Notas iniciais
Peço perdão pela demora, fiquei doente e sem pique de postar! Espero que gostem ♥

Pela primeira vez em anos acordei feliz e motivada, com o propósito de saber mais sobre as informações dos livros, como se uma parte de mim tivesse sido preenchida depois da intensa noite de sono, do encontro com Spark e das coisas encontradas dentro da cabana.

O machucado na panturrilha estava melhorando, não doía tanto quanto antes e depois de toda a loucura no parque havia até mesmo me esquecido dele, refiz o curativo e me vesti.

A temperatura estava quente, no entanto grandes nuvens acinzentadas se aproximavam, coloquei um pequeno guarda-chuvas na mochila e fui para a cozinha onde papai preparava um lanche para mim da mesma forma que fizera desde a primeira série, tanto nas manhãs frias invernais quanto nas manhãs chuvosas.

Na noite do parque, quando estávamos voltando para casa, precisei quebrar o silêncio estabelecido inconscientemente e falei sobre o novo emprego.

— Bom dia, filha. Como você está? – Olhei para ele e ri ao ver o avental de cozinha rosa bebê, percebendo minha reação papai olhou para si mesmo e bufou com deboche – Já estava no porão e só tinha essa cor, não vou comprar outro se tem este.

Ri sabendo que tudo aquilo era um jeito de me arrancar um sorriso.

— Estou bem. – Coloquei um pouco de suco no copo de vidro e recostei sobre a mesa – Pai... – Hesitei ao contar para ele sobre todas as coisas estranhas que aconteciam e minhas suspeitas de conexão. Desisti pensativa de que talvez ele me achasse louca.

— O que filha? – Perguntou colocando uma pequena maçã no saco de papel reciclado.

— Nada, só queria dizer que te amo. – Ele me olhou e beijou minha testa.

— Eu também te amo, filha.

Coloquei o pequeno saco de papel na mochila, me despedi e apareci na varanda.

— Bom dia. – Pablo disse ao me ver.

— Bom dia. – Respondi num sorriso amarelo.

— Bem... – Ele olhou o relógio de pulso – Melhor irmos ou vai se atrasar.

Me acomodei no banco do passageiro colocando a mochila no chão entre as pernas enquanto o carro roncava, despertando de uma ligeira soneca.

— Como você está? – Indaguei olhando-o.

— Bem. – Deu de ombros – E você?

— Bem, mas cansada de responder esta pergunta o tempo inteiro – O céu estava azul brilhante, mesmo que as nuvens cinzentas parecessem cada vez maiores e mais próximas saindo do horizonte, o dia estava bonito.

Passamos pela estrada de terra com a grande floresta onde encontrei a cabana no dia anterior, talvez mais tarde voltasse até lá para ter certeza de que tudo foi real, a cidade ficava próxima do litoral e ao redor havia apenas árvores e mais árvores.

— Onde você mora? – Estava curiosa, nunca havíamos conversado sobre isso. Ele coçou a nuca um tanto quanto confuso.

— Ah... Bem, do outro lado da floresta.

— Como assim do outro lado da floresta? – Respondi olhando pela janela as grandes arvores sem fim completamente iluminadas pela luz ensolarada – É gigantesco.

— Não é exatamente do outro lado da floresta, existe um pequeno vilarejo afastado da cidade que se chama Oso Gris significa Urso Cinzento e a localização é dentro do perímetro da floresta, como uma pequena reserva. – Os braços musculosos estavam escondidos sob a camiseta justa de sempre.

— Deve ser gostoso morar num vilarejo.

Chegamos na cidade antes das 9h, os comércios estavam abrindo e o pequeno pub da noite retrasada fechado com as luzes apagadas, Pablo virou à direita, esquerda, seguiu em frente e parou a pick-up na calçada de uma loja com uma pequena porta de vidro com placa de “abierto”, a vitrine mediana mostrava diversos produtos como cadernos negros, alguns frascos, filtros dos sonhos pendurados e outros produtos que reconheci do quarto dos livros na cabana.

Entramos na loja deixando o sino acima soar, a música baixinha que tocava era lenta e suave com flautas e pássaros de fundo, o cheiro de incenso anestesiava todo meu corpo, Artemísia, penseirecordando a descrição do livro.

— Zõe? – Chamou batendo no pequeno sino encima do balcão, a garota de baixa estatura saiu de costas de uma sala com uma longa saia marrom, segurando um tipo de panela suspensa por uma corrente.

