O Mito das Guerras Santas - Primevas
2 Capítulo 2 - O Alvorecer e o Rei
Notas iniciais
A jovem de cabelos amarelos da cor do trigo, trajando uma armadura cor de prata, mas que na verdade era de Platina pura chegou trazendo a armadura de Câncer. Thithonos, o rei guerreiro, ergueu um dos braços e a urna contendo a sagrada armadura respondeu se abrindo e liberando o esplendor dourado do artefato.
Como que respondendo ao chamado de seu recente mestre a armadura na forma de meio homem e meio caranguejo se desfez e se acoplou parte a parte no corpo do rei.
“Eos era a deusa titã do Amanhecer, também chamada de Aurora, ela era responsável por abrir as portas do céu para saída de Apollo em sua carruagem que fazia o traçado do Sol. Certa vez Eos ao abrir as portas celestiais deparou-se com um belo jovem comtemplando seu espetáculo de uma sacada, seu nome era Thithonos.”
Os homens do batalhão de Phobos se viraram contra o algoz de seu comparsa e atacaram com tudo que podiam. Alvejaram Thithonos com lâminas de todos os tamanhos e cortes, lanças, espadas, tridentes e bidentes, maças... toda sorte de armas. Athena ao ver o massacre ficou com os olhos marejados. Porém, Eos que agora estava ao seu lado pousou suas mãos etéreas sobre os ombros da deusa carnal.
No segundo seguinte os homens de Phobos exibiam faces de puro horror quanto à imagem que viam. Thithonos continuava de pé, mesmo todo ferido, com todo seu sangue derramado sobre o solo de Drakala. O homem permanecia de pé.
– É mesmo incrível… — comentou Salem de Virgem. — Agora entendo porque me impedira de intervir, Ashur.
O cavaleiro de Sagitário permanecia impassível ao lado das deusas.
“A paixão de Eos foi instantânea, era, porém fruto da maldição de Afrodite que enciumada pelo caso entre Eos e Áres praguejara contra a titã para que esta somente se apaixonasse por mortais e por consequência perdesse seus amores. Eos desceu de seu recanto divino e se materializou diante do jovem nobre.
– Quem és, tão jovem belo?
O rapaz estava, agora, encantado com a imagem divina diante de si.
– Meu nome Thithonos, príncipe de Thuatha. És com certeza uma criatura divina.
– Sou Eos, a Aurora, deusa do Amanhecer. Venho até o plano terreno fustigada por tamanha beleza tua.
Eos conhecia bem os fascínios da sedução e o quão o divino intrigava a todo e qualquer homem.”
Thithonos estava curvado para frente, o dorso tomado por armas perfurantes, tamanha fora a violência dos ataques contra seu corpo. Levemente ergueu seu corpo e retirou uma a uma as armas presas a ele, calmamente. Conforme livres as feridas cicatrizavam instantaneamente. Ele contraiu o pescoço como quem tenta se livrar de um torcicolo, cerrou os punhos estalando os dedos magros. Seu cosmo explodiu de forma tão intensa que os guerreiros mais próximos foram jogados longe. Em torno dele línguas de energia etérea se formaram.
Quem é esse homem?– pensou o Deus do Medo e em seguida ordenou berrando.
– Acabem com ele!
O pelotão respondeu gritando a plenos pulmões e indo em direção a Thithonos.
O cavaleiro por sua vez movimentou rapidamente se esquivando dos ataques mais altos, se abaixou esticando uma das pernas e girando em seu próprio eixo numa rasteira que derrubou o círculo de soldados mais próximo. A próxima onda de ataque seria derrubada por um soco vertical envolvido pela energia etérea dominada pelo rei-guerreiro.
“Nem mesmo por Áres, Eos havia se apaixonado daquela forma. Seu amor era tanto que a deusa foi ter com Zeus.
– Senhor dos deuses, rogo-lhe que dê a imortalidade a meu amado, para que juntos possamos ser felizes.
Zeus ponderou por um certo tempo o pedido da deusa Titã, mas sentia que tinha uma dívida com os bons titãs aqueles que o ajudaram em sua ascensão ao trono do Olimpo. Por tal ele concedeu a Thithonos a imortalidade.
Contudo Eos provocara a ira de Áres e de seu orgulho como deus. E o mesmo foi ter com Hades. Afirmando que um homem imortal era uma afronta de Zeus ao irmão. Áres tinha como intenção provocar a fúria do Deus dos Mortos. Contudo nada poderia fazer o Imperador do Submundo uma vez que a imortalidade já havia sido concedida ao rei. Mas Áres era engenhoso e por isso se aproveitou de um deslize de Eos, para ter sua vingança.”
Thithonos era imbatível não morria em combate e cada vez mais parecia dominar aquele poder estranho que o envolvia além de seu cosmo. Em instantes o batalhão estava derrotado. Sangue se espalhava por toda a planície.
Phobos era, agora, o único oponente para o Cavaleiro de Câncer. Mas alguém interveio no embate.
– Deixe ele comigo Lorde Phobos. Não creio que um deus como senhor deva se prostrar a enfrentar um mero humano.
– Quem é você? — indagou Thithonos.
Em resposta o guerreiro de armadura escarlate respondeu lacônico.
