O Mito das Guerras Santas - Primevas
54 Capítulo 54: Fome
Notas iniciais
Capítulo 54: Fome
Assim que a escuridão se adensou, o Rei de Drakala perdeu-se dos companheiros de bronze. Não podia mais sentir seus cosmos, nem suas presenças.
A partir dali ele sabia que havia assumido o risco de entrar na armadilha do inimigo. Por um segundo refletiu sobre a inscrição em seu portal: “Fome”.
Sim, ele tinha fome, sua alma amaldiçoada clamava por mais almas e assim a própria armadura que o escolhera como seu mestre detinha o poder de controlar as almas para si.
Em meio a esse devaneio Thithonos se viu arrebatado através do universo. E lá estava ele diante da constelação de Câncer. Como se diante de um painel ele podia ver as estrelas organizadas num único plano, bem como vislumbramos no céu noturno. Em meio a constelação um aglomerado de estrelas emanava uma energia densa e poderosa, diferente de tudo qualquer cosmo. Ali era uma entrada para o além.
De volta a si, Thithonos sentia como se sua alma tremesse. A necessidade parecia cada vez mais vil. Até que sentiu o toque emoldurando seu rosto.
— Thithonos… — chamou a voz doce e melódica.
— Ahm… — seus olhos vislumbravam o espectro de sua amada Eos — Eos…
— Você é mais forte que isso…
— Eu pensei que tivesse me perdido de você assim como me perdi dos cavaleiros de bronze.
— Não podemos nos perder, meu amor, estamos unidos por um laço de almas.
Seus lábios espectrais tocaram os do mortal e naquele instante, somente naquele instante ele sentiu como sua alma submergisse num bálsamo de calma e tranquilidade.
Contudo o que estava por vir era terrível…
— Confesso que sua ansiedade para se saciar é maior do que qualquer desejo que eu já encontrei… — a voz era fina e um pouco esganiçada, porém vinha de um ser imenso. Obeso, a pele esverdeada e pútrida, vasos sanguíneos em tom de púrpura se espalhavam pelo torso grande e mole. A cabeça desprovida de cabelos parecia um pequeno adorno no alto do corpanzil.
— Quem é você? — indagou o dourado, sentiu as mãos suando.
— Eu sou Limos, a Fome… a fome que os guerreiros sentem quando estão há dias batalhando sem cessar, para vencer. A fome da saudade da tranquilidade de longe da guerra, a fome do sangue do adversário. Eu sou a personificação dos desejos mais incontroláveis, bestiais dos seres humanos. E o seu, cavaleiro de Ouro, é algo tão vil que confesso que me assustaria, não fosse eu uma divindade…
Ainda gigante o monstro era rápido e sem que Thithonos percebesse, uma vez que seu corpo estava sob os efeitos da abstinência de sua alma, portanto seus reflexos estavam retardados, o atingiu com o punho bem no estômago. Fazendo Thithonos se curvar e cair de joelhos.
— Sabe, Cavaleiro… — ele tomou o rosto de Thithonos pelo queixo com uma das mãos, trazendo os olhos do cavaleiro para os seus. — eu sou um deus, mas eu sinto cheiro da imortalidade em você. Será que você é…
Thithonos podia sentir o fedor que vinha da boca larga do monstro, percebeu que dali escorria um líquido viscoso e roxo de onde tal odor repugnante emanava. Seus olhos tinham as tinha aparte branca salta de veias roxas.
O monstro deu as costas se afastando em saltos empolgados enquanto batia palmas animado.
— Então você é aquele de quem todo inferno fala! Eu não acredito, eu não acredito — as palavras saíam ainda mais esganiçadas e emboladas em meio ao riso frenético. — Você é rei amaldiçoado pelo Imperador Hades, o amado da Deusa Eos. Thithonos, Senhor de Drakala, o Rei Imortal!
Finalmente o cosmo de Athena parecia estar um pouco mais próximo. Com suas negras, Lúcifer voava rapidamente pela Hiperdimensão, seguindo ao seu lado trajando uma veste cujo o brilho parecia refletir o de várias constelações estava Éther, o Primordial que ocultara sua identidade entre os cavaleiros de Athena, trajando sua Ars Magna Éden Celestial.
— Falta pouco, o cosmo de Athena parece estar mais próximo agora.
— Sim bem mais próximo. Ainda que estejamos voando em velocidade divina este lugar é maior do que me lembrava — respondeu o primordial.
— O Caminho dos Deus… — divagou o portador da Luz.
— É dali! O resquício do cosmo de Athena vem daquela fenda dimensional.
Os seres alados fizeram uma curva sinuosa pelo espaço interdimensional, desviando-se de corpos celestes entre estrelas, quasares e planetas para adentrar num novo fluxo espaço-temporal com destino a uma fenda.
Ao atravessarem a distorção eles estavam num cenário horrendo.
Os céus pareciam ter sido tingidos de sangue. Corpos nem vivos e nem mortos sangravam banhando o solo, empalados por armas, como lanças, espadas, massas… alguns tinham perfurações em seus corpos em pontos vitais. Tudo parecia um horrendo cenário de guerra.
Quando deixaram de lado a paisagem dantesca eles vislumbraram o corpo de Athena sustentado por cruz. As mãos presas às pontas mantendo seus braços abertos. A cabeça tombada, a deusa estava sem poder, mas não estava morta eles sentiram.
De volta a Thithonos: o cavaleiro ainda tentava superar o baque do golpe do ser divino. Seu corpo estava, certamente, mais debilitado do que ele mesmo imaginara. Sentiu as pernas falhar quando tentou se reeguer.
— Eu não posso mensurar o prazer que tenho em receber tal presente do Senhor Áres. Certamente foi Lorde Hades quem lhe sugeriu que eu fosse o adversário do Cavaleiro de Câncer. Pois bem irem cumprir as expectativas dos Deuses Gêmeos, do Senhor Áres e do Imperador Hades e acabarei com sua vida! — o rosto horrível se transformou numa monstruosidade sem tamanho. A voz antes esganiçada terminara a frase demoníaca. Seus olhos agora eram negros sem nenhuma parte branca, a boca se enchera de dentes e babava ainda mais do sulco viscoso, ele se curvou para frente deixando dorso a mostra. E naquele instante os olhos de Thithonos foram testemunhas de uma cena das mais dantescas.
Ao longo do eixo vertebral a carne pútrida do monstro se descosturou abrindo-se e revelando uma imensa garra que parecia óssea, mas ao mesmo tempo lembra hastes vegetais.
A garra gigante que emergiu do dorso da Queres se fixou no chão espalhando uma onda de energia avermelhada que parecia sugar tudo que fosse vivo naquele local. Nesse momento o monstro novamente abriu sua boca gigantesca e disparou uma rajada de cosmo imensurável.
— Droga! Sekishiki Mekai Há!
O golpe do cavaleiro abriu uma fenda diante dele que engoliu o golpe do adversário.
— Você é bom cavaleiro, conseguiu escapar da minha técnica. Mas isso não irá se repetir.
Nesse momento o mostro exibiu empalados nas 3 pontas de sua garra dorsal os cavaleiros de bronze de quem Thithonos se perdera.
— Maldito…
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