Leah Clearwater deixou La Push, sem olhar pra trás.

Forks desapareceu no retrovisor como um lugar engolido por neblina: as árvores escuras, as ruas molhadas, a memória de vozes que ela conhecia demais. O cheiro da chuva naquela cidade sempre carregaria lembranças que ela não queria mais mastigar até sangrar.

Sam. Emily. A matilha. O eco constante de pertencer a todos e nunca a si mesma.

Ela estava cansada de ouvir pensamentos alheios, cansada de descontar sua raiva em todo mundo. Por isso dirigiu por horas até a costa norte do estado, depois mais longe, até onde a floresta se tornava menos familiar e as estradas se abriam em colinas frias voltadas para o mar.

Ali, numa cidade pequena demais para mapas importantes, ela encontrou um anúncio pregado no quadro de empregos de uma mercearia: Procura-se assistente residente para administração doméstica. Salário excelente. Discrição absoluta exigida.

Leah quase riu.

Discrição e ela jamais haviam coexistido.

Ainda assim, precisava de dinheiro, distância e silêncio. Principalmente silêncio.

A propriedade ficava isolada sobre um penhasco, atrás de portões de ferro altos o bastante para afastar curiosos e fantasmas. A casa não era exatamente uma mansão; era algo mais antigo, mais severo, construído em pedra escura, com janelas compridas e poucas luzes acesas. Parecia uma fortaleza erguida contra o mundo.

Quem a recebeu foi uma mulher elegante de cabelos grisalhos presos num coque impecável, postura reta como régua e olhos atentos demais para perder qualquer detalhe.

— Sou Margaret Vale. Administro esta casa há trinta e três anos.

Leah ergueu uma sobrancelha.

— Então você é a governanta.

— Se precisar simplificar, sim.

A resposta quase arrancou um sorriso dela.

Margaret a conduziu por corredores longos, tapetes espessos e móveis antigos que custariam mais do que Leah ganharia em uma década. Havia quadros cobertos por lençóis, relógios silenciosos, lareiras apagadas. Uma riqueza congelada no tempo.

— Seu empregador preza rotina, ordem e privacidade — disse Margaret. — Não tolera perguntas pessoais, visitas inesperadas, barulho excessivo ou incompetência.

— Fofo.

— O salário compensa a dificuldade. — Margaret ignorou o comentário sarcástico de Leah.

— E qual é exatamente a dificuldade?

— O senhor Adrian Thorne. — A mulher parou diante de uma porta dupla.

— Ele não participa da entrevista? — Leah esperava um nome menos teatral.

— O senhor Thorne participa de tudo. Apenas nem sempre visivelmente. — Aquilo cheirava a excentricidade, e isso já irritava Leah.

A entrevista aconteceu numa biblioteca imensa. Cortinas pesadas bloqueavam a maior parte da luz. O ar tinha cheiro de couro, fumaça antiga e cedro. Margaret sentou-se atrás de uma mesa. Leah permaneceu de pé.

Então ouviu a voz. Profunda. Rouca. Vinda da escuridão no canto oposto da sala.

— Você chegou atrasada três minutos.

— Eu me perdi nesse mausoléu. — Leah virou a cabeça instantaneamente. Nada além de sombras.

— Resposta insolente.

— Observação inútil.

Houve um silêncio carregado, seguido de um som que ela demorou um segundo para reconhecer: uma risada curta, incrédula, como se ninguém o respondesse assim há anos.

— Quantos empregos perdeu por causa desse temperamento? — ele perguntou.

— Posso lhe garantir que o número de empregos perdidos é menor do que o número de pessoas que já tentaram me intimidar.

Os sentidos lupinos de Leah buscavam o homem no escuro. Ela o captou: calor intenso, batimento cardíaco lento e pesado, o cheiro masculino de madeira, metal limpo e alguma nota medicinal. Não havia medo nele. Nem hesitação. Apenas vigilância.

— Você se considera forte? — ele perguntou.

— O suficiente.

— Todo mundo acha isso até ser testado.

— Então me testa e para de falar escondido.

Margaret fechou os olhos por um instante, como quem já previa desastre.

Houve movimento nas sombras. Leah sentiu antes de ver. Algo alto. Largo. Presença densa o bastante para alterar o ar da sala.

Então a voz veio outra vez, mais próxima:

— Está dispensada.

A governanta lançou a Leah um olhar que misturava pena e curiosidade, então a acompanhou até a saída.

Leah tentou a sorte pelo dinheiro, mas sabia que era desbocada demais para um ambiente tão refinado quanto aquele.

Ainda assim...

Quando a porta da mansão se fechou atrás dela, percebeu que estava furiosa por um motivo específico:

Não ter conseguido vê-lo.


Dois meses se passaram desde aquela entrevista em que Leah Clearwater aprendeu a respirar sem ouvir pensamentos alheios.

Dois meses desde que deixou La Push para trás com uma mochila, dinheiro contado e um sonho simples de ser feliz longe de casa.

Na nova cidade, ninguém sabia seu nome antes de perguntá-lo. Ninguém conhecia seu ex. Ninguém a olhava como um problema hereditário.

Era o bastante.

Conseguiu emprego à noite, como bartender, num bar movimentado no centro, onde homens falavam alto demais, mulheres mentiam melhor que eles e as gorjetas pagavam o aluguel minúsculo que cheirava a tinta velha e café queimado.

Dormia pouco.

Comia mal.

Sentia falta de casa só quando estava exausta. O que significava quase sempre. Ainda assim, era livre.

