Notas iniciais
Nesse capítulo os acontecimentos começam a fazer sentido com o primeiro capítulo. Espero que gostem!

Capítulo 2

O carro despencou do penhasco, indo se chocar com as rochas vários metros abaixo, ocasionando a explosão do veículo. As quatro pessoas estavam acompanhando o acidente com cuidado para não caírem.

- Vamos logo, a noite se aproxima e ainda temos que encontrar um lugar para se esconder. – disse o homem mais velho que se chamava John, tinha cabelos grandes, que mediam até a altura dos ombros e era barbudo.

- O que a gente vai fazer com esse cara, John? – perguntou o que parecia ser o mais novo do bando, não chegava nem a trinta anos e carregava uma bolsa de viagem.

- Depois decidimos. Caso a polícia nos alcance, ele será muito útil. – respondeu o mais velho já entrando no mato.

Os outros o seguiram, com um detalhe, um deles estava de mãos atadas e boca amordaçada. Haviam alguns hematomas em sua face, devido a alguns socos que tivera que levar para ficar quieto. A outra pessoa que estava na quadrilha era uma bela loira, muito atraente, uma típica femme fatale e segurava uma pistola.

Os quatro se afastaram o máximo possível da estrada que dava na ribanceira. Começaram a caminhar com dificuldade por entres os matos daquela região e, para piorar a situação, o céu começava a escurecer e as primeiras estrelas começavam a aparecer, trazendo consigo novas preocupações, principalmente ao amordaçado, que sabia que não estaria vivo até o amanhecer.

Chegaram ao alto de um morro e, de lá, John sorriu ao avistar uma casa no meio do milharal alguns metros à frente.

- Olha lá Eric. – disse apontando – Aquela casa no meio do milharal é bem isolada. Um lugar perfeito pra se esconder.

Eric sorriu e abraçou a loira.

- Conseguimos gata! Tudo está dando certo, como eu te disse. Não foi fácil?

- Eu nem acredito nisso. Estamos ricos amor, ricos!

O amordaçado arrepiou-se, o pânico crescia rapidamente dentro de si. Por dois motivos: primeiro, estavam falando os nomes uns dos outros e mostrando os rostos, sinal de que não tinham nenhuma intenção em libertá-lo; e segundo, sabia histórias terríveis sobre aquele casebre do milharal. Aquele lugar era maldito, era um suicídio profaná-lo...

A agitação do refém foi notada pelos três sequestradores. Ele suava frio, balançava a cabeça tentando falar algo e seus olhos estavam arregalados.

- O que deu nesse desgraçado? – perguntou Lilian, irritada com o comportamento do refém. Imediatamente John deu um forte soco no homem fazendo-o cair desacordado.

- Por que fez isso, John? Ficou louco? – perguntava aflita a mulher.

- Ele tava me deixando puto da vida com esse acesso de pânico.

- É, mas agora vai ter que carregá-lo. Vamos precisar dele, e você sabe muito bem disso.

- Relaxa Lilian... – disse o mais velho se dirigindo à loira – Eu carrego esse verme, não se preocupe.

John colocou o corpo do homem sobre o seu ombro, a contragosto, pois ainda faltava bastante para alcançarem a casa do milharal. Tinha de ser menos impulsivo, ou acabaria arruinando o plano.

Depois de alguns minutos caminhando, finalmente chegaram à cerca de arame farpado que rodeava o milharal. John jogou o refém sobre a cerca, o corpo saiu rolando pesadamente do outro lado. Os dois bandidos riram, Lilian os repreendeu:

- Desse jeito vocês irão matá-lo antes do combinado seus idiotas.

- Essa quedinha não o matou Lilian. – defendeu-se John.

- Ele é forte, vai aguentar. – debochou Eric, passando por entre o arame.

Eles entraram no milharal, que estava seco, com as espigas mortas. Se o proprietário dependesse daquele milho, com certeza estaria falido. Haviam túmulos em algumas partes, eles eram feitos de montes de terras e cruzes improvisadas, provavelmente ali estavam enterrados parentes do dono do local. O céu escureceu rapidamente e, Lilian teve que acender uma lanterna que trazia. A temperatura do local diminuía, e um vento gélido passou pelos bandidos, arrepiando-os. Todos estavam com uma estranha sensação daquele lugar, mas logo esqueceram, eram orgulhosos demais para admitirem o que sentiam.

Ainda do lado de fora, depararam-se com um velho casebre, não muito grande, mas bem construído. Na varanda, havia uma cadeira de balanço que movia-se em um vaivém ao sabor do vento. Não havia sinal de luz na casa, ou porque não havia energia elétrica, ou porque os donos estavam dormindo, ou talvez...

- Será que esta abandonada? – perguntou a loira.

- Não duvido. É só olhar o estado do milho, eu não acho... – Eric logo parou de falar e virou-se com o rifle apontando para o milharal. Sorriu em seguida. – Eu pensei que fosse alguém.

Os outros dois olharam na direção em que o rifle apontava. Lilia arrepiou-se, ali amarrado à uma cruz estava aquela figura de braços abertos.

Um espantalho. Estava distante, mas pelas roupas e pela palha que saia das mangas da camisa e das pernas, não havia dúvidas. Eric se aproximou e levantou a cara perto da cruz e fez uma careta. O rosto era simplesmente assustador, sob o chapéu de palha, escondia-se uma máscara com feições distorcidas. A boca era torta e costurada por arame em um dos cantos, que estava rasgado. Os olhos eram profundos, só se via as órbitas escuras. O nariz era distorcido, repuxado para um dos lados e costurado com arame também. Aquela era uma figura repugnante, quem quer que o tivesse colocado ali, queria realmente assustar os corvos.

