O Mistério De Scarabas
20 Ilumine Minha Alma
Notas iniciais
Boa leitura..
"Não, Valerie! Volta! Valerie! NÃÃÃÃÃO!!", era o choro de Steve.
Mas eu estava muito distante pra responder. E nem poderia.
Senti-me flutuar para algum lugar distante. As vozes e as súplicas ficaram menos nítidas. Me vi envolta de uma luz confortável e brilhante. Logo uma figura desconhecida surgiu flutuando e me estendeu a mão. Eu não senti medo, mas hesitei.
Engolindo em seco, voltei a olhar para trás. Lá estava a figura de todos ao redor do meu corpo sem vida e pálido. Steve era o mais histérico, e não queria me largar.
"Não!", ele gritava sem parar.
"Calma, querido", vovó chegou mais perto e fechou meus olhos. "Ela não está mais entre nós."
Fechei os olhos e senti uma lágrima escorrer.
"Ela disse que ia voltar!", insistiu Steve, "Ela vai voltar!"
O ser desconhecido continuava a me estender a mão; como se insistindo. Eu seguiria em frente e deixaria tudo para trás?
Não. Isso não iria terminar assim.
Enxuguei as lágrimas e olhei a entidade.
- Eu não vou. Eu não posso ir. — falei, decidida.
A entidade pareceu me observar.
- Preciso terminar isso — continuei. — Só eu posso fazer. Eu vou ficar.
Como se assentisse, a figura começou a sumir e o ambiente também. Então, várias vozes inundaram meus ouvidos e me vi caindo em queda livre. Quando dei por mim, estava em um lugar escuro, de onde várias pessoas começaram a sair. Elas me olharam estranho.
Não demorei a perceber que eram fantasmas.
Eu estava no Campo Espectral.
Logo vi uma balburdia não muito longe. Então apareceu uma fantasma imponente, de um longo cabelo preto num rabo de cavalo. Seu olhar era feroz. Atrás dela, dois fantasmas seguravam uma outra que se debatia. Ela era loira e vestia branco.
De costas, a fantasma se virou e fitou a loira.
- Então...Loira do Banheiro — disse a fantasma; rude. — Quer dizer que você acha divertido assustar nos banheiros?
A Loira do Banheiro riu e não disse nada.
- Está rindo de quê? Sabe as consequências que pode ter por causa disso? — a fantasma continuou. — Eu posso prendê-la em um objeto inanimado, sabia?
A Loira do Banheiro riu outra vez.
- Um objeto inanimado...tipo o seu cérebro?
Me segurei para não rir.
- Esse seu desacato pode lhe render em algo pior! — a fantasma se enfureceu. — Eu queria ser boazinha...mas você vai para a prisão! Junto com Freddy Krueguer!
- Você não pode me prender! — disse a Loira.
- Posso sim! — completou a outra. — Vai ser a mais nova carcereira!
- Não! — a Loira gritou enquanto era levada.
Foi quando ela me notou, e sorriu. Um sorriso perigoso.
- Você. — ela apontou pra mim. — A garota problema dos fantasmas.
- Eu...quero falar com a Vingativa. — falei antes de mais nada.
A fantasma riu.
- Você não pode exigir isso. Não estando morta.
Engoli em seco.
- Eu...não estou morta.
Ela fez muxoxo e caminhou devagar até mim.
- O que quer com a Vingativa?
- Fazer uma coisa que ninguém nunca pensou — disse, e ela levantou uma sobrancelha; esperando. — Vou falar com ela. — acrescentei.
- E por que acha isso? — ela continuou.
- Por que é a única maneira. — justifiquei. — Por favor, deixe-me falar com ela.
Sua expressão mudou.
- Garota, você sabe quem eu sou? Sou Helena, a chefe da Guarda Espectral! Estou à frente disso há mais de 200 anos! Como ousa me dar uma ordem?
- Eu...balbuciei, mas ela interrompeu.
- Há nos venho tentando impedir que fantasmas possam conviver com os vivos — ela se gabou. — Aí, me aparece você. — ela me olhou. — Uma viva que acha que pode se meter com fantasmas!
- Natasha me pediu ajuda! — argumentei.
- Fantasmas gostam de pregar peças — ela suspirou, chateada. — Natasha infringiu as regras e será devidamente punida, assim como a Vingativa. E além disso, ainda aparecem aqueles tais caça-fantasmas!
Eu teria que me concentrar em negociar com ela.
- Podemos nos ajudar — falei, sorridente. — Se me deixar falar com a Vingativa e fazer com que ela deixe o mundo dos vivos, você me leva de volta.
Ela franziu o cenho.
- Ainda não aceitou que está morta?
- Eu sei que não.
Ela sorriu um pouco.
- É um negócio tentador — ela estalou os dedos e uma imagem apareceu. Logo vi vovó e os outros no quarto, e meu corpo jazia sobre a cama. — Mas vai ter que correr.
