Talvez você esteja se perguntando: mas quem e como será esse rapaz chamado Caio? Bem, vamos chegar lá. Primeiro, preciso dizer que ao tomar o terceiro copo de uísque duplo, o rapaz já estava meio bêbado. E estar ali, naquele lugar com tudo branco não estava ajudando nenhum pouco. Foi então que lhe veio a ideia de criar coisas além de bebidas...

Caio terminou de tomar o terceiro copo de uísque. Respirou fundo. Sentia tontura, mas como tudo estava completamente branco, não conseguiu sentir vertigem. O rapaz então começou a pensar um pouco sobre religião. Era de família cristã, mas não tanto como seus parentes. Mas, se ele tinha agora o poder de um deus, então deveria seguir um padrão já repetido nas religiões que conhecia.

—Então vamos criar um universo!

E então, como imitando o episódio descrito no livro de Gênesis¹, Caio pronunciou as palavras que mais conhecia sobre a criação do universo.

—Haja luz²!

De repente, Caio ficou quase cego. E teria ficado, se não tivesse fechado os olhos. O lugar ficou tão brilhante que era impossível ver qualquer coisa que fosse. Estava claro demais para que qualquer ser humano conseguisse ver.

—Vamos, Caio! Pense!

E, como se alguma coisa ouvisse o seu pedido, a ideia lhe veio tão clara como aquele lugar inundado de luz branca. Se ele criasse um objeto que concentrasse toda a luz, talvez fosse possível enxergar se olhasse na direção oposta.

—Que toda a luz se concentre em um único lugar.

Caio abriu os olhos. Não estava mais tudo branco, mas havia uma grande escuridão sobre aquele lugar onde estava. Na verdade, aquele mundo continuava branco, mas não havia luz para iluminá-lo, a não ser um único ponto pequeno, distante, que cintilava acima de sua cabeça.

Olhando para aquilo, Caio se lembrou de uma noite. Fechou seus olhos para recuperar melhor a memória. Estava frio, mas ele estava bem agasalhado. Estava no colo de uma mulher, que estava sentada em um banco. Ela apontava para o céu, repleto de inúmeros daqueles pontos brilhantes. Sentiu-se nostálgico. Não conseguia se lembrar do seu rosto, mas de alguma forma, aquela mulher era importante para ele. Foi então que Caio não apenas lembrou-se do frio, mas sentiu-o. Estava com muito frio. Quando abriu, o lugar estava moldado. O céu repleto daqueles pontos brilhantes, o chão de terra, como na sua lembrança. Havia um banco na sua frente, vazio. Caio sentou-se.

Aquele lugar imitava suas memórias. Caio entendeu que o lugar onde estava não apenas obedecia a suas ordens, mas também tinha acesso a suas memórias e as construía. Onde diabos estaria então?

—Estrelas! – ele finalmente lembrou. O céu começou a se expandir mais, outros pontos brilhantes apareceram, bem como o que em outro universo eram conhecidas como constelações. Caio viu Órion surgindo, bem como a Ursa maior, as Plêiades e várias outras que pareciam surgir em sua memória. Vez ou outra, a cena da mulher apontando para o céu lhe vinha à cabeça, mas em nenhum momento ela surgiu naquele banco.

Caio ficou ali sentado, segurando o copo vazio nas mãos. Não posso te dizer por quanto tempo, pois naquele lugar isso ainda não existia, pois, seu criador ainda não pensara em nada daquilo. Talvez você pense que isso não está de acordo com a ciência. E de fato, sinto dizer que realmente não está. O local onde nosso protagonista está não é regido pelas mesmas leis que ciência demonstra. Mas é provável que você, leitor, as conheça muito bem.

Notas finais
¹Livro importante para o judaísmo e o cristianismo. Falam sobre a criação do mundo na perspectiva dessas duas religiões. ²Gênesis, 1:3. Frase usada pelo deus judaico-cristão que deu origem à luz, na perspectiva do cristianismo e judaísmo.