Eric instintivamente colocou a mão no nariz ao sentir um cheiro forte, de algo morto. Devia ser carniça de algum animal por perto. Afastou-se indo se unir aos outros bandidos e ao refém.

- É só um espantalho assustador rodeado de carniça. Vamos entrar logo nessa casa.

Eles estranharam o fato de a porta não estar trancada, ela estava apenas encostada, mas mesmo assim decidiram entrar.

John jogou o pesado corpo no chão e começou a explorar a casa. Era realmente bem simples, mas parecia ser confortável. As teias de aranha e a camada de poeira sobre os móveis pareciam indicar que ninguém aparecia por ali a algum tempo.

- Será que não tem ninguém mesmo?

- Claro que não John. Olhe o estado da casa, deve-se crer que apenas nós estamos aqui. Mas é estranho, os móveis estão bem organizados. O que será que aconteceu ao dono? Por que ele saiu e deixou tudo pra trás? – questionava-se Lilian.

Eric a abraçou por trás, beijando-lhe. Ela se acalmou e deu um sorriso de satisfação, mas afastou-se, queria escolher o quarto em que passariam a noite. Vasculharam a casa e descobriram dois quartos, sendo que em um deles havia uma cama de casal. John ficaria no outro cômodo. O mais velho voltou para a sala e constatou que o refém continuava desacordado.

- O que fazer com ele?

Lilian viu um móvel de madeira com cerca de um metro e porta dupla. Abriu-o, estava cheio de livros, jogou todos para fora e sinalizou para dentro sorrindo.

- Vamos colocá-lo aqui, este será o cômodo dele.

Os bandidos riram, eram impiedosos e cruéis. Era a primeira vez que Eric e Lilian roubavam um banco, mas John já era velho no ramo, e com toda a sua experiência, convenceu os outros dois.

Puseram o refém dentro do armário, amarrando antes os seus pés. Ele ficou com as pernas encolhidas e a cabeça pendida pra frente, não conseguiria se mover de forma alguma. Haviam algumas frestas na parte de trás do cômodo, não morreria sem ar.

- Por que colocá-lo aí? – perguntou Eric.

- Ora amor, ele pode fazer muito barulho a noite e, certamente precisamos descansar pois a viagem ainda será longa. Agora é só trancar e encostar outro móvel.

Os três riram e decidiram comer alguma coisa que traziam na bolsa. Enquanto comiam sentados à mesa, discutiam sobre o resto do plano que deviam seguir...

No quarto, com a porta trancada, Eric iluminava Lilian com a lanterna, ela estava a sua frente fazendo um lento striptease, já estava sem sutiã, deixando a mostra os seios fartos e o corpo escultural. Eric sorriu malicioso ao vê-la tirando lentamente a última peça, a calcinha. Ela partiu pra cima da cama beijando-o, aos poucos baixou para o pescoço, depois para a barriga, continuou descendo o beijo...

O casal foi interrompido por batidas na porta. Os dois olharam em direção a ela, sobressaltados. Não demorou muito para ouvirem a voz de John do outro lado.

- Eric, eu ouvi algo lá fora. Vou ver o que é, mas fiquem atentos, pode ser a polícia.

Os passos afastaram-se. O que estava lá fora? Seria a polícia? Os donos da casa? Lilian acalmou-se, John estava com um rifle, quem quer que fosse iria se dar mal. Além disso, poderia ser apenas um animal ou coisa parecida. Resolveram continuar o que estavam fazendo.

Eric adormeceu, Lilia levantou-se, ainda estava nua, indo verificar a hora no celular que deixara na penteadeira. Já estava muito tarde. Será que John já voltara? Vestiu-se, foi até o quarto onde o mais velho dormiria. Abriu a porta e vasculhou com a lanterna, logo percebeu que não havia ninguém. Começou a procurá-lo nos outros cômodos da casa, mas não o encontrou. Resolveu voltar para o quarto para acordar Eric.

- Eric, Eric acorda!

- O que foi? – perguntou sonolento

- O John, ele ainda não voltou.

- Sério? – levantou-se o olhou que a bolsa com o dinheiro ainda estava ali, guardada. Que merda teria acontecido à ele?

Eric vestiu-se e pegou a lanterna e a pistola de Lilian.

- Me espere aqui, eu vou atrás dele. Deve estar fumando alguma coisa que encontrou por aí ou vigiando a casa.

Beijaram-se e Eric saiu da casa. Lilian imediatamente trancou a porta e ficou esperando impaciente dentro do quarto. Acendeu um cigarro e fumou até este se extinguir. Preocupada, abriu uma das janelas. Não se via nada a não ser o milharal imerso na escuridão. Assustou-se repentinamente, seu coração acelerou e um calafrio lhe percorreu a espinha.

A cruz... a cruz do espantalho... estava sem o espantalho.

Felipe adentrou o milharal gritando pelo nome do mais velho. Já havia rodeado a casa e nada. Já estava preocupado, mas não tinha a mínima ideia do que aconteceu com John.

Parou de repente, uma brisa o fez arrepiar-se, movia o milharal de forma assustadora. Empunhava a arma, mas o medo era constante, ele olhava para os lados, cauteloso. Foi quando esbarrou em algo.

- Mas que porra é essa? – sentiu que era algo mole, mole como um... apurou a visão e abaixou-se para enxergar melhor. Deu um salto pra trás, era um corpo. – Mas esse é o corpo do... – não concluiu o que dizia. Uma lâmina perfurou suas costas atravessando-o, seu corpo caiu pesadamente.

Notas finais
O próximo capítulo será o último, mas para compreendê-lo, poderá ser necessário alguns fatos que ocorreram nos capítulos anteriores.
Até a próxima!