destruição, guerras, opressão e algum “escolhido” devia se levantar contra um líder tirano? Sempre coisas assim, Maze Runner, Star Wars/Track, Divergente, agora The Hunger Games e até Aquele-Que-Nunca-Lembro-O-Nome no suposto mundo da magia.
— Mas esse não deve mesmo ser nomeado. — Ela riu e a acompanhei por me lembrar vagamente do enredo.
— Responda minha pergunta.
— Bem, esse era a realidade que se apresentava na época em que tudo isso foi escrito. — Lena assumiu uma postura séria de quem sabe do que está falando, eu simplesmente adoro quando ela faz isso, minha estranha sempre foi uma ótima professora. — A tensão de países criando armas e a suposta eminência de um conflito em que uma nação apenas não sabia o dia em que a outra começaria a atacar. Isso não gerou apenas sagas como essas que você citou, mas muitos filmes e jogos de zumbis surgiram a partir do princípio que alguém poderia muito bem estar tentando criar um vírus para uma guerra biológica e as coisas fugiriam ao controle. Claro que hoje em dia não parece pela pacificidade em que vivemos.
— Verdade, não parece nem um pouco. Que bom, né?
— Que ótimo. Mas um fato curioso sobre as guerras é que...
A maioria das vezes em que a Lena dizia “fato curioso” meu cérebro desligava e eu meio que parava de prestar atenção. Não pensem que fazia por maldade, era algo automático. O que acontece é que história é o interesse dela, não o meu. Mesmo que algumas coisas sejam realmente fascinantes.
Enfim, essa foi uma das ocasiões em que me distraí, mas não dentro da minha cabeça como de costume, e sim na Lena. Eu apenas reparei nela; a cor e o brilho dos olhos, os cachos, o contorno dos lábios, o tom da pele, os traços do rosto, etc. Tudo parecia uma combinação perfeita formando uma adorável garota com personalidade estranha que me encantava. Acho que fiz isso por mais tempo do que imagino.
— (...), eu sei que vai estar rolando muitas festas por causa do aniversário de 125 anos de Pacífica, mas sei lá. Vem comigo? — Lena esperou pela minha resposta alguns segundos até perceber que não viria. — Jhen?
— An? Desculpa?
— Dia nove de julho. — Ergui a sobrancelha, ainda confusa. — Vai ter um festival de música de épocas diferentes, várias tendas de décadas e vai ter até bandas covers tocando. E, se você tiver a fim, queria que fosse comigo, vai ser bem legal.
— Vai ter música do meu tempo também?
— Claro. Tem de tudo lá, é um dos maiores festivais do país. Estou esperando há doze anos pra acontecer em Pacífica de novo. Da última vez, não pude ir. Juro que chorei por três semanas.
— Não duvido. — Ri e observei Lena revirar os olhos, então tentei usar uma gíria velha. — Eu “toco”, vou contigo.
— Acho que c quis dizer “topo”. — Ela deu um meio sorriso e meu coração acelerou de forma estranha.
No dia não entendi, mas nas semanas que se seguiram, esses momentos se tornaram cada vez mais frequentes e alguma hora a ficha caiu, eu estava gostando daquela estranha do século passado.
O frio estava diminuindo e no dia do tal festival, o clima estava ameno. Lena havia me levado dias antes a uma loja de roupas antigas, onde comprei um conjunto dos anos 1960: saia rodada preta com bolinhas brancas, camiseta branca e jaqueta vermelha.
Quando ela veio me buscar (em um carro alugado), porém, estava usando o mesmo estilo que sempre usava. Calça jeans, tênis all star, camiseta cinza, uma camisa de flanela (acho que é esse o nome) vermelha amarrada na cintura e boné de aba reta preto virado para trás meio de lado.
— Pensei que era pra vir a caráter. — Murmurei com o cenho franzido enquanto a observava abrir a porta para mim.
— E é mesmo. Mas o minhas roupas já tem cara de cara de anos 2000. Claro que isso não é jeans de fato, é JeansC3* porque jeans de verdade é mais caro, difícil de achar e menos confortável, entretanto, o que vale é a intenção. — Lena piscou e sorriu. — Não se preocupa, isso vai combinar com a sua roupa. — Então ergueu o braço e exibiu um tipo de lenço preto com bolinhas brancas.