- Me diga o que tenho que fazer.
Ela estalou os dedos outra vez, e apareceu um mapa-múndi, onde várias luzes vermelhas piscavam simultaneamente.
- Está vendo? — ela apontou. — As luzes que estão piscando indicam onde, neste exato momento, um fantasma está interagindo com uma pessoa viva. — enfatizou ela. — Vocês têm medo de nós, mas somos nós que devemos ter medo. Os vivos são perigosos. E advinhe porquê.
- Por que é divertido? — fui sarcástica.
- Quando Natasha conversou com você a primeira vez, ela saiu espalhando por aí — contou. — A partir daí, todos os fantasmas saíram por aí achando que podiam conviver com os vivos. — disse, chateada. — Até fantasmas que passaram anos sem contato com os vivos aderiram. E isso é o resultado. — ela apontou o mapa.
- E por que não? — continuei. — O que tem de errado?
- Vocês, vivos, têm medo de nós — ela falou com um pouco de vergonha. — Acham que só sabemos assombrar vocês; como nos filmes de terror.
- Mas não é verdade — emendei, ansiosa. — Me deixe provar isso.
Ela fez muxoxo, ponderando. Por fim, estendeu a mão e disse:
- Venha comigo.
Voltamos à fazenda. Foi estranho estar lá como espírito e observar tudo.
- Posso ir? — sussurrei.
- Não precisa sussurrar — disse ela. — Ninguém escuta você.
Suspirei. Era tentador aparecer -, mas não. Seria melhor assim.
A casa estava silenciosa. Fui direto para o quarto onde estavam todos reunidos. O rosto de Steve estava vermelho de chorar. Vovó segurava um lenço, e era amparada por Cândida. Senti um peso no coração. Meu corpo estava na posição de morto; as mãos entrelaçadas e os olhos fechados.
- O que vamos fazer agora? — murmurou Claire, fungando. — O que vamos dizer ao pai dela?
- Ele está chegando. — disse Sara, ao lado de Steve.
- Temos que dar um jeito — falou John, não menos abalado.
Enquanto eles discutiam, me aproximei de Steve e cuidadosamente pus a mão em seu ombro. Ele pareceu ter sentido meu toque.
Estou aqui! Logo estarei de volta!, eu queria dizer.
Para minha surpresa, ele levantou a cabeça. Em seguida, olhou para a minha direção, como se me visse; e levantou de repente.
- Ela está aqui! — falou.
- Quem?
- Valerie! — ele andou pelo quarto, me procurando. — Ela...não foi embora!
- O que está dizendo, querido? — vovó disse. — Valerie...está aqui agora?
Eu tinha pouco tempo. Teria que por meu plano em prática.
Cheguei mais perto de Steve outra vez. Como não havia me manifestado, ele desabou na cadeira. Me ajoelhei ao lado dele e segurei em seu ombro.
- Atraiam a Vingativa. — falei perto dele. — Façam com que ela se encontre comigo.
Como se fosse por mágica, ele pareceu ter escutado outra vez.
- Já chega. — Helena me puxou pelo braço.
- Mas por quê? — indaguei.
- Não podemos interferir na vida dos vivos — justificou ela. — Muito menos dizer o que fazer.
- E o que vai acontecer agora?
- Sorte e destino — respondeu. — Se você falhar, vai estar condenada a seguir em frente. Se conseguir, vai poder voltar à vida. — ela sorriu. — E com o título da única viva que já entrou no Campo Espectral.
...#...
Passaram-se minutos; mas que foram horas pra mim. O tempo parecia se espremer.
A Vingativa não parecia disposta a colaborar. Havia me esquecido de alguma coisa. Algo essencial para o desfecho.
Steve sentou na cama ao meu lado e segurou minha mão.
- Por favor, eu...queria ficar sozinho com ela. — ele pediu de repente. — Por favor.
Todos assentiram, em silêncio. Logo só restou Steve e meu corpo sem vida no quarto.
- Sempre tive esperanças de que pudéssemos dar certo. — desabafou ele, deslizando os dedos pelo meu cabelo. — Aí aconteceu tudo isso...mas eu sei que vai voltar — enfatizou ele. — Você vai dar um jeito; você sempre dá.
Minha vontade era de aparecer pra ele e confortá-lo. Eu não aguentava mais.
Então o ambiente no quarto mudou. A aura ficou mais escura e estranha.
Não era possível. A Vingativa.
Agora, a imagem dela era diferente pra mim. Eu era espírito como ela. Podia enxergá-la do mesmo modo.
Ela olhava Steve velar o meu corpo com compaixão. Então eu me dei conta de sua sina; o que a guiava em sua missão pós-vida e vingança eterna.
O amor verdadeiro.
Notas finais
Não percam o último capítulo!
Bye
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