O Mundo Dá Voltas.
44 Borboleta...
Mal dormi a noite inteira, turbilhões de pensamentos pairaram pela minha cabeça a madrugada toda, eu olhava para minha barriga e não conseguia acreditar que daqui a uns meses ela já estaria visível, me arrepiava só de imaginar meu bebê se mexendo dentro de mim.
O tempo que consegui cochilar foi quase nada, mal fechei os olhos e o despertador já tocava para ir trabalhar. Saco. E o pior é que eu com sono, é sinônimo de eu com mau-humor. Me arrumei o mais rápido que consegui, peguei meu celular na esperança de ter alguma mensagem de Bruno. Nada.
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– Ih que cara amassada hein. — Allan falou ao me ver entrando no estúdio. — Nem pra passar uma maquiagem, credo. Dormiu sem o insuportável foi?
– Dormi! — Respondi seca.
– Ah não Jéssica, pode mudando seu humor agora. Exercícios já. — Ele falou sentando-se na posição de lótus acenando para que eu fizesse o mesmo.
Por mais irritada que eu estivesse, meditar yoga com Allan mudava meu humor de verdade. Ele era o tipo de fotógrafo-amigo, com ele eu tinha liberdade pra falar sobre tudo. Era meu 2º confidente.
– Allan. — Falei interrompendo o silêncio que havia entre nós.
– Diga. — Ele falou ainda concentrado na yoga.
– Não vou conseguir trabalhar de alma leve sem te contar. — Falei baixo.
– O que foi que você aprontou borboleta? — "Borboleta" era como ele me chamava na maioria das vezes, Allan dizia que eu era como uma, frágil no início, porém, bela e forte na caminhada da vida. Achava lindo isso.
Me levantei respirando fundo. Eu tinha que contar pra ele.
– Senta porque lá vem bomba. — Falei séria.
– Credo, tá me dando medo do que vem por aí. — Ele falou sentando-se numa poltroninha.
– Espero que você não fique bravo comigo, isso não atrapalha em nada meu trabalho, talvez um pouco mais pra frente, mas agora, em nada. — Falei enquanto trancava a porta para ninguém ouvir.
– Af mulher para de enrolar e conta logo o que é que já tô aflita. — Allan cruzou as pernas de um jeito tão engraçado, que não segurei a gargalhada. — Não vi graça nenhuma.. — Ele resmungou ainda com as pernas magras cruzadas.
– Tá, parei. — Falei ainda segurando um riso que insistia em sair. — Como vou contar isso de forma sutil?! Ah já sei!
– Conta menina!!! — Allan falou curioso.
– Digamos que daqui a nove meses você vai conhecer seu ou sua futuro (a) modelo. — Falei com uma expressão sapeca.
– E você me diz isso assim, na lata?! — Allan falou meio... irritado (?) — Borboleta, você vai ficar uma baleia! Quem vai ser minha modelo de bíquinis agora? Essas meninas daqui são tudo umas barangas, tem dó né.
– PARA ALLAN! — Falei gargalhando.
– Para nada, não é você que vai ter que passar madrugadas e madrugadas pondo photoshop nas celulites e estrias delas. Você nem tem isso, o que já é um milagre, porque cá entre nós, você come MUITA besteira. Ai meu Deus do céu, eu joguei purpurina na cruz pra merecer isso foi?! — Allan falou um tanto quanto desesperado. Meus risos pra ele.
– Ah que legal você só pensa em você né? Eu não vou ter trabalho nenhum. Não vou ter que trocar fraldas cheias de cocô. Não vou ter que passar madrugadas e madrugadas acordada, amamentando e etc. Nada disso é difícil né? você só pensa em você, sempre foi assim, desde que eu te conheci é só você. VOCÊ quer as fotos perfeitas. VOCÊ pode comer várias porcarias durante as sessões de fotos. Sempre VOCÊ né gazela saltitante.
– NÃO ME CHAMA DE GAZELA SALTITANTE. — Allan revoltou-se com meu último comentário. O termo "gazela saltitante" era usado por Bruno, só pra irritar Allan. — Tá ficando insuportável igual seu marido. — Ele resmungou.
– Tô mesmo, gazela. — Falei marrenta.