— Não é de usar no pulso, né?
— Não, é pra usar na cabeça. Só que boné faz muito mais o meu estilo.
— Concordo.
Entramos no carro e saímos do chão. A tecnologia dos carros era muito inferior a dos hoverboards, e ainda é, por isso é possível apenas flutuar com eles, não voar de fato. Mesmo assim, são veículos bem econômicos em comparação aos carros normais.
Não demorou mais que meia hora para chegarmos ao local do evento e ao ver o quão grandioso era, meu queixo simplesmente caiu.
— Eu não disse? — Lena riu ao ver meu espanto. — Festival de Música Felícia Knox*, o maior de todo o país. Me surpreende que você nunca tenha ouvido falar, já que gosta tanto de música.
— Já ouvi, mas não sabia como era. Uau! Se conseguem fazer isso em Pacífica, imagina só o que fazem lá fora!
— Eu vi os vídeos, é surreal. Salve Knox. Vamos entrar?
— Vamos.
Saímos do carro, Lena apertou o botão no controle para que ele se estacionasse, e nós entramos. As tendas estavam colocadas em ordem crescente, começando pela década de 1920. Dançamos um pouco em cada uma delas (demoramos mais em 1960), porém quando nos encaminhávamos para a tenda nos anos 1980, a banda que tocava ao vivo reproduziu os primeiros acordes de uma música que descobri depois se chamar Sugar, Lena parou de súbito.
— Ah, essa música. — Ela começou a me puxar para o meio da multidão do show. — É uma das que mais ouço. 2014, Maroon 5.
— A batida é bem legal.
— Dança comigo.
— Mas ninguém tá dançando aqui. — Olhei em volta e ri.
— E agora vai ter, ué? — Ela pousou minhas mãos em seus ombros e pôs as dela em minha cintura, me fazendo revirar os olhos e seguir seus movimentos. — “Sugar, yes please. Won't you come and put it down on me?”
— Não canta, tá estragando a música.
— Idiota. — Ela sorriu seu melhor sorriso torto e se aproximou mais, fazendo com que o ar de sua respiração batesse em minha bochecha.
— Isso antigamente era um elogio? — Murmurei tentando disfarçar meu nervosismo sem motivo.
— Não exatamente um elogio. — Porém sua resposta tão próxima ao meu ouvido me desestabilizou ainda mais. — Era como um xingamento carinhoso entre pessoas que tem um determinado grau de intimidade.
— Certo. Então você também é idiota.
Me arrepiei quando ela riu abafado, eu queria beijá-la.
A música mudou. Essa eu conhecia por excesso de convivência com a Lena. 2014, Jota Quest – Dentro de Um Abraço.
Me afastei e olhei para o palco onde a banda tocava, mas Lena envolveu os braços em minha cintura e manteve o corpo perto do meu. Deitei a cabeça em seu ombro e cantarolei em voz apenas o suficiente para que ela ouvisse, soube que ela estava sorrindo.
Quando a música estava pela metade, Lena me virou de frente para ela, tirou o laço do pulso e envolveu no meu (por dentro havia um arame para facilitar).
— Pra não se esquecer de hoje. — Alegou sorrindo, então me deu um beijo na testa.
— Porque você tem que ser tão certinha? — Sussurrei e envolvi seu pescoço com os braços, puxando-a para um beijo lento e longo, como se um instante pudesse ser eterno.
— Queria fazer isso há muito tempo. — Ela não abriu os olhos de imediato.
— E porque nunca fez?
— Eu sabia que se fizesse uma vez, não ia querer parar mais.
— Ninguém disse que teria que parar. — Dei-lhe um selinho demorado e sorri.
— Isso significaria um tipo de compromisso. Aos 22 anos. Pode lidar com isso, garota do século XXII?
— Se for com você, sim, garota estranha do século passado.
— Tipo um namoro? Não aberto? — Lena semicerrou os olhos, desconfiada.
— Yes. É esquisito, mas sinto que não quero que você seja de mais ninguém, só minha.
— Parece que você esta entrando num tipo de amor démodé.
— Estranhamente, não me importo.
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