O Monstro dentro de mim
11 Fuga
Na manhã seguinte, Leah acordou devagar.
Sem sobressalto.
Sem dor.
Por alguns segundos, ficou imóvel, ainda de olhos fechados, como se qualquer movimento pudesse quebrar algo raro demais para ser real.
O corpo estava... quieto.
Nenhuma tensão acumulada nos músculos. Nenhuma dor latejando nas articulações. Nenhum calor estranho correndo sob a pele. Nenhuma urgência.
A loba estava em silêncio.
Leah abriu os olhos.
O teto do quarto parecia o mesmo. As paredes, as mesmas. A luz cinzenta da manhã atravessava as cortinas como sempre.
Mas, havia algo errado.
Ou melhor... Algo diferente.
Virou o rosto lentamente.
O espaço ao lado na cama estava vazio.
Ainda assim... não parecia vazio.
O lençol guardava marcas. O travesseiro estava levemente afundado. E havia calor ali. Residual. Fraco. Mas, presente.
Como se ele tivesse saído há pouco.
Leah ficou olhando por tempo demais.
Então puxou o ar fundo e se sentou de uma vez, passando a mão pelo rosto.
Errado.
Aquilo tudo estava errado.
Não era só sobre ter dormido bem. Era sobre como tinha dormido. Contra ele. Protegida.
Segura de um jeito que não lembrava de já ter sentido antes, não como loba nem como humana.
E ele tinha ido embora.
Claro que tinha.
Leah soltou um riso baixo, seco, sem humor algum, e se levantou da cama antes que pudesse pensar mais.
Se ficasse ali, ia começar a sentir.
E isso ela não ia permitir.
Amarrou o cabelo num coque torto, vestiu as primeiras roupas práticas que encontrou e saiu do quarto com passos rápidos demais para alguém que, pela primeira vez em meses, não estava cansada.
Precisava fazer alguma coisa.
Qualquer coisa.
Precisava ocupar as mãos antes que o corpo começasse a lembrar.
Desceu para a cozinha cedo demais.
Margaret Vale já estava lá, como sempre, organizando o café da manhã com eficiência silenciosa. O cheiro de pão quente preenchia o ambiente.
Ela olhou para Leah uma única vez.
E entendeu.
Não havia olheiras profundas.
Não havia exaustão.
Havia outra coisa.
— Bom dia — disse Margaret, neutra.
— Quero limpar a cozinha.
Margaret ergueu uma sobrancelha.
— A cozinha já está limpa.
Leah pegou um pano mesmo assim.
— Então vou limpar melhor.
— O que exatamente está tentando evitar sentir?
Leah não respondeu de imediato.
Passou o pano na bancada já impecável, com força demais para ser necessário.
— Gordura acumulada.
— Naturalmente.
Margaret voltou ao que fazia, mas observando.
Leah continuou.
Lavou superfícies que já brilhavam. Organizou utensílios por tamanho, depois por função, depois desorganizou e organizou de novo. Abriu armários que ninguém abria. Limpou dentro de gavetas.
Nada era suficiente.
Porque não era sujeira.
Era ausência.
E ausência não saía com água.
*****
Às oito e meia, estava no pátio, segurando uma mangueira.
A chuva fina caía constante, fria, quase silenciosa.
Leah apontava o jato d'água para um carro já molhado.
Sem pressa.
Sem necessidade.
Margaret apareceu na porta.
— Senhorita Clearwater.
Leah não se virou.
— Oi.
— Está chovendo.
Leah olhou para o céu, como se só então percebesse.
Ficou alguns segundos em silêncio.
— Ótimo. Economia de água.
Margaret cruzou os braços.
— Ele saiu? — A mão de Leah apertou levemente a mangueira.
— Quem? — Margaret indagou.
— Não me teste hoje.
Silêncio.
A água continuou escorrendo pela lataria.
— Não vi nem o ouvi hoje.
Isso foi pior.
— Melhor assim. — Leah desligou a mangueira de uma vez.
— Para quem? — Margaret inclinou levemente a cabeça.
Leah não respondeu.
Porque não sabia.
*****
Adrian havia desaparecido.
Nenhum passo nos corredores superiores. Nenhuma presença silenciosa nos cantos da casa. Nenhuma sombra parada observando sem ser notada.
Era como se nunca tivesse estado ali.
Como se a noite anterior tivesse sido inventada.
Leah disse a si mesma que aquilo era bom. Melhor, na verdade.
Facilitava.
Não precisava encará-lo. Não precisava descobrir se ele se arrependia. Não precisava lidar com o peso de lembrar exatamente como o corpo dele se encaixava ao redor do seu.