– Meu nome é Larsir de Kotetsu. — o guerreiro tinha o corpo esguio, quase delicado. Cabelos longos negros, porém brilhantes e lisos. Sua armadura, chamada de Fúria (a proteção dos Bersekers), lhe cobria todo o torso, mas deixando amostra parte de seu peitoral. Seu elmo cobria a fronte até o nariz deixando apenas os cabelos soltos e o maxilar livre, as pernas e os antebraços também eram protegidos. Apoiada sobre os ombros, atrás da cabeça, ele segurava uma espada.
– O que faz aqui Capitão Larsir? — perguntou a deidade.
– Peço perdão, Lorde Phobos, mas sabia que meros soldados não estariam à altura de desafiar os cavaleiros de Athena, famosos por seus poderes gigantescos.
– Compreendo… — ponderou o Filho da Guerra, como eram chamados os filhos de Áres. — Pois bem deixo este homem com você. — Phobos deu ás costas. Mas foi impendido por um meteoro imenso que se materializou caindo a sua frente. Ao se virar deparou com a Ashur.
– Não vai mesmo fugir da batalha, Deus do Medo?
– Não estou fugindo, Guarda da Deusa, apenas quero que nossa batalha se prolongue e ainda não é chegada a hora para tal.
Nesse momento Phobos tocou com o indicador o monólito que o impedia de passar e o mesmo se desintegrou completamente.
Larsir, agora em posição de batalha, se preparava para enfrentar Thithonos o recém-empossado cavaleiro de ouro de Câncer.
– Pretende mesmo me enfrentar? Farei com que todo meu ódio de seu General recaia sobre você.
– Eu sou um Capitão dos exércitos de Áres. — o que o Berseker estava dizendo era que seu poder era comparável ao de um Cavaleiro de Ouro, mas ainda não havia tais comparações naquele tempo. — Um dos quatro do Exército do Medo, como pretende me enfrentar com as mãos nuas?
– Os cavaleiros de Athena não precisam de armas para vencer seus inimigos! Armas são repudiadas pela deusa.
O berseker riu da retórica do rei. Em seguida atacou vorazmente sem hesitar e sem nenhuma piedade.
O ataque de Larsir teria dilacerado um inimigo comum, mas Thithonos trajava a sagrada Armadura de Câncer. O cavaleiro usou os braços para se defender. O baque da luta fez com que o chão sob Thithonos rachasse e afundasse numa depressão.
Larsir era veloz, seu corpo magro conferia a ele agilidade imensa, mesmo que sua força não fosse tão grande. Ele saltou girando no ar e caiu atrás do dourado, girou o corpo planejando desferir um golpe que decapitaria o inimigo, mas Thithonos tinha Eos ao seu lado e a deusa espiritual afastou seu amado.
“Hades amaldiçoou Thithonos a ser imortal, porém não seria jovem para sempre. Eos agora tinha um dilema consigo, seu amado Thithonos viveria pela eternidade, mas perderia a beleza que atraíra a deusa. Inconformada Eos, foi buscar ajuda e falou com Nyx a titã deusa da Noite. Nyx afirmou a Eos que Thithonos poderia ser jovem, caso se alimentasse das almas de outros seres pois a alma era a personificação da Suprema Virtude. Num ritual proibido Eos preparou o corpo e o alma de Thithonos para se alimentar das almas de outros seres humanos usando seu próprio Ikhor para tal. O sangue da deusa permeou o corpo do homem e sua alma agora invadida pela magia divina.”
O fio da espada apenas cortou o rosto de Thithonos. Aquela ferida, porém mostrara ao Cavaleiro que a espada do Berseker poderia feri-lo talvez até mortalmente.
– Você percebeu Senhor de Drakala, minha espada não é uma arma comum. É uma relíquia sagrada abençoada por Áres para a guerra. Ela pode ferir e matar até mesmo o imortal. Este é o poder da Kotetsu.
Thithonos teria de acabar com aquilo de forma rápida e precisa. Ele fechou os olhos levantou o dedo em riste. As almas dos soldados mortos a sua volta começara a flutuar como línguas de energia azulada se concentrando na ponta do dedo do cavaleiro de ouro. Thithonos podia sentir o ressonar da armadura como se ela falasse com ele e lhe ensinasse a usar o poder, o cosmo. Como se a armadura, mestre fosse da dominação da energia universal.
Evoque… dê nome ao que você aprendeu… ele ouviu ressoar dentro da sua mente e de seu corpo.
– Ondas do Inferno! — Thithonos nomeou a técnica que seria herdada pelos Cavaleiros a vestir a Armadura de Câncer.
O Berseker que vinha em direção a Thithonos foi lançado para longe desparecendo nos vincos do cosmo do Cavaleiro de Câncer.
Athena se aproximou do cavaleiro. Ele ofegava um pouco, ainda na posição do golpe lançado que encerrara a batalha. O braço esticado para cima o indicador em riste.
– Agora entendo sua necessidade, Thithonos. Para que possa seguir lutando como meu cavaleiro, quero lhe entregar isso. — Niké tomou a frente e fez surgir um ataúde feito de um material irreconhecível ao rei. Mais tarde descobriria que era feiro da madeira da Mokurenji, a Árvore nascida no Inferno próxima da Cachoeira de Sangue. — Este é o Omertá, o Ataúde do Silêncio, aqui poderá guardar as almas de que precisa para que continue. — Thithonos se ajoelhou novamente diante da deusa.
– Fico grato, Athena, por sua compreensão e confiança.
– Voltemos ao santuário, de lá partirei para o encontro do próximo cavaleiro. — sentenciou a deusa da Justiça.
– Para onde irá, Deusa Athena? — perguntou Salem.
– Pangea…

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