— Oi Pablo! Estava defumando a sala oracular. – Zõe era sorridente e seus dentes debaixo um tanto quanto tortos, covinhas profundas dos dois lados da bochecha entregavam a pouca idade e o cabelo era todo de dreadlocks tão escuros quanto a pedra que o irmão carregava no pescoço.

— Esta é a amiga que falei, Arabela Zõe, Zõe Arabela. – A garota colocou a panela no chão e saiu de trás do balcão para me abraçar.

— Ah! Que prazer te conhecer! – O cheiro de coco nos longos dreadlocks remetia Pablo, definitivamente eu deveria parar de pensar tanto nele – Espero que goste de trabalhar aqui, estamos com tanto movimento ultimamente. – Ela batia palmas alegremente.

— Já percebi que vocês duas se deram bem, só espero que não se voltem contra mim. – Ele disse num tom engraçado.

— Poder feminino, irmão! – Nós três rimos.

— Preciso resolver algumas coisas, mais tarde passo aqui.– Nos despedimos e ele foi embora.

· • • • ✤ • • • · ·

O trabalho era mais cansativo do que eu imaginava, era preciso acender incensos e velas o tempo todo, cuidar da limpeza da loja, embalar produtos, atender clientes, receber pagamentos e algumas vezes sair para entregas próximas. Zõe parecia mais legal do que Pablo, como uma irmã mais nova com alma de uma senhora idosa, parecia saber responder a qualquer coisa e sempre se mostrava a disposição de qualquer problema que eu tivesse.

— Há quanto tempo conhece meu irmão? – Estávamos na hora do almoço nos fundos da loja, num pequeno cubículo com uma hortinha e uma pequena mesa branca de arame grosso com dois lugares, tínhamos vista para uma rua deserta com árvores, flores e muito sol.

— Desde de sábado. – Mordi a maçã e Zõe riu.

— Parece que faz tempo, e ele aparenta gostar de você. – Ela enrolava uma pequena quantidade de diversas ervas num papel finíssimo.

— Por que acha isso? – Indaguei curiosa, ela deu de ombros.

— Depois do último relacionamento que teve ele se tornou individualista, às vezes um tanto quanto ridículo, pensando muito em si mesmo, às vezes distante, mas com você parece ter sido diferente. – Ela terminou de enrolar as ervas, e um tipo de cigarro se formou.

— Não sabia que fumava. – Ela riu novamente.

— Não é cigarro de verdade, são apenas ervas relaxantes que acalmam e trazem bem-estar, me ajudam a conversar com meus ancestrais. – Ela acendeu e deu um profundo trago, soltou a fumaça e o cheiro das ervas acalmou o ambiente. Pensei em questionar sobre o relacionamento, mas contive a ideia por ser algo tão pessoal.

— Zõe, há quanto tempo mora aqui?

— Desde sempre, eu nasci aqui.

— Então sabe tudo sobre a cidade, certo?

— Sei muito sobre a cidade. – Ela esboçou um sorriso malicioso.

— Sabe de quem é a cabana no meio da floresta?

Seus olhos encontraram os meus, fixos como se tentassem me decifrar. Sua expressão era firme e séria, como se um segredo tivesse sido revelado.

— Como a encontrou? – O mistério em suas palavras sussurradas deixaram meus membros arrepiados, de alguma forma ela sabia exatamente do que eu estava falando.

— É loucura tudo isso. Eu sonhei algumas vezes com a cabana e a encontrei ontem, gostaria de saber quem é o dono. – Falei levantando para jogar as sobras da maçã na composteira, arrependida de perguntar sobre a construção.

— Não, não é. Loucura seria não acreditar em você. Os olhos são espelhos da alma, e os seus transmitem dúvida e honestidade.

Zõe parecia o tipo de criatura boa demais para estar na terra apenas por estar, talvez fosse um anjo se passando por uma garota de quinze anos. Era impossível não confiar nela.

— Então acredita em mim? – Minhas bochechas estavam em chamas.

— Claro que acredito. Vamos fazer um trato, está bem? – Assenti e ela prosseguiu com os grandes olhos negros de Loba – Eu só falo sobre a cabana se você aceitar participar de uma sessão oracular comigo.

Prendi a respiração. Estava com receio, medo e excitação.