Naquela tarde fria de terça-feira, Leah voltava do mercado da esquina usando short jeans gasto, camiseta preta e a velha bota marrom que sobrevivera à chuva, ao mato, às brigas e à falta de dinheiro.

O cabelo curto balançava no maxilar enquanto atravessava a rua carregando duas sacolas.

Foi quando ouviu a voz.

— Me devolva isso!

Uma senhora idosa agarrava a própria bolsa enquanto dois homens tentavam arrancá-la de suas mãos na entrada de uma rua lateral.

Leah largou as sacolas no chão.

O primeiro homem mal teve tempo de virar o rosto antes que o punho dela acertasse seu nariz com força suficiente para derrubá-lo.

O segundo tentou puxar algo do bolso.

Erro pior.

Leah o agarrou pela jaqueta, bateu-o contra a parede e torceu seu braço até ele gritar.

— Corre — ela aconselhou.

Ele correu.

O outro foi atrás, sangrando.

— Covardes miseráveis. — A senhora ainda segurava a bolsa com expressão indignada.

— A senhora tá bem? — Leah respirou fundo, tentando lembrar que pessoas normais não resolviam tudo na pancada.

— Estou melhor do que eles. — A senhora endireitou o casaco azul-marinho e a analisou dos pés à cabeça como um general avaliando uma recruta.

— Ótimo. — Leah quase sorriu.

— Você bateu bonito. — A senhora a observou mais um pouco até reconhecer.

— Obrigada? — Leah não soube o que dizer.

— Sou Margaret. Você foi a uma entrevista pra emprego na casa em que trabalho, há uns dois meses. — A mulher estendeu a mão enluvada.

— Sra. Vale. — Leah apertou sua mão.

— Leah. — A senhora recordou-se do nome dela. — E agora minhas compras estão espalhadas.

— Eu te ajudo. — Leah suspirou e já começou a recolher as coisas.

A casa dos Thorne, onde Margaret trabalhava, ficava um pouco distante dali, mas Leah ofereceu carona à pobre senhora, que, ao entrar em seu carro, tentou disfarçar a falta de costume com coisas velhas.

Depois de mais de dez minutos dirigindo, por uma rua alta cercada por árvores antigas e portões discretos demais para gente realmente rica, chegaram ao destino.

Agora, observando melhor do que da primeira vez, a propriedade parecia saída de um filme antigo: jardim impecável, janelas altas, pedra escura, luzes acesas mesmo em plena tarde nublada.

Leah pegou duas caixas de água como se não pesassem nada, a pedido da senhora, logo que chegaram à porta da casa.

— Você treina? — Margaret notou.

— Carrego trauma emocional. Fortalece.

— Gosto de você. — A velha soltou um som que talvez fosse riso.

— Não se apega.

Entraram pela cozinha lateral. Tudo limpo demais. Organizado demais. Silencioso demais.

Leah pousou as compras no balcão de mármore e começou a separar itens por impulso.

Leite na geladeira. Enlatados no armário. Frutas na bancada.

Margarete bservava sem interromper.

No andar de cima, atrás da balaustrada escura do corredor interno, alguém também observava.

Adrian permanecia imóvel, uma mão no corrimão, expressão fechada.

Alta. Bonita. Jovem.

Entrando na casa de uma senhora rica em menos de vinte minutos. Conveniente demais. Já conhecia o tipo.

Mulheres curiosas. Ambiciosas. Prontas para se fazer úteis até descobrirem onde estava o dinheiro.

A diferença era que aquela parecia capaz de quebrar um homem ao meio, embora, perto dele, parecesse pequena.

Os olhos dele desceram involuntariamente para as pernas fortes, a postura alerta, o cabelo curto bagunçado.

Bonita demais para ser inocente.

Leah parou de repente. Virou o rosto em direção à escada. Não viu ninguém. Mas, sentiu. O velho instinto de predador sendo observado por outro.

— O que foi? — Margaret percebeu.

— Nada. — Leah limpou as mãos no short. — Sua casa tem clima estranho. Tem dono estranho.

Adrian recuou um passo antes que ela erguesse mais os olhos.

Irritante.

Porque quase fora pego encarando.

— A senhora devia ter mais cuidado andando sozinha. — Na porta da cozinha, Leah se despediu.

— Eu tenho. — Margaret ergueu o queixo.

— Claramente não.

— Agora tenho você.

— Seu patrão já me dispensou. — Leah bufou. — Não cria expectativa.

— Volte qualquer dia. — A velha sorriu.

— Se tiver ladrões, talvez.

— Leah? — A senhora Vale segurou a porta para ela sair. — Obrigada.

— Tranque o portão. — Leah deu de ombros como se aquilo não importasse. Mas, importava.

Saiu pela trilha de pedra com o mesmo passo decidido com que entrara.

Lá em cima, Adrian voltou à janela.

Observou a jovem atravessar o jardim, entrar no carro velho e desaparecer rua abaixo sem olhar para trás.

— Pare de franzir a testa. — Margaret entrou na biblioteca minutos depois. — Quem era ela?

— A moça que impediu meu assalto. E que você dispensou há dois meses.

— Eu devia ter meus motivos.

— Motivos que aposto que o senhor nem lembra.. — Margaret sentou-se com calma irritante. — Eu preciso de alguém, estou ficando velha.

— Mas, tem que ser ela? — Adrian cruzou os braços.

— Claro. — A velha ergueu uma sobrancelha. — Você reparou no rosto dela ou só julgou o caráter?

— Não seja absurda. — Ele desviou o olhar para a janela.

— Então reparou nos dois. Excelente. — Margaret sorriu.