– Só não te dou uns tapas porque agora você é gestante. — Ele deu de ombros. — Vem cá me dá um abraço.
Me aproximei e deixei ele me abraçar, tão terno.
– Tô feliz por você borboleta, de verdade. — Ele falou já emocionando-se. — Lembra quando você chegou aqui?! Eu me encantei logo de cara. — Allan falou com um sorriso nos lábios.
– Lembro. — Respondi sorrindo.
– Ele já sabe? — Allan perguntou referindo-se à Bruno.
– Ainda não. — Respondi.
– Quando vai contar?
– Ainda não sei. — Respondi sentindo uma agonia no estômago.
– Tá pálida. Tá bem? — Allan falou pondo uma de suas mãos em minha testa.
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– JESSIE!!! — Senti alguém bater de leve em meu rosto.
– O que houve?! — Falei abrindo vagarosamente os olhos.
– Você desmaiou. — Allan falou preocupado. — Você tomou café borboleta?
– Não. — Resmunguei sentando-me.
– Você tá louca borboleta? Lembre-se que agora você tem um ser dentro de você para alimentar. Fica aí, vou buscar algo pra você. — Allan falou todo prestativo.
– Jessi?! — Ouvi uma voz feminina ecoar pela sala.
– Oi Joanna, entra. — Falei ajeitando-me na poltrona.
– Allan disse que você desmaiou agora a pouco. O que houve?! — Joanna, recepcionista-assistente da agência e de Allan falou meio preocupada.
– Mal estar matinal, nada demais. — Respondi sorrindo.
– Estou aqui do lado, se precisar de alguma coisa já sabe né?! — Ela falou sorridente dando uma piscada com o olho esquerdo.
Assenti com o polegar e virei-me para uma pilha de revistas que ficavam na mesa de Allan.
– Baba, só não se acostuma. — Allan entrou com uma bandeja enoooorme cheia de delícias.
– Pra que isso tudo?! Exagerado. — Respondi sorrindo.
– Você acha mesmo que eu ia ficar olhando você comer e não trazer nada pra mim? Ah tá né Jessie. — Gargalhamos juntos e ficamos conversando enquanto eu me esbaldava no pão integral com geleia.
– Comendo desse jeito você vai passar de borboleta à baleia em menos de 5 meses. — Allan falou rindo depois de um tempo.
– Mas você vai continuar me chamando de borboleta. — Respondi gargalhando.
Ouvimos o telefone tocar e eu já me 'comportei' caso fosse alguém importante pra agência.
– Que que é insuportável? — Allan falou no telefone, já me olhando. Pelo insuportável já imaginei que era Bruno. — Ela não veio trabalhar. — Olhei horrorizada para ele. — Não sei, deve estar arrumando alguém melhor que você, se bem que isso nem é difícil.
Tomei o telefone bruscamente das mãos de Allan, antes que ele falasse mais besteiras.
– Vim trabalhar sim, não liga pra ele. — Resmunguei dando língua para Allan, que retribuiu o gesto.
– Me deram folga, tô indo pra casa. Queria você lá. — Bruno falou manhoso.
– Tô cheia de coisas pra arrumar aqui. — Falei mais manhosa ainda. — E o Allan não me deixaria ir pra casa sem fazer nada. — Fiz cara de cão sem dono para Allan, que por sua vez, debochou do meu gesto.
– Deixa eu falar com ele. — Bruno falou já rindo.
– Olha o que vai falar. — Respondi rindo também. — Toma, ele quer falar contigo.
– Diga. — Allan falou seco. Me encostei ao ouvido dele, na tentativa dele deixar eu escutar a conversa, mas nada. — Ai como você é nojento, não sei como ela te suporta.
– O que ele disse? — Falei ao ver Allan desligar o telefone depois da última frase.
– É nojento. Eca. — Allan resmungou. — Pode ir borboleta.
– Sério?! Ai te amo. — Falei beijando o rosto dele. — Mas o que ele disse? — Perguntei ainda curiosa.
– Vai logo antes que eu me arrependa. Não interessa o que ele disse, mas eu acho nojento. — Allan parecia mesmo indignado com o que Bruno disse à ele, seja lá o que foi.
Peguei minhas coisas e segui até o carro. Feliz.
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