Mesmo assim, percebeu, pouco antes do almoço, que estava ouvindo a casa.
Cada som.
Cada rangido.
Cada passo distante que não era dele.
Ridículo.
Na hora do almoço, abriu a geladeira sem necessidade.
— O senhor Thorne saiu?
Margaret nem olhou.
— Não.
Leah pegou uma garrafa qualquer. Não abriu.
— Então está doente?
— Também não.
Leah fechou a geladeira com mais força do que precisava.
— Então por que sumiu?
Margaret pousou a faca com calma.
— Porque alguns homens não sabem o que fazer quando alguém encosta neles sem medo.
O silêncio caiu pesado.
Leah cruzou os braços.
— Não sei do que está falando.
— Sabe sim.
*****
À tarde, Leah decidiu que iria para La Push no fim de semana.
A decisão veio rápida demais.
Fácil demais.
Como se já estivesse esperando por ela.
Casa.
A palavra surgiu na mente com uma força estranha.
Não a mansão. Outra. A antiga.
A que no momento parecia mais segura e conhecida.
Onde ninguém conseguiria a desestabilizar mais do que a de agora. Nem mesmo Sam.
Pegou o telefone e ligou para Sue.
A voz da mãe veio quente, imediata.
— Leah? Está tudo bem?
Leah fechou os olhos por um segundo.
— Sim. Só... pensei em ir no sábado. Você vai estar em casa?
— Para você, sempre. — Houve uma pausa. — Está feliz aí?
Leah olhou pela janela.
A chuva continuava fina.
Pensou em silêncio.
No peso de um braço ao redor da cintura. No som de um coração forte sob sua bochecha. Na ausência disso agora.
— Não sei.
Sue riu baixo.
— Então é importante.
Leah desligou pouco depois.
Irritada.
Porque a resposta fazia sentido demais.
*****
No fim da tarde, subiu ao corredor leste com lençóis limpos. O trabalho era automático.
Seguro. Controlável.
Ao passar pela biblioteca, ouviu um som.
Seco.
Vidro contra madeira.
Depois silêncio.
Leah parou.
A porta estava entreaberta. Não devia entrar, mas entrou.
A biblioteca estava mergulhada em meia-luz. Cortinas fechadas. Lareira baixa. O ar carregado de couro, madeira e chuva... E ele.
De costas. Imóvel. Grande demais para aquele espaço. Mãos apoiadas no peitoril da janela. Ombros tensos sob a camisa escura.
Presente.
Real.
Leah sentiu o corpo reagir antes da mente.
Algo apertando no peito.
Algo aliviando.
Algo irritando.
— Você pisa pesado quando está tentando não fazer barulho — disse ele, sem se virar.
Leah travou por um segundo.
Depois entrou de vez.
— Você sumiu.
Silêncio.
— Estive ocupado.
Ela soltou um riso curto.
— Fazendo o quê? Evitando contato humano? — O reflexo dele no vidro mostrou um leve movimento na boca. — Estratégia eficiente.
Leah deu mais dois passos. Parou a uma distância segura. Não tão perto. Não tão longe.
— Eu vou viajar no fim de semana.
— Assunto pessoal? — Os ombros dele enrijeceram quase imperceptivelmente.
— Minha mãe.
— Entendo.
Mas, não entendia.
E ela percebeu.
— Só dois dias — acrescentou, sem saber por quê.
Ele virou levemente o rosto, ainda em sombra.
— Não pedi explicações.
— Eu sei.
Pausa.
O ar mudou.
Mais denso.
Mais perigoso.
— Você entrou no meu quarto ontem — disse Leah, apertando os lençóis.
— Você estava gritando.
— Eu estava dormindo.
— Exatamente.
Ela quase sorriu.
O silêncio que veio depois não era mais o mesmo.
Tinha peso.
Tinha memória.
Tinha corpo.
— Leah.
— O quê?
Ele demorou.
Tempo demais.
Como se cada palavra precisasse atravessar alguma coisa dentro dele antes de sair.
— Sobre ontem à noite...
Leah prendeu a respiração.
Esperou.
Esperou mais.
— Esqueça.
Foi como levar água fria direto no peito.
Leah ergueu o queixo no mesmo instante.
— Com prazer.
Virou-se antes que ele pudesse ver qualquer coisa no rosto dela e saiu.
Passos rápidos.
Controlados demais.
No corredor, o coração batia forte.
Não de ansiedade.
De falta.
*****
Dentro da biblioteca, Adrian permaneceu imóvel.
As mãos apoiadas na madeira.
A respiração contida.
Porque "esqueça" não era o que queria dizer.
Mas, foi a única coisa que conseguiu dizer.
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